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'Queremos construir com EUA relação baseada em igualdade e reciprocidade', diz Rebelo

Acordos de cooperação

Ciência e Tecnologia está entre os principais temas da viagem da presidenta Dilma aos Estados Unidos. Em entrevista, o ministro da Ciência e Tecnologia fala sobre possibilidades de novos acordos em áreas estratégicas
por Portal Planalto publicado: 28/06/2015 14h22 última modificação: 28/06/2015 14h22

Na próxima segunda-feira (29), a presidenta Dilma Rousseff realiza mais uma visita de trabalho do seu governo aos Estados Unidos da América (EUA). A área de Ciência, Tecnologia e Inovação será um dos principais assuntos em pauta na viagem que se estende até o dia 30. 

Em entrevista ao Portal Planalto, o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, falou sobre as expectativas do governo em relação a novos acordos de cooperação em áreas estratégicas, como nos setores de energias renováveis, biotecnologia, espacial e de segurança cibernética. "Queremos construir com os Estados Unidos relações baseadas na igualdade, na reciprocidade e na convivência em torno de ideais que beneficiem os dois países e a humanidade", destacou. 

Confira a entrevista na íntegra:

Qual a expectativa do governo federal em relação à viagem no que diz respeito à Ciência, Tecnologia e Inovação?

Ministro Aldo Rebelo: Energias renováveis é um tema de interesse comum. Ele suscita tanto da nossa parte, quanto da parte dos Estados Unidos, uma disposição muito grande. É um desafio de todos alcançar uma meta de substituir a produção de energia por meios que causem menor dano à natureza. Temos biotecnologia e fármacos, uma área ligada a preocupações com a saúde, com as chamadas doenças negligenciadas ou esquecidas e com as ameaças de pandemias. Há uma cooperação inicial e queremos ampliar os horizontes dessa cooperação.

Na área espacial, há interesse também por parte da Nasa em ampliar a cooperação com o Brasil, desde a educação científica, com a visita de estudantes brasileiros aos laboratórios e equipamentos do órgão, até a possibilidade de acordos comerciais na área espacial. Há também uma possibilidade de acordo na área de segurança cibernética, de proteção de informações, públicas e privadas, de estado e até informações empresariais. Isso é de interesse comum e o Brasil pretende formar doutores e mestres nas melhores universidades norte-americanas, tendo como preocupação a segurança cibernética. Creio que são essas as áreas mais importantes nas quais Brasil e Estados Unidos podem celebrar novos acordos de cooperação ou ampliar e aprofundar os acordos já existentes.

É bom registrar que os Estados Unidos são o principal destino da nossa ciência, da nossa pesquisa...no caso do Ciência Sem Fronteira, os Estados Unidos são o principal destino de nossos alunos e de pesquisadores e cientistas brasileiros. Naturalmente, isso facilita o acordo de cooperação entre os dois países.

A comitiva irá visitar algumas universidades e centros de tecnologia como o Google e Facebook. O que vocês farão lá? Haverá também algum acordo na área de tecnologia da informação?

Na área de tecnologia de informação, temos como principal foco a questão da segurança cibernética. É isso que está no fundo do nosso objetivo e nós queremos visitar instituições que nos ofereçam perspectivas, cooperação ou novas experiências na área de tecnologia da informação, de tecnologia da comunicação e segurança cibernética.

Temos um acordo com o Google para a formação de pesquisadores. Eles têm um centro de pesquisa no Brasil e inclusive já contratam engenheiros e engenheiras para desenvolver pesquisa no Brasil – isso pode ser ampliado de acordo com a conveniência bilateral.

No primeiro semestre houve uma intensa agenda internacional. O Brasil recebeu autoridades da China, Coreia do Sul, Vietnã e Equador, além da presidenta ter feito visita de Estado ao México. O que esses encontros representaram para a área de Ciência, Tecnologia e Informação?

Representaram não apenas a confirmação da importância da agenda da pasta, como também a ampliação das expectativas de cooperação do Brasil. Dividimos a cooperação entre dois tipos: a primeira é formada por países que têm nível de desenvolvimento científico e tecnológico bastante avançado; a seguinte é composta por países que têm relativos atraso na área em relação ao Brasil.

Para esse grupo de países, nós temos projetos para apoiá-los e ajudá-los, sobretudo na América do Sul e nos países da comunidade de língua portuguesa. Entre os países chamados desenvolvidos, temos acordos importantes com os Estados Unidos, com a Rússia, com a China, com a França, com a Alemanha. Com a França, nós desenvolvemos satélites. Já com a Alemanha, nós desenvolvemos na área espacial microlançadores de satélites. Temos também com o Reino Unido.

Ou seja, o Brasil tem um amplo espectro de cooperação com os países mais desenvolvidos. É do nosso interesse ampliar e aprofundar essa cooperação. Com a Suécia, por exemplo, com a transferência de tecnologia aeronáutica na aquisição dos aviões Gripen. Temos também feito um esforço na América do Sul com Argentina, Paraguai, Chile e outros países, além daqueles da comunidade de língua portuguesa que, por razões óbvias, temos interesse em ampliar nossa cooperação.

Qual a importância do Brasil intensificar as relações com os Estados Unidos, principal potência hoje no desenvolvimento de Ciência e Tecnologia?

O Brasil tem laços muito antigos com os Estados Unidos. Nós não fomos chamados de novo mundo por acaso. Ou seja, esse continente chamado de novo continente foi visto pela primeira vez por um europeu e foi batizado de América: América do Norte, América Central e América do Sul. Temos a mesma trajetória na luta pela independência. No caso dos Estados Unidos, a independência da Inglaterra. No caso do Brasil, a independência de Portugal. Nos inspiramos no mesmo movimento libertário. Nós fomos destino de perseguidos políticos e religiosos quando a fome se abatia sobre a Europa. Os portos de Santos ou Rio de Janeiro, assim como Nova Iorque, Buenos Aires e Montevidéu, abriam-se para esse novo contingente aportando na América em busca de pão e paz.

O Brasil também se inspirou nos Estados Unidos para conquistar a República. O Marechal Floriano Peixoto, consolidador da República, contou com apoio diplomático e, em certa medida, até apoio militar, já que sua marinha foi armada nos Estados Unidos para enfrentar o cerco à República nascente no Brasil. Durante a Segunda Guerra, o presidente Roosevelt veio duas vezes ao Brasil para realizar um acordo de cooperação na luta contra o nazismo.

Os nossos soldados lutaram na Itália ombro a ombro com os soldados americanos e derramaram o sangue para defender a humanidade da ameaça do nazismo. Essa trajetória estabelece vínculos muito profundos e uma grande cumplicidade em torno de bandeiras que são universais: o anticolonialismo, a liberdade, o direito dos povos e a luta contra o nazismo. É natural e alguém há de perguntar: foi só isso? Não, houve momentos lamentáveis nessa relação, como em 1964, ano em que os Estados Unidos apoiaram o golpe antidemocrático no Brasil. 

Nós não queremos nos apoiar nos fatos negativos para construir as nossas relações. Queremos que elas sejam construídas a partir do que de positivo construímos, e não foi pouca coisa. Aquilo que consideramos erros e equívocos por parte de nossos parceiros não estabelece para nós uma referência, queremos apenas que não se repita. Queremos construir com os Estados Unidos relações baseadas na igualdade, na reciprocidade e na convivência em torno de ideais que beneficiem os dois países e a humanidade.

Fonte:
Portal Planalto