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Entrevista concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Jornal do SBT - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 28/10/2014 22h10, última modificação 29/10/2014 10h33

Palácio da Alvorada-DF, 28 de outubro de 2014

 

 

Jornalista: Olá, boa noite. Vamos conversar agora com a presidente da República, Dilma Rousseff, que acabou de ser reeleita no último domingo. Presidente, parabéns pela sua reeleição, muito obrigado por nos receber aqui para essa entrevista.

Presidenta: Muito obrigada, Kennedy. Queria desejar boa noite a todos que nos acompanham aqui hoje.

Jornalista:  Presidente, a senhora conversou hoje com o Barack Obama, presidente dos Estados Unidos…

Presidenta:  É verdade, conversei, sim.

Jornalista: O que vocês falaram? Marcaram a tal visita de estado a Washington?

Presidenta: Olha, nós marcamos primeiro que vamos nos encontrar agora, dia 14, 15,  no G20, lá na Austrália. Ao mesmo tempo, decidimos que vamos tomar todas as medidas para que possamos continuar as nossas relações estratégicas, incluindo visitas de Estado recíprocas nesse segundo mandato meu e dele.

Jornalista:  E qual que é a prioridade com os Estados Unidos? O que está no topo da nossa agenda para discutir, presidente?

Presidenta: Olha, nós temos uma agenda vastíssima com os Estados Unidos. Ela não parou até agora. Ela abarca questões econômicas, abarca todas as questões relativas, por exemplo, a bitributação, a acordos bilaterais a respeito de setores específicos, algumas questões contraditórias que foram resolvidas, como é o caso do algodão, e nós temos imenso interesse em uma parceria estratégica com os Estados Unidos no que se refere à inovação, ciência, tecnologia. Isso é, eu diria assim, o centro da agenda. Ao mesmo tempo, cooperação nas áreas estratégicas de defesa, em todas as áreas, como eu já disse, tecnológicas e uma discussão a respeito das nossas relações comerciais, até porque, a partir de um determinado momento, nós viemos tendo déficits comerciais crescentes com os Estados Unidos e ...

Jornalista: A senhora quer inverter isso?

Presidenta: Eu quero inverter. Não, mas é mais do que inverter. Eu acho que é uma relação ganha-ganha. Nós temos, com os Estados Unidos, uma série de possibilidades e potenciais. Esses potenciais nós queremos desenvolver.

Jornalista: Assunto da espionagem foi discutida, presidente?

Presidenta: Olha, sempre nós tratamos dessa questão. É óbvio que vai ter de ter um acordo sobre isso para que a gente tenha uma desanuviada relação.

Jornalista: E aí marca a visita em Washington?

Presidenta: Sim. Mas eu acho que está bem encaminhada, eu diria, Kennedy. E também tratamos de assuntos do tipo: ele me sugerir que eu devo tirar um tempo maior de descanso.

Jornalista: A senhora vai descansar agora uns dois dias lá na Bahia, na praia?

Presidenta: Eu estou tentando descansar três. Mas ele estava me dizendo que, da última eleição, ele descansou pouco e depois teve de descansar mais porque o desgaste eleitoral em uma campanha é muito grande, né?

Jornalista: Foi dura a campanha mesmo. Presidente, vou falar um pouquinho de Petrobras, no sentido de estatais. Esse modelo de partido político indicar diretor acabou resultando, a senhora mesmo falou aí, em fatos na Petrobras que a senhora quer investigar. No segundo mandato para direção das estatais, os partidos vão poder fazer indicações ou a senhora vai chamar esse assunto só para a senhora no Palácio do Planalto?

Presidenta: Veja você, Kennedy, no meu primeiro mandato, que é esse que eu estou, foi assim. A direção da Petrobras, a partir do dia em que eu fiz todas as mudanças no início do meu governo, que foi em março/abril de 2012, todas as indicações foram técnicas.

Jornalista: Quando o Paulo Roberto saiu, aquela turma toda.

Presidenta: Quando saiu todos os diretores. Eu não quero falar dos demais porque os demais têm pessoas de extrema qualidade, tá? Mas eu passei a não deixar indicação política dentro da Petrobras.

Jornalista: E agora tem um novo governo, um novo mandato começando. Vai continuar assim?

Presidenta: Vai continuar assim.

Jornalista: Presidente, a oposição e setores da sua base de apoio, sobretudo do PMDB, estão falando em criar uma nova CPI da Petrobras. A senhora acha isso necessário, já que há duas CPIs hoje, há uma investigação no Supremo e na Justiça do Paraná ou isso é uma chantagem de setores da base do governo?

