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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, à rádio Metrópole AM, de São José do Rio Preto/SP

por Portal Planalto publicado 19/08/2011 13h15, última modificação 04/07/2014 11h38
Na ocasião, a Presidenta Dilma falou sobre a entrega das 1.993 unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida em São José do Rio Preto

São José do Rio Preto-SP, 19 de agosto de 2011


Jornalista: Muito bom dia, Rubens Celso. Bom dia, ouvintes da Metrópole agora. Nós já estamos no Aeroclube de São José do Rio Preto para a entrevista com a presidenta Dilma Rousseff, que hoje tem agenda em Rio Preto na área da habitação. A Presidenta entrega hoje, em Rio Preto, 1.993 unidades habitacionais, um projeto que já rendeu, para a região, investimentos da ordem de R$ 1,7 bilhão; para São José do Rio Preto, cerca de R$ 556,6 milhões. Ou seja, temos na região 16 mil contratos, aproximadamente, com unidades habitacionais, e hoje a Presidenta vem a Rio Preto para a entrega dessas unidades no Parque Nova Esperança, na zona norte de Rio Preto. A Presidenta se faz acompanhar de diversas autoridades – ministros, deputados e também do governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, que se encontra presente.

Nós começamos, neste momento, a entrevista com a Presidenta, e eu gostaria de deixar a Presidenta à vontade para a sua saudação inicial, mas já deixaria uma pergunta. A senhora investe em habitação e, na sua campanha, a senhora teve, como foco principal, cunho social, uma visão social. Habitação é uma forma de resgatar a dignidade da pessoa humana, do cidadão, Presidenta?

Bom dia, é um prazer tê-la aqui na rádio Metrópole.

 

Presidenta: Bom dia, Jair Viana. Bom dia, ouvintes da rádio Metrópole. Também queria dar o meu bom dia, aqui, aos moradores e às moradoras de São José do Rio Preto.

É verdade, viu, Jair. Eu fiz minha campanha voltada à questão da dimensão social de qualquer desenvolvimento. Sem gerar emprego, sem criar oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras, nós não temos um verdadeiro desenvolvimento, e a moradia, no Brasil, é uma questão fundamental. É uma questão social importante porque é a casa onde você pode criar seus filhos, onde você também cria uma coisa fundamental que é a segurança da família. Então, é impossível a gente falar de segurança, no Brasil, sem falar também do direito do acesso a uma casa para morar, onde você construir suas relações afetivas, receber seus amigos e parentes.

Mas a habitação, a construção de habitações no Brasil também, Jair, tem um efeito econômico fundamental. Ela gera empregos e ela cria uma dinâmica econômica, porque quando você constrói uma casa, você demanda cimento, telha, você tem toda a arquitetura que a casa envolve: as telhas, as estruturas de alumínio. Enfim, é... a construção civil é um dos setores que mais emprega e também gera efeitos para os outros setores que vão fornecer os equipamentos para aquela casa ou aquele apartamento, e aí você cria um círculo virtuoso. Ao mesmo tempo em que as pessoas têm acesso à moradia, elas têm melhoria de renda e oportunidades de emprego.

Eu acredito que a casa própria é o sonho de cada um dos brasileiros e das brasileiras, de cada um de nós. Nós... todos nós queremos ter uma casa para a gente saber que é nossa, onde a nossa família tenha abrigo e acolhimento.

 

Jornalista: Bom, o seu governo investe, como eu disse no início da entrevista, R$ 1,7 bilhão na região, dos quais R$ 556 milhões ficam em São José do Rio Preto, uma cidade-polo, com quase meio milhão de habitantes e, naturalmente, importante no contexto do estado e no contexto do país.

Eu queria saber, em relação ainda a São José do Rio Preto e à região, o que o governo federal pretende fazer nessa área de habitação. Há mais projetos? Há possibilidade de ampliar esse programa?

