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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, à agência Xinhua, da China

por Portal do Planalto publicado 05/04/2011 18h42, última modificação 04/07/2014 11h34
Antes de sua viagem à China, a presidenta Dilma Rouseff concedeu entrevista à agência chinesa Xinhua, no Palácio do Planalto

Palácio do Planalto, 05 de abril de 2011


Jornalista: Senhora Presidenta, em quantas ocasiões a senhora Presidenta esteve anteriormente na China?

 

Presidenta: Olha, eu estive na China por duas vezes. Se eu não me engano, em 2004, no início do ano, a primeira vez, e em setembro, outubro, a segunda vez. Nessas duas vezes, eu estive como ministra de Minas e Energia. Na primeira, acompanhando o presidente Lula e, na segunda, no processo de discussão que deu origem ao gasoduto... ao Gasene.

 

Jornalista: Gasene?

 

Presidenta: É. Foi na negociação que precedeu a parceria entre o Brasil e a China no Gasene.

 

Jornalista: Na Bahia.

 

Presidenta: É. Não é só na Bahia...

 

Jornalista: É, no Nordeste.

 

Presidenta: É, sai todo do Nordeste. São quase 900 quilômetros. Eu acho que foi a primeira grande parceria em infraestrutura que o Brasil fez com a China. Na verdade, foi a Petrobras.

 

Jornalista: A Petrobras.

 

Presidenta: É.

 

Jornalista: Quais foram as suas impressões do caráter do povo e do processo de desenvolvimento econômico do país?

 

Presidenta: Olha, primeiro, eu fiquei muito... eu gostei  muito de ir à China, primeiro porque a China representa uma das civilizações mais antigas da humanidade. Segundo, porque ver o desenvolvimento econômico na China não foi uma surpresa, uma vez que todo o mundo já constatava isso. Agora, quando você vê de perto a pujança do desenvolvimento chinês é algo muito impressionante, mas, sobretudo, eu gostei muito do convívio. Óbvio, que há uma barreira de língua, mas o convívio com o povo chinês, que é muito gentil e muito afável com os estrangeiros. Então, foi uma experiência muito boa.

 

Jornalista: Ok. Qual será o conteúdo da mensagem política que a senhora Presidenta transmitirá ao presidente Hu Jintao sobre a relação bilateral entre o Brasil e a China?

 

Presidenta: Para mim, a característica principal dessa mensagem é o fato de que o Brasil e a China têm muito a ganhar com uma parceria entre os dois países. E pelo fato de que essa parceria, ela pode ser feita entre dois países que estão fazendo um grande esforço para se desenvolverem, cada um à sua maneira. E que essa parceria tem um caráter estratégico: ela beneficia os dois países, e também eu acho que o caráter também geopolítico, pelo fato de que são dois grandes países continentais, um na Ásia e outro nas Américas, o que permitirá que não só se desenvolvam relações comerciais, não só se desenvolvam investimentos recíprocos entre os dois países, mas também o fato de que nós temos a possibilidade de cooperar em várias áreas que serão estratégicas cada vez mais para os dois países, por exemplo, na área de inovação.

É importante, eu acho, tanto para a China quanto para o Brasil, para a China na medida em que somos um dos grandes parceiros e somos ambos países integrantes dos BRICs, ter uma parceria forte aqui no Brasil. Para além do fato de nós determos uma grande capacidade de produzir alimentos, grandes reservas de minério e de petróleo, o Brasil tem a firme disposição de agregar valor aos seus produtos naturais e que, portanto, essa é uma relação que eu acredito que será muito bem desenvolvida entre os dois países. Porque tem algumas áreas em que a China pode ser fundamental para o Brasil, e outras em que o Brasil pode ser fundamental para China. Nos dois casos, baseado no conceito que eu acho muito importante na relação entre os iguais: a reciprocidade.

 

Jornalista: Qual é a sua avaliação da crescente presença econômica chinesa em nível comercial e de desenvolvimento no Brasil e na América Latina como um todo?