Presidenta: Kennedy, eu acredito que tudo que for investigação da Petrobras pode ser feita. O governo não vai criar nenhum obstáculo a isso. Agora, eu acho que tem uma investigação, que é essa que é importante - a investigação que está sendo desenvolvida pelo, obviamente, a Polícia Federal, Ministério Público e o Supremo, que é essa que ensejou a delação premiada.

Jornalista: Então faz sentido ter uma CPI, presidente?

Presidenta: Eu acho que não há nenhum obstáculo que tenha…

Jornalista: A senhora não colocará obstáculo?

Presidenta: Não, não colocarei. Agora, esta investigação que está em curso, ela é muito importante. Eu não trato de corrupção, viu, Kennedy, só em época eleitoral. Eu trato de corrupção, e a partir de agora eu vou ser extremamente atenta, como eu venho sendo durante todo o meu governo, para os desdobramentos dessa investigação da Petrobras, porque eu acho que nós temos uma oportunidade única, que é acabar com a impunidade. Sabe por que, Kennedy? Até aqui o quê que acontecia…

Jornalista: A gente pune os corruptos, mas não os corruptores, né, presidente?

Presidenta: E também não muitos corruptos. O quê que aconteceu? Vários processos que foram desenvolvidos no Brasil, objetos de CPI. O quê que acontece no final? No final, acaba como o povo diz, em pizza. Ou seja, o corrupto e o corruptor não são punidos e não vão para a cadeia. Se você mantém a impunidade, você está sancionando a corrupção. Então, eu quero essa investigação doa a quem doer, não deixando pedra sobre pedra e também, uma comunicação integral de todas as informações para a população, de forma que, Kennedy, os vazamentos seletivos estranhos e que interessam a grupos políticos que manejam essas informações, não ocorram mais.

Jornalista: A senhora acha que na campanha a senhora foi vítima de vazamento seletivo para tentar impedir a sua reeleição?

Presidenta: Eu fui vítima, nos últimos dias da minha campanha, de um vazamento seletivo estranhíssimo. Por quê? a acusação não é feita e a prova não é mostrada. Nem a acusação fica clara qual é. Então, pode ter certeza de uma coisa, Kennedy, doa a quem doer, não vai ficar pedra sobre pedra nessa investigação.

Jornalista: Presidente, passada a eleição, há uma discussão muito séria em São Paulo que atinge a vida real das pessoas: a questão do abastecimento de água. Que medidas o governo federal pode adotar? A senhora tem um plano, presidente, para ajudar no abastecimento de água em São Paulo?

Presidenta: Olha, Kennedy, desde o início do ano, nós temos tido uma relação de alto nível com o governador Alckmin, no seguinte sentido: eles têm, foi feito pelo governo de São Paulo uma avaliação de que se não houvesse investimento em algumas adutoras ou algumas transposições, haveria uma crise hídrica no estado. Baseado nesse estudo, tá, eu conversei com o governador e disse para o governador que eu achava a situação extremamente séria e que quando aconteceu isso, no passado, no setor elétrico, por falta de água e tal, não planejamento por parte do governo federal da época, eu tomei medidas emergenciais e sugeri a ele que tomasse medidas emergenciais do tipo: faça licitação, chame o Tribunal de Contas, abra um processo licitatório, tipo assim, rápido, ou seja, que a gente chama de (incompreensível), e faça as medidas possíveis, aquelas que vão impedir emergencialmente que haja a crise.

Jornalista: E tem alguma ajuda que o governo federal pode dar?

Presidenta: Nós fizemos o quê? Nós nos dispusemos a financiar e financiamos esse projeto do São Lourenço, da adutora do São Lourenço, esse projeto… nós financiamos o projeto. E agora liberamos o financiamento de 1 bilhão e 800 milhões para financiar a construção em si. Agora, isso não basta, Kennedy. A questão em São Paulo é mais grave. Agora, você sabe que a água, pela Constituição, ela é responsabilidade dos estados e/ou municípios. No caso da cidade de São Paulo é do estado por meio da Sabesp. Então é óbvio que se o governador pedir, a hora que ele pedir, o governo federal estará pronto para ajudar. Agora, nós não podemos assumir a iniciativa. Eu vou te dar um exemplo, Kennedy. No Nordeste, no Nordeste são nove estados. Dos nove, oito extremamente com uma situação crítica. Todos os governadores, independente de partido político, pediram a nossa ajuda. Nós temos um volume de obras de 32 bilhões de reais com o Nordeste, seja uso do orçamento da União diretamente, seja financiamento do Ceará até Sergipe, passando pela Bahia, por Pernambuco, todos os estados têm obras para garantir a segurança hídrica.

