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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao programa Mais Você, da apresentadora Ana Maria Braga

por Portal do Planalto publicado 01/03/2011 19h42, última modificação 04/07/2014 11h34
Íntegra da entrevista concedida pela presidenta Dilma Rousseff no programa Mais Você, da apresentadora Ana Maria Braga

Rio de Janeiro-RJ, 1º de março de 2011


Louro José: Chegou, tá ali na frente, já!

 

Ana Maria Braga: Ah, meu Deus! Gente do céu, não! Olha aqui, a senhora foi mais rápida que eu!

 

Presidenta: Nossa, como ela está linda!

 

Ana Maria Braga: Saudade.

 

Presidenta: Muito bom te ver.

 

Ana Maria Braga: Muito bem-vinda, viu, muito bem-vinda. Fez boa viagem?

 

Presidenta: Fiz ótima viagem.

 

Ana Maria Braga: Fez? Bem-vinda à nossa casa. Eu estava brincando com os meninos aí, agora, dizendo que a senhora tem uma rampa lá, maravilhosa...

 

Presidenta: Mas eu subi uma escada linda aqui...

 

Ana Maria Braga: Pois é, e eu quero que a senhora seja muito bem-vinda aqui, neste início de Semana da Mulher.

 

Presidenta: E achei muito bonita também a sua lagoinha.

 

Ana Maria Braga: Pois é, é um laguinho, olha, que a gente tem.

 

Presidenta: Um laguinho lindo.

 

Ana Maria Braga: Eu queria te mostrar até a minha casa aqui, olha, entra aqui. Essa é... a gente faz o programa aqui...

 

Presidenta: Ai, que bonita essa árvore aí.

 

Ana Maria Braga: A gente manteve, porque aqui era o Sítio do Pica-pau Amarelo.

 

Presidenta: Ah, era o Sítio do Pica-pau Amarelo?

 

Ana Maria Braga: Era a casa do Sítio...

 

Louro José: Agora é o Sítio do Louro Verde.

 

Ana Maria Braga: Aquele é o Louro José.

 

Presidenta: Tudo bom, Louro?

 

Louro José: Presidente, quanta honra em recebê-la aqui em nossa casa.

 

Presidenta: A honra é minha.

 

Ana Maria Braga: E aí nós mantivemos a árvore, e aí teve todo um projeto de engenharia para mantê-la aqui...

 

Presidenta: Muito bonitas essas flores.

 

Ana Maria Braga: E aqui, esse estúdio tem uma característica diferente de todos os outros conhecidos, porque...

 

Presidenta: Mas é uma delícia este estúdio.

 

Ana Maria Braga: ...como a gente tem sol – por favor, Presidente – como a gente tem sol vindo de fora, a gente tem uma técnica constante de luz e sombra, porque a vida é composta de luz e sombra. E aí, as câmeras têm sempre que se ajustar, dependendo do dia que a gente tem...

 

Presidenta: Mas quando está muito sol, aqui deve ser muito bonito, não é?

 

Ana Maria Braga: É muito bonito, muito bonito.

 

Presidenta: Mas já é bonito sem sol...

 

Ana Maria Braga: Venha cá, antes de a gente se sentar para tomar um café, se a senhora me permitir...

 

Presidenta: E aqui é a sua cozinha?

 

Ana Maria Braga: Essa aqui é a minha cozinha. Eu, inclusive, vou convidá-la mais tarde para se... passear na minha cozinha, que eu soube que a senhora sabe fazer um omelete maravilhoso.

 

Presidenta: Eu faço mal, viu, Ana. Eu faço mal.

 

Ana Maria Braga: Eu estava até me perguntando se a senhora tem tempo, não é, de poder...

 

Presidenta: Mas um dia eu volto e faço uma sopa, para ti, de beterraba.

 

Ana Maria Braga: Eu queria te mostrar um cantinho aqui, olha, venha cá.

 

Presidenta: Nossa, que lindo isso aqui!

 

Ana Maria Braga: Por favor, Presidente. Aqui, esse cantinho, é isso que eu acho que é importante aqui, não é?

 

Presidenta: Nossa, que beleza!

 

Ana Maria Braga: ... a preservação.

 

Presidenta: Nossa, que lindo!

 

Ana Maria Braga: Olha que lugar mais bonito, olha!

 

Presidenta: Completamente preservado não é?

 

Ana Maria Braga: É, aqui, essa região...

 

Presidenta: E a ponte faz parte da paisagem.

 

Ana Maria Braga: É, é desde a época do Sítio que tem essa ponte. E aqui, quando a gente está em época de águas, assim, que chove...

 

Presidenta: Aí desce uma água...

 

Ana Maria Braga: Aí vem, tem uma nascente lá em cima, e essa aguinha, nosso lago ali, e é fácil... lugares mais...

 

Presidenta: E aquela rodinha, roda?

 

Ana Maria Braga: Roda. A água desce, não é? Porque aí a água... é um volume de água maior... até nesse verão é estranho porque a gente não tem tido muita chuva. E de vez em quando aqui vem bicho-preguiça, vem...

 

Presidenta: Tem preguiça é?

 

Ana Maria Braga: Temos preguiça, tem macaquinho, aquele saguizinho...

 

Presidenta: Parece um macaquinho.

 

Ana Maria Braga: Então é uma casa de verdade mesmo.

 

Presidenta: Mas é muito bonito.

 

Ana Maria Braga: E tudo preservado, como tudo em volta aqui nesses...

 

Presidenta: Muito bonito.

 

Ana Maria Braga: São 4 milhões de metros.

 

Presidenta: Nada como a natureza, não é? Isso aqui fica claro. Olha a beleza disso.

 

Ana Maria Braga: Lá em Brasília a senhora tem também bastante árvores lá. Não é?

 

Presidenta: Tem.

 

Ana Maria Braga: Eu vejo a senhora andando de manhã.

 

Presidenta: Isso aqui... aqui é Mata Atlântica...

 

Ana Maria Braga: Aqui é Mata Atlântica. É mais rico...

 

Presidenta: Lá é cerrado. A gente planta, planta, mas...

 

Ana Maria Braga: ... é mais seco.

 

Presidenta: Lá é cerrado, é mais seco.

 

Ana Maria Braga: A senhora se acostumou bem em Brasília? Na casa nova?

 

Presidenta: Olha... na casa nova, eu tenho me esforçado para acostumar porque não é muito aconchegante um palácio, não é?

 

Ana Maria Braga: É. É uma coisa assim... deve ser... é grande o Palácio...

 

Presidenta: Mas ele é muito bonito. Eu acho que o Niemeyer fez uma coisa muito importante. Para um país jovem, se comparado com os países da Europa...

 

Ana Maria Braga: Sem dúvida nenhuma.

 

Presidenta: ... nós temos um Palácio moderno. Não temos aquele palácio de...

 

Ana Maria Braga: Tradicional...

 

Presidenta: ...de rei, rainha e princesa. Nós temos um palácio democrático, republicano. Então, ele é muito bonito, porque ele é todo vazado, também, ele usa muito a luz do sol.

 

Ana Maria Braga: E a senhora consegue ter tempo assim de... não só trabalhar no seu gabinete e tudo, mas de olhar como é o Palácio hoje, a decoração. A senhora já conhecia bem, mas vai mudar alguma coisa?

 

Presidenta: Não tem muito tempo não Ana Maria, mas, em todo caso, eu me esforço para olhar porque ele é muito bonito.

 

Ana Maria Braga: A senhora vai mudar alguma coisa na decoração do Palácio?

 

Presidenta: Não, não, eu só vou aumentar.

 

Ana Maria Braga: Aumentar?

 

Presidenta: Eu vou te falar o quê. Oh, muito obrigada, um cafezinho é uma coisa que a gente nunca...

 

Ana Maria Braga: É, fez uma viagem... a senhora chegou agora, não é? De Brasília.

 

Presidenta: Agorinha.

 

Ana Maria Braga: Eu vi a senhora descendo de helicóptero.

 

Presidenta: Vim direto para cá.

 

Ana Maria Braga: Muito obrigada, viu, pela visita. É uma honra grande mesmo, tanto para mim...

 

Presidenta: Para mim também.

 

Ana Maria Braga: ... minha produção, a Rede Globo, a família Marinho.

 

Presidenta: Eu tenho em relação a você só excelentes sentimentos.

 

Ana Maria Braga: Muito obrigada.

