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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao programa Hoje em Dia, da Rede Record - Brasília/DF

por Portal do Planalto publicado 29/09/2011 15h15, última modificação 04/07/2014 11h40
Presidenta fala sobre Saúde, Bolsa Verde, Esporte e outros temas

Palácio do Planalto, 29 de setembro de 2011

 

Jornalista: Estamos ao vivo, diretamente do Palácio do Planalto, diretamente da capital federal, de Brasília, ao lado da presidenta Dilma Rousseff. Às vezes no noticiário, Presidenta, a gente diz presidente Dilma Rousseff, mas eu sei que a senhora prefere ser chamada de Presidenta.

Presidenta: É, para fazer a concordância com o fato de eu ser mulher, não é?

Jornalista: Está certo.

Jornalista: Está certíssima.

Jornalista: Olha, é um prazer. Muito obrigado por receber a gente aqui. É uma satisfação muito grande para o Hoje em Dia. A gente fala para a dona de casa, a gente fala para o trabalhador, todos os dias, e tratamos, todos os dias, no Hoje em Dia, nesta revista eletrônica, dos assuntos de interesse do brasileiro. Então, eu sei que as pessoas sempre gostam muito de ouvir a senhora falar sobre o que dá para melhorar no Brasil, o que está sendo feito, o que já foi feito nesse começo de governo. Então, para a gente, este bate-papo é muito importante. Muito obrigado por receber a gente.

Presidenta: Olha, eu estou muito feliz de estar aqui com vocês, dois apresentadores maravilhosos...

Jornalista: Obrigada.

Presidenta: ...então eu queria dar bom dia para vocês e bom dia para todos os nossos telespectadores.

Jornalista: Olha, a primeira pergunta que eu lhe faço é muito simples: é bom governar o Brasil?

Presidenta: Olha, eu acho que é mais do que bom. Eu te diria que, primeiro, é uma honra, é um orgulho governar o Brasil, e governar o Brasil neste momento em que o Brasil é, de fato, um país reconhecido internacionalmente como um país que está fazendo as coisas corretas – está crescendo, está gerando empregos, tem enormes possibilidades a sua frente, e, além disso, hoje é um país que cresce, que distribui renda –, olha, eu vou te falar, é muito mais do que bom. Agora, é um desafio. É um desafio e a gente tem de, sempre, fazer todo o possível para estar à altura do desafio, e o desafio... sabe o que é o desafio? São 190 milhões de pequenos desafios, cada um formando uma grande nação. Então é para eles que a gente tem de governar.

Jornalista: Agora, a senhora sempre sonhou em ser presidenta? Porque às vezes as crianças têm aquele sonho: vou ser médico, vou ser engenheiro, vou ser bailarina, não é?

Presidenta: Olha, eu quero te dizer o seguinte: eu não sonhei, não.

Jornalista: Nunca passou...

Presidenta: Porque na minha época, as meninas não podiam sonhar porque não era uma coisa que estava no horizonte delas. Eu sonhei em ser duas coisas. Primeiro, eu queria ser uma combinação de bailarina com bombeiro. Eu achava bombeiro...

Jornalista: Sensacional!

Jornalista: Bailarina com bombeiro é ótimo!

Presidenta: ...com bombeiro. Porque a gente tem, em relação ao bombeiro, essa imagem que é muito real...

Jornalista: Verdade.

Presidenta: ...da...

Jornalista: Do heroísmo, não é?

Presidenta: ...da generosidade, do heroísmo, e a criança tem uma grande admiração por isso. E bailarina, pelas razões que é bonita uma bailarina. Então eu queria ser essa combinação. Eu nunca quis ser presidente. Agora eu acho que o fato de eu ser presidenta do Brasil vai transformar numa possibilidade concreta de sonho para todas as meninas e as adolescentes deste país...

Jornalista: Sem dúvida.

Presidenta: ...e as mulheres adultas. Todas podem ser. Inclusive eu queria te contar uma coisa engraçada que aconteceu comigo. Eu estava no aeroporto... até a ministra Helena, da Comunicação Social – naquela época minha assessora, durante a campanha –, estava comigo, e se aproximou de nós uma moça... um casal jovem. Era ela, uma menina, o marido, com um menino menor no colo, e ela disse para mim o seguinte: “Olha, ela está querendo” (ela, a menininha), “está querendo te fazer uma pergunta”. Eu falei: ah, pode fazer. Ela disse: “Ela está querendo saber” (e ela me olhando, a menininha)...

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: ...”se mulher pode... ela está querendo saber se mulher pode”. Aí eu falei para a menininha assim: pode o quê? Aí a mãe respondeu: “Ela se chama Vitória e está querendo saber se mulher pode ser presidenta”. Eu falei: olha...

