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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, à empresa de radiodifusão alemã Deutsche Welle (publicada em 09/06/2015) - Vídeo

por Portal Planalto publicado 10/06/2015 18h25, última modificação 10/06/2015 21h11
Transcrição do vídeo da entrevista concedida pela Presidenta Dilma à empresa de radiodifusão alemã Deutsche Welle

10 de junho de 2015

 

 

Jornalista: Senhora presidente, o que a senhora espera dessa cúpula da UE-Celac? Como a senhora avalia o desenvolvimento das relações com a América Latina e a Europa?

 

Presidenta: Olha, eu acredito que são relações estratégicas aqui para a região, tanto para a América latina quanto para o Caribe. A Europa é uma grande parceria comercial e uma grande parceira de investimento. Nós queremos estreitar essas relações.

 

Jornalista: O grande projeto da relação Mercosul-União Europeia parece ser o acordo de livre comércio, que é negociado há quase 20 anos. Qual o principal obstáculo para a conclusão do acordo?

 

Presidenta: Do ponto de vista do Mercosul, principalmente do ponto de vista do Brasil, é prioritário, prioritário, nesse ano de 2015, que a gente chegue a esse acordo. Agora, se você me perguntar se nós vamos chegar, eu te direi o seguinte: depende das duas partes. Do ponto de vista do Brasil, o Mercosul tem condições de fazer esse acordo. Resta saber se nós vamos poder fazer isso simultaneamente. O regime, tanto do Mercosul quanto da União Europeia, permite que os países tenham ritmos diferenciados para fazer o acordo, estabeleçam ritmos diferenciados para fazer o acordo.

 

Jornalista: Ritmos diferenciados. Então, o Brasil estaria disposto a levar a negociação adiante de forma independente, mesmo que isso vá contra o interesse de outros países-membros?

 

Presidenta: Eu buscarei sempre levar junto todos os países e estar junto com eles. O Brasil está disposto a fazer todos os esforços, possíveis e impossíveis, para que cheguemos a esse acordo. Aliás, está marcada para esse ano, aqui em Brasília, a próxima cúpula. Eu gostaria que a gente tivesse um prazo bastante visível no horizonte, para a gente selar esse acordo. E passarmos para um outro tipo de acordo, que eu chamaria de acordo 2.0 – que, além do comercial, que é a base, coloque e dê um passo à frente no que se refere às relações Brasil-União Europeia. Esse acordo 2.0 é no sentido de fazer a convergência dos marcos regulatórios dos países, facilitando também o comércio de uma forma efetiva.

 

Jornalista: O Brasil é um poder mundial e busca uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Só que recentemente, porém, o interesse pela política internacional parece ter diminuindo. O governo da senhora está preparando alguma iniciativa, por exemplo, junto com a Alemanha também? Ou a política interna agora é mais importante?

 

Presidenta: Não. Nós consideramos essencial a mudança no Conselho de Segurança da ONU. Nós fazemos parte do grupo, junto com a Alemanha, que sistematicamente luta por isso. Inclusive, nós levamos isso a todos os nossos parceiros comerciais na área internacional, na área de cooperação, porque consideramos que não reflete a realidade do mundo a atual composição. E, além dela não refletir a realidade, ela também tem outro problema. Essa composição não tem resolvido os problemas que se apresentam. Então, nós defendemos sistematicamente [a mudança] e não vamos reduzir [essa demanda]. Assim como defendemos também, e com o mesmo empenho, a mudança nos órgãos econômicos. A representação no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial não corresponde à realidade econômica do mundo.

 

Jornalista: O mundo observa com preocupação a situação na Venezuela, o governo alemão e a Comissão dos Direitos Humanos da ONU já se manifestaram preocupados. Como a senhora avalia a situação nesse país vizinho?

 

Presidenta: Tem sido um princípio, tanto do Brasil como de todos os órgãos multilaterais aqui da América Latina, principalmente, no caso, a Unasul, uma imensa preocupação no sentido de nós garantirmos uma das maiores conquistas que a América Latina obteve nos últimos anos, que foi nos transformarmos em países democráticos. Toda a América Latina, de uma forma ou de outra, viveu um período terrível das ditaduras. Então, para nós é um grande valor, um grande valor, a questão do Estado democrático de direito. Nós estruturamos toda uma política de apoio e de colocação de determinados marcos na relação com a Venezuela, no sentido de que a oposição e a situação, o governo e a oposição, respeitem os marcos institucionais democráticos legais venezuelanos.