 

Presidenta: Há, sim, viu, Jair. Nós... no primeiro momento, o presidente Lula, na época, decidiu fazer 1 milhão de casas. Um milhão, uma porção de gente dizia que não ia dar certo, que a gente não ia conseguir construir. Pois bem, contratamos esse 1 milhão de casas e agora nós estamos entregando as casas. Eu venho aqui hoje, em São José do Rio Preto, justamente para entregar casas desse 1 milhão. Agora nós estamos indo para 2 milhões. Esses 2 milhões, eles vão permitir que aqui, em São José do Rio Preto, esses mais 2 milhões de moradias a serem construídas, sendo que 1,2 milhão é para as pessoas que ganham até R$ 1.600... nós vamos... nós já liberamos os recursos para a Caixa começar a contratar, e a Caixa faz esse contrato sempre levando em consideração o que existe de demanda já apresentada pela prefeitura e dentro de critérios muito objetivos. Não tem benefício nem compadrio com ninguém. E eu acredito que São José vai ser beneficiada. Por quê? Porque São José demonstrou uma grande capacidade de atrair empresas que construíram as casas... porque nós estamos entregando aqui quase 2 mil casas. Não é, vamos dizer, o padrão em todos os municípios do Brasil. Tem municípios também... até alguns com mais, mas esse desempenho de São José do Rio Preto é muito elevado. Então, eu tenho certeza de que o nosso ouvinte, que está sonhando com a sua casa, ele pode ter certeza de que esse programa aqui em Ouro Preto... em São José do Rio Preto vai voltar a construir mais casas e entregar mais casas próprias para as pessoas que precisam delas.

 

Jornalista: Ainda na área social. Ontem a senhora esteve em São Paulo, na capital, onde houve uma fusão de dois programas sociais: o Renda Cidadã, do governo paulista, e o Bolsa Família, do governo federal. Qual a importância dessa fusão, Presidenta?

 

Presidenta: Olha, é que nós... eu acho que são duas... a importância é de duas ordens. A primeira ordem é o fato de que essa fase nova do Bolsa Família nos permite construir um programa em que, em vez de a pessoa ir atrás do Estado brasileiro para receber o Bolsa Família, o Estado brasileiro vai atrás dela. Então nós precisamos de parceria com os senhores prefeitos e precisamos de parceria com os governadores. Aqui, no caso, com o nosso Prefeito aqui de São José e o Governador de São Paulo. Com o Governador de São Paulo, nós fizemos um cartão que é Bolsa Família e Renda Cidadã, simultaneamente. Com isso a pessoa vai ganhar mais. Mas o segundo aspecto da parceria é o que nós chamamos de busca ativa. Aqui em São José, por exemplo, é um município em que 6.692 famílias são atendidas pelo Bolsa Família e isso corresponde a uma cobertura da população que precisa receber o Bolsa Família de... 80% estão recebendo. Mas tem 20% que poderiam estar recebendo, que não estão. É atrás desses 20% que podem e devem e nós queremos que recebam, que nós vamos correr atrás, e aí eu preciso dessa parceria cada vez mais forte com o governo de São Paulo e com Prefeito aqui de São José do Rio Preto. O valor da transferência, hoje, para cá, ele tem de ser um valor compatível com todas as pessoas que precisam dessa Bolsa.

Então todos nós – governo federal, governo estadual, governo municipal – vamos correr atrás das pessoas, nisso que nós chamamos de busca ativa, e a obrigação... reconhecer que é obrigação do Estado brasileiro não deixar que nenhum brasileiro e nenhuma brasileira, onde quer que haja fome, onde quer que não haja renda, onde quer que não haja acesso à educação, onde não haja acesso à saúde, nós temos de ir atrás, correr atrás e garantir que essas pessoas sejam atendidas e acessadas.

No governo do presidente Lula quase uma “Argentina” – viu, Jair, uma “Argentina” – foi... saiu da pobreza e foi para a classe média. Agora nós temos esse desafio: são 16 milhões de brasileiros. É bem menor o número, mas é mais difícil porque é aquela pobreza tão pobre, que muitas vezes nem sabe que tem direito. Então nós temos de correr atrás, nós temos de ir em busca dessas pessoas para garantir que elas tenham acesso àquilo que elas têm direito.

 

Jornalista: Perfeito. Presidenta, política. Uma importante publicação britânica traz hoje uma matéria que enfoca que a sua energia no combate à corrupção poderá lhe trazer problemas no Congresso Nacional. A publicação faz referência aos problemas verificados nos ministérios em que a senhora agiu com rapidez e as mudanças necessárias foram feitas. A revista atribui a essa energia, a essa forma enérgica de agir possíveis problemas no Congresso Nacional para aprovação de algumas matérias. A senhora acredita nisso? E se isso acontecer, como a senhora vai agir?