Jornalista: Presidente, falar um pouquinho de economia aqui.  A senhora falou bastante em diálogo. O Steinbruch, presidente da Fiesp, deu uma entrevista ao SBT dizendo que, no primeiro mandato, a senhora centralizou as decisões, que faltou discussão, na opinião dele, e que ficou um governo, na opinião dele, distante da realidade. A senhora tá falando em dialogar mais agora, presidente. Como é que vai ser esse diálogo? A senhora vai chamar os empresários para reuniões para definir medidas concretas para economia na volta do seu descanso? Como é que vai ser esse diálogo?

Presidenta: Olha, Kennedy, eu tenho um bom diálogo, eu tenho desenvolvido um bom diálogo com todo o setor industrial, sempre conversei com o setor financeiro. Agora, o que eu vou abrir o diálogo é: eu quero saber a posição deles a respeito da realidade. Então, é isso. É ter um diálogo franco, aberto.

Jornalista: Vai fazer uma reunião com os setores?

Presidenta: Vou fazer com vários setores, né? Uma reunião sempre com menos pessoas, ela é mais produtiva.  

Jornalista: Isso antes de indicar o ministro da Fazenda ou a senhora já tem aí no peito, no coração, na cabeça e já está decidido o nome e não quer falar?

Presidenta: Kennedy, eu acho que vocês são tão curiosos sobre esse assunto. Eu quero te dizer o seguinte: eu não vou hoje, obviamente, dizer a respeito de como é que isso vai ser. Isso é muito delicado, né? Afeta expectativas. Agora eu quero te dizer que, antes do final desse ano, eu vou deixar isso bem claro, fazer discussões, olhar qual é a sugestão…

Jornalista: A senhora já escolheu o nome?

Presidenta: Não, Kennedy, eu não vou me manifestar sobre isso…

Jornalista: Tá bom, presidente.

Presidenta:  …porque eu não estaria falando a verdade para você

Jornalista: Presidente, o Fundo Monetário Internacional aumentou a previsão de crescimento dos Estados Unidos para este ano, de 1,7 para 2,2%. E a previsão é que vai crescer em 2015, os Estados Unidos, 3,1%. Com a economia americana melhorando, é possível rever alguns estímulos que foram dados aqui no Brasil no seu primeiro mandato, por exemplo, desonerações que são reduções de impostos para alguns setores. A senhora pode retirar, já que a situação lá está melhorando?

Presidenta: Olha, Kennedy, eu acho que tirar redução de imposto não é muito bom. Algumas reduções que nós fizemos foram conjunturais e até já foram, uma grande parte já foi retirada. Mas, por exemplo, desoneração da folha. Não tem nada a ver com a melhoria, que seja, graças a Deus se for, de fato, uma melhoria da situação da economia americana. Não tem nada a ver com ela. A desoneração da folha de pagamento é uma forma do Brasil melhorar a produtividade do trabalho, já que nós não estamos tirando direitos trabalhistas como fizeram lá fora, nem tampouco reduzindo salários ou desempregando.

Jornalista: É que ao desonerar, presidente, a senhora deixa de arrecadar tributos. Ao mesmo tempo, o mercado critica que não cumpre a meta fiscal. Ou seja, para arrumar dinheiro, para uma política fiscal cumprir a meta, o dinheiro tem que sair de algum lugar. Não é retirando as desonerações?

Presidenta: Mas veja bem, Kennedy, eu acho que um país tem de ter uma escolha. Eu não vejo sentido… se fosse para gastar a desoneração da folha, se a gente fosse gastar… a gente não vai gastar. Pelo contrário, a gente vai transferir para o setor privado. Então, de uma certa forma, nós estamos fazendo uma poupança indireta. O governo não está gastando aquilo que, de outra forma, ele estaria arrecadando. Então, eu não vejo uma contradição entre o superávit primário e a desoneração. Eu acho que tudo o que for desoneração está contribuindo, ou seja, é uma medida econômica que contribui também, como o superávit primário, para que a gente tenha contas robustas.

Jornalista: Presidente, a senhora pretende conversar com o Aécio Neves e com a Marina Silva sobre uma reforma política?

Presidenta: Olha, Kennedy, sem a menor sombra de dúvida eu estou aberta ao diálogo. Eu acho que a palavra correta no início de um governo é se abrir ao diálogo com todos os setores. O Aécio, a Marina, é óbvio que vou.

Jornalista:  Vai chamá-los para uma conversa?

Presidenta:  Sim, posso chamá-los sim.

Jornalista: E o PSB, que apoiou o governo Lula, apoiou parte do seu primeiro mandato? A senhora pretende que o PSB volte a compor a sua base de apoio no Congresso?

