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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, à France 24 - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 09/06/2015 09h00, última modificação 09/06/2015 09h12

 

Entrevista veiculada no dia 08 de junho de 2015

 

 

Apresentação: Olá, e bem-vindos à entrevista exclusiva na France 24. Estamos hoje em Brasília, no palácio presidencial, e nossa convidada é Dilma Rousseff, Presidenta do Brasil. Sra. Presidenta, obrigado por nos receber aqui hoje.

Jornalista: Antes de ser eleita Presidenta, a Senhora foi militante ativa de extrema esquerda. A Senhora foi presa e torturada durante a ditadura militar, e subsequentemente se formou em Economia antes de começar a atuar na política, no Partido dos Trabalhadores. Quando Lula foi eleito Presidente, ele a nomeou Ministra da Energia (sic). A Senhora foi Presidente da Casa Civil antes de sucedê-lo na Presidência da República, aqui, em 2010 e ser reeleita para um segundo e último mandato em outubro último. Vou começar a entrevista com o tópico que tem causado polêmica em todo o mundo, que é o grande escândalo relacionado ao futebol, à FIFA. Sepp Blatter foi forçado a renunciar em meio a um escândalo de corrupção na escolha da organização, do país anfitrião da Copa, dos direitos de transmissão... um tremendo escândalo, que também envolve alguns dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol. Qual é a sua visão desse escândalo?

Presidenta: Acho, primeiro, que é muito importante que se apure o escândalo envolvendo corrupção dentro das organizações internacionais, e também aqui no Brasil, no futebol. Acredito que, para o futebol brasileiro, isso é imprescindível porque o futebol não é apenas um esporte, hoje ele é uma indústria. E essa indústria do futebol tem de ser regulamentada, tem de ser aberta e transparente, para que as pessoas que usam toda aquela sua paixão para apoiar seus times possam também ter certeza de que o dinheiro que pagam, de que todo o espetáculo que se cria seja usado de forma a beneficiar os clubes, os atletas e não duas ou três pessoas.

Jornalista: Na sua opinião, isso é evidência de que há algo de podre no mundo do futebol, e no Brasil também? E que, portanto, é preciso haver uma “limpeza” para que os torcedores não vejam o esporte como tendo sido manchado pelo dinheiro?

Presidenta: Eu acredito que é importante ter claro o seguinte: não se concluiu as investigações. Mas, houve indícios fortes para que esse processo seja desencadeado pela Interpol e pelo Departamento de Justiça Americano. Além disso, a própria Polícia Federal também está fazendo investigações a respeito. Quero crer que, em qualquer circunstância, haverá dois períodos; um antes desse fato e o outro depois desse fato.

Jornalista: O governo está pronto para, se houver provas, indiciar os principais dirigentes dos clubes, e até mesmo da Confederação (CBF)? Mesmo que tenha a ver com a candidatura vencedora do Brasil à Copa do Mundo de 2014? Ou a um contrato que tenha sido assinado, por exemplo, para o fornecimento dos equipamentos da equipe brasileira? Não haverá limites, se houver suspeita de corrupção no Brasil? 

Presidenta: Pode ter certeza disso. Agora, eu queria levantar alguns pontos: para nós, inclusive, é mais preocupante. Porque o Brasil, sendo um país que ganhou o maior número de Copas do Mundo de todos os tempos, um país que fez, eu acredito, no ano passado, a Copa das Copas, não tem nenhum motivo para se engajar em qualquer processo de corrupção de quem quer que seja para trazer a Copa para o Brasil. A Copa no Brasil deu, [considerando] os últimos tempos, recursos muito significativos para quem organizou. O Brasil fez uma Copa do Mundo com seu esforço, nós construímos aeroportos, portos, construímos um legado também. Acredito que tudo que disser respeito a essa investigação é do maior interesse do povo brasileiro. Porque foi com os recursos do povo brasileiro que esse processo ocorreu. Porque foi gerado muito, muito dinheiro aqui durante a Copa do Mundo. O que é muito bom para todo mundo, desde que seja de forma absolutamente transparente. Eu espero que seja de forma transparente. Caso não seja, pode ter certeza de que o governo brasileiro tem todo o interesse de saber quem são os responsáveis, puni-los e, de fato, garantir que o Brasil tenha outro ambiente para o futebol.