 

Presidenta: Olha, Jair, eu acho que o Brasil hoje tem importância suficiente, para as revistas estrangeiras ficarem preocupadas conosco. Eu acho que é um ótimo sinal. Agora, infelizmente, as revistas estrangeiras não entendem muito os usos e costumes políticos do Brasil. Eu acho que o objetivo do meu governo... Ontem até eu disse que a maior faxina que nós temos de fazer no Brasil é a faxina para acabar com a miséria. Essa é a grande faxina.

O objetivo do meu governo não é criar nenhum problema em relação a esse ou aquele segmento. Agora, onde houver problemas de corrupção, nós somos obrigados a tomar posição. Eu não faço disso o objetivo central do meu governo. Como eu disse, o objetivo central do meu governo é buscar o desenvolvimento, a distribuição de renda, a inclusão social e garantir que, neste momento, nós consigamos conter os efeitos perversos de uma crise que não fomos nós que criamos e que pode atingir o Brasil. E como é que a gente responde a isso? A gente responde a isso aumentando o emprego, fazendo o Brasil crescer mais. É óbvio que tem efeitos. Em 2009 nós tomamos todas as medidas. O Brasil entrou na crise, tanto é que nós tivemos uma queda no PIB, mas, logo em seguida, no ano... nós entramos no ano de 2009 na crise e saímos em 2010. O que nós estamos tentando este ano é nem entrar, é nem entrar na crise. É parar ela na porta. É difícil? É difícil. Nós não somos imunes e nem uma ilha.

Então eu acredito que essa... a revista, ela não percebe que a minha base de sustentação, também, ela não concorda com malfeitos, e eu não vejo nenhum motivo para isso acontecer, de ter maiores problemas no Congresso. Aliás, eu queria aproveitar e te dizer uma coisa, viu, Jair. Eu acho que, no Brasil, o povo brasileiro é um povo trabalhador, é um povo honesto, é um povo que não concorda com nenhum malfeito e que tem horror ao crime organizado. O meu governo vai continuar combatendo todos os malfeitos e o crime organizado. Agora, o meu governo e o povo brasileiro também não gostam de injustiça, não gostam que ninguém seja objeto de julgamentos que não deem espaço para a pessoa provar se tem ou não tem culpa, e nós temos por base uma coisa: nós temos por base o respeito aos direitos individuais, à dignidade humana e ao direito de a pessoa ter presunção de inocência, ou seja, você é inocente até que provem que você é culpado. E, no Brasil, existem instituições de justiça: existe uma Polícia Federal, que é uma polícia ágil; existe um Ministério Público atuante; e existe um Judiciário que, cada vez mais, procura ser célere e rápido. É esse sistema que pode julgar alguém. Não há – e não deve ser reconhecida, a menos que a gente abrace o arbítrio – nenhuma entidade que, fora essas, se permita julgar quem quer que seja. Você pode discutir, mas você não deve julgar e, mais do que isso, é um absurdo voltar atrás na roda da História e acabar com a presunção de inocência. As pessoas são, fundamentalmente, inocentes até que se prove o contrário. Na hora em que a gente acabar com isso, sabe o que acontece? Primeiro você vai ver uma injustiça na sua cidade, depois você vai ver uma injustiça no seu vizinho e depois a injustiça acaba em você. Eu não permitirei isso. Nós temos de ter esse duplo convívio: convívio com a democracia e os princípios da verdade e da justiça, e também o combate aos malfeitos. Tem de ter muita clareza disso, porque senão começa a haver muita injustiça por aí.

 

Jornalista: Ok. A escolha do novo Ministro da Agricultura, no setor, já causa alguns comentários: “Ele é desconhecido”, “a gente não conhece”, e tal. Como é que a senhora responde a esses questionamentos e o que a senhora espera do novo Ministro?

 

Presidenta: Olha, o novo Ministro, ele pode ser, de fato, um ministro não conhecido em todo o Brasil, mas logo será conhecido em todo o Brasil. Ele é uma pessoa com um retrospecto político muito consistente, ele vem de um estado que tem uma larga tradição agrícola que é o Rio Grande do Sul, ele é um homem correto, trabalhador, e eu espero que ele faça e dê continuidade ao trabalho que vinha sendo feito pelo ministro anterior, pelo Wagner Rossi que, no caso da área de responsabilidade dele, foi muito efetivo. Tanto é assim que o programa que nós lançamos, o programa de apoio à safra deste ano de 2011, foi muito bem aceito, tanto no que se refere às suas políticas de apoio à agricultura comercial, que gera exportação para o país, que gera retorno e que permite que o Brasil seja um dos maiores produtores de alimentos do mundo... tanto naqueles setores, como por exemplo, o médio agronegócio para quem esse... foi a primeira vez este ano, foi a primeira vez em que a gente criou uma linha de financiamento própria para ele. Mas seja o etanol, a cana-de-açúcar, seja o pessoal da laranja, seja toda a área de pecuária, que também nós tivemos uma política muito consistente... Eu espero que o Ministro continue por aquela trilha, que estava muito correta.