Jornalista: Agora pode.

Presidenta: ...olha, Vitória, eu estou fazendo tudo para que mulher possa, e mulher pode. Essa cena, ela mostra isso...

Jornalista: É isso aí.

Presidenta: ...que, a partir da minha eleição, as meninas podem sonhar em ser presidentas da República porque há uma possibilidade, agora, concreta, e não precisam só sonhar em ser bailarina e bombeiro, igual eu sonhei.

Jornalista: Viu?

Jornalista: Dá para ter muitos sonhos. Aliás, olha, não é nada fácil... não foi nada fácil chegar até aqui. Ela estava falando sobre isso. Quando a menininha perguntou, ela falou: “Olha, eu estou fazendo o possível, eu estou fazendo tudo o que eu posso para mudar essa história, para provar que pode”. Vamos ver um pouquinho dessa história da presidenta Dilma Rousseff, vamos lá.

(exibição de matéria sobre a Presidenta)

Jornalista: Presidente, a gente acompanhou aí um pouquinho da história da senhora. Tem muita história para contar, sem dúvida nenhuma, mas eu queria pegar esse final da nossa reportagem que fala justamente sobre a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. O Brasil sempre abre a Assembleia Geral da Nações Unidas, mas foi a primeira vez que uma mulher abriu. Ao mesmo tempo, a senhora estava falando ali para líderes mundiais de países, muitos que respeitam as mulheres e muitos outros onde o respeito passa muito longe, não chega nem no departamento de imigração desses países. É um fato, infelizmente. Dá para levar uma mensagem positiva? Um país que está crescendo, que está ganhando destaque no mundo, que já é muito respeitado, a senhora muito respeitada. Dá para influenciar muita gente fora do Brasil também?

Presidenta: Olha, eu acredito que sim. Sabe por quê? Você imagina justamente o que você falou. Em muitos lugares ainda no mundo, infelizmente, as mulheres são vítimas de práticas bastante... de segregação mesmo, de discriminação pesada. E aí, eu acredito que a presença de uma mulher abrindo o Debate Geral da Assembleia é simbólico de que não é assim no resto do mundo. Então, é um exemplo para esses países de que países mais democráticos e que tenham uma política de respeito aos direitos humanos, porque um dos principais direitos humanos é a não discriminação da mulher, torna e transforma uma realidade concreta, para milhões, bilhões, até, de mulheres. Então eu também me senti, ali na ONU, representando as mulheres. É claro que eu representava o Brasil, não é? É claro, porque o Brasil é, não só, por direito, quem abre a Assembleia, mas é também um Brasil numa fase de extrema valorização internacional.

Jornalista: Se fosse por merecimento ia abrir agora, não é? Se fosse para começar agora, era a hora, não é?

Presidenta: Era agora que a gente ia começar a abrir. Mas eu acho que, também, os nossos antecessores tiveram imenso mérito em aproveitar justamente essa característica do Brasil, de ser um país de paz, e ser escolhido para abrir porque justamente nós éramos uma alternativa...

Jornalista: Certo.

Presidenta: ...naquele momento, inclusive, de grandes conflitos, da Guerra Fria etc. Então, naquele... ao abrir a Assembleia Geral da ONU, eu falava e representava, tanto aquelas mulheres anônimas...

Jornalista: Pois é, a senhora até falou...

Presidenta: Falei isso.

Jornalista: ...que tinha orgulho, não só de ser mulher, mas uma mulher brasileira.

Presidenta: É, brasileira. Era isso que eu estava representando, e milhões de mulheres anônimas que não têm voz, e aquelas também que lutaram, que conquistaram... como você, por exemplo, um destaque na sua vida profissional. E, sobretudo, eu acredito que essa condição de Brasil permite que essa representação seja uma representação muito amiga, muito fraterna, muito de paz, que eu acho que é o que as mulheres também querem passar. E que o Brasil, ali, chega com um orgulho...

Jornalista: Muito grande.

Presidenta: ...de ter feito o seguinte: olha, nós crescemos e distribuímos renda; nós crescemos e respeitamos o meio ambiente. Olha, nós mostramos que é possível um mundo que seja para o conjunto da população do país e não para uma parte pequena dela. Então eu acho que a gente chega ali com muito, muito orgulho.

Jornalista: Aliás, a gente vai falar sobre esses assuntos daqui a pouquinho, sobre Bolsa Família, sobre o Bolsa Verde – novíssimo em folha –, a gente vai falar com a Presidenta. Mas a gente estava falando aqui das mulheres, tem muita mulher se inspirando na senhora para seguir com a vida. Vamos ver.