 

Jornalista: A senhora é criticada por não adotar uma posição mais firme ainda sobre a perseguição da oposição na Venezuela. Como a senhora recebe essas criticas?

 

Presidenta: Olha, eu acho que muita gente gostaria que virássemos as costas para a Venezuela, como durante muito tempo foi feito com Cuba. Com Cuba, nós sempre nos recusamos. Apesar de termos visões diferentes sobre sociedade, sobre processos políticos, sobre processos econômicos, nós sempre percebemos que a melhor relação era aquela que construísse, por exemplo no Caso de Cuba, construísse uma transição – que hoje a partir da abertura da abertura que os Estados Unidos fez e que o presidente Obama e o presidente Raúl Castro têm que ser saudados por isso –  que é o fim da guerra fria aqui na América Latina. Nós, antes disso, ajudamos Cuba a fazer um grande investimento no porto de Mariel. Uma empresa brasileira foi e investiu no porto de Mariel. Isso tem mais resultado do que os quantos anos de bloqueio, os 40 anos de bloqueio. Que não levaram a nenhuma transformação, a nenhuma modificação de Cuba. A mesma coisa com a Venezuela. Nós não somos golpistas no Brasil. Nós não somos a favor também de interferências e intervenções dentro de países irmãos. Nós não fazemos isso. Nós somos um país eminentemente pacífico. Colocar a Venezuela como sendo uma ameaça aos Estados Unidos não é algo que contribui para uma maior democracia na Venezuela. Contribui para você radicalizar posições.

 

Jornalista: Então, todo mundo que espera que o Brasil, como seu papel também de um poder regional, vai se posicionar de forma mais contundente sobre a repressão. Eles vão esperar para sempre, não vai ter uma forma mais firme de posicionamento?

 

Presidenta: Nós não seremos jamais um poder regional com o porrete na mão. Ser poder regional não precisa de ser um interventor. Você tem de ser capaz de entender as sociedades e lutar pelas suas transformações. O mundo ficou muito acostumado com intervenções militares. Eu não creio que isso tenha levado à estabilidade das regiões, não creio. O Brasil tem de ser uma ponte para o diálogo, uma ponte para o entendimento, uma ponte contra todos os processos de intolerância. Agora, quero te dizer uma coisa, obviamente, em relação a rupturas democráticas, nós teremos sempre uma posição muito firme de rejeição.

 

Jornalista: De fora, o Brasil nesse momento parece ainda marcado pela corrupção. A senhora, desde o início do primeiro mandato, combateu a corrupção. Mas ainda tem parte da população que acha que a senhora sabia da corrupção na Petrobras. E muitos deles até pedem impeachment, como convencer essa parte do povo de que a senhora é a pessoa certa para combater a corrupção?

 

Presidenta: Esse é o ônus. Mas esse ônus é insignificante, perto do fato de que, eu posso te garantir, o Brasil, nesta área, mudou. Nunca no Brasil, antes, quem corrompia era preso. Nem tampouco quem era corrompido. Agora é. É óbvio que o Brasil precisa fazer uma reforma política. É óbvio. Nós do governo somos contra financiamento empresarial de campanha. A contribuição tem de ser de pessoa física e não de pessoa jurídica. Infelizmente, não passou isso no Congresso.

 

Jornalista: Os últimos dias foram marcados também pelas notícias na corrupção na Fifa, lá na Suíça, também com funcionários importantes do futebol brasileiro incluídos nessas investigações. O grande esquema de corrupção na Fifa para você foi uma surpresa?

 

Presidenta: Atualmente, em relação ao mundo, eu não me surpreendo com nada. Se isso servir para que a gente possa passar em revista uma radiografia da Fifa, transformar a Fifa em um órgão mais transparente e que não deixe a menor fresta para a corrupção, vai ser uma grande, uma grande conquista.

Jornalista: Um ano depois da Copa, a senhora já se recuperou do sete a um?

Eu vou responder porque é uma provocação. Olha, eu vou te falar: doeu muito. Mas doeu, sim senhor. Posso te dizer isso. Mas, você sabe que nós temos uma característica. A gente diz que brasileiro não desiste nunca. Muito mais em futebol. Por isso eu te digo: vocês aguardem que um dia nós voltaremos. Não digo que vai ser sete a um, mas que a gente ainda vai imprimir uma derrota em vocês, vai. Tem uma música no Brasil que você deve conhecer. “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava”.