 

Presidenta: Porque você foi muito solidária comigo, pessoa. E acho que é uma demonstração que a gente, que passou por um processo de doença, e superamos a doença, temos sempre de fazer com os outros. Eu aprendi com você, isso. Então...

 

Ana Maria Braga: Imagine!

 

Presidenta: Aprendi, uai!

 

Ana Maria Braga: Imagine!

 

Presidenta: Porque você foi solidária ali na hora que, não é, a gente está enfrentando o desafio

...

Ana Maria Braga: Mais fraca.

 

Presidenta: ...então, uma pessoa, olha, te ligar, igual você me ligou e me disse: “Isso passa, a gente enfrenta, isso passa”. Eu sempre fiz isso com as outras pessoas, porque eu aprendi contigo.

 

Ana Maria Braga: Ai, obrigada. Imagine! Obrigada. Eu fico muito emocionada.

 

Presidenta: Essa é uma... eu acho essa uma...

 

Ana Maria Braga: Eu fico muito emocionada. Fico mesmo, de verdade.

 

Presidenta: ...uma coisa muito boa que você fez.

 

Ana Maria Braga: Não! Eu acho que quando a gente se torna referência de alguma coisa e eu acho que a briga pelo câncer é uma referência na sua vida hoje, a gente sai diferente dessa...

 

Presidenta: Sai, sim.

 

Ana Maria Braga: Não sai, Presidente?

 

Presidenta: Sai mais forte, porque você percebe que, no fim, o que importa é a vida. E aí, ao você lutar pela vida, você valoriza ela. Agora, a solidariedade é um gesto fundamental...

 

Ana Maria Braga: Não, mas (incompreensível)

 

Presidenta: ... porque é a experiência humana transmitida de forma carinhosa para outra pessoa, que você diz para a pessoa: “Olha, eu consigo, eu sou capaz, eu vou enfrentar”, e isso eu acho que faz toda a diferença.

 

Ana Maria Braga: Mas naquela época, lá atrás, eu estava falando com a mulher, não é? Eu não estava falando...

 

Presidenta: Não, eu nem era Presidenta.

 

Ana Maria Braga: Não, não, não é, mas eu falava com a mulher.

 

Presidenta: Com a mulher.

 

Ana Maria Braga: Olha, (incompreensível)

 

Presidenta: Mas é essa a solidariedade que importa. Essa, com a mulher.

 

Ana Maria Braga: É. E, por sinal, o seu cabelo ficou lindo, agora.

 

Presidenta: Você lembra que você me disse: “Vai crescer, vai crescer”.

 

Ana Maria Braga: Pois é. Eu queria, assim, começar, eu queria, para que a senhora possa tomar um café, eu gostaria de ...

 

Presidenta: Eu já vou tomar o meu golinho.

 

Ana Maria Braga: ... mostrar um pouquinho da história dessa mulher, se você me permite, se a senhora me permite, um pouquinho da história da presidente Dilma. A gente foi atrás, um pouquinho, das suas referências, lá na infância. Hoje a nação a admira como a mulher que é, não é, mas a gente foi buscar quem é essa mulher forte que tem tanta referência, faz diferença na vida das mulheres do país hoje. Roda para mim o VT.

 

VT com a história da Presidenta

 

Ana Maria Braga: Criança sabe das coisas, não é Presidente?

 

Presidenta: São muito engraçadinhos, não é? Eles me chamaram pelo muro e aí eu falei: Eu posso ir aí? Eles falaram: Pode! E fizeram um escarcéu, lá.

 

Ana Maria Braga: Como é que é agora para a senhora, quer dizer, essa mudança, o jeito das pessoas olharem a mesma mulher.

 

Presidenta: Sabe o que eu acho, eu acho que o Brasil é um país especial. No Brasil você não tem uma relação com as pessoas de submissão ou de se achar menos que as pessoas. Então, o que eu sinto do povo brasileiro, nas pessoas que se aproximam de mim? Uma relação de igualdade, não é? Eles me tratam intimamente, conversam comigo como conversavam antes e falam coisas muito importantes, porque falam com sinceridade, falam sem querer te agradar. Então, isso é que eu acho a coisa melhor que me aconteceu na campanha, mas ainda é essa absoluta familiaridade que o povo tem com a gente. E reclamam, fazem sugestões, elogiam, contam histórias pessoais, porque de uma certa forma, você tem um papel de... você é uma espécie, uma mistura de parente, conselheiro, amigo, mas de qualquer jeito eu acho que é um país republicano em que a relação de igualdade sempre está presente. Não é uma relação de desigualdade.

 

Ana Maria Braga: Algumas pessoas até já devem ter dito para a senhora que a senhora é vista assim como durona, eu acho que pela sua história de vida, de trabalho, a senhora sempre foi muito estudiosa, doutorada, mestrada, trilhou uma carreira muito séria na área de Economia, gostando de matemática, de estatística e que a vida, na verdade, a tratou de uma forma que a fez ser quem é. Como é que senhora vê agora as pessoas dizendo: Não, mas ela não é assim, eu posso dar meu testemunho e dizer: a Dilma é muito amiga, ela é muito agradável, ela é muito sorridente, conhecendo ela mais de perto é que você percebe a figura humana que é e como é. Então essa coisa de durona eu nunca consegui enxergar, eventualmente, por vê-la de um outro jeito.

Mas, como é que a senhora está lidando com isso, de dizer, não, ela é durona, não é? Como é que a senhora lida?

 

Presidenta: Olha Ana Maria, eu acho, primeiro assim: eu sempre gostei, além disso tudo, eu gostei de música, de música popular brasileira, de cinema, de sentar em um barzinho e conversar com as pessoas, não é? Como todo mundo...

 

Ana Maria Braga: ... uma pessoa normal.

 

Presidenta: É, uma pessoa normal. Agora, o que eu acho que acontece, Ana Maria? Você já viu algum, algum homem que chega à direção do país ser chamado de duro? Entre todos os últimos, vamos dizer, vinte Presidentes da República. Não. Mas é interessante porque eles são homens. É esperada da mulher uma fragilidade, pelo menos assim é uma imagem que se tem, que a mulher é frágil. A mulher, até fisicamente, pode ser menos forte do que o homem, mais frágil. Mas não necessariamente ela é menos forte do que o homem, dentro dela. Então, eu sempre brinco assim: eu sou uma mulher forte cercada por homens meigos. Todos os homens são meigos. A única que não é meiga sou eu. Eu tenho impressão que isso decorre do fato de que quando a mulher assume alguma posição de mando, de autoridade, ela fica mais... ela é vista como estando um pouco fora do seu papel. Mas isso, eu acho que era até agora, até recentemente. Acho que dificilmente, daqui para frente, e eu acho que talvez seja a coisa mais importante que tem no fato de eu ser Presidenta, é que a partir de agora, as meninas todas podem, primeiro, querer ser presidenta; e segundo, vai ser, vai ser visto como uma coisa normal e natural uma mulher assumir a liderança e um posto de... o posto de maior autoridade política no país. Então...

 

Ana Maria Braga: É a quebra de um paradigma.

 

Presidenta: Eu acho que é a quebra de um paradigma. Você sintetizou bem. É isso.

 

Ana Maria Braga: É a quebra de um paradigma.

 

Presidenta: Quando você quebra um paradigma a primeira reação é de estranheza. Depois as pessoas acostumam.

 

Ana Maria Braga: Pois é, aí a gente tomou a liberdade de continuar conversando com o Carlos, seu ex-marido, e ele falou uma coisa muito, assim, gostosa e bonita, a respeito da sua filha. Enfim, eu queria muito agradecer até ao senhor Carlos de ter nos atendido, não é? O que ele acha de você e da sua filha. Da filha de vocês. Roda para mim.

 

VT com depoimento


Ana Maria Braga: A sua filha também é muito discreta, não é? A gente só a viu na posse, naquele dia em que ela foi de carro com a senhora até o Palácio. E aí eu olho a foto dela pequenininha...

 

Louro José: Bebezinho.

 

Ana Maria Braga: E agora, quando a senhora olha isso e olha... vocês se parecem, mesmo. Ela é tímida também, me parece, não é?

 

Presidenta: É. E ela é uma pessoa que ela tem... ela é muito zelosa do que ela conquistou. Ela tem a profissão dela, ela é procuradora do Ministério Público do Trabalho. Então, ela tem os valores dela, ela preza muito esses valores. E ela prefere se manter mais, assim, mais discreta e mais afastada.