(exibição de reportagem sobre mulheres que se inspiram na Presidenta)

Jornalista: São as mulheres guerreiras de todo o nosso Brasil, não é Presidenta?

Presidenta: São e eu vou te falar uma coisa: é comovente. Eu queria dizer para a Luislinda, para a Selma, para a Sônia e para... tem mais uma, não?

Jornalista: A quarta? Não, foram três.

Presidenta: Foram três. Eu queria dizer para elas que elas também me inspiram, porque eu acredito que essa força que as mulheres têm para superar desafios, elas são um exemplo. Então, elas também me inspiram e quero mandar um abraço para cada uma delas, muito forte.

Jornalista: Olha, eu quero aproveitar alguns desses exemplos, a gente vai falar muito sobre Saúde. Agora, a gente viu o exemplo dessa vitoriosa, com esse sorriso lindo no rosto, não é?

Presidenta: É.

Jornalista: Enfrentando um momento super difícil, mas com um sorriso. E bola para frente. A gente vai falar sobre isso, mas eu queria pegar como gancho aquela nossa empreendedora, porque eu sei que a senhora é uma defensora do investimento para o microempresário, para o pequeno. E a gente fala muito para a dona de casa, que, muitas vezes, usa até as receitas do nosso querido Edu Guedes... daqui a pouco o Edu vai mandar um beijo para a senhora lá de São Paulo. A gente sabe que essa dona de casa, muitas vezes, pegando as receitas ela começa a trabalhar em casa, ela monta um pequeno negócio, ela compra uma máquina de pão para vender pão na vizinhança. Enfim, não é fácil, às vezes, a gente organizar as nossas contas dentro de casa, mas o brasileiro tem sempre esse desafio. E a senhora ontem, em Manaus, lançou mais uma parte de um programa em uma luta contra a miséria, que fala justamente do cuidado ali com as florestas, da preservação do Meio Ambiente, de um incentivo para que as pessoas façam exploração sustentável. Dá para melhorar a vida do brasileiro começando assim na base, fazendo justamente isso?

Presidenta: Dá. Nesse caso a que você está se referindo, ontem, nós fomos lá na Região Norte e, especificamente em Manaus, no encontro com sete governadores da Região Norte, e lá, nós lançamos o Bolsa Verde. O que é o Bolsa Verde? Sabe aquelas populações que moram nas florestas espalhadas por toda a nossa Amazônia? O que nós estamos fazendo é dando um incentivo de R$ 100,00 por mês para que elas mantenham a floresta em pé, para que elas preservem aquilo que é um patrimônio, uma das grandes riquezas deste país. Aliás...

Jornalista: E é a casa dela, não é?

Presidenta: A casa delas... Nós estamos então juntos com os povos da floresta, que é a casa delas como ela falou muito bem, junto com toda aquela população que mora em reserva, dando esse incentivo que, com o Bolsa Família combinado, vai permitir que eles façam o manejo da floresta, que façam todo o extrativismo necessário e nós vamos comprar os produtos.

Jornalista: Olha!

Presidenta: A castanha. Nós vamos comprar o açaí. Nós vamos comprar aqueles produtos que eles podem recolher da floresta sem comprometer a floresta. Então, a gente preserva e, ao mesmo tempo, consegue assegurar que eles tenham um rendimento daquilo. Agora, olhando a Selma, voltando à Selma lá atrás... sabe que 65% dos pequenos empreendedores são mulheres?

Jornalista: Olha!

Presidenta: Eu acho que os homens também têm um papel muito importante nisso, do empreendedorismo. E essa política, que eu me orgulho muito de ter feito, primeiro, o chamado MEI – o microempreendedorismo individual –, que já existia, mas nós reduzimos a contribuição deles para a Previdência de 11% para 5%.

Jornalista: Muita coisa.

Presidenta: De mais de... um pouco mais de 57[%] para menos de 27[%]. Com isso o que é que acontece? O microempreendedor pode se aposentar, o que é uma... e pode ter acesso a todos os benefícios do crédito porque ele está absolutamente legalizado, é só isso que ele paga. Então é uma garantia para ele mesmo. Além disso, criamos o microcrédito. Vão ser mais de R$ 3 bilhões, e nós vamos, com o juro também bem mais baixo, era em torno... o juro era muito elevado para o pequeno empreendedor, nós colocamos uma taxa de juro, assim, bem menor, de 8%. Era de 60[%], só para você ter uma ideia, ninguém podia pegar, e a gente quer chegar a quase quatro milhões de pessoas recebendo esse crédito, no final do meu governo. Isso é muito bom. Por quê? Tem um sonho, não é, gente, tem um sonho. Qual é o sonho? Muita gente quer ser um empreendedor batalhador e quer... fala assim: “Olha, eu quero ter o meu negócio. Eu quero ter o meu negócio, esse é meu sonho de independência, de liberdade”.

