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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, em conjunto com o ex-presidente Lula, após receberem a notícia do falecimento do ex-vice-presidente José Alencar - Coimbra/Portugal

por Portal do Planalto publicado 28/06/2011 18h04, última modificação 07/07/2014 12h20
Durante viagem a Coimbra, em Portugal, ao receber a notícia do falecimento do ex-vice-presidente José Alencar a presidenta Dilma concedeu entrevista coletiva, juntamente com o ex-presidente Lula

Coimbra-Portugal, 29 de março de 2011


Presidenta: Queria falar com vocês que nós estamos num momento de muito sentimento. Considerávamos que o Zé Alencar era uma das pessoas que foi uma grande honra ter convivido com ele, é daquela pessoa que vai deixar indelével uma marca na vida de cada um de nós. E, além disso, foi Presidente da República, junto com o presidente Lula, por mais de oito meses. Por isso nós oferecemos à família o Palácio do Planalto para ele ser velado, na condição de Chefe de Estado, que ele também foi, de Presidente inesquecível do nosso país. A gente, todos nós, estamos muito emocionados, e era isso que eu queria dizer para vocês.

Jornalista: A senhora volta hoje, Presidente?

Presidenta: Eu e o Presidente, assim, logo depois que o Presidente receber, amanhã, o prêmio, nós voltaremos para o Brasil.

Jornalista: Amanhã?

Presidenta: É, de manhã cedo. Isso vai ser mais ou menos o que equivale às 8 horas da manhã de lá, não é? Nós estamos calculando que a gente consiga ir embora ao meio-dia aqui. Nós vamos chegar lá no finalzinho da tarde.

Jornalista: Presidente Lula, uma palavra.

Ex-presidente Lula: Olhe, eu penso que nós não temos muito o que falar, porque o momento é de muita dor e muito sofrimento. Ou seja, vocês que acompanharam o mandato nosso, da Dilma como ministra, do Zé Alencar como vice, vocês sabem que a relação nossa era mais do que uma relação de um vice e um presidente, era uma relação de irmãos e companheiros. Eu tenho falado com ele praticamente toda semana, tenho visitado ele, e o otimismo dele era uma coisa que causava na gente até uma inveja de ver a força que ele tinha. Eu, antes de vir para cá, liguei para ele do carro, eu e Marisa, e falei com ele; ele disse que estava bem, que estava em casa e que ele sabia que, do ponto de vista clínico, ele não tinha mais muita expectativa, mas como era um homem de fé, ele tinha esperança que a fé em Deus iria ajudá-lo.

Eu, um pouco antes... logo depois que eu cheguei aqui, eu liguei para o médico dele, e o médico disse que ele estava sedado, que ele estava com a pressão a 4 por cento e que, portanto, ele estava... tinha pouca chance. Bom, aí, eu acho que a presidenta Dilma agiu correto em perguntar e pedir ao Josué para que o corpo dele fosse velado no Palácio do Planalto, e acho que nos cabe agora reverenciar uma pessoa que foi mais do que um vice-presidente. Ele foi um homem de uma dimensão extraordinária. Eu, aos 65 anos de idade, conheço poucos seres humanos que têm a alma do Zé Alencar, a bondade do Zé Alencar, a lealdade do Zé Alencar.

Eu cheguei a dizer que eu não acreditava que existisse no mundo um presidente que tivesse um vice como eu tive o prazer de ter o José Alencar. Ele assumiu a Presidência acho que mais de 8 meses. Ele nunca, nunca, nunca teve uma vírgula de divergência comigo, nunca teve. Era como se fôssemos dois irmãos, pai e filho. A presidenta Dilma participava das reuniões da coordenação política, toda segunda-feira, o José Alencar participava, ou seja, a gente funcionava como se fôssemos uma orquestra. A gente brincava, a gente falava sério. Eu acho que o Brasil perde um homem de dimensão excepcional. É muito fácil a gente falar das pessoas depois que morrem porque todo mundo fica bom depois que morre, mas o José Alencar era bom em vida. Ele era algo em vida, e eu acho que o Brasil deve muito das coisas que nós estamos vivendo hoje a ele. A lealdade dele, a capacidade de trabalho dele. Eu, sobretudo, sou muito agradecido a ele, porque ele... todo mundo sabe que eu perdi muitas eleições no Brasil, todo mundo sabe que eu tinha 30%, 34%, 32%, 33% e eu precisava encontrar restante, e o restante eu encontrei no José Alencar. Quando eu ouvi o discurso dele, lá em Minas Gerais, comemorando os 50 anos de vida empresarial, que ele contou a vida dele, eu saí de lá e falei: Encontrei o meu vice, encontrei o meu vice. E ele viajou o Brasil inteiro. Tinha muita gente, mais à esquerda, dentro do meu partido que achava que não deveria chamar o José Alencar para ser vice, mas, cada vez que ele falava e contava a vida dele, o mais esquerdista ficava chorando de ver, porque ele era um homem de bem, um homem extraordinário. Eu estava contando para a presidenta Dilma aqui se ela lembrava da campanha dela, uma carreata que nós fizemos em Belo Horizonte. Ele não tinha mais força sequer para levantar a mão para fazer assim, de tão fragilizado que ele estava. Entretanto, ele subiu no carro, junto com a presidente Dilma, junto comigo...

Presidenta: Por quatro horas.

Ex-presidente Lula: ... e ficamos andando por Belo Horizonte por quatro horas. E ele dizia: “Eu tenho que fazer isso, porque eu quero elegê-la”. Então, eu penso que ele... foi um descanso para ele, acho que ele estava sofrendo há seis meses. Ele não se contentava de estar no hospital deitado o tempo inteiro. Eu... um tempo atrás, eu fui chamado para conversar com ele porque ele queria pedir a minha opinião, se ele deveria parar de tomar remédio, que não resolvia mais, e eu era favorável que ele parasse de tomar remédio, eu era favorável que ele vivesse a vida da forma mais prazerosa que ele quisesse viver, e ele também desejava assim.

De forma que morreu, o nosso querido José Alencar vai...

Presidenta: E nós vamos (incompreensível)

Ex-presidente Lula: Está bom.

Jornalista: Presidente, presidente Lula, essa dor que o senhor sente... Desculpa, Presidente. Essa dor que o senhor sente agora tira toda a alegria que o senhor teria amanhã ao receber o título?

Ex-presidente Lula: Não, porque eu vou dedicar a ele.

Presidenta: Nós vamos decretar sete dias de luto a partir de hoje.

Jornalista: Sete?

Jornalista: A família aceitou que o velório seja no...

Presidenta: Eu falei com o Josué, e ele aceitou, falei há pouco com ele.

Jornalista: E depois vai ser encaminhado para Minas Gerais?

Presidenta: É.

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: Ele vai ser sepultado em Minas Gerais, pelo que eu entendi.

Jornalista: E aí os senhores vão acompanhar também em Minas?

Presidenta: Certamente.

Jornalista: Quem transmitiu a notícia para a senhora, Presidente?

Presidenta: Quem transmitiu foi o médico, Raul Cutait.

Jornalista: Para o senhor também, Presidente?

Ex-presidente Lula: Também.

Presidenta: Foi ao Presidente, e ele me transmitiu.

Jornalista: Os senhores estavam juntos?

Ex-presidente Lula: Estávamos. É que eu tinha ligado para ele meia hora antes para saber, depois ligou o doutor Kalil, e falamos com o Josué, filho do José Alencar. Está bem, gente?

Presidenta: Obrigada.

Jornalista: Muito obrigado.

 

Ouça a íntegra da entrevista (08min19s) da presidenta Dilma.