 

Presidenta: Olha, eu acredito que a presença de investimentos chineses, de comércio chinês, e mesmo espero que cada vez de forma mais crescente da cultura chinesa na América Latina e, em especial aqui no Brasil, é muito importante. Nós somos um país que acredita em relações multilaterais e não haverá relação multilateral completa, para o Brasil, sem a China. A China é um dos parceiros estratégicos do Brasil em todas as áreas.

 

Jornalista: Presidenta, quais são as expectativas futuras do Brasil para a relação com a China e que eixos devem ser fortalecidos da aliança estratégica?

 

Presidenta: Olha, o Brasil pretende encaminhar com a China uma parceria na área comercial e gostaríamos, e vamos enfatizar muito, a necessidade das nossas exportações terem um conteúdo com agregação de valor. Nós não queremos só ser pura e simplesmente exportadores de commodities. Crescentemente, gostaremos de exportar manufaturados. Acreditamos que a China tem um grande potencial de investimento aqui no Brasil em áreas estratégicas. Eu queria destacar, principalmente, na área de tecnologia como é o caso das empresas que já estão aqui (incompreensível) e a ZTE. Acredito também que é importante [manter] parcerias do Brasil com a China em questões estratégicas. Nós iremos desenvolver... nós somos hoje grandes produtores, cada vez mais, aliás, não somos ainda totalmente grandes produtores, mas seremos, sem dúvida nenhuma, na área de petróleo. O nosso objetivo é fazer também parcerias nessa área. Mas nessa área, é importante a gente destacar, que nós estamos interessados não é na exportação de óleo bruto, nós estamos interessados na formação de uma cadeia de fornecedores de bens e serviços na área de petróleo, por exemplo. E aí, é uma grande oportunidade de investimento comum entre o Brasil e a China, sempre dentro desse conceito que eu acho que é importante para nações que já tiveram experiências muito negativas, como o caso da China, seguramente do Brasil também, de relações em que a desigualdade era muito forte, os padrões imperialistas de investimento e de exploração dos países eram muito fortes, que é uma relação de igualdade em que a reciprocidade seja o conceito forte. Tanto o Brasil quanto a China têm uma longa história de afirmação da sua soberania, de seu povo. E nós, especialmente, temos tido um grande compromisso com erradicação da pobreza. A gente tem todo um... hoje, um conhecimento bastante razoável sobre políticas de proteção social, de previdência e de elevação da renda do povo brasileiro. Acho que a China e o Brasil podem compartilhar isso também, que a China também tem essa experiência na medida em que ela tirou da pobreza milhões de chineses.

 

Jornalista: Presidenta, durante a sua viagem vai acontecer a reunião dos BRICs também e vai acontecer em um momento em que não há expectativa sobre o papel que os BRICs têm para a recuperação econômica mundial. Então, a coordenação entre os BRICs, a cooperação econômica, inclusive dos grandes fóruns como no G-20, como o Brasil pensa o papel dessa coordenação para a recuperação econômica no mundo?

 

Presidenta: Olha, eu acho que os BRICs já deram, estão dando e vão continuar a dar uma grande contribuição para o mundo. Primeiro porque, como você bem disse, eu acredito que o G-20 sem essa visão que os BRICs tiveram sempre, de que era importante uma nova ordem econômica, era importante uma nova regulação econômica e, sobretudo, que não se podia negar a realidade da emergência de países que alteraram a face, o perfil do mundo economicamente, politicamente. E os BRICs foram isso. Os BRICS são grandes países continentais, com grandes populações, com um esforço fantástico no que se refere à sua afirmação econômica, mas também elevação social de seus povos. Agora, os BRICs tiveram uma presença, eu acho extremamente salutar. Um dos fatores, uma das alavancas do multilateralismo no mundo são os BRICS. Eu tive várias experiências e assisti o Brasil ter várias experiências nessa área, tanto no que se refere à afirmação da necessidade de reformas financeiras, expressas, inclusive, no fato de que o mundo já não é o mundo do G-8, mas é o mundo do G-20, como também eu participei, de forma até bastante estreita, com a Índia, a China, naquela ocasião, na reunião de Copenhague, em que nós soubemos ter uma posição conjunta, afirmamos a necessidade de proteção ao meio ambiente, de redução nas emissões de gases do efeito estufa, mas também de um princípio que é fundamental, que é o princípio do Protocolo de Quioto: responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Porque nossos desenvolvimentos são recentes, e os grandes responsáveis pela poluição não foram esses países emergentes; foram os países desenvolvidos que estão, desde o século XVIII, a partir da Revolução Industrial, eles estão – mais do século XIX – eles estão sendo responsáveis pelo nível de emissão bastante elevado.