Jornalista: E é a cara do brasileiro isso, não é?

Presidenta: É. E aí, junto com todos os incentivos ao emprego e aos trabalhadores, dar um incentivo a esses batalhadores... porque eles são isso – batalhadores, incansáveis batalhadores...

Jornalista: É, é verdade.

Presidenta: ...é, para mim, um momento muito importante. Acho que também melhora a sociedade brasileira.

Jornalista: Deixa eu pegar como gancho essa história da economia. A senhora até falou sobre isso... aliás, o café é de verdade, tá, gente? A gente está tomando café aqui...

Jornalista: (incompreensível)

Jornalista: A primeira coisa que a Presidenta falou aqui: “Vocês não vão tomar café?”. Vamos, sim, estamos tomando café aqui.

A senhora falou, na ONU, sobre economia, sobre o exemplo do Brasil, falou sobre a crise que é enfrentada internacionalmente, enfim, [que] o mundo passa por um momento super difícil e o Brasil passa por um momento muito bom. Como que o Brasil consegue se manter, nesse momento, muito bom? Como é que o Brasil não vai ser contaminado por essa crise? A gente está livre da crise, Presidenta? Não vai pegar o Brasil?

Presidenta: Olha, eu te digo o seguinte. Nenhum país do mundo, neste mundo globalizado, está livre das consequências da crise. Quais são as consequências que nós não controlamos? Por exemplo, o mercado consumidor americano, o mercado consumidor europeu, eles diminuem a quantidade de produtos que eles compram, mas o Brasil aposta em algumas coisas que fazem com que ele esteja bem mais distante da crise e bem mais protegido da crise. Primeiro, a força do mercado interno brasileiro, a força do consumo de todas essas pessoas que vocês passaram hoje, a força de consumo. Elas compram, elas hoje têm uma renda melhor, elas podem comprar alimentos de melhor qualidade para suas famílias, elas têm acesso à compra, por parcelamento, de produtos como geladeira, fogão, têm acesso a vários produtos. Então, essa força desse mercado, o fato de o brasileiro consumir, comprar, ter rendimento, ter trabalho, protege o Brasil. É como se fosse uma rede de proteção. A segunda coisa é que também nós temos hoje, para enfrentar a crise, condições melhores do que tínhamos, lá em 2008, quando nós fomos os primeiros a sair da crise...

Jornalista: É verdade.

Presidenta: ...se vocês lembram bem.

Jornalista: É verdade.

Presidenta: Por quê? Porque nós temos uma quantidade de reservas em dólar. O Brasil e, portanto, todos os brasileiros, têm uma... vou te falar isso – você entende? –, um pé-de-meia em dólar.

Jornalista: É isso aí.

Presidenta: Porque é um pé-de-meia. São US$ 351 bilhões, como vocês falaram...

Jornalista: Excelente (incompreensível).

Presidenta: ...ali na reportagem.

Jornalista: Falando em pé-de-meia...

Presidenta: Um pé-de-meia.

Jornalista: Falando em pé-de-meia, vamos falar sobre a população que está envelhecendo, não é? A expectativa de vida do brasileiro aumentou e, segundo o IBGE, no ano passado foi de 73 anos, e até 2050...

Presidenta: O que é muito bom, não é?

Jornalista: Que é muito bom!

Presidenta: Para mim é ótimo.

Jornalista: É excelente. Até 2050, a estimativa é que passe dos 80 anos. Como que o governo se prepara para isso?

Presidenta: Olha, o Brasil, ele, antes de chegar lá... de chegar lá, eu vou falar aonde. Antes de nós ficarmos um país com uma população mais velha, nós vamos ficar mais ricos.

Jornalista: Opa!

Presidenta: É muito importante a gente ficar mais rico antes de ficar um país dominantemente mais velho.

Jornalista: Dá tempo?

Presidenta: Dá tempo, e mais, tem uma outra boa notícia.

Jornalista: Oba!

Presidenta: Nós vivemos uma chamada janela de oportunidades. Por quê? Porque hoje mais... a parte maior da população é composta por adultos que podem trabalhar e garantir o retorno para aquela parte da população que não pode, que são as crianças e os bem mais idosos. Então, nós somos um país que tem uma faixa etária que é aquela... a melhor possível. A parte maior pode contribuir com o seu trabalho...

Jornalista: Produtiva, não é?

