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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao programa Fantástico, da Rede Globo - Brasília/DF

por Portal do Planalto publicado 12/09/2011 13h18, última modificação 04/07/2014 11h38
Presidenta Dilma conversa com a jornalista Patrícia Poeta sobre o seu dia a dia, a participação das mulheres no seu governo, gasto público, base aliada, crise econômica, juros, recursos para a Saúde e Copa 2014, entre outros assuntos. A entrevista foi gravada nos Palácios da Alvorada e do Planalto, e veiculada no Fantástico do dia 11 de setembro

Palácio da Alvorada e Palácio do Planalto, 08 de setembro de 2011
Veiculada no programa de 11 de setembro de 2011


Patrícia Poeta: Chegamos ao Palácio da Alvorada de manhã cedo, um bonito dia de sol, mas com o ar muito seco: umidade a 13%. O caminho pelos jardins é longo, até que a fachada do Palácio se descortina. Lindo!

Logo a presidente Dilma Rousseff aparece. Chega junto com a ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Helena Chagas, de um assessor e do cabeleireiro e maquiador Celso Kamura, que ela chamou de São Paulo.

Presidente, prazer, bom dia.

Presidenta: Bom dia.

Patrícia Poeta: Que bom estar aqui com a senhora. Tudo bom?

Presidenta: Bom dia.

Patrícia Poeta: Ela cumprimenta toda a nossa equipe e se mostra de bom humor.

Presidenta: Aqui você tem que ter patins para viver aqui, ou um skate.

Patrícia Poeta: Mas ela quer começar logo.

Presidenta: Está bom, está bom, querido. Vamos embora.

Patrícia Poeta: Agora vamos trabalhar?

Presidenta: Vamos embora.

Patrícia Poeta: Vamos?

Presidenta: Vamos trabalhar.

Patrícia Poeta: Olha só, são 9h30 da manhã, 8 de setembro, quinta-feira. O que a senhora já fez hoje? Conta para a gente.

Presidenta: Olha, Patrícia, eu já li todos os jornais, pelo menos a síntese dos jornais, não é? Me preparei para recebê-la, o que não é pouco, não é, Patrícia?

Patrícia Poeta: Que honra!

Presidenta: E já fiz vários telefonemas, não é? A gente começa, telefonando.

Patrícia Poeta: A senhora está gostando de morar aqui, Presidente?

Presidenta: Olha, é muito bonito. É bom de manhã, que você pode caminhar lá fora. Tem uma grande pista, que você leva...

Patrícia Poeta: A senhora caminha, é?

Presidenta: Caminho. Como eu estou mais lenta, é uma hora e dez. Um Palácio não é um local feito para as pessoas morarem, não é? Você pode...

Patrícia Poeta: Por isso que a senhora deve usar mais a parte de cima, basicamente.

Presidenta: Mais os fundos. Geralmente é o que todo mundo usa para viver: um quarto e uma sala. Se tivesse uma cozinha era ótimo, mas a cozinha eles fizeram do outro lado. Para fazer um café de noite ou qualquer coisa, se você tiver de andar um quilômetro, é complicado.

Patrícia Poeta: Quem vem lhe visitar aqui no Palácio?

Presidenta: Olha, Patrícia, vem a minha família, basicamente.

Patrícia Poeta: Agora, o espaço é grande, não é? A senhora já teve tempo de sentar em todos esses sofás, não?

Presidenta: Olha, eu já, viu? Vou te falar com sinceridade.

Patrícia Poeta: Já inaugurou todos, então?

Presidenta: Porque quando são mais pessoas, eu recebo do lado de cá; quando são menos, é do lado de lá.

Patrícia Poeta: A senhora parece apreciar bastante arte, não é, Presidente?

Presidenta: Eu gosto muito, Patrícia, e aqui é um lugar que você convive com isso. Ali tem uma tapeçaria do Di, como você pode ver.

Patrícia Poeta: Di Cavalcanti.

Presidenta: É. Aqui não dá para botar muito quadro porque tem pouca parede. Mas na verdade, a parede é a natureza.

Patrícia Poeta: O que é que tem a sua cara aqui, que a senhora gosta, que a senhora se enxerga?

Presidenta: A biblioteca.