 

Ana Maria Braga: Como é que é ser mãe... Eu sei o que é ser mãe e trabalhar, mas não com todas as responsabilidades que a senhora assumiu ao longo da sua carreira, e as suas escolhas. Como é a relação dessa mãe presidenta, agora, com a filha e com o neto Gabriel, que chegou aí, não é?

 

Presidenta: Olha, eu tenho sorte porque a minha filha já está naquela fase de independência. Eu fico imaginando como é que seria... porque quando ela era pequenininha ligavam lá para mim quando eu estava trabalhando – e a minha filha tinha asma, Ana Maria – e aí era assim, falavam que ela...

 

Ana Maria Braga: É crise, não é?

 

Presidenta: ... tinha começado a crise, eu disparava, para cuidar dela. Hoje não, ela tem a família dela, ela casou, ela tem um filho agora, que eu acho que é muito importante para toda mulher, não é? Quando nasce o primeiro filho, acho que a gente fica mais... eu acho que a gente fica mais mulher, mais gente, mais...

 

Ana Maria Braga: Entende melhor a mãe.

 

Presidenta: E entende melhor a mãe. É importantíssimo entender melhor a mãe.

 

Ana Maria Braga: Problemas existem, todos.

 

Presidenta: Você também teve um neto, agora, não é?

 

Ana Maria Braga: Acabei de ter, faz um mês. Eu lembrei muito de você.

 

Presidenta: Eu posso te falar uma coisa? É algo que é uma relação de... porque você não tem a menor responsabilidade, mas você tem um carinho, um amor perdido.

 

Ana Maria Braga: Nossa, é imenso, é imenso, é imenso.

 

Presidenta: Então, eu fico muito feliz. Eu fiquei com ele muito pouco tempo durante a campanha, porque ele nasceu, depois eu fui vê-lo ela já estava... ela já tinha acho que uns dois meses e meio e agora eu tenho visto ele sistematicamente. Ela vem...

 

Ana Maria Braga: Eu soube que ele já subiu a rampa do Planalto, já desceu a rampa do Planalto...

 

Louro José: Que chique!

 

Presidenta: Ele... na verdade, ela gosta mais é do Torto, porque o Torto é mais casa, não é? Ele ainda... é a primeira vez que ele vai dormir, agora, no Alvorada, porque ele nunca dormiu no Alvorada, é agora, no Carnaval, que ela vem com ele.

 

Ana Maria Braga: É. Porque também, como a sua filha trabalha, a distância continua, não é?

 

Presidenta: A distância continua.

 

Ana Maria Braga: Você sente falta dessa coisa mais chegada, assim?

 

Presidenta: Ah! sinto, sinto sim, todo... acho que qualquer pessoa, como eu disse, eu sou normal, eu tenho uma vontade imensa de ver meu neto. Uma das coisas que eu mais acho, eu nunca entendia muito quando as pessoas chegavam para mim e falavam: Ah, eu agora tenho de ir lá, porque eu tenho de ficar com o meu neto. Hoje eu entendo perfeitamente. Eu quero ficar com o meu neto!

 

Ana Maria Braga: É muito bom não é? Neto faz toda a diferença. A gente olha...

 

Presidenta: E a gente pode, a gente não tem aquela responsabilidade de educar, não é, então, tudo pode. Para mim, tudo pode, se ele quiser que eu carregue, eu carrego, se tiver de tirar da cama porque ele está chorando, eu tiro. Não tenho a menor responsabilidade com aquela questão de ficar educando a criança, não é? Eu não dou muito maus conselhos, mas acredito que vou dar um sorvete para ele.

 

Ana Maria Braga: Avó normal... como todas nós.

 

Presidenta: É avó, normal.

 

Ana Maria Braga: A sua mãe, que é uma mulher muito bonita e que hoje está no Planalto... Deve ser muito bom ter a mãe perto, não é?

 

Presidenta: Ah, sem dúvida!

 

Ana Maria Braga: Ela ao longo da sua carreira, ela teve uma participação, enfim, ela chegava como você chega para a sua filha e fala: Olha, faz, vai assim... Relação com mãe, mãe é mãe, como a gente falou, em todo lugar. Mas ela se preparou toda, ela estava tão bonita na posse,  orgulhosa, como deve.

 

Presidenta: Olha, a minha mãe sempre ela foi muito solidária comigo. Agora, naquela época, é muito diferente de hoje. Naquela época, a gente tinha um valor grande que era sair de casa. Você tinha de dar o jeito de sair de casa, porque quem não saísse de casa não tinha conseguido virar adulto. Era mais ou menos assim.

Ana Maria Braga: Liberdade...

 

Presidenta: Era liberdade... isso valeu muito na nossa época. Eu acho que os...

 

Ana Maria Braga: Não, na minha época e na sua época, é igualzinho.

 

Presidenta: O que acontece hoje? Eu acho que hoje mudou um pouco. Então, a gente vivia um pouco mais independente, e eu acho que hoje há uma modificação. Os filhos ficam mais tempo dentro de casa, você tem um período em que eles preferem, inclusive, ficar... em vez de ir alugar um apartamento e morar separado, eles ficam dentro da sua casa. Foi assim comigo, com a minha filha. E, a minha mãe, ela foi muito solidária em todas as minhas dificuldades. No período em que eu estive na cadeia minha mãe sempre manteve muita dignidade, uma atitude muito digna e respeitadora daquilo que eu estava fazendo, ela sempre foi solidária, sempre.

 

Ana Maria Braga: O seu pai me parece que teve uma influência muito forte, pela descendência dele da Bulgária, por ser búlgaro, e ter vivido tantas dificuldades no país dele.

 

Presidenta: Meu pai, ele era búlgaro. Aí, ele depois veio para cá para o Brasil, porque a Bulgária teve um período de fascismo, não é?

 

Ana Maria Braga: Teve.

 

Presidenta: E nesse processo, durante a Segunda Guerra Mundial, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, meu pai sai da Bulgária, primeiro fica na Europa e depois vem para a América Latina. Ele vai para a Argentina, e acaba ficando no Brasil e conhecendo a minha mãe. Então, a raiz búlgara do meu pai é uma raiz que integra, de uma certa forma, a minha vida. Não integra muito porque não tinha família do meu pai aqui.

 

Ana Maria Braga: (incompreensível)

 

Presidenta: Então, a minha grande influência vem via família da minha mãe, que é aquela família mineira, com toda a – vamos dizer – experiência de Minas Gerais, do Brasil profundo...

 

Ana Maria Braga: Pão de queijo...

 

Presidenta: ... que Minas Gerais é isso. Do pão de queijo, das minhas tias, de falar “uai”, aquele jeito mineiro de ser.

 

Ana Maria Braga: Que é o jeito da senhora, também.

 

Presidenta: É, um pouco é, mas eu acho que eu saí meio mista, viu.

 

Ana Maria Braga: É, com Rio Grande do Sul...

 

Presidenta: Saí meio mista com o Rio Grande do Sul.

 

Ana Maria Braga: É verdade. O seu pai era um homem forte.

 

Presidenta: Era um homem bastante forte, e também me influenciou muito porque o meu pai, ele tinha uma característica. Ele achava que você tinha de estudar, você tinha de estudar e você tinha de ler. Eu gostava, por exemplo, de ler aqueles livros que as meninas liam, que se chamava Coleção das Moças, não sei se você se lembra disso.

 

Ana Maria Braga: Sei, sei, lembro.

 

Presidenta: Meu pai fazia uma troca: ele me dava um livro da Coleção das Moças para um Dostoievski.

 

Ana Maria Braga: Tinha que ler também o Dostoievski.

 

Presidenta: Eu tinha de ler, também. Achava o Dostoievski, no início, chatíssimo! Queria ler um livro da Coleção das Moças, que era aquela história meio água com açúcar: a moça e o príncipe, não sei quem, casaram e foram felizes para sempre. Mas aí eu fui, progressivamente, lendo os livros que ele me dava. E eu lembro que eu fiz 14 anos e ele me deu uma coleção do Jorge Amado. E por aí eu fui. Ele foi muito importante na minha vida porque ele valorizou uma coisa que eu acho que todo pai, toda mãe devia valorizar nas crianças e nos jovens: é o estudo. Dizendo que você pode levar de tudo na vida, mas tem uma coisa que você leva e se você leva vai te melhorar a sua vida, vai ser uma forma de você conhecer o mundo, de você poder ser uma pessoa melhor, tanto para você como para os outros, que é estudar. Essa foi, talvez, a coisa mais forte que o meu pai inculcou na gente, porque era... qualquer coisa que você quisesse podia, desde que fosse para você estudar.