Presidenta: ...para dar sustentação para a parte que não pode trabalhar, que são as crianças e os velhos. Isso significa que, além de a gente estar numa situação muito boa do ponto de vista econômico, do ponto de vista da distribuição de renda, do avanço de todos os setores do Brasil, de ter descoberto o petróleo do pré-sal, de ter essa quantidade de minério, nós temos uma população numa faixa etária absolutamente adequada para a gente dar um salto de crescimento. Então, quando a gente fizer isso, nós temos cada vez mais de olhar para os nossos aposentados, para aqueles que deram seu esforço, que formaram as condições para o Brasil ser o que é. Então, isso é um dever das gerações com... das gerações que estão ativas, com aqueles que já deram sua contribuição.

Hoje, no Brasil, 70% dos aposentados têm suas aposentadorias corrigidas pelo salário mínimo, e como o salário mínimo cresce de acordo com o Produto Interno Bruto, mais... por aquela... vocês sabem a regra – é o PIB de dois anos antes mais a inflação –, que vai dar no ano que vem, por exemplo, mais ou menos 14% de reajuste. Mas, progressivamente, o Brasil terá de olhar para essa faixa da população e garantir a ela uma qualidade de vida, no futuro, muito boa. Por isso que o Fundo Social do Pré-Sal...

Jornalista: Importante.

Presidenta: ...não vai poder... Você não pode ficar gastando ele todo hoje. Você tem de pensar nele hoje, amanhã e depois, porque é aquela história da cigarra e da formiga: você tem de guardar para o futuro. Ou guarda um pouco para o futuro, ou você no futuro não vai ter...

Jornalista: Um pé-de-meia, não é?

Jornalista: Vai ter que pedir ajuda para o vizinho, não é?

Presidenta: E vai ficar que nem esses países da Europa estão, com essa dificuldade imensa...

Jornalista: De acertar as contas... de fechar as contas.

Presidenta: ...de acertar suas contas.

Jornalista: Presidenta, falando um pouquinho mais sobre economia. Recentemente, a gente teve o anúncio aí do aumento do IPI dos carros importados. E eu estava ouvindo uma entrevista do ministro Mantega falando que todas as empresas internacionais são muito bem-vindas no Brasil, tem que produzir aqui, que o que o Brasil não quer é empresa aventureira aqui, a gente quer gente produzindo. Mas, nos últimos anos, com o imposto mais baixo, muitas montadoras se instalaram no Brasil, geraram empregos. Então, a gente tem montadoras japonesas, europeias e elas vieram para o Brasil mesmo com o imposto mais baixo. Precisa mesmo aumentar o imposto?

Presidenta: Posso te explicar? Você falou uma coisa e eu concordo muito com o que você falou, que é o seguinte: tem de vir para o Brasil para criar emprego aqui. O que não é possível é achar que o Brasil é um país em que é possível você vir e montar uma CKD. O que é uma CKD? Você vem...

Jornalista: Vem com as suas peças e bota aqui.

Presidenta: Vem com duas pecinhas e vende o seu produto aqui. Sabe por que não pode ser isso? Porque é o seguinte: nós temos um mercado interno, aliás, uma ministra argentina disse que o mercado interno brasileiro era muito apetecible, ou seja, apetitoso. Por que é apetitoso? Porque tem grande poder de consumo. Se nós aceitarmos que, na produção de veículos, alguém venha aqui, abra uma loja, produza o produto no seu país, crie empregos lá, pegue o carro prontinho e venha vender aqui, nós estamos cedendo a eles uma coisa que nós conquistamos com o maior esforço, que é o nosso mercado interno. Então, nós queremos que qualquer empresa estrangeira que vier para o Brasil, para ela não pagar um imposto maior, ela tem de produzir aqui. Ela tem de gerar empregos aqui. Essa medida é uma medida a favor do emprego e contra o fato de que o nosso mercado interno, enquanto depender deste governo, não será objeto de pirataria por país nenhum.

Jornalista: Mas mesmo nos últimos anos, Presidenta? Porque muitos vieram.

Presidenta: Todas as empresas que estão se queixando não produziam aqui. Estavam simplesmente montando e usando mecanismos para importar e usar o nosso mercado interno. A indústria automobilística brasileira, ela está intacta. O que nós não queremos é que, nos últimos dois anos, quase 20% da nossa produção de veículos passou a ser importada. Isso é comprometer os empregos de qualidade do povo brasileiro. Isso, este governo não vai deixar.

