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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Programa do Jô - Palácio da Alvorada/DF

por Portal Planalto publicado 13/06/2015 13h12, última modificação 22/06/2015 09h46

Palácio da Alvorada-DF, 13 de junho de 2015

 

 

Jô Soares: Boa noite. Está começando mais um Programa do Jô, hoje um programa muito especial, diretamente de Brasília, no Palácio da Alvorada, conversando com a presidente da República, Dilma Rousseff. Daqui a pouco a gente volta.

Presidente, sabe que eu comecei a ter uma reputação de petista fanático, porque eu saí em sua defesa no programa “Meninas do Jô”, quando começou aquela onda absurda, louca, de “fora Dilma”, “fora Dilma”. Devo dizer que você estava em boa companhia, porque também houve “fora Lula”, “fora Fernando Henrique” e “fora, fora”, de uma maneira geral. Porque a pessoa não acredita muito que na democracia, quando a pessoa é eleita, tem que se respeitar o voto. Então, eu saí em sua defesa, não que você precisasse, mas é que eu fiquei… tem certas coisas que eu fico indignado. Eu digo: “O que que é? As pessoas pensam o quê, que muda de clube assim, de repente?”. Não pode, entendeu?

Eu aí, eu me lembro que… a gente já conversou, eu já entrevistei você, quando você ainda era chefe da Casa Civil e foi acusada, pelo Agripino Maia - muito inteligente, aliás, a acusação dele: “A senhora mentiu sob tortura”. E você disse: “Bom, sob tortura você tem que mentir, senão você entrega todos os seus companheiros”.

Já que a gente abordou esse assunto, eu gostaria que você contasse para a gente a história da… Bom, você é uma leitora fanática, de chegar a andar com mala cheia de livros e, de repente, na ânsia de ler, até bula de remédios não escapavam dos seus olhos. E como é que é a história da Bíblia, quando você estava presa, encarcerada e essa Bíblia tinha que passar para outros prisioneiros. Conta essa história para a gente.

 

Presidenta: Ah, Jô, era uma história que é assim: não tinha livros quando a gente estava em uma determinada etapa da prisão, antes de você ir para os presídios, quando você estava em algumas instalações em que ali se interrogada e, muitas vezes, se torturava. Nesses locais não tinha livros. Então, quando você conseguia algum livro - e aí entra a bula de remédios também - era muito importante que você tivesse acesso a eles, porque era a única forma de você conseguir ler alguma coisa.

E houve um padre que foi preso e ele deixou, ali dentro, ele deixou o quê? Ele deixou uma Bíblia ali, numa das celas. Essa Bíblia ela tinha de passar por uma... um espaço muito pequeno, que era umas janelinhas que tinham na porta, porque as portas não eram abertas.

 

Jô Soares: Diz que é umas janelinhas que a pessoa (incompreensível) abre.

 

Presidenta: Que abre e fecha. Então, tinha de caber naquela janelinha. Então, só tinha um jeito de caber na janelinha, se a gente tirasse a capa da Bíblia. Então, tirou-se a capa da Bíblia, dobrava-se a Bíblia e passava pela janelinha. Mas, você tinha prazo para ler. Você tinha prazo para ler porque outras pessoas queriam ler também. Ou, então, dava a volta e depois voltava para você. Entendeu? Você tinha um rodízio e aí voltava para você e você aguardava. A Bíblia é algo fantástico, ela é uma leitura que envolve de todas as maneiras. Além de ser uma expressão religiosa, da religião da qual nós, a maioria do Brasil, compartilha. Mas, além disso, ela tem uma alta qualidade literária e tem, também, histórica. Então, é uma leitura que, eu quero te dizer o seguinte: para mim foi muito importante, principalmente porque ela trabalha com metáforas. E é muito difícil, a metáfora é a imagem, o que é a metáfora? Nada mais que você transformar em imagem alguma coisa. E não tem jeito melhor de você entender e compreender do que a imagem.

 

Jô Soares: Agora, como foi a história que você conseguiu passar, enrolando essa Bíblia ou dobrando, pela tal janelinha, você teve que convencer um carcereiro, que era polícia do Exército, alto, louro, bonito, que eram chamados, eu me lembro, de “Catarina”, porque era tudo de Santa Catarina.

 

Presidenta: Sim, todos Catarinas. Eram altos, louros, geralmente de olhos azuis. porque tinha um padrão muito maior. Isso era na Polícia.

 

Jô Soares: Típico brasileiro, aquele padrão brasileiro.

 

Presidenta: Típico, típico do Brasil do Sul, vamos dizer.

 

Jô Soares: E aí, ele viu você desenhando?

 

Presidenta: Não. É porque tinha lápis de cera, tá? Como aquele lápis de cera apareceu ali naquela cela? Havia muita controvérsia da onde ele tinha surgido. Mas, enfim, ele estava ali e tinha um papel, também tinha papel, e eu fazia totens, desenhava totens. Aqueles totens de índio americano, que aparece em filme de índio americano. Várias caras diferentes, todas coloridas. E, esse guarda, que era um soldado da PE, da polícia do Exército...

 

Jô Soares: Quem eram os carcereiros eram os soldados da PE?

 

Presidenta: Eram soldados. E, ele olhou da janelinha, ele viu o desenho e achou bonito. Ele era um rapaz novo. Ele devia ter uns 18 anos, não tinha mais do que isso, era um menino. E aí, ele olhou para aquilo e uma hora eu perguntei para ele: “Você achou bonito?” E ele disse que tinha uma noiva. E que se eu desse o desenho para ele, ele iria ficar muito feliz, porque ele mandaria de presente para a noiva. E aí eu dei e pedi para ele entregar a Bíblia para o próximo. E a partir daí, ele entregava a Bíblia para o próximo, quando ele estava de serviço.

 

Jô Soares: Quer dizer, ele não era livreiro, ele era “bibleiro”.

 

Presidenta: Ele era “bibleiro”...

 

Jô Soares: Ficava fazendo esse rodízio… Presidente, como é que você enfrenta a acusação da oposição de não ter cumprido algumas das promessas de campanha?

 

Presidenta: Ô, Jô, como eu estou no quarto, não, no quinto já, já tem o quinto completo, estou entrando no sexto mês de mandato, é muito difícil dizer que eu não cumpri minhas promessas de campanha. Eu tenho um mandato para cumpri-las. Quais são as minhas promessas de campanha? A minha promessa de campanha é fazer o Brasil crescer e continuar a política de distribuição de renda e investimento em infraestrutura. Veja bem, Jô, nós precisamos de fazer ajustes fiscais. Por quê nós precisamos de fazer ajustes fiscais? O mundo está no sétimo ano da crise e, se você olhar, nem os Estados Unidos, nem a Europa, muito menos a China, saíram da crise. A China, inclusive, entrou nos últimos dois anos.

