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Entrevista coletiva concedida pelo presidente da República, Michel Temer, em Hangzhou, China

por Portal Planalto publicado 03/09/2016 17h50, última modificação 04/09/2016 08h42

 Hangzhou-China, 03 de setembro de 2016

 

Jornalista: Quais experiências da China na reforma e a abertura nos últimos anos que podem ajudar a reforma brasileira?

Presidente: Em primeiro lugar você sabe que há uma relação comercial e diplomática muito sólida entre o Estado Chinês e o Estado Brasileiro. E que vem se reforçando ao longo, penso eu, desses últimos 25 anos. E agora mais do que nunca. Eu devo dizer, que ontem ainda recebido pelo presidente Xi Jinping, nós nos recordamos que é a 5ª vez que nós nos encontramos. E isso tem reforçado muito as relações diplomáticas e, como eu disse, comerciais entre Brasil e China. A China é um dos maiores parceiros comerciais que nós temos e nós percebemos uma aproximação cada vez maior entre o Brasil e a China. Então, hoje, a China no Brasil é tida como país muito próximo, apesar da distância geográfica, como país muito próximo do nosso país.

Jornalista: O senhor presidente está aqui para participar da Cúpula do G20. Então, qual é a expectativa do Brasil sobre o evento?

Presidente: Olha, é muito positiva. Em primeiro lugar nós, Brasil, participarmos de um grupo de países muito significativos em um concerto mundial. Em segundo lugar, a temática que será utilizada, que é a inovação, as questões climáticas, são questões que também preocupam muito o nosso país, de modo que as nossas intervenções elas estarão exatamente seguindo está linha da inovação, da energia, das energias renováveis. Na questão climática, nós estamos também para assinar o Tratado de Paris. Soubemos que a China acabou de assinar, e vamos depositar esse tratado precisamente na reunião da ONU que se dará no dia 20. Então, a nossa expectativa em relação à reunião do G20 é muito positiva, e poderá trazer, penso, não só vantagens para todos os países integrantes, mas particularmente para o nosso país.

Jornalista:  No seu ponto de vista, quais são as influências e como é que  senhor julga o mecanismo de governança econômica por parte G20?

Presidente: Eu acho, mais uma vez eu repito, muito positiva. Eu acho que há uma integração, uma interação muito grande entre os países hoje do G20, basta dizer que no interior do G20 estão os BRICs, por exemplo, os países que se unem em torno desta organização. Acho que os resultados serão sempre muito positivos. Quanto mais eu vejo esses organismos internacionais, dialogando, isso tem uma significação, não só, de intensificação comercial, entre esses países, como também de, digamos, relevo para a paz mundial. Acho uma coisa importantíssima, porque as conclusões todas, elas levam em conta essa ideia da pacificação, que é uma ideia que o Brasil propaga e divulga muito, e que eu vejo que é também resultado dessas reuniões. E também, só para completar a pergunta, o desenvolvimento surge naturalmente da troca de ideias, por exemplo, como um dos temas será a inovação, hoje o Brasil tem uma grande preocupação com a inovação tecnológica, e é claro que estas relações com os países também avançam, muito avançados tecnologicamente servirão muito de exemplo para o nosso país. O intercâmbio que se faz depois entre as nossas diplomacias leva exatamente a consecução desses planos de inovação tecnológica.

Jornalista: Presidente, a minha segunda pergunta é: qual a sua avaliação da intervenção da China para aumentar essa representação dos países em desenvolvimento no G20?

Presidente: Olhe, eu acho que há outros países que também, evidentemente, querem fazer parte do G20. Nós todos, como você acabou de mencionar, somos na sua grande maioria, países em desenvolvimento, e mais uma vez esse encontro facilita o desenvolvimento recíproco de todos esses países. E, evidentemente,  eu aqui não sei bem se haverá essa espécie de apreciação, mas, evidentemente, países também, que agora estão em desenvolvimento, poderão  vir a ser admitidos na Cúpula do G20 nas próximas reuniões. Pelo menos essa será a posição do Brasil.