E outra coisa, eu estive em vários países do mundo. Vou dar um exemplo, com todos eles nós falamos isso: nós não somos um país de quarta categoria ou de terceira categoria. Nós gostamos de respeito e damos o respeito... Agora, o que nós queremos? Nós queremos que: podem investir aqui, sim. Serão bem-vindos, protegidos, acolhidos e amados, porque este povo é muito generoso. Mas venham e produzam aqui, e gerem tecnologia aqui. Nós não seremos mais objeto desse uso, porque no seio dessa medida que o governo tomou, tem uma questão: nós estamos protegendo o emprego brasileiro. Eu não tenho nenhum compromisso, com nenhum país, de gerar emprego lá fora. Eu não tenho esse compromisso.

Jornalista: Ainda bem, não é?

Presidenta: Eu fui eleita pelo povo brasileiro, então eu protejo o emprego do povo brasileiro.

Jornalista: Vamos falar sobre Saúde agora. Na ONU, a senhora falou que era preciso aliar políticas públicas de Saúde a programas de Desenvolvimento Social. Falou sobre as doenças crônicas também, como hipertensão e diabetes. Queria que a senhora falasse um pouquinho como vai poder (falha no áudio).

Presidenta: ...então ela vai ter acesso. Só para você ter uma ideia, 5,7 milhões de pessoas hoje fazem... tem nisso uma vantagem.

Jornalista: Desde que começou, em fevereiro, não é? É bastante gente.

Presidenta: Desde que começou.

Jornalista: Em pouquíssimo tempo.

Presidenta: Era... é, em pouquíssimo tempo. Você vê a importância disso. E olha, ninguém que não precisa... todo mundo que tem a renda maior prefere ir comprar na sua farmácia. Não acredito que a pessoa...

Jornalista: Vai escolher a marca que o médico recomendou...

Presidenta: Vai escolher, e nós temos uma vantagem de garantir, para a população brasileira... Porque você já imaginou o que deve ser, para uma pessoa sofrer...

Jornalista: Precisar do remédio.

Presidenta: ... de hipertensão, precisar do remédio e não ter o dinheiro?

Jornalista: É muito tenso.

Presidenta: É um absurdo, porque aí é uma questão de desigualdade, que é aquela desigualdade que fere, que... enfim, que torna o mundo, assim, muito perverso.

Jornalista: Porque essa pessoa vai precisar de leito ou de internação também, não é?

Presidenta: Eu acho que é, sabe, é uma política do bem, fazer isso.

Jornalista: Presidente, deixa eu pegar como gancho isso. A senhora falou sobre a pessoa que vai lá, pega uma receita no SUS. A gente mostra todos os dias, infelizmente – a gente nem gostaria, mas, enfim, isso é o que acontece – gente na porta dos hospitais, gente sem atendimento, gente que morre no carro sem conseguir entrar no hospital. Esta semana mesmo a gente mostrou uma matéria disso, super triste: a pessoa não conseguiu atendimento e morreu dentro do carro. Infelizmente isso acontece. Dá para, realmente, melhorar a Saúde no Brasil? Primeira pergunta, e eu já emendo: e precisa de um novo imposto para isso?

Presidenta: Olha, a Saúde no Brasil, eu quero te falar uma coisa: eu tenho alguns compromissos e, sabe, compromisso mesmo tem de virar ideia fixa. Ou vira ideia fixa ou você não resolve, quando é muito desafiador. A Saúde é muito desafiadora. O meu compromisso é o seguinte: eu vou fazer de tudo para melhorar a Saúde. Eu, inclusive... nós fizemos uma pesquisa recente e essa pesquisa mostra que as pessoas criticam muito a Saúde – uma pesquisa só sobre Saúde – e elas apontam a ausência de médicos e, obviamente, do atendimento pessoal como sendo a questão mais importante. Primeiro, eu quero te dizer o seguinte, que é... esse vai ser o maior esforço meu, de melhorar: 1. a qualidade dos hospitais; 2. de aumentar o número de médicos; 3. de garantir que esses médicos vão... não fiquem concentrados só em algumas regiões mais ricas do país. Porque mesmo, mesmo em uma cidade como São Paulo, você tem um desequilíbrio imenso: aqui tem médico, ali não tem. E nós queremos garantir um padrão de hospital e de tratamento médico de melhor qualidade para a população. Então, tem um problema sério de gestão sim. A gente tem recursos e o uso desses recursos tem de ser melhorado. Pode ter certeza, isso significa: médico em hospital para atender as crianças; formar pediatras, que neste país não estão sendo formados, então, por isso que nós vamos formar 4,5 mil médicos; incentivá-los, inclusive, financiamos todo o curso dele, e, se ele servir, se essa pessoa que teve seu recurso financiado for e se dispor a atender no SUS, ele não precisa pagar o seu financiamento.