Jornalista: Eu gostaria de mudar o tópico para a Cúpula de Líderes da América Latina e da União Europeia que ocorrerá em Bruxelas por agora. Há uma questão sobre a qual a senhora comenta muito, que é o Acordo Comercial entre a UE e o Mercosul. Negociações têm acontecido há anos e, sejamos honestos, se encontram em um impasse. Deve haver uma reunião no futuro próximo, e a Senhora disse que seu objetivo é assinar o Acordo até o final de 2015. A Senhora poderia explicar como um Acordo que se encontra em impasse há anos poderia se resolver agora. A Senhora possui uma varinha mágica?

Presidenta: Eu acredito nas informações que me transmitem de que os países da União Europeia estão prontos para fazer a sua proposta de acordo, de oferta comercial. Assim sendo, acredito que temos todas as condições para fazer a nossa oferta. Tanto na União Europeia quanto no Mercosul pode ter diferença de país para país, porque é impossível que todos os países da União Europeia tenham a mesma proposta ou cheguem aos mesmos perfis. No entanto, a demonstração de que é possível chegar a esse acordo por parte do Mercosul e da União Europeia é algo muito importante. O que eu acho é que temos de marcar a data para isso. Nós chegamos a esse ponto, é um processo que você constrói. Resta saber se,dentro da União Europeia estão prontos. 

Jornalista: Há um problema, que é uma regra do Mercosul que diz que, para este tipo de Acordo, todos os países do Mercosul devem concordar. Acredito que entendi que a Senhora consultou outros países do Mercosul, Uruguai, Paraguai... sobre a questão de ter um pouco mais de flexibilidade. Isso significa que, se a Senhora vir que há de fato um impasse no Mercosul que não seja possível sanar, a Senhora estaria pronta para assinar um Acordo separado com a UE?

Presidenta: Não. O Brasil não pretende assinar nenhum acordo em separado. Tanto o Brasil quanto a União Europeia têm a mesma regra de flexibilidade. O que é possível é fazer um acordo diferenciado com países.

Jornalista: Vamos para uma outra questão... A Senhora viajará para os EUA ao final do mês. No final de 2013, houve revelações de espionagem dos EUA sobre o Brasil. A Senhora cancelou sua visita [naquela época] e exigiu um pedido público de desculpas, que nunca foi feito em nome da Casa Branca. Hoje, tudo foi perdoado?

Presidenta: Olha, de quando houve as interceptações entre... sobre o governo brasileiro e as empresas brasileiras...

Presidenta: Sim. Sobre o governo brasileiro, sobre mim, mas não só a mim, ao governo e à Petrobras, a maior empresa brasileira de petróleo. Nós consideramos que essas questões da segurança e das interceptações eram muito sérias. Tivemos um conjunto de negociações com os Estados Unidos. Essas negociações levaram a que eles tomassem uma série de medidas, entre elas aquelas que suspenderam as interceptações, a partir de um determinado momento, sobre países que eram chamando amigos. Isso aconteceu também com a Alemanha, se eu não estou errada. Nas minhas conversas com o presidente Barack Obama ficou decidido que: primeiro, essas interceptações, a partir daquele momento, que não diziam respeito, pelo menos por decisão, ao governo Obama, elas jamais ocorreriam novamente. Essa foi a nossa grande preocupação: impedir que isso se repetisse. A partir daí, inclusive, o presidente Obama me disse: ‘Quando eu precisar de alguma informação sobre o Brasil, eu dou um telefonema para você’. 

Jornalista: Em poucas palavras, a Senhora hoje confia em Barack Obama, com relação a essa questão. Quando ele diz “não vamos espionar o Brasil a menos que a informemos”, a Senhora confia nele?

Presidenta: Eu confio que o presidente Obama não permitirá isso em relação ao Brasil, por quê? Eu confio porque ele me prometeu isso.

Jornalista: Vamos passar a outro tópico envolvendo Barack Obama, que é Cuba. Muitos descreveram esta iniciativa de reaproximação de Cuba como um divisor de águas. A Senhora concorda? A Senhora acredita que ele seguirá o processo até o final, e que também haverá o que muitos líderes europeus e latino-americanos pedem, que é o fim do bloqueio comercial? Considerando que é uma decisão a ser tomada pelo Congresso dos EUA?