Patrícia Poeta: A biblioteca.

Presidenta: E acho aquela biblioteca, eu acho ela muito bonita também. E um local muito bom, eu gosto muito de conviver com livro. E livro não... Apesar de eu ter feito um esforço e aprendi a ler no iPad – eu leio hoje e-books –, eu gosto de página, gosto de papel, gosto do cheiro do papel. Uma coisa de infância, sabe?

Patrícia Poeta: Mas, em Palácio presidencial, biblioteca não é só ambiente de leitura. É palco de reuniões, muitas reuniões. E ela gosta.

Presidenta: Tem uma vantagem aqui, vou te explicar qual é: não tem ar-condicionado.

Patrícia Poeta: A senhora não gosta de ar-condicionado?

Presidenta: Se eu puder evitar...

Patrícia Poeta: Também não gosto.

Presidenta: Eu não gosto de ar-condicionado. Então, você abre essa cortina e abre a janela, e a reunião... eu posso ficar mais tempo fazendo reunião, sem aquela coisa do ar-condicionado, que é a do Planalto.

Patrícia Poeta: Na sala seguinte, mais revelações sobre os gostos da primeira presidente mulher da história do Brasil.

Como é que é acordar todo dia como Presidente da República?

Presidenta: É como todo mundo acorda, Patrícia.

Patrícia Poeta: E ter que escolher, por exemplo, uma roupa, tem que estar sempre muito bem alinhada, tem que se preocupar com isso também, não é?

Presidenta: Geralmente, Patrícia, eu acordo cedo porque eu caminho. Eu volto e aí você tem de, de fato, procurar uma roupa, rápido.

Patrícia Poeta: Tem alguém que escolhe as suas roupas, tem alguém que lhe ajuda nisso, nessa tarefa ou não?

Presidenta: Não, não. É inviável, é pouco eficiente. Você tem de dar conta das suas necessidades. Pelo fato de você ter virado Presidente, você não deixa de ser uma pessoa e é bom que você seja responsável por tudo que diz respeito a você mesma.

Patrícia Poeta: É impressão minha ou a senhora tem usado mais saias, mais vestidos?

Presidenta: Ah eu tenho usado.

Patrícia Poeta: Hoje, por acaso, a senhora não está usando uma saia, mas eu tenho visto que a senhora tem usado bastante.

Presidenta: Mas eu tenho usado mais saia do que antes. Eu poderia continuar usando só calça comprida, mas eu acho que, pelo fato de eu ser mulher, tem horas que eu tenho de afirmar essa característica feminina.

Patrícia Poeta: Pede isso, não é?

Presidenta: É, pede.

Patrícia Poeta: Tem tempo pra cuidar do visual, se preocupar com isso?

Presidenta: Olha, isso faz parte da minha condição de Presidenta. Eu não posso sair sem ter um cuidado com a minha aparência.

Patrícia Poeta: Quem é que faz, por exemplo, a sua maquiagem e o seu cabelo todo dia?

Presidenta: Eu mesma.

Patrícia Poeta: A senhora mesma?

Presidenta: Eu mesma.

Patrícia Poeta: Ah é? A senhora aprendeu a se maquiar?

Presidenta: Eu sabia desde... há muitos anos eu não me maquiava porque eu não queria.

Patrícia Poeta: E com a deixa de mostrar mais uma tapeçaria de que gosta muito, a Presidente muda de assunto. Seguimos o tour pelo Palácio.

Sua mãe, dona Dilma Jane, e sua tia, dona Arilda, seguem morando com a senhora aqui no Palácio.

Presidenta: É, é, é... diríamos, assim, que não é constante. Às vezes elas vão para Belo Horizonte. Mas eu tenho tentado fazer com que minha mãe fique aqui permanentemente.

Patrícia Poeta: Estou perguntando porque, no ano passado, eu entrevistei as duas e elas pareciam estar bem animadas em viver aqui. Sua mãe disse que queria se divertir, queria assistir a um bom filme aqui no Palácio da Alvorada.

Presidenta: Mas elas estão bem.

Patrícia Poeta: Elas têm feito isso? Têm assistido filmes? Têm se divertido?

Presidenta: Têm. Assistem mais novela, viu, a verdade é essa.