O que que nós fizemos diante da crise, que começou lá em 2008? Nós utilizamos tudo o que podíamos. E o que nós utilizamos? Nós utilizamos o Orçamento da União. O Orçamento da União bancou redução de imposto: abrimos mão de imposto para impedir que o desemprego e a redução de salários começassem lá atrás, em 2009, 2010, 11, 12, 13 e 14. Depois, nós ampliamos o crédito. E, aí, nós financiamos bens de capital com juros baixos; financiamos, também, o consumo das pessoas. Financiamos segmentos econômicos, investimentos em infraestrutura, tudo com juros mais baixos e tudo às custas do Tesouro. Além disso, se você for ver as desonerações, não só desoneramos bens de capital, mas desoneramos a cesta básica. A cesta básica hoje, no Brasil, está inteiramente desonerada, ou seja, ninguém paga imposto por precisar de consumir os produtos essenciais para a sua sobrevivência.

Além disso, nós tivemos uma série de políticas para beneficiar e assegurar que o país continuasse crescendo. Bom, nós esgotamos tudo o que podíamos. A crise durou mais do que a gente esperava. Além disso, Jô, no Brasil, nós passamos pela pior seca dos últimos tempos. No Nordeste, ela não é tão estranha, ou seja, o Nordeste geralmente teve, no passado, secas…

 

Jô Soares: Secas terríveis.

 

Presidenta: Terríveis. Esta é uma das maiores. Mas, aonde não havia seca antes e que teve uma seca, nos últimos dois anos e meio, três anos, bastante forte? No Sudeste, no Sudeste. Você vê, São Paulo e em toda aquela região onde está a chamada “caixa d’água” do país, que são os grandes reservatórios que acumulam água. E, quando acumulam água, a gente tem água. E água não paga. A água é grátis, então, o preço da energia é mais barato. Quando não tem água, você paga. Porque você tem de pagar o gás ou o carvão, ou o óleo diesel. Enfim, todo o combustível que você queimar.

Então, o que acontece? Acontece que a seca produz duas coisas ruins. Primeiro, aumenta o preço dos alimentos, porque tem seca, e aumenta também a tarifa de energia. Então, não é uma questão que se pode prometer ou não, porque ninguém controla a seca. Eu não controlo a seca. O que eu posso fazer é reagir à seca. E nós reagimos à seca. Infelizmente, você vai ter um pico de inflação. Você tem um pico de preços determinados pela inflação e, também… aliás, pela inflação, pela seca, tanto de alimentos como de energia, e também o dólar. Você tem uma correção do dólar, internacionalmente, já desde a metade do ano passado para cá…

 

Jô Soares: Presidente, a primeira coisa que você, quando acorda, a primeira coisa que você pergunta é: como é que está o preço do dólar, não? Porque é impressionante como o preço do dólar influi na economia do mundo inteiro.

 

Presidenta: Influi. Nós… o preço do dólar tem dois aspectos. Um, muito negativo, que é esse: logo que você tem um ajuste, ou seja, você passa a ter mais reais para comprar um dólar, o primeiro efeito disso é aumentar os preços internos. O segundo efeito é complicar a vida de quem viaja para o exterior. Agora, tem um efeito positivo: torna os produtos exportados brasileiros mais baratos.

Então, no curto prazo, é ruim. No médio prazo, a situação, quando o dólar faz esse movimento, porque esse movimento é um movimento de ajuste, é algo que está acontecendo em todas as economias do mundo. Então, você vai ter, daqui a pouco, uma consequência positiva disso.

Mas eu estava te dizendo: nós estamos enfrentando uma situação que ela é momentânea. O Brasil tem uma estrutura forte. Nós estamos enfrentando uma dificuldade momentânea. Nós vamos superar essa dificuldade. Aliás, essa semana, essa semana, agora, Jô, eu… você lembra, na terça-feira eu lancei um programa bastante ambicioso de investimento em infraestrutura também para ajudar o país a retomar o rumo do crescimento. Investi em rodovia, em ferrovia, o Brasil precisa ter ferrovia.

 

Jô Soares: Não, acho um pecado não ter, nunca ter havido investimento grande em ferrovias. No tempo de Dom Pedro II, houve um projeto, se eu não me engano do Barão de Mauá, também, de atravessar o país com ferrovias. E um conselheiro falou para o imperador: “Não é muito caro, porque tem que ter trilho para ir e trilho para voltar”. E aí, ele não seguiu em frente o projeto. Agora, eu queria mudar um pouco de assunto para perguntar o seguinte: você sempre foi firme na defesa das liberdades democráticas. Como é que é... é difícil manter essa posição diante da pressão dos radicais? E vou emendar com outra pergunta, você se acha pavio curto?

 

Presidenta: Eu posso te falar uma coisa, Jô. Eu acho que, diante de radicais, o melhor remédio é a democracia. O direito à livre manifestação, o direito de expressão. No Brasil, tem que ser normal se manifestar. Eu sou daquela geração que é a sua, nós sabemos…

 

Jô Soares: Muito obrigado.

 

Presidenta: Mas somos, estamos ali na beira da mesma geração.

 

Jô Soares: Nós temos em comum a hiperinflação, que é o que sempre assusta a gente.

 

Presidenta: Nós sempre assustamos, mas também temos em comum ter vivido na ditadura, não é? Nós sabemos o valor, o Brasil não pode achar estranho as manifestações. As manifestações têm de ser vistas como algo normal. Eu sempre defenderei, Jô, o direito e a liberdade de expressão de quem quer que seja. Sabe por quê, Jô? Porque, eu estava dizendo, a nossa geração sabe o que é viver quando qualquer coisa vira crime. Um estudante questionar a forma pela qual é organizada as matérias de seu curso, dava cadeia. Um operário querer ganhar um pouco mais, dava cadeia. Nós sabemos que o mundo não precisa ser desse jeito, não deve ser desse jeito e nós não podemos deixar que ele seja assim.

Agora, pavio curto, é assim: eu sempre acho que tem um pouco de comentário seguinte, diziam assim: “Ela é muito dura. Ela muito dura, ela é muito exigente e ela tem pavio curto”. Eu quero te dizer o seguinte: eu tenho imensa capacidade de resistir. Aprendi isso ao longo da vida, não é? Me prenderam, eu aprendi. Me prenderam, me botaram na cadeia, eu aprendi a resistir. A ter aquela tranquilidade que a gente tem que ter para você aguentar, sabendo que uma hora passa. Agora, Jô, eu acho que eu sou… eu sempre digo isso, eu sou uma mulher dura no meio de homens meigos. Os homens são meigos e as mulheres são duras. Eu acho que eu sou dura porque eu não posso ser uma presidente “mole”.

 

Jô Soares: Você acha que - eu sempre digo isso, mas todo mundo me diz que não. Eu acho que há uma certa dose de machismo em algumas afirmações que eu vejo e essa é uma, de ser pavio curto. Isso, eu acho que surpreende mais em uma mulher do que em um presidente homem. Você não acha que há uma - eu não estou dizendo que tudo seja uma coisa de machismo, mas enfim…

 

Presidenta: Não, eu também não.

 

Jô Soares: Outra coisa: como é que você responde às pessoas que dizem que no tempo do Mantega você comandava a economia e agora quem comanda é o Levy. Eu tenho uma resposta para isso, mas eu prefiro que você dê a sua.