 

Ana Maria Braga: Desde que estudasse.

 

Presidenta: Podia. Então, foi uma educação, para mim, muito importante. Eu acho que eu gosto de livro até hoje, do jeito que eu gosto, porque se você quiser me dar um imenso prazer, me deixe numa livraria. Eu gosto muito também de fazer outras compras, de comprar outras coisas que as mulheres todas gostam. Mas eu tenho uma paixão por livro, até por cheirar livro, você entende, não basta só... tem de pegar o livro e dar uma cheiradinha.

 

Ana Maria Braga: Uma cheiradinha...

 

Presidenta: Aquele cheiro da página nova...

 

Ana Maria Braga: Eu acho que é isso que a senhora está passando (incompreensível)

 

Presidenta: Aquela imensa surpresa quando você lê um livro, é como se você conhecesse o mundo, um outro lugar em que você nunca esteve.

 

Ana Maria Braga: E daí a militância, eu acho que daí toda essa história que a gente...

 

Presidenta: Uma parte disso também, não é?

 

Ana Maria Braga: A força de brigar.

 

Presidenta: O fato de o meu pai achar que tinha de ter justiça no mundo, não é?

 

Ana Maria Braga: Fez toda a diferença.

 

Presidenta: Também, meu pai transferiu para mim: “tem de ter justiça no mundo, os pobres são iguais à gente, você tem de ter uma certa ética em relação às pessoas que mais precisam”.

 

Ana Maria Braga: Daqui a pouco, logo depois do comercial, eu vou fazer um pequeno intervalinho, e aí eu volto com a presidenta Dilma com uma pergunta: por que presidenta? É uma escolha. E a senhora vai escutar, também, o que o povo está dizendo da senhora, que nós saímos às ruas para perguntar. É só um intervalinho, eu volto já.

 

Intervalo comercial

 

Ana Maria Braga: Bom, a gente voltou, o papo está bom aqui no intervalo...

 

Louro José: Muito bom.

 

Ana Maria Braga: ... mas, comemorando aí esses 60 dias de governo, já, 60 dias. Dá para sentir, Presidente, que já se passaram 60 dias? (incompreensível)

 

Presidenta: Sinceramente, não.

 

Ana Maria Braga: Não, não é?

 

Presidenta: Não. Parece que começou ontem. Passa rápido. Sabe por que passa rápido? Porque você trabalha... tem momentos em que você trabalha... entra muito cedo e sai muito tarde.

 

Ana Maria Braga: Qual é a média de horas de trabalho da senhora?

 

Presidenta: Não menos de 12 [horas].

 

Ana Maria Braga: Quer dizer, começa...

 

Presidenta: [De] 9 [às] 9 [21h]. Se começar às 10h, vai mais tarde. E tem dia, por alguns motivos, que você pode ficar até mais tarde, às onze e meia [23h30]. Eu já saí algumas vezes às onze e meia [23h30] e um dia eu saí à uma hora da manhã.

 

Ana Maria Braga: Por conta de problemas que...

 

Presidenta: Por conta que a gente tinha de resolver o problema... e aí você se estende, e também chega uma hora, no final, que acabou, que você está tão cansada, que você fica conversando...

 

Ana Maria Braga: Fica conversando, para passar um pouco.

 

Presidenta: ... porque tem de descontrair um pouco, não é?

 

Ana Maria Braga: Antes de ir embora.

 

Presidenta: É, antes de ir embora.

 

Ana Maria Braga: Pois é, aí a presidente Dilma, já, agora que conhece aqui o Projac, eu acho que é uma curiosidade de todo mundo saber como é que é a casa da Presidente e como é a rotina da Presidente. Aí nós fomos conversar um pouco com as pessoas que habitam o seu lugar, onde a senhora fica lá até, às vezes, às onze horas da noite [23h]. Roda para a gente os bastidores do Planalto.

 

VT dos bastidores do Planalto

 

Ana Maria Braga: Eu vou aproveitar essa imagem aí, do Presidente Lula te dando a mão, o que a senhora pensou naquele momento, da faixa, assim...

 

Presidenta: Olha, é uma turbulência, na hora, viu? É um momento muito especial porque você tem sobre si todo o peso e a responsabilidade por baixo daquela faixa tão levinha, de seda, como eu disse no meu discurso, você tem a responsabilidade de dirigir um país. Aí, eu pensei assim, chegou a hora, agora é a minha vez, porque estava o Presidente Lula passando para mim. E, também era um momento muito afetivo, porque eu trabalhei junto com o Presidente Lula durante praticamente - depois de junho de 2005 - todos os dias.  Muitas vezes até tarde da noite a gente trabalhava, então também era um momento de... eu estava muito comovida porque ele estava indo embora. Era essa duplicidade, eu estava chegando mas ele estava saindo. Eu fiquei triste por ele estar saindo, então, tinha esses dois sentimentos, ali.

 

Ana Maria Braga: Em que momento dessa trajetória da sua história junto ao Presidente Lula que a senhora sentiu que podia ser convidada? Quer dizer, como é que aconteceu esse fato, não é?

 

Presidenta: Ninguém acredita, sabe? Isso já me perguntaram antes.

 

Ana Maria Braga: Imagino que sim.

 

Presidenta: Ninguém acredita. Do jeito do Presidente Lula, ele rigorosamente falando, não houve esse momento.

 

Ana Maria Braga: Não?

 

Presidenta: Não. Foi indo, entendeu? Foi indo. No início...

 

Ana Maria Braga: A senhora está parecendo mineira, agora, quando diz assim: foi indo, foi indo...

 

Presidenta: Mas foi, foi indo. É que talvez ele seja... o Presidente seja bastante mineiro também, o presidente Lula. Ele me chamou várias vezes. Ele falava para várias pessoas que eu era a candidata dele a presidente da República. No início eu não dava, assim, muito... não dava importância a isso, porque começou muito tempo atrás. Depois, progressivamente, foi natural. O que eu estou dizendo é que não houve um momento: “olha, a partir daqui você é minha candidata a presidente”. Eu sabia que eu era. Foi uma coisa muito natural.

 

Ana Maria Braga: É o jeito Lula de ser, a senhora diria?

 

Presidenta: É o jeito Lula de ser. É assim. É o jeito dele ser.

 

Ana Maria Braga: O que a gente sente em todos os...

 

Presidenta: Ele é uma pessoa muito... o Presidente, apesar de ser uma pessoa competentíssima na administração, capaz de tomar decisão, ele fica bravo quando as coisas não saem certas, ficava bastante bravo, mas ele é uma pessoa muito doce, muito suave, muito afetiva.

 

Ana Maria Braga: E ele é muito querido por todas as pessoas...

 

Presidenta: ... que trabalham com ele.

 

Ana Maria Braga:... inclusive, que estão no seu staff, hoje, que deram continuidade.

 

Presidenta: E ele cria isso, ele cria um envolvimento com as pessoas, muito forte. E, além disso, ele tem uma qualidade que eu acho, assim, uma das mais importantes nas pessoas. Sabe qual é? Ele tem um enorme senso de humor. E para você ter senso de humor tem um requisito: você tem de rir de si mesmo.

 

Ana Maria Braga: Tem que ser inteligente para rir de si mesmo.

 

Presidenta: Tem de ser inteligente para rir de si mesmo. E ele tem esse imenso senso de humor. Então, ao mesmo tempo em que ele ri, ele ri das coisas, é muito... apesar de ser extremamente exigente, como ele tem de ser, não é, se ele fosse... como qualquer presidente tem de ser, ele também é muito afetivo. Então, fica muito fácil trabalhar com ele.

 

Ana Maria Braga: A senhora ganhou um bambolê do presidente do PMDB.

 

Louro José: Que presente é esse!

 

Presidenta: Cor-de-rosa.

 

Ana Maria Braga: Cor-de-rosa. Como é que a senhora - falando em bom humor - como é que a senhora encara esse presente que foi mandado pelo...

 

Presidenta: Eu encarei com muita seriedade. Agora, eu devolvi ele. Recentemente, o deputado esteve no meu gabinete e eu falei para ele: agora eu estou te devolvendo o bambolê, para você também usar.

 

Ana Maria Braga: Ter jogo de cintura, ter jogo de cintura. A gente saiu na rua para... nas principais ruas das capitais brasileiras, para saber das pessoas sobre a senhora, porque eu acho que é legal escutar o que as pessoas tem a dizer. Rodou.