Patrícia Poeta: E a senhora assiste com elas?

Presidenta: Hoje não dá, não tenho mais tempo. Mas às vezes até assisto um capítulo aqui, outro ali.

Patrícia Poeta: Um capítulo, pelo menos.

Presidenta: E geralmente eu procuro assistir os últimos.

Patrícia Poeta: No Palácio do Planalto é a senhora que manda. E aqui no Palácio da Alvorada, é a senhora ou a sua mãe? Ela ajuda nessa tarefa, não?

Presidenta: Olha, eu acho que nenhuma de nós manda. Isso funciona por si, viu?

Patrícia Poeta: Por si só, não é? Com toda a equipe.

Presidenta: É.

Patrícia Poeta: O Palácio tem 143 empregados, mas a Presidente conta que usa pouco do que tem à disposição. Não usa, por exemplo, as oito suítes da área privativa, nem o cinema com 30 lugares. Para a sala de ginástica, só vem quando chove, e a de jogos serve apenas para ela gravar o seu programa de rádio.

A senhora não traz nem o netinho aqui para brincar, ficar um pouco aqui nesse espaço?

Presidenta: Ele não anda. Ele está para andar, ele engatinha.

Patrícia Poeta: A senhora tem recebido a visita deles, do seu netinho e da sua filha, com frequência?

Presidenta: Ele está aqui.

Patrícia Poeta: Ah eles estão aqui esta semana, não é? Chegaram no final de semana passado?

Presidenta: Chegaram e agora eles vão embora depois que ele fizer o aniversário, que é sexta ou... é sexta.

Patrícia Poeta: De um aninho já?

Presidenta: De um aninho.

Patrícia Poeta: Passa rápido, não é?

Presidenta: Passa. Outro dia ele tinha nascido.

Patrícia Poeta: E como é que são as visitas? O que é que vocês fazem? O que é que a senhora procura fazer com ele e com a sua filha?

Presidenta: Fico o dia inteiro com ele.

Patrícia Poeta: Brinca com ele...

Presidenta: Brinco, levo ele para nadar.

Patrícia Poeta: É verdade que a senhora canta para o seu netinho, de vez em quando?

Presidenta: Uai, faço tudo que toda avó faz, tudo.

Patrícia Poeta: Está curtindo esse papel de avó?

Presidenta: Olha, eu vou te falar, é um papel fantástico. É mãe com açúcar.

Patrícia Poeta: E num lugar inusitado, passando pela garagem, surge o assunto saúde. Paramos.

Como é que está a sua saúde?

Presidenta: A minha está muito boa. Agora, estou tentando, como sempre, emagrecer.

Patrícia Poeta: Mas a senhora pretende emagrecer quantos quilos? O sonho de consumo.

Presidenta: Ah não é muito, não. Uns quatro, cinco quilos.

Patrícia Poeta: Mulher quer sempre perder um pouquinho, não é?

Presidenta: Voltar... não, voltar ao que eu era antes da eleição.

Patrícia Poeta: E a senhora tem passado por um acompanhamento médico depois do câncer tratado?

Presidenta: Olha, eu, sistematicamente, acompanho, mas atualmente é de seis em seis meses. A questão do câncer, hoje, é uma questão resolvida quando você consegue detectá-lo cedo. Isso é muito importante, porque se as pessoas fazem prevenção, elas têm, então, condições de detectar e tratar. Foi o que aconteceu comigo.

Patrícia Poeta: Aos poucos, a Presidente vai nos encaminhando para cima e para fora.

Presidenta: A parte que eu acho mais bonita deste Palácio é você olhar ele de lá para cá. Meu neto fala... A primeira palavra que eu acho que ele falou é ema.

Patrícia Poeta: Além do netinho presidencial, o Palácio hospeda hoje outros nove bebês, filhotes de emas que nasceram na semana passada.

Presidenta: Tem uma chocando. É um “emo” que choca, não é?

Patrícia Poeta: Aproveito para a última pergunta que eu queria fazer antes de a gente falar de política.

Qual é o seu prato preferido?

Presidenta: Arroz, feijão, bife, batata frita e salada de tomate com alface, que era isso que eu comia na minha infância.

Patrícia Poeta: Agora, quem é que cozinha para a senhora aqui?

