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SUS tem 'poderoso modelo de cuidados de saúde', dizem pesquisadores estrangeiros

Saúde

Para professores que viveram no Brasil e estudaram o sistema de saúde, Estratégia Saúde da Família melhorou 'dramaticamente e de forma mais equitativa' a atenção básica no país
por Portal Planalto publicado: 17/06/2015 15h28 última modificação: 17/06/2015 17h43
Divulgação Pesquisadores Matthew Harris (E), da Universidade de Nova York (NYU), e James Macinko (D), da Universidade da Califórnia (UCLA)

Pesquisadores Matthew Harris (E), da Universidade de Nova York (NYU), e James Macinko (D), da Universidade da Califórnia (UCLA)

Os pesquisadores James Macinko, da Universidade da Califórnia (UCLA), e Matthew Harris, da Universidade de Nova York (NYU) — ambas americanas —, publicaram neste mês de junho um artigo noThe New England Journal of Medicine, em que afirmam que o Brasil fez um rápido progresso na cobertura de saúde da população, por meio do Sistema Único de Saúde.

Em entrevista ao Portal Planalto, os estudiosos classificaram a Estratégia Saúde da Família (ESF) do SUS como um "poderoso modelo de provimento de cuidados de saúde". Segundo o professor Macinko, existem evidências reais que comprovam a eficácia da ESF na melhoria da saúde nacional.

O Brasil possui quase 40 mil equipes de Saúde da Família, cobrindo 60% da população. As equipes são formadas por profissionais como médico generalista ou especialista em saúde da família, enfermeiro, auxiliar ou técnico de enfermagem, e agentes comunitários de saúde que ficam nos 3.923 Núcleos de Apoio à Saúde da Família. 

"Muitos estudos, utilizando os mais sofisticados métodos analíticos disponíveis (e publicados em algumas das revistas científicas mais prestigiadas do mundo), têm demonstrado, por exemplo, que a expansão do ESF pode ser creditada como fator relevante para a redução da taxa de mortalidade infantil no Brasil, nos últimos 10 a 15 anos", afirma o Dr. Macinko.

"Outros estudos rigorosos demonstram que a ampliação do acesso à ESF reduziu as complicações de doenças crônicas, e evitaram a necessidade de hospitalizações. A expansão do programa tem sido relacionada a reduções de mortes por acidente vascular cerebral e ataque cardíaco, e também à uma melhor detecção e tratamento da tuberculose e doenças tropicais. As estimativas são de que as equipes da ESF custam em torno de US$ 50 por pessoa (aproximadamente R$150) por ano, por isso este é um feito notável para o investimento", ressalta o Dr. Harris.

Macinko, que é professor titular de políticas de saúde na UCLA, trabalhou com gestores de serviços de saúde em pequenas e grandes cidades brasileiras, e publicou 30 estudos sobre o sistema de saúde nacional. A sua área de especialização são os cuidados de saúde básicos, tendo trabalhado por mais de 20 anos em muitas partes do mundo, como a América Central e do Sul, Europa e Estados Unidos.

"Do meu ponto de vista, um pesquisador norte-americano, o SUS tem uma série de elementos que muitas pessoas podem não perceber, mas são bastante únicos. Estudos demonstram que o sistema tem ajudado a proteger os brasileiros de despesas de saúde catastróficas (alto custo de contas médicas), melhor do que a maioria dos países latino-americanos", ressalta ele. 

Segundo o especialista, nos EUA, contas médicas levam muitas famílias a ficar próximas ou abaixo da linha de pobreza, e são a principal causa de falência no país. "Até muito recentemente, muitos americanos tiveram que enfrentar a terrível decisão de não procurar cuidados de saúde para si ou para os seus filhos, porque eles simplesmente não têm dinheiro suficiente. E isso não é tão comum no Brasil", garante.

O investimento no Sistema Único de Saúde em Atenção Básica, responsável por resolver até 80% dos problemas de saúde, cresceu 106% em quatro anos, chegando a R$ 20 bilhões em 2014.