 

VT


Ana Maria Braga: Como é que a senhora vê esse...

 

Presidenta: Olha, eu achei fantástico porque, de uma certa forma, ele sintetiza o que é uma pessoa, a pessoa é isso, é cheia de contradições, de aspectos diferentes, dependendo do jeito que você olha. Agora, o que eu gostei mais é dessa percepção que eu te disse que o povo tem: que a gente é igual a eles.

 

Ana Maria Braga: É bonito ver, não é?

 

Presidenta: Isso é muito bom, que um povo pense assim do seu governante. Ele não pode achar que a gente é diferente dele porque, senão, como é que pode governá-lo, não é?

 

Ana Maria Braga: Aí, nós fomos falar com uma das atrizes mais talentosas e bonitas da televisão brasileira, e muito inteligente também, que gostaria de fazer uma pergunta para a senhora. Fala, Maitê Proença.

 

Maitê Proença: Bom dia, Ana. Bom dia, presidente Dilma. Cinco anos atrás, se alguém lhe dissesse que a senhora seria a primeira mulher eleita presidente do Brasil, eu imagino que a senhora ficasse, no mínimo, bastante surpresa. A parte boa a gente conhece, a senhora tem o poder de transformar esta nação. Qual é a parte ruim de ser presidente?

 

Presidenta: Olha, eu acho que a parte ruim de ser presidente é que é intrínseca a ser presidente, faz parte de ser presidente: eu não posso mais andar na rua como eu andava antes. Que é uma coisa muito boa você andar na rua, não é? Você andar na rua, você ver as pessoas, você compartilhar do mundo que as pessoas desfrutam quando elas vão para a rua, até para caminhar na calçada. Isso eu não posso mais fazer.

 

Ana Maria Braga: Supermercado...

 

Presidenta: É. Agora, essa é, vamos dizer, a parte pessoal. Eu acho que a Presidência é, sobretudo, um grande desafio, e é um desafio que nunca acaba. Você não resolve o problema um dia, você tem de resolver todos os dias, é como se todos os dias você tivesse de escalar o Everest, todos os dias, não tem um dia que você não tenha uma porção de problemas para resolver. Agora, isso também é a parte boa. Por que é a parte boa? Porque é esse desafio que é ser presidente, e é ele que pode transformar o Brasil. Então, você tem razão, Maitê. Como tudo na vida, tem dois aspectos. A mesma coisa que garante que tem uma parte boa, tem a parte que é pesada, aquela que exige trabalho, exige preocupação. Você fica com aquele problema na cabeça, você tem de resolvê-lo. Então, se você não ficar com o problema na cabeça, muitas vezes você não encontra o caminho. Comigo acontece, muitas vezes, o seguinte: eu fico pensando naquilo, eu fico pensando naquilo e aí, de repente, vem assim, com muita clareza, o que eu tenho de fazer. Então, veja que é por conta que eu fico preocupada, que eu consigo resolver.

 

Ana Maria Braga: A escolha “presidente” e “presidenta”. Os puristas da Língua Portuguesa já deram todas as explicações gramaticais, e as duas formas são válidas, a gente sabe. Agora, a sua escolha foi “presidenta”. Por quê?

 

Presidenta: Para enfatizar o fato de que era... eu sou a primeira mulher a ser presidente do Brasil. Eu não estou cometendo nenhuma barbaridade ao querer ser “presidenta”, do ponto de vista da gramática. Mas, do ponto de vista do significado para as mulheres, o que eu quero enfatizar é o “a”, que é aquele que é o signo do feminino. Então, é “presidenta”. E não é errado. Entre “presidente” e “presidenta”, eu acho que a primeira mulher tem a obrigação de ser “presidenta”, porque é uma obrigação com as mulheres deste país. Porque eu não cheguei aqui... se você for olhar, como é que eu cheguei aqui? Eu cheguei aqui, eu tenho uma trajetória pessoal de vida, tenho todo um comprometimento com a transformação do Brasil. Mas eu acho que eu cheguei a presidenta porque uma porção de mulheres saíram de suas casas e foram trabalhar, uma porção de mulheres saíram de suas casas e foram estudar, uma porção de mulheres viraram enfermeiras, professoras, apresentadoras de televisão, engenheiras, médicas, vereadoras, empregadas domésticas. Enfim, esse conjunto de mulheres apareceu e começou, cada vez mais, a construir o Brasil de forma muito quietinha, muito anônima, mas cada vez mais passaram a construir o Brasil de forma muito mais clara, muito mais explícita. Então, eu devo isso a todas as mulheres brasileiras: ser presidenta.

 

Ana Maria Braga: Por sinal, logo depois do intervalo comercial, nós vamos falar das mulheres, e as mulheres vão fazer perguntas para a nossa presidenta Dilma Rousseff. Até já.

 

Intervalo comercial


Ana Maria Braga: Estávamos falando aqui de obras de arte e da vocação da senhora por colecionar no seu iPad as fotos das obras de arte.

 

Presidenta: É. Eu tenho.

 

Ana Maria Braga: Por que essa paixão?

 

Presidenta: Cada um de nós queria ser alguma coisa que não é. Eu não tenho a menor capacidade de desenhar e de pintar, mas eu queria ter. Tem gente que queria ser cantor ou cantora, queria ser... Enfim, cada um tem, assim, uma simpatia imensa por alguma coisa. Eu tenho um grande amor pela pintura. Acho a capacidade da pessoa de representar um momento, uma pessoa...

 

Ana Maria Braga: Inclusive, a senhora está, agora, tentando trazer para o Brasil a obra de Tarsila [do] Amaral que ela fez, inclusive, para o marido dela, ela deu de presente essa obra para o marido dela, não é? Essa coisa de trazer o Abaporu para cá é por conta de quê? É um símbolo para a senhora?

 

Presidenta: É que nós vamos fazer lá no Palácio do Planalto uma exposição das grandes pintoras mulheres, em comemoração... O Dia Internacional da Mulher é 8 de março, mas, como é Carnaval, nós vamos fazer a comemoração ao longo do mês inteiro de março, com várias atividades. E aí, por que buscar a Tarsila? A Tarsila foi uma grande pintora brasileira, que inaugurou o modernismo no Brasil, com a pintura Abaporu. E estava lá na Argentina, em Buenos Aires, em um museu que se chama Malba. Então, eu entrei em contato com o... É um museu privado, ele tinha arrematado o Abaporu.

 

Ana Maria Braga: É linda a obra.

 

Presidenta: É linda. É a maior... é a obra símbolo do Modernismo brasileiro. Então, eu vou expor a Tarsila... tudo o que nós temos. Nós quem? O governo federal tem, ou no Banco Central, ou no Banco do Brasil ou na Caixa Econômica, porque recebeu como dação de pagamento de muitas... muitas vezes.

 

Ana Maria Braga: Ah, e essas obras não estão expostas ao público.

 

Presidenta: E não estão expostas. E agora eu quero que elas sejam expostas, para quem quiser ver. E vou também colocar... digitalizar para que todo mundo possa também, quem não puder ir lá...

 

Ana Maria Braga: ... ter acesso.

 

Presidenta: ... possa ter acesso.

 

Ana Maria Braga: Eu vou trazer de volta um pedacinho do discurso da senhora quando tomou posse, falando dessas responsabilidades, inclusive com a mulher. Roda para mim.

 

VT do discurso da Presidenta


Ana Maria Braga: E eu vou aproveitar, como hoje é dia primeiro, e nós estamos tendo o prazer de recebê-la aqui para abrir a nossa Semana da Mulher, o Mês da Mulher – mas daqui a oito dias a gente comemora o Dia da Mulher – nós pedimos para a nossa repórter Nádia Bochi sair às ruas para mostrar exatamente a situação da mulher brasileira hoje em várias áreas de trabalho que ela realiza, e a senhora mesma acaba de dizer isso. Rodou.

 

VT


Ana Maria Braga: ... que foi exatamente o que a senhora disse, quer dizer, esse exemplo, não é? Como é que a senhora vê, assim, essas mulheres. No governo, inclusive, no primeiro escalão teve um aumento. Hoje em dia as mulheres representam 25% do...

 

Presidenta: Eu queria até que representassem mais, viu, Ana Maria. Mas ainda há uma barreira para que a gente consiga isso. Eu queria ter chegado a 30 [%]. Eu estava querendo ter, aproximadamente, 13 mulheres como ministras. Não é que não exista mulher capaz e competente, mas...