Jornalista: A minha segunda pergunta é sobre o  processo de muitas incertezas da recuperação da economia mundial. Na sua opinião, qual é o significado da economia chinesa para esse processo?  O governo está promovendo uma reforma no lado de oferta. Esta reforma tem algumas novas oportunidades para o Brasil, algumas ideias para aprender?

Presidente: Olha, o exemplo da China é o exemplo de confiança na sua própria economia. Sem embargo das dificuldades mundiais, o Brasil enfrenta hoje o processo de recuperação econômica, mas o exemplo chinês é sempre muito útil para o Brasil. E acredito que será útil para os demais países. A China, com seu PIB bastante elevado em função dos outros países, é sempre um modelo, digamos, a ser seguindo pelos países. Por isso, eu acho que a Cúpula do G20 no fundo promove essa integração extraordinária e a possibilidade de levarmos o exemplo da China para os demais países.

Jornalista: Minha segunda pergunta é que durante o encontro de ontem com o presidente Xi, ele usou uma expressão “velhos amigos” para descrever o vosso relacionamento e gostaríamos de saber as suas impressões sobre o presidente Xi e mais sobre sua amizade com a China.

Presidente: Eu acho que ele quis dar dois significados: quando disse “velhos amigos” ele quis referir-se, primeiro, à relação formal entre o Brasil e a China. Mas, muito delicadamente também, ele referiu-se aos vários encontros que tivemos. Até relacionei, logo depois, os cinco encontros que nós já tivemos e sempre com a delicadeza extraordinária do presidente Xi Jinping. Então, eu acho que o objetivo inaugural e inicial dele foi revelar a velha amizade entre o Brasil e a China e também revelar que quer incrementar essas relações. Eu até aproveitei para solicitar a ele que a abertura do mercado  chinês para setores agrícolas brasileiros fosse, digamos assim, agilizado. Eu acho que a China já tem feito isto com muita propriedade, com muita adequação, mas há ainda pleitos brasileiros, especialmente no tocante a frigoríficos, fornecedores de carnes, que estão ainda sendo examinadas pelo governo chinês. Pedimos agilização nessas matérias, como também em matéria de valor agregado, também nos interessa muito isso, nós insistimos naquilo que a China, de alguma maneira já vem fazendo, que é na compra de aeronaves da Embraer. Ontem mesmo, em Xangai, nós assinamos vários acordos para a compra de várias aeronaves, mas há outros desejos da China no tocante a esta relação  com o Brasil via compra de aeronaves. Eu insisti também neste ponto também na questão da soja. A questão da soja transgênica que nós também estamos cada vez mais interessados.

Jornalista: Senhor presidente, a minha terceira pergunta: a China propõe construir uma economia mundial integrada. Para o senhor, o senhor acha que a cooperação e a relação entre China e o Brasil será um bom exemplo para este tema para todo o mundo?

Presidente: Eu acho que sim. Porque veja: nós estamos falando aqui da boa relação da China com o Brasil, e isto pode servir, penso eu, de exemplo para os demais países. Acho que, evidentemente, uma economia mundial uniforme não é fácil. Mas eu acho que ela ajuda muito a pacificação das relações internacionais. Se for possível, se nós todos pudéssemos, no plano internacional, fazer a mesma integração que nós temos, Brasil-China, acho que seria útil para o plano internacional.

Jornalista: Presidente, o senhor foi e tinha sido durante muito tempo o presidente da COSBAN, e agora como o presidente de Estado do Brasil queríamos ouvir os seus comentários sobre as relações bilaterais entre os dois países, comerciais e econômicas, e seu comentário sobre o futuro desenvolvimento dessas.

Presidente: Olha, a COSBAN foi um mecanismo muito bem pensado incrementar, para sedimentar as relações Brasil-China. Nós mesmos fizemos, enquanto era vice-presidente, chegamos a fazer quatro reuniões da COSBAN. Em todas elas houve avanço. Não uma reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível que não houvesse um avanço nas relações comerciais do Brasil e da China. Ainda ontem, a sua excelência o presidente Xi Jinping, aludia novamente a COSBAN e até tomou-me como alguém que ainda vai comparecer às reuniões da COSBAN. Eu não designei, ainda, ninguém para esta substituição, mas não é improvável que na próxima COSBAN eu ainda me faça presente para dar sequência ao sucesso das comissões que se reuniram anteriormente.