Jornalista: Olha...

Presidenta: Se ele servir no SUS. Médico que servir no SUS e tirou dinheiro para financiar seu curso de Medicina, que geralmente é caro, e servir no SUS durante dois anos...

Jornalista: Não precisa.

Presidenta: Ele terá o seu pagamento cancelado [a sua dívida cancelada]. Isso é uma coisa muito importante. Agora, eu quero te dizer uma coisa...

Jornalista: Me fala do imposto.

Presidenta: Eu não sou... é isso que eu vou falar...

Jornalista: Me fala do imposto.

Presidenta: Eu não sou, como diz a Bíblia, sepulcro caiado, não sou. Por que eu não sou? Porque eu tenho obrigação de falar para a população o que ela tem direito de ouvir.

Jornalista: Eu sei, por isso que a gente pergunta para a senhora mais, porque eu sei que a senhora fala.

Presidenta: Olha aqui, este país... você conta nos dedos o país que tem um sistema universal de Saúde. Universal, ou seja, todo mundo tem de ser atendido. Gratuito, todo mundo tem de ser atendido gratuitamente. Três [países], e, além disso, tem de ter boa qualidade. Essas três coisas, em qualquer país do mundo, tornam o serviço de Saúde caro. Nós somos a sétima economia do planeta e, se você for olhar, a Argentina, per capita, investe mais em Saúde do que nós 42%. O Chile, 27% a mais e, se você olhar o setor privado versus o setor público no Brasil, o setor privado, per capita, está colocando duas vezes e meia a mais. Aí, tem um problema, porque muitas vezes ele usa o setor público e não reembolsa. Então, aí tem de fazer um reequilíbrio. O que eu quero dizer com isso é o seguinte: não aceitem, em hipótese alguma, que a Saúde no Brasil não precisa de mais dinheiro. Não é possível aceitar isso. Isso é uma coisa perigosa. Nos Estados Unidos, levou aquela dificuldade do Obama para aprovar o Medicare e o Medicaid, e fez com que eles aprovassem um sistema de Saúde muito menor que o nosso. Porque a tese de uma parte dos políticos americanos é que é um absurdo botar dinheiro para garantir a Saúde universal. Então, no Brasil, a gente vai ter de fazer duas coisas, por isso que eu não estou pedindo hoje um aumento de impostos. Nós vamos melhorar a gestão da Saúde neste país.

Jornalista: Que ótimo.

Presidenta: E quando ficar claro para a população que ela precisa de mais coisa, ela mesma vai se encarregar de pedir, porque este país tem uma população, que você não subestima, não.

Jornalista: Não.

Presidenta: Tem gente que subestima, viu?

Jornalista: É.

Presidenta: E que acha que a população é manipulada, que porque a pessoa tem uma renda menor que a sua, que ela não pensa. Eu acho que a população brasileira, pelo contrário...

Jornalista: Sabe muito bem o que quer e do que precisa.

Presidenta: Ela é... Ela sabe muito bem, e quando ela percebe que uma coisa é justa...

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: ...ela vai atrás.

Jornalista: E veste a camisa.

Presidenta: E veste a camisa. Eu... nós temos de provar – nós, que eu falo, o governo federal, os governos estaduais e os municipais – que nós podemos gerir bem a Saúde e, a partir daí, a gente começa a conversar claro com a população.

Jornalista: Presidente, a gente falou agora sobre vestir a camisa, os brasileiros vão vestir a camisa do Brasil, a belíssima camisa do Brasil, e vamos ao Pan-Americano, vamos a Guadalajara. Estou... eu já estou arrumando minhas malas, viu, Presidenta? Nós vamos para lá, a Record...

Presidenta: Mas nós vamos acompanhar.

Jornalista: ...fazendo transmissão exclusiva para o Brasil.

Presidenta: Eu não vou, mas eu vou acompanhar todos os dias.

Jornalista: Eu tenho...

Presidenta: Eu sempre tenho... vou sempre...

Jornalista: Ficar na torcida.

Presidenta: E aquilo que eu não conseguir ver ao vivo, a gente grava.

Jornalista: Então, vamos ver, só, como a senhora vai acompanhar. Olha só o que a senhora vai ter para assistir. Vamos ver.

(vídeo com reportagem sobre os jogos Pan-Americanos)

Jornalista: Torcer, Presidenta?