 

Ana Maria Braga: Quando a senhora fala de barreira, o que a senhora está dizendo?

 

Presidenta: É o seguinte: há uma certa preferência por indicar homens. E como é um governo de coalizão, eu tenho de levar em conta as indicações. Várias vezes eu pedi que fosse indicada mulher. Agora, eu não desisto não, porque eu acho que um governo, ele evolui ao longo do tempo. Agora, eu considero uma coisa que falou, ali, muito correta. Nós ainda temos uma desigualdade muito grande. Você sabe que a pobreza, no Brasil, tem cara. Tem cara, sexo e a pobreza também tem origem. Então, a pobreza, ela é muito feminina, está ligada à mulher e à criança e, geralmente ela se concentra em algumas regiões do Brasil mais que em outras: Norte, Nordeste e várias outras regiões espalhadas pelo Brasil, inclusive, em São Paulo, aqui no Rio e em outros estados, Rio Grande do Sul.

O que nós fizemos? Já na época do Presidente Lula foi feito o Bolsa Família. O Bolsa Família é assim, Ana Maria. Tem uma parte que é fixa e a outra varia conforme a quantidade de filhos. O que nós estamos fazendo? Nós vamos mudar a situação, nós vamos privilegiar cada vez mais a mulher recebendo pela quantidade de filhos que tem. Nós vamos reajustar a parcela relativa à quantidade de filhos. Porque também, quanto mais pobre a família, e quase 34%, 35% das famílias mais pobres têm como chefe, mulher.

 

Ana Maria Braga: Ela foi concorrente da senhora no primeiro turno, fez um importante trabalho como ministra do Meio Ambiente. Estou falando de Marina Silva. E ela também veio fazer uma pergunta para a senhora.

 

Marina Silva: Presidente Dilma, uma das questões importantes para todas nós com a experiência de termos a primeira mulher presidente da República é o fato de que hoje mais de 20 milhões de lares são chefiados por mulheres, e que os índices de pobreza diminuíram nos últimos anos significativamente. Mas, infelizmente, nos lares chefiados por mulheres, esse índice diminuiu muito pouco. A pergunta é: Quais são as políticas voltadas para a inclusão produtiva das mulheres para que estas também possam ter aquilo que chamam de igualdade de oportunidades tanto para elas quanto para seus filhos?

 

Ana Maria Braga: Que é disso que a gente está falando.

 

Presidenta: Era disso que a gente estava falando. Muito boa pergunta da Marina. Eu tenho certeza de que uma política de erradicação da pobreza, ela tem de ser focada na mulher e na criança. Nas famílias chefiadas por mulheres, quanto mais pobre a família, maior o número de famílias chefiadas só pela mulher. Por que a gente foca na mulher? Quem recebe o Bolsa Família é a mulher. Por quê? Porque a gente sabe que a mulher não vai pegar o dinheiro e dar uma passada no bar e tomar umas e outras. A gente sabe disso, o próprio homem sabe disso. Por quê? Porque a mãe dele cuidou dele e ele sabe que a mãe é isso, então privilegiar a mãe. Outra política que nós vamos centrar... a gente tem um programa, Ana Maria, que se chama Minha Casa, Minha Vida, de zero a três salários mínimos. A gente vai exigir que quem... mesmo quando a mulher tem um companheiro, quem tenha a titularidade do imóvel é a mulher mãe porque também ela jamais vai passar o imóvel dela para frente, que é o local em que ela vai ter o seu filho e vai protegê-lo. E uma terceira coisa importantíssima: não sei se você sabe que quem abre mais pequenos negócios é a mulher.

 

Ana Maria Braga: É a mulher.

 

Presidenta: É a mulher que abre.

 

Ana Maria Braga: A economia informal.

 

Presidenta: É, mas nós queremos formalizar a economia informal, a gente que proteger porque a mortalidade da pequena empresa é muita alta.

 

Ana Maria Braga: Vai facilitar (incompreensível).

 

Presidenta: Então, nós vamos facilitar, proteger e dar financiamento e isenção tributária.

 

Ana Maria Braga: Tudo isso para ser implantado agora olhando essa mulher...

 

Presidenta: Para ser implantado. Eu vou, inclusive, criar um ministério de pequenas e médias empresas, micro,  para ter crédito. Porque a mulher, ela se dedica...

 

Ana Maria Braga: E para informar não é, Presidente?

 

Presidenta: Para informar e para dar sustentação para o negócio dela...

 

Ana Maria Braga: aprender...

 

Presidenta: Porque você não pode exigir o mesmo tipo de tratamento de uma grande empresa ou de uma média e de uma micro. Você não pode fazer isso. A cabeleireira, por exemplo, você tem uma cabeleireira, você tem, além disso, você tem uma série de atividades que a mulher, ela é especialista, ela é ótima também na indústria de alimentação. Ela é capaz, por exemplo, de fazer uma quentinha e distribuir, ela é capaz de vender... enfim, nós vamos dar suporte para que isso ocorra de uma forma...

 

Ana Maria Braga: Através de órgãos e organismos governamentais.

 

Presidenta: ... governamentais. Tanto...

 

Ana Maria Braga: Com o seu apoio financeiro...

 

Presidenta: Apoio. Custo, apoio financeiro...

 

Ana Maria Braga: Informação.

 

Presidenta: ... diminuição tributária – não é nem diminuição – isenção tributária. E o microcrédito, aquele crédito pequenininho que a pessoa tem e dá um alívio para ela.

 

Ana Maria Braga: Pode resolver a vida de uma pessoa.

 

Presidenta: E você sabe de uma coisa? É provado que o microcrédito... falam assim: “mas a pessoa não vai pagar”. Pelo contrário. Há uma certa... um preconceito contra as pessoas mais pobres ou de menos recursos, mas elas têm assim uma grande estima, autoestima no que se refere às suas dívidas. Então elas pagam sim.

 

Ana Maria Braga: Tem um índice de inadimplência muito menor...

 

Presidenta: Pequeniníssimo.

 

Ana Maria Braga: ... do que os grandes, que pedem grande coisa.

 

Presidenta: O índice de não pagamento é muito pequeno.

 

Ana Maria Braga: Eu vou fazer o seguinte: eu tenho uma série de perguntas ainda do povo e a respeito das políticas governamentais da nossa Presidente. Eu vou dar um intervalinho comercial, vou convidá-la para ir à cozinha...

 

Louro José: É agora.

 

Ana Maria Braga: Quem sabe a gente consegue fazer uma omelete?

 

Louro José: A hora da verdade.

 

Presidenta: Pois é. Você quer uma omelete, Ana Maria?

 

Ana Maria Braga: Vai ser difícil, Presidente? Vamos tentar?

 

Presidenta: (incompreensível) a omelete é sua.

 

Ana Maria Braga: Eu volto já, fique aí para conferir.

 

Intervalo comercial

 

Ana Maria Braga: Olha, a gente volta aqui com a Presidente... Presidenta já com a mão na massa, quebrando os ovos...

 

Louro José: Olha a disposição!

 

Ana Maria Braga: A senhora chega a fazer alguma ida à cozinha, a senhora chegou a ir, no Palácio...

 

Presidenta: Agora não tem tempo mais para eu ir lá na cozinha não.

 

Ana Maria Braga: Mas...

 

Presidenta: Mas antes, na minha casa, eu fazia.

 

Ana Maria Braga: Na sua casa, a senhora ia para a cozinha com frequência, é isso?

 

Presidenta: Eu fazia...

 

Ana Maria Braga: Com que frequência, assim?

 

Presidenta: Eu gosto de fazer a minha sopa.

 

Ana Maria Braga: Ah, mas a senhora faz outras coisas na cozinha?

 

Louro José: O prato predileto, qual é?

 

Presidenta: Faço. Eu gosto mais de fazer é sopa, atualmente.

 

Louro José: Sopa.

 

Ana Maria Braga: Sopa.

 

Presidenta: Meu negócio é sopa.

 

Ana Maria Braga: Sopa pronta ou...? A senhora quer azeite ou quer manteiga?

 

Presidenta: Eu quero azeite. Pouquinho, não é?

 

Ana Maria Braga: Pouquinho azeite, é.

 

Presidenta: Porque nós estamos na fase do...

 

Ana Maria Braga: A senhora faz regime?

 

Presidenta: Faço.

 

Ana Maria Braga: Faz?

 

Presidenta: Faço.

 

Ana Maria Braga: A senhora emagreceu, inclusive.