Jornalista: Queremos ouvir os seus comentários sobre as relações, o futuro das cooperações econômicas e comerciais entre os dois países.

Presidente: Eu acho que elas serão intensificadas, não tenho a menor dúvida disso. Elas seguem num ritmo de muito progresso. Então, a intensificação será consequência dessas várias reuniões que nós temos feito. Inicialmente pela própria COSBAN, mas também pelas relações que o presidente da China, os ministros da China têm tido com o Brasil. Não foram poucas as vezes que as autoridades chinesas foram visitar o Brasil, e de igual maneira nós visitamos a China. Então, acho que essas relações estão solidificadas e podem aumentar cada vez mais.

Jornalista: O que o senhor vê no futuro  do grupo BRICS?

Presidente: Eu vejo confiança. Veja que nós até, resolvemos num dado momento criar um banco de fomento, de desenvolvimento. Esta matéria acho que será objeto de avaliações, também, na nova reunião dos BRICs que se dará agora em outubro. Aliás, nós temos uma espécie de uma pré-reunião amanhã, amanha de manhã, mas teremos a definitiva no mês de outubro. Eu acho que tem dado resultado, não há um momento sequer que eu veja qualquer, digamos assim, espécie de desmerecimento do BRICS, que na verdade não é uma organização juridicamente estabelecida, mas é uma organização espontaneamente estabelecida, e que tem se fortalecido cada vez mais.

 Jornalista: Senhor presidente, minha última pergunta: eu sei que o senhor já é um amigo íntimo da China, e como você já falou, você já visitou várias vezes a China. Então, qual é o seu sentimento desta viagem?

Presidente: De alegria. Exata e precisamente pela... alegria cívica, especialmente pela recepção que eu tenho tido aqui na China. Veja que ontem o presidente da República deu-me um espaço muito largo para que pudéssemos dialogar. E não houve, digamos assim, uma frase que não fosse uma frase de incremento desta relação China-Brasil, quando eu sair daqui, levarei mais uma vez a melhor impressão do relacionamento entre os nossos países.

Jornalista: Agora com a realização da China, da Cúpula do G20, na sua opinião, quais aspectos isso vai promover a transformação e a reforma do Bloco do G20.

Presidente: Olha, eu vou aguardar naturalmente a reunião que começa amanhã. Eu não saberia, neste momento, dizer quais as consequências para a reforma do G20. Vamos discutir isso durante a reunião e só depois eu poderei fazer uma avaliação.

Jornalista: O que o senhor vai fazer para fazer o Brasil sair da crise?

Presidente: Olha, a primeira coisa que eu farei é restabelecer a confiança, que naturalmente deriva de algo que nós temos pregado muito. Em primeiro lugar, a estabilidade política e a segurança jurídica. Não há nada mais importante para aqueles que querem investir no país, sejam nacionais ou estrangeiros, que não a segurança dos contratos, portanto a segurança jurídica. De outro lado, como nós passamos, eu devo registrar, um brevíssimo período, três meses mais ou menos, de conflitos políticos, não é, lamentavelmente, em face do impedimento da senhora presidente da República, eu tenho pregado muito a pacificação entre os brasileiros, isto é uma coisa importante. É o que eu estou fazendo a partir do momento... não só agora quando eu assumi definitivamente, mas mesmo durante o interinato eu pregava exatamente essas ideias. E o restabelecimento da confiança gera, digamos assim, investimentos. Nós temos um grupo muito grande de desempregados e o emprego você só retoma se você incentivar a industrialização, se você incentivar os serviços, se você incentivar o agronegócio. E tudo isso será incentivado pela retomada da confiança.

 

Ouça a íntegra da entrevista (16min34s)  concedida pelo presidente Michel Temer

 

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