Presidenta: Olha, é algo, assim, que a gente... cada um de nós... eu acho que o Esporte tem essa capacidade, de te... de mexer contigo, de fazer com que você fique torcendo e, ao mesmo tempo... porque é muito bonito. Ao mesmo tempo, você aprecia, e aí depois você torce. Agora, eu acho que eu vou, também, sofrer, porque um pouquinho a gente sofre. Eu acredito que vai ser uma experiência muito importante a gente ver, com todas essas... esses avanços tecnológicos, o jogo. E estou impressionada: vocês vão mandar 250 pessoas?

Jornalista: Muitas já estão lá.

Presidenta: Muitas já estão.

Jornalista: É, semana que vem eu estou indo.

Presidenta: Você está indo?

Jornalista: Estaremos lá.

Presidenta: Eu quero ver... Sabe por quê? Eu acho que o Esporte tem duas funções. Eu acho que uma delas... nós precisamos muito do Esporte no Brasil.

Jornalista: Concordo.

Presidenta: Nós precisamos porque ele tem a capacidade de moldar... alguém falou ali “molda uma nação”. Molda.

Jornalista: É isso aí.

Presidenta: Ele permite que os jovens e as crianças tenham uma forma de socialização que as tira das drogas, da violência. Nós precisamos muito do Esporte, porque este país adora o Esporte. Este é um país que, de fato, você não tem de fazer muito, ele já adora naturalmente. Então, esse lado do Esporte é muito importante. O outro é que eu acho que o Esporte é civilização. Eu acho que quando você coloca 42 nações, e você tem essa possibilidade de fazer com que eles troquem, eles disputem e seja uma disputa em que ganha o melhor, é muito importante, em um mundo também que tem uma pressão muito grande pela guerra e por conflitos étnicos. Eu acho que esta região – e por isso o Pan-Americano é muito importante – esta é uma região de paz.

Jornalista: Presidenta, para a gente terminar este bate-papo, a senhora não quer mandar uma mensagem para os nossos atletas, para os brasileiros que vão vestir a camisa, vão trazer tantas alegrias para a gente?

Presidenta: Eu vou mandar. Eu desejo para eles toda a sorte do mundo. Agora, eles podem saber que nós vamos estar aqui torcendo para que eles sejam vitoriosos e tragam para nós muitas medalhas. Mas a gente os apoia sob quaisquer circunstâncias. Então eles podem ter certeza também que, além da gente torcer pelas medalhas, a gente dá um suporte muito carinhoso. Eu tenho certeza que o povo brasileiro faz isso. Abraça eles e fala o seguinte: “Queremos ganhar, não é, gente?”.

Jornalista: Presidenta, olha, muito obrigado. Foi uma satisfação conversar com a senhora aqui. A gente sabe como a sua agenda é corrida. Vai viajar neste fim de semana, vai para a Europa, está correndo bastante, mas, olha, muito obrigado. A gente se despede – não é, Chris – com uma pessoa para fazer um convite também, viu?

Presidenta: Mas vocês são especiais.

Jornalista: Ah, muito obrigada.

Presidenta: Então, foi um prazer falar com vocês.

Jornalista: Muito obrigado, a gente que agradece. Muito obrigado mesmo. Tem um rapaz lá em São Paulo, no nosso estúdio, que já cozinhou para a senhora, e que quer fazer um convite, porque ele quer cozinhar de novo para a senhora. Certo, meu amigo, Edu Guedes?

Jornalista: Certo. Eu quero me colocar à disposição da nossa Presidenta. Ela sabe o carinho que eu tenho, muito especial, por ela. Nos últimos dez anos, sinto que o brasileiro está se alimentando melhor. Eu, viajando todos os estados do Brasil, todos os anos, como faço, eu sinto, sim, que a comida está chegando cada vez mais na mesa dos brasileiros. Estou aqui a sua disposição, Presidenta, para o que a senhora precisar. A gente tenta, todo dia, aqui, fazer um prato, acima de tudo, gostoso, que custe pouco e que as pessoas reúnam as famílias. Eu sei que essa é uma mensagem sua também, então eu estou aqui à disposição, viu?

Presidenta: Eu estou... já estou aceitando, já estou aceitando, principalmente o sorvete. Obrigada.

Jornalista: Ele falou isso. (falha no áudio)

Presidenta: ...sorvete... mas o dele é especial.

Jornalista: É o melhor, é verdade.

Presidenta: Ele devia ensinar o sorvete dele ali.

Jornalista: É o melhor, não é? Olha lá, Edu, olha lá.

Jornalista: Eu vou ensinar.

Presidenta: Dá uma ensinadinha, aí, de um sorvete para o pessoal, não é?

Jornalista: Presidenta, obrigado.

Presidenta: Socializa o sorvete.

Jornalista: Valeu, Edu.

 

Ouça a íntegra da entrevista (35min26s) da Presidenta Dilma