 

Presidenta: Emagreci bastante, eu emagreci quase seis quilos.

 

Ana Maria Braga: E por conta...

 

Presidenta: Agora eu estou na plataforma, assim.

 

Ana Maria Braga: Hã.

 

Presidenta: Depois vou emagrecer o resto.

 

Ana Maria Braga: Mas se esforça para isso?

 

Presidenta: Esforço. Ando!

 

Ana Maria Braga: A senhora não vai por nem sal, nem cebola?

 

Presidenta: Não, depois eu boto lá... Não, vou botar aqui, está certo.

 

Ana Maria Braga: Não é?

 

Presidenta: Está certo.

 

Ana Maria Braga: É, porque aqui a gente tem o sal, alho, cebola...

 

Presidenta: Com o que eu ponho cebola? Com esse aqui?

 

Ana Maria Braga: Pode ser... com esse, com esse.

 

Presidenta: Pra lá que eu vou fazer (incompreensível)

 

Ana Maria Braga: A senhora vai lá... Ah! A senhora mistura lá então a cebola?

 

Presidenta: É... eu boto aí...

 

Ana Maria Braga: Nós vamos aprender a fazer uma omelete diferente, olha!

 

Louro José: Eu adorei! Omelete presidencial.

 

Presidenta: Bota mais um pouquinho de óleo para mim?

 

Ana Maria Braga: Boto. (incompreensível) Não é para qualquer pessoa ter uma Presidenta na cozinha, hein? Um pouquinho mais de óleo, um pouquinho de sal. A senhora faz sopa pronta ou daquelas de...

 

Presidenta: Esse aqui é sal?

 

Ana Maria Braga: Esse é sal... sopa pronta ou sopa...

 

Presidenta: Não, eu faço sopa desde o início.

 

Ana Maria Braga: Ah... Oh, não, esse não é sal. Oh, eu vou estragar o seu omelete, mas vai ficar ótimo, sabe por quê? Porque colocando um pouquinho de bicarbonato de sódio...

 

Presidenta: Ah, ele fica melhor...

 

Ana Maria Braga: Ele fica melhor... ele fica fofinho...

 

Presidenta: Ele vai inchar.

 

Ana Maria Braga: Ele fica fofinho... é igual agora, por exemplo, nós vamos falar de economia enquanto a gente está aqui na cozinha. Eu acho que é um lugar ideal para ir para a cozinha, não é? O poder de compra do brasileiro, Presidenta...

 

Presidenta: Aumentou.

 

Ana Maria Braga: Aumentou bastante, então ele está podendo ir mais vezes ao supermercado, está podendo comprar mais coisas, não é? A economia tem crescido e a gente veio... a senhora continua a política implantada pelo ex-presidente Lula. Quais são as perspectivas dessa mulher, que a gente falou tanto dela agora em relação ao futuro desse salário e dessa economia? Como é que ela pode enxergar isso?

 

Presidenta: Olha, eu... o nosso objetivo é fazer com que a economia continue crescendo de forma estável sem que a inflação volte. Eu estou achando que está muito baixo esse fogo, hein...

 

Ana Maria Braga: Ah! Eu aumento. É porque a gente estava conversando.. eu vou aumentar o fogo... pronto, aumentei. Vamos botar fogo na economia também para ficar melhor.

 

Presidenta: Vou botar fogo na economia... eu vou botar só um pouquinho aqui...

 

Ana Maria Braga: Um pouquinho de queijo.

 

Presidenta: Só um pouquinho.

 

Louro José: Queijo é bom!

 

Ana Maria Braga: Quer dizer, essa dona de casa pode confiar que o poder de compra dela vai continuar...

 

Presidenta: Pode confiar.

 

Ana Maria Braga: ... crescendo.

 

Presidenta: Não só que o poder de compra vai crescer, mas como nós vamos fazer tudo para que ele cresça. Como? Primeiro, nós aprovamos uma política de valorização do salário mínimo que garante que... primeiro ele garante todo ano que a gente reajuste pela inflação.

 

Ana Maria Braga: Pois é, esse...

 

Presidenta: Mas além de reajustar pela inflação, nós asseguramos que a gente dá o aumento do PIB, sempre que a economia crescer, nós damos o que ela crescer. Por exemplo, a gente está calculando que esse salário de [R$] 545 vai virar R$ 616,00, no mínimo, no dia 1º de janeiro de 2012. Por quê? Porque o Produto Interno Bruto, o PIB no Brasil, ele vai crescer, no ano de 2010, o mínimo que ele vai crescer é 7,5[%]. Se você tiver uma inflação de 5[%], você vai ter em torno de uns 13 a 14% de reajuste. Então, quando não tem, nós não damos; quando tem, nós damos. Então, nós garantimos que... Espera lá, dona Ana Maria...

 

Ana Maria Braga: A senhora não quer que vire?

 

Louro José: Olha, olha.

 

Presidenta: Espera lá, bem devagar.

 

ouro José: Olha a situação.

 

Ana Maria Braga: Eu estou só segurando, até baixei o fogo aqui. Eu quero entender melhor...

 

Presidenta: Ele tem de ficar... Me dá o outro aqui.

 

Ana Maria Braga: Dou.

 

Presidenta: Agora, vocês esperam...

 

Ana Maria Braga: Está gostosa mesmo.

 

Presidenta: ... que eu continuo a minha...

 

Ana Maria Braga: Explicação.

 

Presidenta: Não, ele vai ficar... ele tem de ficar mais duro para poder virar.

 

Ana Maria Braga: Mais durinho. Vamos aumentar o fogo mais um pouco...

 

Louro José: Mais pressão.

 

Presidenta: Não está ficando bom não, porque eu estou falando, eu estou que nem...

 

Ana Maria Braga: Está conversando um assunto...

 

Presidenta: ... eu estou que nem aquele...

 

Ana Maria Braga: Não, mas não precisa ficar bonito precisa ficar gostoso.

 

Louro José: Está bom.

 

Ana Maria Braga: Não, mas está lindo, olha. Não é fácil fazer omelete.

 

Presidenta: Diziam que tinha um presidente de um certo país aí, que eu não vou dizer qual, que ou andava ou mascava chiclete.

 

Ana Maria Braga: Não dá para fazer tudo... Mas está lindo já, Presidente.

 

Presidenta: Não, mas a gente está assim...

 

Ana Maria Braga: Está lindo, olha. Mas fala a verdade, não é todo mundo que sabe fazer uma omelete (incompreensível).

 

Louro José: Fala sério!

 

Presidenta: Um omelete lindo desses.

 

Ana Maria Braga: Posso desligar?

 

Presidenta: É.

 

Ana Maria Braga: Pronto. Aí eu vou botar ali. Venha cá, Presidente.

 

Presidenta: E dar para o Louro.

 

Ana Maria Braga: Vou dar para o Louro experimentar

 

Louro José: Manda vir (incompreensível).

 

Ana Maria Braga: Não, mas eu quero um pedaço também. Olha que bonito que ficou.

 

Presidenta: É o Louro que vai (incompreensível)

 

Louro José: Não, eu vou encarar. Eu sou a cobaia presidencial.

 

Ana Maria Braga: E para que as pessoas entendam, Presidente: o governo, para poder pagar mais, ele tem que receber mais, e a gente queria saber qual a posição da senhora com relação à CPMF, porque tem pessoas dizendo que a CPMF volta com outro nome, com outro sobrenome. O que a gente pode esperar disso?

 

Presidenta: Olha, Ana Maria, eu acho que essa conversa está feita da forma errada. Para a gente saber se precisa ou não precisa de CPMF, ou se precisa ou se não precisa de qualquer outra coisa...

 

Ana Maria Braga: De aumentar algum imposto...

 

Presidenta: A gente tem que saber para quê. Ninguém... Você, na sua casa, não faz isso: eu quero aumentar para nada. Não.

 

Ana Maria Braga: Não.

 

Presidenta: Você tem que saber para que você quer. Então, o que nós estamos fazendo? Nós estamos fazendo um diagnóstico de como é que é o atendimento básico no Brasil. Uma das coisas que a gente já sabia que tinha de mudar, nós já mudamos. Qual foi? Nós tornamos gratuitos dois tipos de remédio: remédio para hipertensão, pressão alta, e remédio para diabetes. Por quê? Por causa do seguinte: o SUS distribui esses remédios gratuitos, então as pessoas iam ao SUS só para receber o remédio gratuito e com isso atravancavam todo o serviço de Saúde, ficava muito mais caro. Por que fizemos isso? Porque avaliamos que seria muito mais adequado dar esse remédio gratuito do que ficar cobrando e tornando ele exclusivo do SUS, era melhor colocar nas farmácias do [programa] Aqui Tem Farmácia Popular que são farmácias privadas que fazem convênio com o governo e a gente distribui.