Presidenta: Tem um chefe e tem o cozinheiro, é ele que cozinha.

Patrícia Poeta: A senhora sabe cozinhar?

Presidenta: Eu sei. Algumas coisas eu faço direito; outras, não.

Patrícia Poeta: Eu sei uma coisa que a senhora sabe fazer.

Presidenta: Uma sopa de beterraba.

Patrícia Poeta: Tem uma outra coisa que a senhora sabe fazer bem.

Presidenta: O quê?

Patrícia Poeta: Omelete.

Presidenta: Ah, omelete.

Patrícia Poeta: Ana Maria Braga que o diga!

Presidenta: O problema meu, com o omelete, é que ele gruda. Eu não sou boa de omelete, não. Sou boa de ovos revueltos [ovos mexidos].

Patrícia Poeta: Ela avança mais um pouquinho. Fica claro o motivo. São 10h30 da manhã. Normalmente ela sai para o trabalho às 9h.

Presidenta: Você já notou que eu já comecei a ficar indócil, não é?

Patrícia Poeta: Já, já reparei pela perninha. Já reparei. Está na hora de a senhora ir para o Palácio do Planalto, certo?

Presidenta: Certíssimo.

Patrícia Poeta: A gente pode acompanhar a senhora até lá?

Presidenta: Vocês, com o compromisso de serem bem rápidos.

Patrícia Poeta: Está certo, temos um acordo aí, então.

Presidenta: Temos um acordo, então.

Patrícia Poeta: Então vamos lá, vamos acompanhar a presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto.

Estamos de volta, ao vivo, e com a segunda parte da entrevista com a presidente Dilma Rousseff. Agora, no Palácio do Planalto, a Presidente fala sobre os desafios na política, na economia e também sobre a sua fama de durona.

O trajeto entre os Palácios da Alvorada e do Planalto – a casa e o trabalho da Presidente da República – leva quatro minutos. É ela quem faz questão de me destacar esse detalhe de eficiência e rapidez, duas qualidades que aprecia muito.

Patrícia Poeta: Aqui é o gabinete da Presidente da República, certo?

Presidenta: É verdade.

Patrícia Poeta: A senhora senta aqui, a mesa para reuniões, com ministros ali à frente...

Presidenta: Ministros ali.

Patrícia Poeta: As obras que a senhora fez questão de trazer, de Djanira, não é, para cá.

Presidenta: Uma homenagem à uma mulher, das maiores pintoras deste país.

Patrícia Poeta: Eu vi que tem uma fotinha também do seu neto na sua mesa.

Presidenta: Tem, tem uma fotinha da minha filha e do meu neto.

Patrícia Poeta: Perguntamos à Presidente sobre a importância das mulheres no seu governo, em especial das ministras Gleisi Hoffmann, Miriam Belchior e Ideli Salvatti.

O comando político tem, aí, três mulheres, não é? Como é que tem funcionado esse clube?

Presidenta: Eu acho que é sempre bom combinar homens e mulheres, porque nós todos somos complementares. A mulher, eu acho, que ela é mais analítica, ela tem uma capacidade maior de olhar o detalhe, de procurar aquela perfeição, uma certa... Nós somos, assim, mais obcecadas.

Patrícia Poeta: E os homens?

Presidenta: Os homens têm uma capacidade de síntese, dão uma contribuição no sentido de ser mais, eu diria assim, objetivos no detalhe. Eles sintetizam uma questão, a mulher analisa. Então, essa complementaridade é muito importante. Mulher é capaz, porque, senão, não educava filho.

Patrícia Poeta: Agora, e as reuniões com elas, como é que são? São mais descontraídas, são mais duras? A senhora estava fazendo uma comparação, aí, com relação aos homens.

Presidenta: Não.

Patrícia Poeta: Fica...  com os homens ou não?

Presidenta: Não, eu acho que é muito similar.

Patrícia Poeta: Agora, numa reunião dessas, por exemplo, tem um momento ali de um papo mais mulher? Bolsa, sapato, filho, neto?

Presidenta: Tem, não.

Patrícia Poeta: Tem, não. Nem no cafezinho?

Presidenta: Na verdade, não tem, viu? Não, tem neto, viu? Agora que tem uma quantidade de gente com neto, todo mundo quer mostrar o seu atualmente.