 

Presidenta: A minha é a seguinte, Jô. Eu acho que, aí, há uma visão absolutamente incorreta – tanto a respeito do Mantega como do Levy. Ambos são ministros da Fazenda; ambos comandam a economia, porque a ideia de ter um ministro da Fazenda é que um presidente não pode, ao mesmo tempo, comandar a Educação, a Cultura, o Desenvolvimento Econômico, a Fazenda, o Planejamento. Então, quem comanda essas áreas são os ministros. É inviável comandar. Um presidente, ele pode orientar e ele deve orientar, mas quem toca o dia a dia e quem resolve os problemas imediatos, quem procura soluções - muitas vezes, inclusive, pode chegar e falar: “Presidente, o que você acha? Você acha assim, você acha assado? Como é que você quer que seja a condução?” Isso é normal. Agora, é impossível, é não conhecer como é que funciona um governo, achar que é assim que se dão as coisas.

 

Jô Soares: A mim me irritou demais o negócio da Economist, querendo… Aliás, um sentimento um pouco colonialista, sugerindo não, quase que dizendo que a saída era você demitir o Mantega. Quer dizer, querendo interferir na política econômica de outro país. Isso não deixou você irritada não?

 

Presidenta: Eu sei… Posso falar? Eu sei o que é a, vamos dizer, a política editorial, da The Economist, então eu não esperava, ou seja, eu não espero além do que a Economist pode dar. Eu gosto, até leio a The Economist – bastante. Acho que ela tem informações úteis. Agora, não concordo com as opiniões todas da The Economist. Por exemplo, o The Economist tem uma visão, eu acho, um tanto ou quanto distorcida, não só do Brasil, mas eu acho que tem da Europa.

 

Jô Soares: Agora, eu, como artista, se sai uma crítica ruim a meu respeito, eu fico com a impressão que está no mundo inteiro, no Viaduto do Chá, todo mundo aquilo na mão, dizendo: “Viu o que falaram? Olha o que que falaram”. Então, eu me pergunto, com tanta crítica que sai a seu respeito, você ainda lê jornal ou você diz: “Não, não aguento mais”.

 

Presidenta: Eu leio. Eu acho que as críticas… Presidente que não… Presidente tem de conviver com isso, Jô. É todo dia. Eu acho que tem hora… eles exageram um pouco, pegam pesado, entendeu? Mas, eu acho que é da atividade pública, é da atividade pública. É fato que, para uma pessoa...porque a gente fala, muitas vezes a gente fala assim: “Quando eu era normal…” O que que é “quando eu era normal”? Quando eu andava na rua, normalmente. Quando eu entrava em algum lugar, normalmente, não é? Quando eu era normal, eu poderia ficar muito incomodada com uma crítica dessas. Mas, quando você é presidente, você distingue aquilo que é da função sua. Ou seja, eu tenho de aceitar que as pessoas não gostem do que eu faço, eu tenho de aceitar.

 

Jô Soares: Tem pessoa física e tem pessoa jurídica, você separa.

 

Presidenta: É. Eu não levo no pessoal. Agora, se você quer saber se eu fico triste, fico sim, em algumas horas, bastante triste.

 

Jô Soares: É, eu também fico.

 

Presidenta: Porque é aquele negócio: ninguém é de ferro.

 

Jô Soares: É verdade.

 

Presidenta: Ninguém é de ferro, por mais que você aguente, ninguém é de ferro.

 

Jô Soares: Você perdeu o pai aos 14 anos.

 

Presidenta: Foi.

 

Jô Soares: Lutou por seus ideais, foi torturada, presa, venceu um câncer. E, olhando para o Eduardo Cunha e para o Renan Calheiros, a gente sabe que de cara feia você não tem medo. O que é que te amedronta?

 

Presidenta: Olha, eu acho que o que mais amedronta um presidente é não estar à altura do seu povo. É isso que amedronta um presidente. Então, eu me esforço, todo santo dia, para estar à altura do que eu acho que tem que ser feito pelo país. Porque tem… apesar de eu achar que nós fizemos muito, ao longo desses anos. Porque, se você for ver, quando você olha o mundo, o Brasil é um país que reduziu, de forma drástica, a miséria, a pobreza. O Brasil deu um salto na infraestrutura, em várias áreas. Ninguém pode dizer que os aeroportos do país, hoje, eram o que foram no passado, não são mais. Ninguém pode dizer que as estradas não foram… nós não investimos em estradas. Ninguém pode dizer que não houve um grande crescimento da renda e do emprego.

Nós estamos passando dificuldades, mas as dificuldades não podem justificar que você olhe para trás e fale: “Ah, nesses 13 anos, nesses 12 anos e pouco não aconteceu nada”. Pelo contrário, aconteceu sim. Tirar 36 milhões da pobreza e 50 milhões serem elevados à classe média mudou este país. E porque mudou este país, todas as pessoas que melhoram de vida elas não querem menos, Jô. Elas querem mais. Quando você melhora de vida você não quer voltar para trás, você quer ir para frente. Então, é justo que as pessoas hoje reivindiquem saúde, educação, tudo de qualidade.

 

Jô Soares: Saúde, então..

 

Presidenta: Então. É isso que eu quero estar à altura. Saúde, por exemplo, vamos abordar agora?

 

Jô soares: Não, porque eu vou fazer um break.

 

Presidenta: Ah, você vai fazer um break, tá.

 

Jô Soares: Antes, eu quero só te perguntar o seguinte. O articulador político do seu governo agora é o vice-presidente Michel Temer, que é também do PMDB. Ele foi escolhido pela habilidade política ou pela aparência? Porque ele está tão bonito! Dizem até que ele operou o cabelo e penteou o nariz. Não sei se é verdade.

 

Presidenta: Jô, eu acho o Temer um grande parlamentar. O Temer foi um grande parlamentar, com muita experiência. O Temer é uma pessoa extremamente hábil. Ele é um ótimo articulador político.

 

Jô Soares: Bom, vamos fazer uma paradinha. Fazer um break e aí a gente continua com a presidente da República Dilma Rousseff.

 

Jô Soares: Tenho aqui, ao meu lado, a presidente da República Dilma Rousseff. E, com a subida da inflação e dos juros, tem muita gente que diz que não consegue mais pagar as prestações nem da casa própria nem do crediário. Sem falar no que você mencionou agora, de cesta básica etc. No preço dos alimentos, que me lembrou… Eu assisti um comício do Jânio Quadros, que era um grande comunicador, que imitava uma dona de casa. Ele dizia assim: “A dona de casa vai à feira e… como está cara a batatinha! Como está cara a aboborinha!”. Essa subida dos alimentos não deixa você agoniada? A Dilma, pessoa física?

 

Presidenta: E a jurídica também. Eu fico bastante agoniada, viu, Jô? Eu acho que é das coisas que mais me preocupam. Porque eu sei que é passageiro, mas eu sei também que, mesmo sendo passageiro, como é que afeta a vida do dia a dia das pessoas. Fico preocupada, porque eu acho que nós vamos ter de fazer um imenso esforço. Quero te dizer o seguinte, que nós iremos fazer o possível e o impossível para o Brasil voltar a ter uma inflação bem estável, dentro da meta. Isso significa que esse processo que nós estamos vivendo, ele tem um tempo, ele não vai durar…

 

Jô Soares: Você tem ideia de um prazo assim ou é impossível de fazer?