 

Ana Maria Braga: Quer dizer, o governo terá outros olhos com relação à Saúde?

 

Presidenta: Então... com relação à Saúde. Depois que tiver outros olhos com relação à Saúde, se faltar dinheiro, nós vamos abrir a discussão com a sociedade, mas o que nós achamos é que é possível que muita coisa a gente resolva com o dinheiro que tem. Nós podemos fazer mais com menos...

 

Ana Maria Braga: Pois é, mas com diminuição dos gastos públicos porque (incompreensível)

 

Presidenta: Não, nós vamos diminuir os gastos públicos, mas não na área da Saúde. Nós vamos cortar...

 

Ana Maria Braga: Eu sei, mas de que forma a senhora enxerga isso...

 

Presidenta: Por exemplo...

 

Ana Maria Braga: Quando a gente tem uma casa, Presidente, a gente sabe administrar a casa e a senhora melhor que ninguém. Para a gente poder gastar, a gente precisa poupar, então a gente precisa deixar de... se eu ganho o mesmo salário, eu preciso deixar de consumir algumas coisas para poder...

 

Presidenta: Verdade verdadeira.

 

Ana Maria Braga: Diminuir.

 

Presidenta: Isso mesmo.

 

Ana Maria Braga: Olha, tenho que diminuir ali para poder puxar lá.

 

Presidenta: Você puxa aqui para botar ali.

 

Ana Maria Braga: Onde no governo isso está sendo visto como vamos diminuir aqui para poder aplicar em todos esse programas que a senhora, com certeza, vai implantar?

 

Presidenta: No que a gente chama de gasto de custeio que é o gasto que mantém, que faz com que a máquina funcione. Então, vou te dar um exemplo: só a folha de salário do governo é R$ 182 bilhões.

 

Ana Maria Braga: A gente leva um susto!

 

Louro José: Caramba!

 

Presidenta: R$ 182 bilhões.

 

Ana Maria Braga: Não é?

 

Presidenta: É. E ai, o que acontece, Ana Maria, muitas vezes, se dá um reajuste momentâneo para uma coisa e esse reajuste fica...

 

Ana Maria Braga: Para o resto da vida...

 

Presidenta: ...e não é retirado. Então, o que nós estamos fazendo? Nós estamos fazendo primeiro uma auditoria na folha [de pagamento]. Porque não é tirar direito de ninguém, é ver se não tem alguém recebendo a mais do que deve.

 

Ana Maria Braga: Tem gente que até já morreu que, às vezes, está na folha.

 

Presidenta: Pode ter gente que morreu que está na folha, pode ser...

 

Ana Maria Braga: E aí, a gente saiu para a rua, e o povo... as perguntas do povo para senhora, que vão muito em cima de tudo aquilo que a gente falou até agora, para que a senhora entenda – e sei que a senhora sabe – mas que a senhora escute o anseio da população brasileira.

 

VT


Ana Maria Braga: A senhora vê que...

 

Louro José: Coisa séria.

 

Presidenta: Mas você vê que essa questão da melhoria da saúde é uma questão muito séria.

 

Ana Maria Braga: Que atinge grande parte da população brasileira.

 

Presidenta: Nós olhamos... O que nós estamos querendo, no caso da Saúde é justamente assegurar que ela tenha uma grande melhora... Primeiro, a gente tem de ficar prestando atenção nela todo dia. Por quê? A atenção básica que é essa que garante que qualquer pessoa pode ser atendida – e tem de ser atendida – com qualidade, ela, no Brasil, ela é muito ampla. Ela atinge todo mundo que precisa. Nós temos um sistema universal.

 

Ana Maria Braga: É um grande desafio.

 

Presidenta: Não é?

 

Ana Maria Braga: E, inclusive, daqui a um mês e pouquinho a senhora vai ser... vai ter a avaliação dos 100 dias de governo, não é? A senhora olha para essa pesquisa de 100 dias de governo, que todos os presidentes passam...

 

Presidenta: Eu espero que a minha seja de 90. Porque... que seja...

 

Ana Maria Braga: Não de 100 dias.

 

Presidenta: ... de 90 dias, e não de 100. Porque você tem de fazer essa avaliação...

 

Ana Maria Braga: ... essa avaliação

 

Presidenta: ... sistemática.

 

Ana Maria Braga: E ser olhado...

 

Presidenta: Todos os santos dias. Mas 90 dias é um bom tempo.

 

Ana Maria Braga: Eu queria assim, ó, primeiro, que a senhora experimentasse o seu omelete...

Louro José: O seu omelete.

 

Ana Maria Braga: ... que eu vou experimentar...

 

Presidenta: Não vale falar que está ruim.

 

Ana Maria Braga: Não, não vale.

 

Presidenta: Olha, ficou bom.

 

Louro José: Será?

 

Ana Maria Braga: Não, a senhora falou que não vale falar que está bom, e está dizendo que está bom!

 

Louro José: Acho que eu vou pedir pizza.

 

Ana Maria Braga: Vamos ver Louro. Vai lá.

 

Presidenta: Qual foi o...?

 

Ana Maria Braga: Rapaz, olha que responsabilidade!

 

Louro José: Foi bom, hein! Foi bom. Ficou bom.

 

Presidenta: Não é bom?

 

Ana Maria Braga: Olha, eu acho que aquele negócio errado que a senhora colocou ali deu certo.

 

Louro José: Ficou bacana o omelete.

 

Ana Maria Braga: O negócio de colocar... A senhora viu? Botar o bicarbonato como deu...

 

Presidenta: E não engorda.

 

Ana Maria Braga: E não engorda.

 

Louro José: Ficou levíssimo.

 

Presidenta: Hum, é o bicarbonato.

 

Louro José: É o segredo

 

Ana Maria Braga: Fofinho. Hum!!! Privilégio é privilégio. Não é todo mundo que come o omelete da Presidenta.

Presidenta Dilma, eu escolhi, todos os dias, no programa, eu faço uma mensagem, o pessoal gosta muito em casa. Uma mensagem para dizer: “Olha, a gente pode”. É aquilo de dizer todo dia. Tem um monte de gente que passa a acreditar, de tanto que eu digo aqui que a gente pode, está tudo dentro da gente, não é? De formas variadas. E, para agradecer a vinda da senhora aqui hoje, eu escolhi uma mensagem que não é minha, é uma mensagem da senhora. E eu fui lá buscar no arquivo um pedacinho e eu queria muito que a senhora escutasse...

 

Presidenta: Ô, que bom!

 

Ana Maria Braga: A minha mensagem de hoje. Roda para mim.

 

Mensagem da Presidenta Dilma (trecho do discurso de posse):

Às vezes, dura caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida e me deu, sobretudo, coragem para enfrentar desafios ainda maiores. Recorro, mais uma vez, ao poeta da minha terra: “O correr da vida” – diz ele – “embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

 

Ana Maria Braga: E é disso que eu estava falando. A gente espera que a gente tenha coragem, mas que a senhora tenha muita coragem para enfrentar, não os cem, mas todos os mil, cinco mil, quantos dias de governo o Brasil espera que senhora faça o melhor por todos nós, a gente está precisando disso. Eu queria lhe desejar boa sorte.

 

Presidenta: Muito obrigada.

 

Ana Maria Braga: Pela mulher, por ser mulher e por todas as mulheres e homens deste país.

 

Louro José: Está aí uma mulher incrível.

 

Ana Maria Braga: Muito obrigada, viu? Obrigada pelo presente da sua presença aqui. É um privilégio mesmo.

 

Presidenta: Obrigada pela oportunidade, também.

 

Ana Maria Braga: E nós temos, aqui, sempre aberto o caminho para qualquer coisa que a senhora quiser e precisar. Conte com a gente. Vamos para um Brasil melhor.

 

Presidenta: “Vambora”.

 

Ana Maria Braga: E a gente sabe que vamos juntos.

 

Presidenta: Vamos junto.

 

Ana Maria Braga: Muito obrigada. A gente volta amanhã, com a Semana da Mulher, mulher com coragem.

 

Louro José: Valeu, Presidenta!

 

Ouça a íntegra da entrevista (1h17min03s) da presidenta Dilma.