Patrícia Poeta: Agora, Presidente, vamos esclarecer algo que eu acho que virou meio lenda aqui, que é o jeitão da Presidente, que é o estilo. A senhora é durona mesmo?

Presidenta: Uma vez eu disse e ninguém entendeu.

Patrícia Poeta: A senhora já sorriu...

Presidenta: Eu disse achando que eu estava fazendo uma ótima piada, mas o pessoal não entendeu direito, não.

Patrícia Poeta: Vamos explicar para o pessoal, então.

Presidenta: Eu disse o seguinte, é que eu sou a única mulher dura cercada de homens todos meigos aqui. Nenhum é duro, nenhum é tranquilo e firme, então, é uma coisa absurda. Só porque eu sou mulher e estou em um cargo que, obviamente, é de autoridade, eu tenho de ser dura. Se fosse um homem... você já viu alguém chamar... Aqui no Brasil alguém falar: “Não, fulano está num cargo e ele é...

Patrícia Poeta: Durão.

Presidenta: ...uma pessoa durona”. Não. Homem pode ser durão, mulher não.

Patrícia Poeta: A senhora acha, então, que é pelo fato de a senhora ser mulher?

Presidenta: É, e eu sou uma pessoa assertiva, que neste cargo que eu ocupo, eu tenho de exercer a autoridade que o povo me deu.

Eu tenho de achar que podemos sempre um pouquinho mais, que vamos conseguir um pouquinho mais, e que vai sair um pouco mais perfeito, vai... e que a gente vai conseguir. Se eu não fizer isso, eu não dou o exemplo e as coisas não saem.

Patrícia Poeta: E vale bronca nessa hora, por exemplo?

Presidenta: Olha, a bronca faz parte e é uma bronca meiga. É aquela...

Patrícia Poeta: Dá um exemplo para a gente.

Presidenta: “Isso não está certo, não pode ser assim”.

Patrícia Poeta: Nesse tom.

Presidenta: Ah é, é esse tom. “Não está certo e não pode ser assim”.

Patrícia Poeta: O que é que tira a senhora do sério, o que vale bronca neste governo?

Presidenta: Eu vou te falar, eu acho que... quando a gente não deu o melhor de si, me tira do sério.

Patrícia Poeta: Aí a senhora vai lá e cobra e é aí que entra a bronca.

Presidenta: Mas sabe o que é? Eu cobro de mim também.

Patrícia Poeta: E quando falam, por exemplo, do seu temperamento, isso incomoda a senhora de alguma forma, ou não, a senhora não está nem aí para isso?

Presidenta: Sabe o que é, Patrícia? Ossos do ofício. Tem vários ossos do ofício de ser Presidente. Um é esse. O caso, por exemplo, da luta contra a corrupção são ossos do ofício da Presidência, ou seja, é intrínseco à condição de Presidente zelar para que o dinheiro público seja bem gasto. Depois, eu tenho uma responsabilidade pessoal, também, nessa direção. Mas...

Patrícia Poeta: A senhora não imaginava, por exemplo, que fosse ter que trocar quatro ministros em tão pouco tempo, três deles, pelo menos, ligados aí a denúncias de corrupção. Esperava isso, não?

Presidenta: Olha, Patrícia, eu espero nunca trocar nenhum ministro, e muitos deles eu não troquei exatamente por isso, não é? Vamos e venhamos. O ministro Jobim, Nelson Jobim, ele saiu...

Patrícia Poeta: Por...

Presidenta: ...por outros motivos.

Patrícia Poeta: Mas os outros três...

Presidenta: Eles ainda não foram julgados, então não podem ser condenados.

Patrícia Poeta: Mas isso foi faxina ou não foi, Presidente?

Presidenta: Eu não acho... eu acho a palavra faxina errada, porque faxina você faz às 6h da manhã, e às 8h ela acabou. Atividade de controle do gasto público, na atividade presidencial, jamais se encerra.

Patrícia Poeta: Por que é que a senhora acha que nesses oito anos e oito meses de governo de PT, eles não foram capazes, não foram suficientes para acabar com a corrupção, já que essa é uma das bandeiras do Partido?