Presidenta:  Sabe o quê que eu acho, Kennedy? É que depois do processo eleitoral, um governo e uma presidenta reeleita têm de fazer o quê? Tem de ter disposição e abertura para dialogar. Por quê? Porque é necessário que a gente crie no Brasil pontes. Não precisa ter as mesmas posições. Quando eu falo em união, eu não quero aquela união que torna tudo pasteurizado. Eu quero a união que as pessoas mantenham as suas posições, as suas diferenças de opinião, que possam agir de forma diversificada, não é monolítica, e que, ao mesmo tempo, conversem. Porque a conversa, ela não implica em abrir mão de nada. A conversa, pelo contrário, ela mostra generosidade, mostra espírito público, mostra disposição para trabalhar para o futuro do país.

Jornalista: Mas presidente, a senhora defende a candidatura do Lula em 2018?

Presidenta: Olha, eu já disse uma vez e vou repetir: o que o Lula quiser ser, eu apoiarei.

Jornalista:  Vai criminalizar, dar apoio a um projeto para criminalizar a homofobia?

Presidenta: Eu darei integral apoio a isso. Sabe por quê? Eu acho que é uma medida civilizatória. O Brasil, ele tem de ser contra a violência que vitima a mulher, a violência que muitas vezes de forma aberta ou escondida também fere os negros, que é a maioria da nossa população. E também tem de ser contra a homofobia, porque isso é, de fato, uma barbárie.

Jornalista:  E vai apoiar o projeto que legaliza o casamento civil homossexual?

Presidenta: Olha, eu apoio a decisão tomada na Suprema Corte, que tornou o casamento civil uma... reconheceu, todas as características do casamento civil. Agora, o casamento religioso, cada igreja que resolva como quer fazer.  

Jornalista: A senhora vai encaminhar ao Congresso um projeto para regulamentar a mídia?

Presidenta: Não. Eu não vou regulamentar a mídia no sentido de interferir na liberdade de expressão. Eu sou de uma época, sabe, que eu vivi sob a ditadura. E, ao viver sob a ditadura, eu sei o valor, o imenso valor da liberdade de imprensa. Agora, como qualquer setor econômico - porque a mídia não é só um setor cultural ou jornalístico, ela é um setor econômico, ela tem de ter regulações econômicas.

Jornalista: Aí a senhora vai mandar esse projeto então esse (incompreensível)

Presidenta: Vamos discutir ele bastante antes de fazê-lo.

Jornalista: E vai apoiar uma discussão para ampliar o direito de resposta, modificar o direito de resposta em veículos impressos, revistas e jornais?

Presidenta: Olha, eu acho que é um direito, é democrático o direito de resposta. Acho que esse direito de resposta, ele tem que ser, de fato, regulamentado. Também não pode ser... as pessoas também não podem se dar ao luxo de muitas vezes querer bloquear informações por que se sentem ameaçadas ou feridas por isso que tem de regulamentar, para colocar limites claros.

Jornalista: Presidente, já há resistências no Congresso à sua ideia de uma reforma política via plebiscito. Renan Calheiros falou contra. A senhora admite abrir mão de um plebiscito, examinar a possibilidade de um referendo, admite negociar a questão do plebiscito?

Presidenta: Olha eu quero a participação popular, Kennedy. Eu vi, nesse processo eleitoral, eu estive com muitas, muitos movimentos, muitas representações, OAB, CNBB, movimentos sociais, órgão da sociedade civil, e eles fizeram aquela coleta de assinatura. E foi uma coleta de assinatura muito expressiva. Eles me deram a cópia e nessa cópia dizia que eles chegaram, eu tenho dúvida se foi de 7 ou foi 8 que eles chegaram. Quase 7 ou quase 8, e eles propõem duas coisas: Eles propõem consulta popular, plebiscito, referendo o que for, e propõem uma Assembleia Constituinte exclusiva. Eu acredito que eles têm esse projeto, que eles devem encaminhar. Por que eu acho que não interessa muito se é plebiscito ou referendo? Por quê? por conta do seguinte: é importante saber o que vai constar da reforma é isso que está na pauta. Se a gente tiver um acordo amplo sobre o que vai constar na reforma…

Jornalista: Uma coisa ou outra?

Presidenta: Pode ser uma coisa ou outra. Agora, não é possível supor que a sociedade e a população vão ficar alheia a esse processo. Pelo o que eu vi, durante a campanha era o fator de maior  mobilização dos jovens. Isso, vou te dizer, do Oiapoque ao Chui, de Leste a Oeste, se você tocasse nessa questão de reforma política, era o momento em que as pessoas mais participavam, mais queriam. Não acho que isso é algo que nós vamos poder resolver entre quatro paredes.

Jornalista: Presidente, muito obrigado, boa sorte no seu novo mandato, muito obrigado pela entrevista, até a próxima, boa noite para a senhora.

Presidenta: Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra da entrevista (20min12s) da Presidenta Dilma