 

Jornalista: Olha, para encerrar a entrevista, eu gostaria de saber o seguinte, Presidenta. A senhora, o Brasil está vivenciando uma experiência nova, uma mulher no comando. Eu queria saber como é que a senhora está vivendo esse momento histórico para o país, histórico para a senhora e histórico para as mulheres brasileiras? O que é que o brasileiro, o homem e a mulher podem esperar da mulher no governo?

 

Presidenta: Olha, eu vou te falar uma coisa, Jair. Eu acho que... uma das coisas, para mim, que mais me tocam e mais me atingem, é o fato de o Brasil ter eleito, em mim, a primeira mulher Presidente. E aí, uma das coisas, assim, que eu tenho certeza que eu vou com afinco, com determinação e também com emoção perseguir, é que eu vou honrar as mulheres brasileiras, porque eu não cheguei aqui só por minha conta. Eu cheguei aqui porque milhões de mulheres saíram das suas casas e foram para o mundo do trabalho e viraram engenheiras, viraram trabalhadoras domésticas, viraram enfermeiras, viraram garis, viraram, enfim, todas as profissões – trabalhadoras na fábrica, trabalhadoras no campo. Essas mulheres ajudam a construir o Brasil e foram elas, ao saírem de suas casas e, ao mesmo tempo, voltarem para suas casas e cuidarem de seus filhos... porque o futuro deste país são essas crianças e esses jovens, então tem uma relação estreita entre o futuro do país, as crianças e as mães. Então, essas mulheres permitiram que uma mulher tivesse oportunidade de virar a primeira Presidenta. Eu tenho de honrar, primeiro, o Brasil como um todo – o seu desenvolvimento, a inclusão social, a proteção da sua indústria, a proteção do pequeno empresário, o incentivo a que a pessoa que quer ter seu negócio possa virar um empreendedor – se quer ser cabeleireira, pode ser cabeleireira – e, ao mesmo tempo, eu tenho de honrar a condição de mulher, Jair. Por quê? Porque eu não posso decepcionar essas mulheres. Elas me trouxeram até aqui, e eu devo isso a todas elas. Eu não me considero uma Presidente. Eu sou uma “Presidenta”, porque eu represento esses milhões de mulheres brasileiras, que são muito fortes e que têm todo o meu respeito.

 

Jornalista: Ok. Presidenta, a senhora... próxima, para encerrar. Afinal, a senhora é gremista ou é atleticana?

 

Presidenta: Olha, eu sou... não sou gremista, não, viu? Você não vai fazer isso comigo, não, porque eu não sou, não. A minha família inteira é colorada, toda a minha família: meu neto, minha filha, meu genro. É tudo Colorado.

 

Jornalista: O Nelson não decidiu, na verdade, não é?

 

Presidenta: Ai de mim! Você não faz isso comigo. Agora, eu sou de origem mineira e, ao longo da minha vida toda, eu fui Atlético, eu sou Galo também. Então eu sou duas coisas: eu sou Atlético e sou Internacional.

 

Jornalista: Está certo. Um grande abraço, Presidenta. Muito obrigado pela sua entrevista à Rádio Metrópole.

 

Presidenta: Obrigada, viu, Jair. Um abraço para todos os moradores aqui de São José do Rio Preto.

 

Jornalista: Ok. Nós falamos com a presidenta Dilma Rousseff, que hoje está em Rio Preto, como eu disse no início da entrevista, para a entrega de 1.993 unidades habitacionais no Conjunto Nova Esperança. Aqui na Metrópole você segue com Rubens Celso Cri no comando do Metrópole Agora.

 

Presidenta: Um abraço, Jair.

 

Ouça a íntegra da entrevista (20min41s) da presidenta Dilma.

 

 

Assunto(s): Governo federal