 

Presidenta: Nós estamos esperando que melhore, nós estamos esperando que melhore no final do ano. A gente não pode chegar aqui e jurar: olha, vai melhorar no final do ano. Depende de coisas que, também, nós não controlamos. Mas eu acredito nisso. Eu acho que... e mesmo todas as avaliações de mercado apontam para uma queda da inflação nos próximos meses. E eu sei, também, que no caso, por exemplo, da casa própria, eu acho que muita gente deve ter sofrido com essa consequência. Agora, é importante sinalizar que no Minha Casa Minha Vida, nenhuma das prestações da casa própria foi aumentada. Elas não variam de acordo com os juros, elas são fixas. Então, isso também é algo que, a mim, me consola um pouco. Por quê? Porque o Minha Casa Minha Vida, ele garante o acesso à casa própria a quem tem menos renda. Então, como é que uma pessoa que ganha até R$ 1.600 compra casa hoje? Compra casa porque, hoje, o governo assegura - e isso não vai mudar -, o governo assegura que a pessoa paga uma parte da prestação, a parte menor, do valor da casa e nós pagamos a parte maior. Nós pagamos em torno de 90%, as pessoas pagam em torno de 10%. Quando a pessoa ganha de R$ 1.600 à R$ 3.220 você tem uma mudança, mas o governo continua pagando pelo menos uns 50 a 60% da casa própria. E depois, quando ela ganha de R$ 3.220 até R$ 5.000 nós pagamos seguro, nós facilitamos a garantia. E isso significa que aqui, hoje, no Brasil, nós, com o programa Minha Casa, Minha Vida, construímos 3 milhões e 750 mil moradias, destas 2 milhões e 200 estão entregues. O restante será entregue até o início do ano que vem. E agora, em agosto, inicinho de agosto, nós vamos lançar mais 3 milhões de moradias. Porque, mesmo fazendo ajuste, como o Brasil não passa por uma situação que ele é estruturalmente doente, pelo contrário, ele está momentaneamente com problemas e dificuldades. Por isso, que é importante fazer logo o ajuste para gente sair o mais rápido possível da situação. Então, o que acontece? Acontece que nós temos de, simultaneamente ao ajuste, fazer investimento em infraestrutura e manter os programas sociais, para não voltar para trás, para não voltar para aquela época que as pessoas não tinham casa, não tinham médico, não tinham acesso às coisas básicas. Eu acho que tem muito o que mudar. Eu não acho que está perfeito, acho que tem muito o que mudar, muito o que avançar e muito ainda o que construir.

 

Jô Soares: Bom, vamos falar um pouquinho daquilo que a gente começou a falar, sobre a saúde. Porque eu tenho a impressão que deve afligir demais a você, porque a gente vê, todos os dias, na televisão, doentes sendo atendidos no chão dos hospitais públicos. Fila para tudo. É uma coisa…

Sabe, imagina, eu estava fazendo um show, ainda na “Família Trapo”, na Bahia, e o Golias torceu o pé. Levamos no hospital. Chegou no hospital, era uma coisa, digo, a gente foi embora. Porque tinha gente baleada, no chão, gente em cima de maca, que você via que precisava de uma cirurgia urgente. E isso tem anos. Isso eu estou falando, anos 70, 77. E, de repente, a gente vê nos telejornais que continua a mesma coisa, uma carência na área da saúde, que eu acho que quando você vê qualquer telejornal é uma coisa que deve te indignar também. Eu acho que não é possível passar batido por uma situação tão calamitosa.

E isso te dá vontade de pegar o telefone, ligar para o ministro da Saúde? Qual é a sua reação?

 

Presidenta: Jô, presidente não pode só se indignar não. Presidente tem que fazer, a gente tem que fazer. Então, diante da situação da Saúde, porque saúde, em todo lugar do mundo, ela é cara, ou seja, é algo que necessita muito dinheiro para a gente tocar em frente.

Bom, vamos lembrar que nós, em 2000, metade dos anos 2000, nós perdemos a CPMF, que era 40 bilhões. Se você somar, se você multiplicar esses 40 bilhões, em todos esses anos, foi o que nós perdemos. Ou seja, nós perdemos, na época do governo do presidente Lula, a votação no Congresso que garantia 40 bilhões para a Saúde.

Bom, diante disso, eu passei a buscar soluções. Eu acho que uma, nós fizemos um programa que foi muito bom e que continua sendo bom. Como é que é a questão do tratamento de saúde? Começa com a atenção básica. As pessoas, quando têm a atenção básica, elas resolvem 80% dos seus problemas nos postos de saúde. Ocorre que, no Brasil, tinha posto de saúde só em regiões mais ricas e no litoral.

 

Jô Soares: E no interior tinham umas que eram um pavor.

 

Presidenta: Não, não tinha, não tinha, não tinha médico. Nós temos, aliás, nós tínhamos uma das piores relações entre pessoas e médicos atendendo. Então nós fizemos o Programa Mais Médicos. Tivemos, assim, muita reação contrária. Mas, hoje, você tem médico em toda a Amazônia; você tem médico em todas as regiões periféricas das grandes cidades; você tem médico no interior de tudo quanto é cidade, pelo menos um médico. Porque nem um médico tinha. E como é que funciona? O governo paga essa remuneração. Porque não é um salário, é uma remuneração, uma espécie de uma bolsa, para 18,5 mil médicos. Isso significa que, hoje, nós atendemos – além do que tinha em 2013 – 63 milhões na atenção básica. O que é a atenção básica resolve? Resolve 80% dos problemas. Os problemas crônicos, por exemplo, hipertensão, diabetes, asma, os problemas usuais. Porque os outros problemas têm de ser resolvidos ou nas UPAs, que são Unidades de Pronto Atendimento, para atender o pé - esse pé do Golias, que quebrou - hoje tem umas unidades que chamam Unidades de Pronto Atendimento. Eu até falo com tranquilidade que o governo entra só com o financiamento disso, paga isso. Paga a construção e paga uma parte do custeio. Quem faz essas UPAs são os estados e os municípios. Lá, nessas UPAs, tem esse atendimento. Ainda não é um atendimento completo. Como também o da atenção básica, essa dos postos de saúde com os médicos, inclusive cubanos, também, mas brasileiros, que agora voltaram - porque os brasileiros, antes, não iam para esses lugares mais remotos. A boa notícia é que nós, nessa última chamada, tivemos muitos médicos brasileiros aceitando ir e indo.

Agora, eu quero te dizer que, além disso, faltam no Brasil especialidades. Porque, hoje, uma pessoa que quebra a perna, ela precisa de ter um exame; ela precisa de ter um outro tratamento. Então as especialidades são a grande coisa que nós queremos focar nesses próximos quatro anos. E são três especialidades que nós vamos começar, porque você tem que começar: uma é ortopedia, a outra é cardiologia, e a outra é oftalmologia. Eu esqueci de falar, falei da traumatologia, dos pés, das “quebraduras” em geral. Então são três.