Presidenta: Eu acredito que a iniciativa do presidente Obama, do presidente Raul Castro, ajudados pelo Papa Francisco, foi algo muito importante para toda a América Latina, para o Brasil, para o mundo. Primeiro porque, aqui na região, é como se fosse o fim da guerra fria. Eu, inclusive, saúdo o presidente [François] Hollande porque depois de 30 anos ele é o primeiro chefe de Estado europeu a visitar Cuba. Porque acredito que a partir de agora nós temos de lutar para suspender o bloqueio comercial. Então, a ida dos chefes de Estado, o fim do bloqueio de fato é fundamental. A gente não pode ser só contra. Cuba tem todas as condições de entrar, de uma forma muito sustentável, em uma nova etapa. Ela tem o maior índice de desenvolvimento humano da América Latina. Ela tem um nível de educação e de saúde extraordinário. Agora, acho que trata-se de parcerias para que ela possa desenvolver seu comércio, sua indústria. E, aí, a Europa tem um papel estratégico também.

Jornalista: O bloqueio comercial precisa ser suspenso, no entanto, e isto é muito difícil...

Presidenta: Eu creio que é a parte que falta e que é importante que o congresso dos Estados Unidos apoie o presidente Obama nessa direção. Agora, nós, outros, temos também de apoiar os cubanos na direção do seu maior desenvolvimento econômico, de uma economia mais pujante e que se integre ao mundo.

Jornalista: Vamos voltar à situação no Brasil. A situação econômica anda ruim... O crescimento se encontra negativo, -1%, -2%, a inflação está em alta, os juros estão em alta... A Senhora iniciou um enorme plano de austeridade de 70 bilhões de reais, que não era algo que era esperado de uma Presidenta de esquerda. Porque a Senhora fez isso? A Senhora não teve escolha? A situação estava tão ruim que a Senhora teve que tomar medidas de austeridade?

Presidenta: Governo de esquerda ou de direita, ou de centro, quando percebe – e aí eu acho que é importante que governos de esquerda demonstrem isso – quando percebe que é necessário mudar, tem de fazê-lo. Tem de ter a coragem de fazer [os ajustes econômicos]. O que nós estamos tendo é a coragem de fazer o ajuste, e um ajuste forte, para que a gente possa voltar a crescer de forma mais rápida. Porque, ao mesmo tempo em que isso acontecia, aqui dentro do Brasil muitas outras coisas também aconteceram. Por exemplo, tivemos a maior seca dos últimos 50 anos no Nordeste e dos últimos 100, no Sudeste. Ora, o Sudeste é onde que se concentram as maiores reservas de água do Brasil. Isso implicou num aumento do preço do custo da energia. Isso implicou um aumento da inflação. Então, o quê que nós tivemos de fazer agora? Tivemos de mudar a política. Agora, paralelamente a isso, vamos manter as conquistas sociais e os investimentos. Os cortes são mais relativos à ampliação [de benefícios] do que no que nós já conquistamos.

Jornalista: A Senhora continuará nessa linha de austeridade? De fato, houve algumas medidas para reduzir benefícios sociais. A Senhora diria, dentro do seu próprio partido, que continuará nessa linha, como disse, porque é necessário (o que é corajoso politicamente)? Ou a Senhora terá que ouvir as vozes da esquerda que dizem “Dilma Rousseff esqueceu que é uma Presidenta de esquerda”?

Presidenta: Acho que isso muitas vezes acontece. E aconteceu no mundo várias vezes. Aconteceu, por exemplo, com o [presidente François] Mitterrand. Acredito que um governo de esquerda tem de demonstrar ser capaz não só de fazer uma política social, mas também de saber fazer uma política macroeconômica de estabilização. Porque nós, governos de esquerda, temos compromisso em não elevar o desemprego a taxas absurdas, como ocorre em vários países da Europa. Nós temos de tentar diminuir o impacto disso sobre as políticas sociais. Fazer o ajuste não paralisa um governo, nem impede que ele invista em infraestrutura e continue a investir em políticas sociais. O que ele faz é reduzir o nível de gastos. 

Jornalista: A última grande questão que gostaria de abordar com a senhora é o escândalo da Petrobras, um tremendo escândalo de corrupção... Todo um sistema, revelado por investigadores, pela polícia e por juízes, envolvendo propinas, empresas fazendo acordos com a Petrobras em troca de propina para partidos políticos... inclusive o seu partido político. Alguns ex-Diretores da Petrobras disseram que sua campanha de 2010 se beneficiou desse sistema. E deixe-me lembrar nossos telespectadores de que a Senhora chefiou a Petrobras por anos, e muitos parecem ter dificuldade em acreditar que a Senhora não fazia qualquer ideia da existência desse sistema que se revelou no Brasil. Qual a sua resposta?