Presidenta: Minha querida, a corrupção, ela não... Por isso que não é faxina, viu, Patrícia? Você não acaba com a corrupção de uma vez por todas. Você torna ela cada vez mais difícil.

Patrícia Poeta: Agora, Presidente, é possível ter um governo equilibrado, um governo estável, tendo a base aliada que tem no Congresso? A minha pergunta é a seguinte: a senhora acha que a senhora pode ficar refém dos aliados?

Presidenta: Mas eu não acho, Patrícia, que eu sou refém, nem acho...

Patrícia Poeta: Nem que pode ficar?

Presidenta: Nem acho, e tem de ter muito cuidado no Brasil para a gente não demonizar a política. Nós temos uma discussão de alto nível com a base, com a nossa base, e nós vamos...

Patrícia Poeta: E como é que a senhora controla esse toma lá, dá cá, digamos assim, cada vez mais sem cerimônia, das bancadas? Como é que a senhora faz esse controle?

Presidenta: Você me dá um exemplo do "dá cá" e eu te explico o "toma lá". Estou brincando contigo. Vou te explicar. Eu não dei nada a ninguém que eu não quisesse. Nós montamos um governo de composição. Caso ele não seja um governo de composição, nós não conseguimos governar. A minha base aliada, ela é composta de pessoas de bem. Ela não é composta... não é possível que a gente chegue e diga o seguinte: “Olha, todos os políticos são pessoas ruins”. Não é possível isso no Brasil.

Vou tomar uma água.

Patrícia Poeta: Intervalo para um copo d'água. É rápido. Depois de falar sobre a corrupção, a demissão de três ministros – certamente os piores momentos que enfrentou até aqui –, pergunto sobre os acertos.

Qual a senhora acha que foi, nesses oito meses, o seu maior acerto?

Presidenta: Nesses oito meses? Deixa eu pensar. Por que eu estou pensando? Porque eu não posso te dar várias... Porque eu acho que em algumas coisas eu acertei bastante. Eu vou falar... eu acho que foi muito acertado, logo de início, ter entregue os remédios de graça. Sabe por que eu estou falando isso? Porque eu acho que a pessoa que não tem dinheiro para comprar um remédio e precisa, eu acho que é um drama humano violento. Aqui nesta mesa nós decidimos que a gente ia garantir e assegurar, para todas as pessoas do Brasil que sofrem de diabetes e pressão alta, que a gente ia assegurar o acesso ao medicamento de graça, porque nós somos o único país que faz isso nessa proporção. Por isso que eu tenho orgulho disso. Eu podia dar uma segunda?

Patrícia Poeta: Pode, vou deixar, vou deixar a senhora... já que eu tomei o seu tempo lá no Palácio da Alvorada, a senhora tem crédito comigo. Pode dar a segunda.

Presidenta: Olha, Patrícia, eu fico muito orgulhosa de uma outra coisa. É outra coisa que não é, assim, grande, mas para mim é importante. É importante reduzir imposto. Então, eu gostei de fazer isso. Para quem? Para o SuperSimples e para o MEI.

Patrícia Poeta: Em abril, a Presidente reduziu impostos pagos pelos microempreendedores individuais, os chamados MEI. E em agosto, propôs a diminuição dos impostos das pequenas empresas.

Presidenta: Então, eu acho que são as duas coisas de que eu mais me orgulho, entre outras. Se você deixar, eu penso em mais umas dez. Nós tiramos 40 milhões de pessoas da pobreza. Essas pessoas são, hoje, de classe média. O meu maior compromisso é garantir para a população brasileira, para esses 40 milhões, mais os outros que já usavam, garantir educação pública de qualidade, saúde de qualidade e segurança pública de qualidade.

Patrícia Poeta: Em seguida, pergunto sobre o novo debate nos meios políticos: a possível volta da CPMF, o chamado imposto sobre o cheque. A Presidente logo esclarece.

Presidenta: Eu sou contra a CPMF (incompreensível).

Patrícia Poeta: A senhora acha que a gente precisa de um imposto, de mais um imposto, para ter um atendimento de saúde melhor?

Presidenta: Sabe por que é que a população, ela é contra a CPMF? Porque a CPMF foi feita para ser uma coisa e virou outra. Acho que a CPMF foi um engodo nesse sentido de usar o dinheiro da saúde não para a saúde. Agora, vou te dizer...