O professor Matthew Harris, que obteve seu doutorado em saúde pública pela Universidade de Oxford, tem 15 anos de experiência como médico de saúde pública, especializações em políticas de saúde de vários países (Brasil, Etiópia, Moçambique e Reino Unido), além de realizado consultorias para a Organização Mundial de Saúde (OMS).

"Trabalhei no município de Camaragibe (PE) como médico generalista no âmbito da Estratégia Saúde da Família, e fiz especialização em Medicina Familiar na Escola de Saúde Pública de Recife (PE). Então, sei em primeira mão as importantes contribuições que a ESF tem feito, bem como os muitos desafios que atualmente enfrenta", afirmou.

De acordo com o pesquisador, os agentes comunitários de saúde no Brasil são os olhos e ouvidos dos médicos e enfermeiros, e desenvolvem ligações extremamente fortes entre a comunidade e cuidados primários. "A atenção primária é, portanto, pró-ativa, não reativa como na maioria dos outros países. O acesso aos cuidados melhorou dramaticamente e de forma mais equitativa", afirma.

Segundo ele, nos EUA e Reino Unido, a atenção primária funciona como uma indústria. "Na ESF, os médicos têm responsabilidade pela saúde da população em sua área, e trabalham para identificar e agir sobre os determinantes da saúde precária. Esta é uma integração muita sofisticada entre cuidados primários e saúde pública", destaca.

Programa Saúde da Família

A cobertura da Estratégia Saúde da Família já chegou a 112,5 milhões de brasileiros. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/IBGE de 2008 (PNAD), o programa abrangia 96,5 milhões de pessoas. Isto significa que, nos últimos cinco anos, a iniciativa passou a atender mais 16 milhões de pessoas.

O Saúde da Família alcança, sobretudo, cidadãos de baixa escolaridade. Em nível regional, o Nordeste (64,7%)  e o Sul (56,2%) tem o maior número de domicílios cadastrados no programa.

Melhorias

Para o Dr. Harris, o SUS, como qualquer sistema de saúde no mundo, se esforça todos os dias para se adaptar às novas realidades e demandas. "Em nosso artigo, tentamos apontar que os avanços importantes do SUS são vistos no País como um todo, e se manifestaram ao longo de muitos anos. Muitos estudos têm mostrado que há uma grande variação na capacidade das equipes da ESF para fazer o seu trabalho. Em alguns lugares as coisas funcionam muito bem, enquanto em outros ainda há muito trabalho a ser feito. Claro, existem variações a nível local na entrega do sistema de saúde em todos os países, o Brasil não é incomum a neste aspecto", disse.

Segundo o Dr. Macinko, ainda é necessário mais investimento no SUS. "A falta de recursos  ainda é sentida por usuários dos serviços e também pelos médicos, enfermeiros e agentes comunitários de saúde que trabalham para prestar cuidados", pondera.

O que o Brasil pode ensinar

"Eu acho que existem muitas coisas que o Brasil pode ensinar ao mundo. Mas em particular, a lição-chave é que uma abordagem de cuidados de saúde primários baseada na comunidade, utilizando equipes multidisciplinares que envolvem a comunidade, pode ser extremamente eficaz. Mas esta abordagem (como a maioria dos investimentos sociais) requer tempo e um compromisso sustentável, para que ela entregue dividendos reais à população", conclui o Dr. Macinko. 

"Eu passei muito tempo trabalhando com agentes comunitários de saúde em muitos países diferentes. Para mim, o fato de que os agentes (no Brasil) são parte de uma equipe profissional real é o centro da abordagem da ESF. O fato de que eles vivem nos bairros onde trabalham, visitam as famílias das pessoas regularmente, e fazem checagens com eles sobre sua saúde e outras necessidades é uma parte extremamente única e muito valiosa do programa", afirma o Dr. Harris.

Segundo ele, no Reino Unido, o sistema de atenção primária é muito mais fragmentado. Já nos EUA, embora haja também o uso extensivo de agentes comunitários de saúde, eles não são implementados com um quadro dimensionado. "Os benefícios já realizados, e também os benefícios potenciais dos agentes comunitários de saúde no Brasil são enormes", salienta.
 Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que o SUS é referência em saúde para os brasileiros

Fonte:
Portal Planalto, com informações do Ministério da Saúde e Agência Brasil