Presidenta: Bom, só uma nota: eu presidi o Conselho de Administração [da Petrobras]. Eu não era presidente da empresa. O escândalo da Petrobras diz respeito a funcionários da Petrobras que se articularam com empresas e partidos para obter vantagens. Não se articularam com todas as empresas. Nem,quando se articularam com partidos, com todos os integrantes dos partidos. Todas as campanhas feitas no Brasil têm as contribuições de todas essas empresas. Não tem porque só a minha ser destacada. Quando isto ocorre trata-se de uma atividade política. Ou seja, estão tentando envolver minha campanha nisso. Não há nenhum indício a esse respeito que prove esse fato, não só em 2010 como em 2014. Todos os candidatos que concorreram comigo receberam dinheiro de todas as empresas de forma legal. Porque é o que está atestado quando foram aprovadas as contas [da campanha] pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mas eu não quero falar nisso, eu quero falar da Petrobras. A Petrobras teve de fato um grande escândalo. No início do meu governo, essas pessoas que hoje estão presas, eu as demiti. Depois de um ano de governo, eu demiti, no início de 2012, os que estão presos hoje. Além disso, é muito importante perceber que a Petrobras tem mais de 30 mil empregados e tem cinco envolvidos. O escândalo da Petrobras, não é escândalo da Petrobras, é de um determinado funcionário de alta cúpula da Petrobras. 

Jornalista: Se esta investigação provar, de uma maneira ou de outra, que a Senhora sabia que estava ligada a esse mecanismo de financiamento ilegal dos partidos, a Senhora poderá enfrentar todas as consequências?

Presidenta: Eu não estou ligada. Não respondo essa questão porque eu não estou ligada. E eu sei que não estou ligada. É impossível. Lutarei até o fim para demonstrar que não estou ligada. Eu sei o que eu passo. Nunca teve uma única acusação contra mim por qualquer mal feito. Então, não é uma questão de se, eu não estou ligada.

Jornalista: Vamos falar de outra questão: mulheres na política. A Senhora é a líder da maior potência da América Latina. Angela Merkel é a líder da maior potência europeia. E no próximo ano teremos eleições nos EUA, e talvez pela primeira vez uma mulher se torne líder da maior potência global: Hillary Clinton. Eu vejo você sorrindo... Seria porque, para você, essas são provas que mulheres governam tão bem ou melhor que os homens?

Presidenta: Eu não vou fazer essa disputa, quem é que governa melhor. Mas eu queria te dizer que de fato é muito importante para as mulheres, que mulheres do teor da Angela Merkele, no caso da eleição nos Estados Unidos, uma mulher da competência da Hillary Clinton também vai melhorar a forma pela qual as mulheres se veem. Eu estava fazendo a minha campanha eleitoral e uma senhora aproximou-se de mim com uma menina de 12 anos.Eu não tinha sido eleita presidente. A menina se chamava Vitória - e eu achei até o nome muito interessante. E a Vitória me perguntou só uma coisa: se a mulher podia ser presidente. Esta pergunta da Vitória para mim era uma pergunta de uma menina de oito anos para uma mulher que estava concorrendo a presidente. A Vitória não só soube que era possível ser presidente, como ela viu ocorrer. Então, do ponto de vista simbólico e de empoderamento da mulher, é importante uma mulher na presidência.

Jornalista: Uma questão frequentemente discutida no Brasil é o aborto. O aborto só pode ser feito em casos muito limitados. A Senhora disse há alguns anos, antes de se tornar Presidente, que era a favor de um tipo de legalização do aborto. A Senhora acredita que, nessa questão, considerando que há tantos abortos clandestinos e que muitas mulheres morrem neles, não é necessário que a sociedade evolua nesta questão?

Presidenta: Hoje, no Brasil, a lei permite o aborto, a lei. Em alguns casos importantíssimos. É quando há má formação [do feto]. É quando... Inclusive, o Supremo decidiu quanto a isso. A Suprema Corte de Justiça. Permite quando há violência contra a mulher e daí surge uma situação [de gravidez]. Acredito que o Brasil ainda vai ter um processo longo para evoluir nessa área. Se você fizer hoje uma enquete, é possível que nem todas as mulheres defendam isso. Acho que essa é uma questão que o Estado não tem de entrar agora. O Estado nacional não tem de entrar. Nós temos de guardar o que pensamos para nós e não temos de entrar nessa área.

Jornalista: A Senhora, como mulher...

Presidenta: Eu enquanto mulher sou presidente. É isso que é ser presidente. Enquanto mulher, eu sou presidenta.

Jornalista: Muito obrigado Senhora Presidenta. (Repete em português) “Muito obrigado”.

Presidenta: Agradece em francês.