E acredito também, Jô, que nós teremos que ter um grande esforço na gestão hospitalar. Porque nós temos uma gestão ainda bastante frágil.

 

Jô Soares: É bem, ainda, bem precária, não é? Agora…

 

Presidenta: Agora, precisa de dinheiro, viu?

 

Jô Soares: É verdade.

 

Presidenta: Precisa. Sem dinheiro ninguém faz.

 

Jô Soares: E por que não passa, por exemplo, CPMF não passa e o Imposto sobre Grandes Fortunas é só uma ideia que fica no ar?

 

Presidenta: É uma ideia que deve ser avaliada, não é, Jô? Como todas as boas ideias.

 

Jô Soares: Olha, eu queria voltar aqui um pouco para falar da - você que é uma leitora voraz, a gente já conversou sobre isso e eu sei que é - a situação da educação. De repente, tem um corte de quase 20% no orçamento do Ministério da Educação. Será que o cobertor é muito curto, não dá? Se puxa para um lado, aí o outro lado descobre. Se puxa para o outro lado, fica faltando aqui. Isso é uma coisa que também deve te afligir, uma pessoa que lia até bula de remédio. E que sabe que, antes de qualquer coisa, não há progresso sem educação, cultura e tecnologia de ponta. Como é que… até que ponto isso deixa a presidente aflita, em relação a essa, a ter que cortar uma parte do orçamento do Ministério da Educação?

 

Presidenta: Bom, Jô, veja bem: nós cortamos tudo aquilo que nós achamos que não vai comprometer a nossa estratégia de “Pátria Educadora”. Porque eu concordo com você: para mim, a grande questão do Brasil é educação mais educação, mais educação. Por dois motivos muito importantes. Um, você acabou de falar: o Brasil, para virar um país desenvolvido e para ser uma nação soberana, ele tem de investir em ciência, tecnologia e inovação, e isso tem por base a educação. Mas tem outro motivo, também. Nós começamos o programa dizendo: “Ó, tiramos 50 milhões, 50 milhões foram para a classe média, 36 milhões saíram da pobreza”. Para isso ser sustentável e perene, duradouro e efetivo, e a gente não voltar atrás, essas pessoas precisam de receber educação de qualidade.

Nós tivemos, ao longo dos 13 anos, porque você nunca faz isso de uma… sabe, de um dia para o outro. Nós estamos construindo isso, ao longo de 13 anos, nós tivemos um aumento muito grande - eu vou falar, vou começar de cima -, nós tivemos um aumento muito grande no acesso à universidade. O acesso à universidade foi garantido através do Sistema Único, que é feito pelo Enem, que é o Sisu; nós passamos de, nós aumentamos, duplicamos o número de estudantes que fazem hoje universidades públicas. Nós demos algo que não tinha no Brasil, bolsas em universidade privada, via imposto, reduz, tira o imposto e você paga a bolsa. O governo tira o imposto e, portanto, com esse dinheiro que eles não vão pagar imposto paga-se a bolsa. Isto daí, Jô, chama-se Prouni, isso é o Prouni. E o terceiro é o Fies, o que o governo faz? Seu curso é de 4 anos, eu te financio para você pagar, você conclui o curso, se é de 4 anos seu curso você paga em 13, 13 anos depois de iniciado você começa a pagar.

Este ano que você está falando aí, que teve um corte, este ano, sabe quantos novos universitários o governo brasileiro, eu estou falando só do governo brasileiro, o governo federal. Nós vamos colocar, no primeiro semestre, 640 mil novos universitários e, somando com o segundo semestre, nós chegaremos a 1 milhão, um milhão. Antes, um milhão se fazia em três anos, 4 anos, por que só tinha três milhões de pessoas fazendo escola. Nós, hoje, este ano de 2015 teremos um milhão de estudantes, novos estudantes na rede universitária, tanto pública, quanto privada.

Além disso, no início desse governo nós olhamos, estou descendo, e vimos o seguinte: um país sem ensino técnico profissionalizante, não consegue inovar. Você precisa não só de cientista, de pesquisador. Você precisa não só de cientista, de pesquisador. Você precisa de técnico de nível médio. E, técnico de nível médio, tem de ser uma profissão valorizada Jô.

Então, o que nós fizemos? O Pronatec. O Pronatec é o Programa Nacional de Ensino Técnico. Com quem nós fizemos o Pronatec? Nós fomos e procuramos parceiros. O Brasil tem uma estrutura de ensino técnico: o Senai da confederação Nacional da Indústria, privado; o Senac, do Comércio; o Senat, do Transporte; e o Senar, da Agricultura. Com esses quatro nós fizemos uma parceria e formamos 8 milhões de pessoas, homens e mulheres – é bom dizer que as mulheres foram 52% dos 8 milhões. O que são esses 8 milhões? Primeiro, são duas partes diferentes. Uma, é dar ao estudante do ensino médio uma formação técnica de qualidade. Por exemplo, ele vai ser um eletricista de primeira time, ao mesmo tempo que faz seu ensino médio, final de ensino médio.

A mesma coisa para o trabalhador, mas para o trabalhador, aí, nós criamos cursos menores. Ou seja, de menor prazo, mas que têm uma sequência. Então, ele começa, por exemplo, como instalador de eletricidade predial. Aí, depois, ele passa para um outro curso, não é? Geralmente os cursos duram 180 dias ou três meses. Aí, além disso, você tem o que eles chamam de formação continuada: ele faz um primeiro, faz um segundo, se quiser, e faz um terceiro. Você tem, também, nesses cursos, empreendedores, microempreendedores individuais. Porque nós formalizamos esse pessoal que tem o micronegócio, o microempreendedor individual. Que pode ser a mulher que tem um cabeleireiro; a mulher que faz uma unha; o pipoqueiro; o outro, que faz um serviço. Por que é importante ele formalizar? Primeiro, ele tem acesso ao microcrédito. Ele pode tirar, vamos supor, R$12 mil e abrir um “negocinho”. Nós damos assistência para ele, ensinamos como é que ele faz as contas dele e acompanhamos isso. Ou ele pode também pagar, unificado, um percentual da sua atividade, pequeno, e ter direito à aposentadoria a partir do momento que ele cumprir os prazos.

Eu falei desses dois, tanto da universidade como do Pronatec, porque isso é típico do governo federal. Mas eu quero te falar das creches, porque sem creche… Porque o ensino, Jô, não pode falar assim, antes falavam assim: “Ou você faz um bom ensino fundamental ou você faz um ensino universitário”. Não. O ensino tem que ser bom da creche à pós-graduação. Um depende do outro. É tudo interligado. Então, por que é que eu preciso de creche? Antes se dizia “ah, precisa de creche porque a mãe vai trabalhar”. Eu acho que é bom para a mãe que trabalha ter creche, mas você precisa de creche não é para ela não, é para a criança. A raiz da desigualdade está na capacidade que a criança vai ter de ser estimulada. Quanto mais estímulo a criança tiver, melhor é o desenvolvimento intelectual, afetivo, emocional, e melhor ela se dedica, depois, ao aprendizado. Então, ter creche no Brasil não é uma questão acessória; não é um colorido. Ter creche no Brasil ataca a desigualdade na raiz e permite que você crie um futuro de crianças saudáveis. Por isso que nós temos o programa de seis mil creches. Nós não fazemos diretamente as creches, a gente dá os recursos para os municípios fazerem. A mesma coisa acontece com os demais níveis até o ensino técnico.