Patrícia Poeta: A senhora está dizendo que foi desviado?

Presidenta: Foi, foi. O dinheiro não foi usado onde devia. Nós, na saúde pública do país, gastamos 2,5 vezes menos do que na saúde privada. Um país deste tamanho, o maior país da América Latina, com a maior economia da América Latina, gasta 42% menos na saúde do que a Argentina. Para dar saúde de qualidade, nós vamos precisar de dinheiro, sim. Não tem jeito, não tem jeito, tem de tirar de algum lugar. Agora, o Brasil precisará aumentar o seu gasto com saúde, inexoravelmente.

Patrícia Poeta: Isso seria quando?

Presidenta: O mais rápido possível.

Patrícia Poeta: Outra polêmica recente: houve interferência da Presidente na decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica dos juros em 0,5%?

A senhora não interferiu, nem de leve, nesse caso?

Presidenta: Não, nós não...

Patrícia Poeta: Sugeriu?

Presidenta: Nós não fazemos isso. Nós estávamos dizendo, naquela oportunidade, é que a crise econômica, quando se aprofundou, ali por agosto, ela criou uma nova conjuntura internacional. É esta conjuntura internacional que cria a diferença e não nós interferindo no Banco Central.

Patrícia Poeta: E a crise mundial? Que impacto a senhora acha que isso vai ter no Brasil nos próximos meses?

Presidenta: Nós temos um mercado interno crescente e vamos combater essa crise, crescendo.

Patrícia Poeta: Porque a indústria vem freando, não é?

Presidenta: Pois é, mas veja...

Patrícia Poeta: ...dando uma estagnada.

Presidenta: A indústria deu uma diminuída em relação ao ano passado, que nós crescemos 7,5. Nós estamos esperando esse ano crescer em torno de 4. Nós, até julho, nós geramos 1,5 milhão de empregos. Se fosse nos Estados Unidos ou na Zona do Euro – qualquer país da Zona do Euro –, eles estavam soltando foguete.

Patrícia Poeta: E como estamos na semana da notícia que a inflação deu um pulo de 0,16%, em julho, para 0,37% em agosto, pergunto se esse aumento preocupa.

Presidenta: A inflação é algo que sempre tem de nos preocupar, sabe, Patrícia. Você sempre tem de ter um olho no crescimento e o outro olho na inflação.

Patrícia Poeta: Já chegando ao fim da entrevista, a Presidente não parece tão indócil como disse estar, no Palácio da Alvorada. Então, decido partir para a última pergunta.

A senhora acha que o Brasil vai estar preparado, vai estar pronto para a Copa do Mundo de 2014?

Presidenta: Ah... Tenho absoluta certeza.

Patrícia Poeta: O que faz a senhora acreditar nisso?

Presidenta: Por quê? Porque nós vamos ter nove estádios ficando prontos até dezembro de [20]12 – no máximo, início de [20]13 –, tempo de sobra para a Copa.

Patrícia Poeta: Aeroportos.

Presidenta: Aeroportos. Nós estamos com três aeroportos em licitação, já totalmente formatada a engenharia. Vamos fazer essas licitações no final deste ano.

Patrícia Poeta: A sensação que dá, para o cidadão brasileiro, é que o processo tem sido lento, não é?

Presidenta: Mas eu posso te mostrar os estádios. Por exemplo, eu olhei... recentemente fizemos um balanço aqui. Nós monitoramos com informações online, de fotos e tudo.

Patrícia Poeta: A senhora está acompanhando, está fiscalizando?

Presidenta: Todos.

Patrícia Poeta: Presidente, muito obrigada por esta conversa, por mostrar um pouco da sua intimidade para a gente, por ter me recebido aqui em Brasília. Agora, chega de papo, não é?

Presidenta: Agora eu vou trabalhar, não é?

Patrícia Poeta: Eu tomei bastante o seu tempo. Vai trabalhar, Presidente. Prazer em conhecê-la pessoalmente. Bom trabalho, tá bom?

Presidenta: Obrigada.

 

Ouça a íntegra da entrevista (23min09s) da Presidenta Dilma

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Assunto(s): Governo federal