 

Jô Soares: Você tem controle sobre tudo isso que você me fala e que, às vezes, não depende do governo federal? Tem controle sobre...

 

Presidenta: Posso contar uma história engraçadíssima?

 

Jô Soares: Pode, claro!

 

Presidenta: Nós montamos o controle. E você só pode montar o controle no Brasil se você digitalizar. Você digitaliza... você torna.. Coloca na internet, digitaliza, sabe onde é cada uma das escolas. Então, o prefeito recebe um SMS: “Prefeito, você recebeu tanto, você tem de fazer...”. E ele tem de tirar o retrato, tirar uma foto daquela creche e tem de botar no…

 

Jô Soares: Na internet.

 

Presidenta: Não, ele bota no celular dele, que vem para nós, que entra na internet, não é? Bom, aí, nós descobrimos que um prefeito que tinha quatro creches estava mostrando a mesma creche. Você advinha como é que a gente descobriu?

 

Jô Soares: Como?

 

Presidenta: O cachorro era o mesmo. O cachorro parado na frente da creche era o mesmo das quatro creches. O que causou uma grande (incompreensível) em nós aqui. Que história é essa desse cachorro aí? Eu te contei essa história justamente para mostrar o seguinte: você tem de acompanhar.

 

Jô Soares: Ah, claro.

 

Presidenta: No Brasil todo dinheiro tem de ser acompanhado. Se você não fizer isso, você entende? Você está ou desperdiçando o dinheiro ou destinando ele desnecessariamente naquele momento.

 

Jô Soares: Você sabe que quando o Café Filho foi eleito presidente, ele era de Natal. E tinha uma coisa no Porto de Natal, que era uma pedra imensa. E que pediram a ele que mandasse dinamitar e tirasse aquilo. E ele falou: “Pode deixar”. E deu ordens. Voltou para a capital e perguntou: “E aí, e a pedra?” E mostraram até fotografias para ele. “Está vendo, presidente? Não tem mais a pedra. Foi seguida a sua instrução e não tem mais a pedra”. “Ah, muito obrigado”. Quando ele deixou de ser presidente, ele foi a Natal. Continuava lá a pedra!

 

Presidenta: E a pedra era a mesma?

 

Jô Soares: Era a mesma.

 

Presidenta: É igual essa história.. e o cachorro era o mesmo.

 

Jô Soares: Vamos falar de outro assunto, presidente, que a gente não falou ainda, mas é fundamental que a gente fale. Em 2012 você mudou o comando da Petrobras. É que você já pressentia que havia algo de podre no reino do petróleo?

 

Presidenta: Olha, ô Jô, eu quero te dizer o seguinte: eu não tinha...Não eram pessoas da minha confiança. Quando você sobe ao governo, você coloca as pessoas da sua confiança. Bom, a Petrobras não é um barquinho que você vira rapidamente, não é? Então, passou um ano e eu troquei a diretoria toda e coloquei uma diretoria da minha confiança, foi isso que eu fiz.

 

Jô Soares: Agora, o pré-sal, eu cheguei a lamber uma pedra do pré-sal…

 

Presidenta: Eu te mostrei ela.

 

Jô Soares: É, ficou de me mandar uma e não mandou.

 

Presidenta: Vou mandar, vou mandar. Prometi, agora eu vou mandar.

 

Jô Soares: Não, porque agora prometeu no ar. Tem cheiro de querosene, não é?

 

Presidenta: É.

 

Jô Soares: E eu lambi e senti que tinha gosto de sal, mas eu acho que foi a minha imaginação. A pedra está aí, não, não é? Deve estar no…

 

Presidenta: Não, a pedra está no Planalto.

 

Jô Soares: É uma pedrona.

 

Presidenta: Uma pedra.

 

Jô Soares: Tem gente que não sabe que o pré-sal já está funcionando, com mais de 500 mil barris/dia.

 

Presidenta: Bem mais. O pré-sal…

 

Jô Soares: Já me perguntaram quando é que vai funcionar o pré-sal. Quando funcionar, o preço do petróleo vai estar tão baixo que não vai mais compensar. Eu queria que você explicasse um pouco sobre isso, porque isso é uma falta de informação em vários níveis, porque as pessoas acham: “Ah, isso aí não vai dar em nada, o pré-sal não vai dar em nada”. Não têm ideia de que já está produzindo.

 

Presidenta: Olha, Jô, para você ter uma ideia dessa questão: não só está produzindo, como a Petrobras ganhou o “Oscar” na área de… este ano, a Petrobras ganhou o Oscar na área de óleo e gás.

 

Jô Soares: Mas não foi o Cerveró que foi receber, foi?

 

Presidenta: Não, querido, foi…

 

Jô Soares: Pelo amor de Deus.

 

Presidenta: O Cerveró há muito tempo não está na Petrobras. Foi o presidente, o Bendine. Este prêmio, ele é dado por capacidade de inovação e produção. Por que é inovação? Porque a Petrobras, para tirar o pré-sal, ela tria o pré-sal em torno de 5 a 7 mil metros abaixo da lâmina d’água, não é? Então, aqui está a lâmina d’água, está o mar, a 7 quilômetros, ou melhor, mais de 7 quilômetros, a 7 mil metros está o petróleo.

Bom, diziam o seguinte: primeiro, que a Petrobras não ia achar o petróleo ali; segundo que, se ela achasse, ela não ia tirar; e, terceiro, se ela tirasse, ele era de má qualidade. Tudo isso está errado.

 

Jô Soares: Não, e, quarto, não ia compensar…

 

Presidenta: Ah, por causa do preço.

 

Jô Soares: Em função do preço.

 

Presidenta: Primeiro, a Petrobras achou o pré-sal. De fato, é uma das maiores reservas comprovadas. Segundo - e, portanto, ela sabe onde está -, segundo, ela já está explorando o pré-sal há mais tempo. Nós chegamos, só no pré-sal, a 800 mil barris/dia, a produção.

 

Jô Soares: Já está em 800 mil?

 

Presidenta: Oitocentos mil barris/dia. A produção do pré-sal é extremamente complexa. Mas a Petrobras conseguiu, e por isso ela foi premiada, ela consegue explorar petróleo lá embaixo, que são grandes profundidades, altas temperaturas e muita pressão. E isso é que ensejou ela levar o prêmio. Terceira coisa, que é uma boa notícia: o petróleo, ele é de boa qualidade. Quarta questão: os custos que nós temos nessa extração são compensadores, até para os níveis mais baixos que o petróleo atingiu nos últimos tempos. Agora, inclusive, ele deu uma aumentada. Eles são altamente compensadores. A Petrobras tem, de fato, tecnologia. Quando você tem tecnologia, você não só sabe que está ali, não só tira dali, mas você tira a custos compensadores. E é isso que é importante saber.

Eu quero dizer o seguinte: a Petrobras não pode ser confundida com X, Y ou Z, em termos de números, de funcionários que cometeram irregularidades. A Petrobras tem mais de 80 mil funcionários. A Petrobras virou a página. Ela registrou o balanço, ela teve as contas aprovadas na Comissão de Valores Mobiliários do Brasil e na equivalente a essa Comissão nos Estados Unidos, que é a SEC [Securities and Exchange Commission].

Então, Jô, a Petrobras virou a página. Ela, pode ter certeza, será uma das empresas mais lucrativas do mundo nessa área. Tanto é assim que ela abriu, para tomar emprestado dinheiro no exterior e o que veio - ela queria tomar US$ 500 milhões e veio US$ 12 bi. Mas ela não queria US$ 12 bi, ela queria... o tanto que ela queria ela tomou, se eu não me engano, US$ 2,5 bi. A Petrobras, então, ela está no caminho certo, Jô.

 

Jô Soares: Presidente, antes da gente terminar esse bloco, depois ainda temos um bloco para duas perguntas e também para as suas despedidas. Primeiro, o seguinte: como é que você faz para decorar o nome de todos os ministros? Você sabe de cor? Eu tenho uma sugestão que é botar um crachá grande no peito de cada um, aí não tem erro…

 

Presidenta: Todos, sem exceção, mas não é só os nomes não. O que eu sei é o seguinte: eu sei quem é o ministro. Eu sei, assim, as qualidades dele, aquilo no qual ele se distingue dos demais. Porque cada ministro, ele tem um papel. Eu vou te dizer uma coisa: criticam muito porque nós temos muitos ministérios. Eu acho que nós teremos de ter menos ministérios no futuro. Mas eu vou te dizer porque alguns ministérios foram essenciais. Vou te dar alguns exemplos. Ninguém vai querer acabar com o Ministério das Mulheres. Eu estou aqui imaginando que ninguém está propondo que a gente acabe com o Ministério das Mulheres, que é simbólico, das mulheres, é simbólico no seguinte sentido: é importante a questão de gênero no Brasil, o combate à violência e não acredito que alguém esteja propondo acabar com… Eu estou falando dos recentes criados, o Mulheres. Ninguém…

 

Jô Soares: Não, mas ninguém pode pensar em acabar.

 

Presidenta: Nem com a desigualdade racial, também suponho; com direitos humanos, também suponho. Então, eu vou olhar alguns outros.

 

Jô Soares: Caça e Pesca.

 

Presidenta: Pesca. Pesca, nós temos um brutal, um imenso litoral. A pesca, em alguns países, é atividade que contribui com o PIB. Nós temos uma contribuição da pesca ridícula. Quando você faz esse tipo de ministério, o que você quer? Você quer uma pessoa só pensando nisso, só pensa naquilo, só quer saber daquilo. Se tiver a pesca misturada com a agricultura, eu acho até que, no futuro, você pode ter uma situação assim. Mas você tem toda uma gravitação em torno do agronegócio, ou da agricultura familiar, ou da pecuária. Agora, a pesca é um negócio à parte, não só o nosso litoral, mas todas as nossas águas internas. Nós podemos criar peixes nos reservatórios, nas lagoas. Nós temos, hoje, a possibilidade de ter uma grande indústria pesqueira, tá?

Todo mundo sabe que um dos mercados, um dos grandes mercados consumidores de peixe, é a Ásia. E a Ásia tem uma quantidade imensa de população. Então, o Brasil vai ter de se transformar, sim, num grande, um grande produtor, transformador, industrializador e exportador de peixe.

Eu vou falar em aeroportos. Eu arrancava todos os fios de cabelos da cabeça cada vez que aparecia que as pessoas ficavam não sei quanto tempo para tirar sua mala, o aeroporto estava com as suas instalações inadequadas.

 

Jô Soares: O Santos Dumont está sem ar. O ar condicionado do Santos Dumont até hoje…

 

Presidenta: Muito obrigado por você ter me dito.

 

Jô Soares: É. É um ventilador, teve que botar uma pedra de gelo perto…

 

Presidenta: E aí sopra.

 

Jô Soares: É uma coisa pavorosa.

 

Presidenta: Eu tomarei… Obrigada pela crítica. Podem criticar que a gente toma providência. Porque, você veja só… Agora, também não vale aquela, não é? Do dia da inauguração lá de Congonhas, nós inauguramos um baita aeroporto em Congonhas, aí viram uma goteira, uma única goteira, falaram: “Está comprometido esse aeroporto. Tem uma goteira ali na esquina”. Aí, não vale.

 

Jô Soares: Não, não é isso não. O Santos Dumont...

 

Presidenta: Brasília... Minas Gerais... O Aeroporto de Confins, agora, nós concedemos ele. São grandes operadores internacionais junto com a Infraero. Para quê? Porque a Infraero também vai aprender. E vai levar isso para todos os demais aeroportos. Na Copa não houve nenhum atraso. O que era dificílimo.

 

Jô Soares: Não, venceu aquele bordão: “Imagina na Copa! Imagina como vai ser na Copa!”

 

Presidenta: Pois é, imagina na Copa. E olha, nós até podemos ter perdido de sete a um lá dentro do campo. Mas nós ganhamos a Copa fora do campo.

 

Jô Soares: É, mas Santos Dumont vê se você dá um jeito, porque...

 

Presidenta: Eu vou dar. Eu vou tirar a pedra de gelo. Não, não, eu vou tirar a pedra de gelo e botar ar condicionado.

 

Jô Soares: É, botar um ar condicionado. É interessante, faz um barulho. Acho que é para convencer a gente que aquilo está gelando. Mas não está. Eu vou fazer um intervalo para as despedidas e para o nosso último bloco, aqui ao lado da presidente Dilma Rousseff.

 

Jô Soares: Tenho aqui ao meu lado a presidente da República do Brasil, Dilma Rousseff. Primeiro, eu quero perguntar, estamos já no último bloco, mas eu tenho duas perguntas para fazer. Primeiro, é o seguinte: você não pode mais ser reeleita. Não há mais uma preocupação com reeleição, que é uma coisa que ocupou o Barak Obama durante o primeiro mandato. A gente sabe que, no primeiro mandato, quando chega num certo momento, se o presidente é candidato tem que se dedicar à campanha, porque senão não consegue se reeleger. Agora não, você não tem essa preocupação. Não dá para você tomar medidas mais drásticas? Dando vazão ao seu temperamento de realizadora? Você dizer: “Não, eu quero porque quero!” Não pode fazer isso? Ou eu estou sendo absolutamente ingênuo? Como alguém que já foi candidato à presidência, perguntou: “Escuta, dá pra eu demitir senador? Eu posso mandar deputado embora?”. Mas, realmente, sem essa preocupação, não tem como você agir com mais força em certas situações?

 

Presidenta: Olha, Jô, eu acho que agir com mais força, eu tenho agido em alguns casos. Até porque falaram que eu tenho pavio curto. Porque, por exemplo, nós estávamos falando há pouco em aprovar... em ministérios específicos. Eu tenho orgulho, por exemplo, de ter aprovado a Lei dos Portos. Havia muito interesse em que a gente não aprovasse a Lei dos Portos. Ela foi aprovada. Acho que... O Marco Civil da Internet. Marco Civil da Internet deu um trabalhão para aprovar. E várias outras questões. Eu acredito que, daqui para frente - não é só porque eu não tenho reeleição - mas é, sobretudo, porque a experiência, você vai aprendendo com a experiência também, você aprende. Se tem um lugar que você aprende, eu vou fazer uma imagem, eu aprendi muito em dois lugares: sendo mãe, porque a criança te ensina. Mãe é assim: você pensa que é de um jeito, você lê, você segue tudo quanto é padrão, mas não é nada daquilo que está escrito, é uma outra coisa, você aprende. Então você vira uma mãe experiente, pega, bota fralda, faz assim, entendeu? Uma mãe que não é experiente só falta pedir desculpa para a criança para botar a fralda, porque você não sabe fazer.

Então, eu estou fazendo essa analogia dizendo o seguinte: também na Presidência, hoje, eu aprendi com quem? Eu aprendi com o que aconteceu, com o povo, com as coisas que dão certo, com aquelas que não deram certo. Sobretudo, eu acho que tem algumas questões que você vai ficando cada vez mais maduro para encaminhar e para resolver. Eu acho, então, que a resposta não é inteiramente sim para sua pergunta, mas ela é o seguinte: eu acho que daqui para frente, cada vez mais, nós vamos fazendo - o governo, no sentido do nós -, vai fazendo as coisas, assim, que são aquelas que são as demandas que nós consideramos - podemos também estar errados - mas que nós consideramos que são as fundamentais, que a população quer. E eu acho que o Brasil, hoje, é um país que precisa também de alteração em questões comportamentais. Eu acho que talvez seja essa a grande contribuição que nós vamos dar a partir do momento em que a gente tiver as coisas andando no seu ritmo mais rápido que nós precisamos.

 

Jô Soares: Uma opinião de leigo, quando eu vejo certas coisas nos jornais, me dá a impressão que você, com os aliados que tem, não precisa de oposição. Você tem que lutar, inclusive, enfrentar algumas coisas que eu vejo como malcriação, não aceitar um convite para ir jantar, sabe? São pequenas coisas que, a mim como cidadão, me irritam profundamente. Então fique tranquila, porque você não precisa de oposição, realmente. Não há necessidade.

E finalmente o seguinte, uma última pergunta: você é a primeira mulher a ocupar esse cargo, o cargo mais importante, mais digno que existe na política, que é ser Presidente da República, e Presidente da República do Brasil, que é mais complicado, porque é um país imenso. Quando eu vejo a fila de questões que você tem que tratar, o nível, a quantidade de pessoas com quem você tem que falar, realmente é uma coisa admirável. E não é por dizer “ah, e ela é mulher”. Não é isso. O que eu quero dizer é o seguinte: como é a primeira mulher a ser eleita para a Presidência do Brasil, como é que você quer ser conhecida nos livros de história?

 

Presidenta: Ô Jô, a história - eu até falei isso outro dia - a história, talvez, seja o nosso juiz mais rígido. Eu quero ser conhecida pela história como a pessoa que não abandonou duas coisas: o interesse do seu povo e a soberania do seu país. Sempre isso tem de estar na pauta, porque também, além da soberania do país, tem uma coisa que engloba as duas, que é a autoestima da população deste país. Nós somos a sétima economia do mundo. Nós não temos fragilidades. Este país tem US$ 378, tá bom, US$ 370 bilhões de reserva. Este país tem estruturas democráticas sólidas: tem um Judiciário, tem o seu Congresso, o seu Parlamento e tem o Executivo. Independentes e tendo de conviver com harmonia. Eu sou a favor da harmonia entre os Poderes. Acho que independe do que eu acho ou deixo de achar de quem quer que seja. Há um tratamento que diz respeito àquela autoridade, porque ela representa um Poder que está previsto na Constituição.

Além disso, este país, ele tem uma força imensa. Ele tem uma agricultura ultra competitiva, tanto uma agricultura comercial como uma agricultura familiar. Ele tem um conjunto de empreendedores fortes; ele tem uma mão de obra; ele tem petróleo; ele tem minério. E ele tem esse povo que é fantástico, por quê? Porque eu acho que um povo que é formado de negro, de índio e de branco, que é uma mistura, pegou das três etnias o que havia de melhor. Você já imaginou se a gente não tivesse a alegria que vem com a população, que veio com a população negra? A alegria, a força, a criatividade? Você já imaginou se a gente não tivesse a contribuição da civilização portuguesa ou das outras daonde nós viemos, e do índio, e do índio, que tem essa relação absolutamente surpreendente com a natureza? Então, eu acho que nós temos tudo para ser um país que faz diferenças. A gente faz a diferença na mudança do clima, Jô. Todo mundo quer conversar com o Brasil sobre mudança do clima e fazer um acordo. Por quê? Porque nós somos o único país que, voluntariamente, passou uma lei dizendo que até 2020 reduziria 36% da emissão de gás de efeito estufa.

Pois bem, nós estamos… Isso, em relação a 2005. Nós estamos em 2015, faltando cinco anos. Nós cumprimos 72% da mais ousada meta de redução do efeito do clima. Por que nós pudemos fazer isso? Porque nós somos capazes de ter muita hidrelétrica, eólica, biomassa, porque nós fazemos uma agricultura chamada de baixo carbono, plantamos direto na palha, isso aumenta a nossa produtividade, reduz todos os comprometimentos do meio ambiente. Porque nós somos capazes de rotar lavoura, pecuária e floresta. Enfim, porque nós acreditamos que é possível crescer, incluir, conservar e proteger.

Então, eu falo isso sabe por que, Jô? Porque eu acho que no Brasil tem uma coisa que eu não vejo em outros países. Eu acho que nós somos mais críticos conosco do que nós merecemos. Aliás, eu não acho isso. Você fez um comentário comigo sobre isso, e eu acredito que isso é algo que nós temos de saber que acontece conosco.

Eu estive recentemente num país que muitos comparam com o Brasil, mas que ele tem metade da sua população abaixo da linha da pobreza. Então, nós temos grandes vantagens, hoje. E nós temos de saber usá-las. Porque um povo que não tem esperança, também não constrói o futuro. Nós precisamos de esperança, nós precisamos da confiança do povo em si mesmo.

 

Jô Soares: Muito bem. Quero agradecer à presidente Dilma Rousseff por essa entrevista, para mim um momento histórico, nos meus 54 anos de profissão. Agradeço demais o seu tempo, sendo uma pessoa tão ocupada. Eu espero que tenha sido bom para você também, porque hoje é dia dos namorados, afinal de contas, temos que sair daqui os dois muito satisfeitos.

 

Presidenta: Muito satisfeitos.

 

Jô Soares: Boa noite. Obrigado.

 

Presidenta: Boa noite, Jô.

 

 Ouça a íntegra(01h07min28s) da entrevista da Presidenta Dilma