Então, eu vi um efeito muito concreto, muito positivo da relação entre os BRICs naquele momento ali, em Copenhague, que é uma questão decisiva para a humanidade. Vejo também que os BRICs, eles têm um papel comum, que é pensar um mundo que seja um mundo de paz, de desenvolvimento econômico, de desenvolvimento social e, portanto, um mundo mais seguro. Mas não baseado pura e simplesmente na força bruta, mas baseado em processo de desenvolvimento que eleva as populações dos seus respectivos países. Então eu vejo os BRICs assim como elemento muito importante da política externa do Brasil.

 

Jornalista: Presidenta, qual é a visão do Brasil para o desenvolvimento do grupo dos BRICs? E se tem alguma medida prevista para fortalecer esse grupo.

 

Presidenta: Olha, eu acho que a medida que mais pode fortalecer o grupo é nós termos esses encontros sistemáticos que temos, entre eles – esse que nós vamos ter agora na China, se eu não me engano, em Sanya vai ser a reunião. E esses encontros, eu acho que eles têm resultado em atitudes muito concretas dos países dos BRICs, no sentido da construção de uma nova ordem econômica internacional. Acho que esse é um papel que nós não podemos abrir mão.

Mas também, veja você, recentemente nós votamos... os BRICs votaram, em comum, de comum acordo, a resolução 1.973, do Conselho de Segurança, que nós votamos abstenção naquela iniciativa que era iniciativa de bombardeio e de área de exclusão aérea na Líbia. Por que eu estou levantando esse exemplo? Porque eu acho que os BRICs têm de ter um compromisso com a construção da paz, com uma outra estratégia de relacionamento internacional baseada no diálogo e baseada na construção de mecanismos de apoio à paz internacional.

 

Jornalista: Presidenta, e nessa ocasião vamos ter a incorporação da África do Sul nos BRICs. Levando em conta a relação histórica que o Brasil tem com a África e a incorporação da África do Sul como um país um pouco representativo da região, qual vai ser o significado para o futuro do grupo, dessa incorporação?

 

Presidenta: Eu acho que a incorporação da África do Sul é uma questão de justiça para nós, BRICs. Primeiro, porque é um grande país africano. Segundo, porque, nessas oportunidades, nós já temos... nós, várias vezes, temos tido relações com a África do Sul. Lá em Copenhague, a África do Sul integrava os BRICs, era BRICs mais África do Sul. E isso tem levado... Eu acho que essa incorporação é mais um reconhecimento de uma coisa que já é realidade.

Agora, eu acho que é muito significativa. Porque, você veja, o Brasil representa a América Latina; a Rússia, de uma certa forma, representa uma parte substantiva da Europa; a China e a Índia são grandes países da Ásia; e a África do Sul representa o continente africano. De uma certa forma, os BRICs se tornaram um órgão intercontinental também de representação de potências emergentes responsáveis por uma parte muito significativa da população humana e, sobretudo, da população europeia, da população latino-americana, africana e asiática.

Você veja que, até na nossa representação, nós somos multiétnicos, temos uma cultura diversificada. Para mim, vai ser um momento muito importante essa integração da África do Sul de forma oficial nos BRICs.

Deu, gente?

 

Jornalista: Deu.

 

Presidenta: Está bom. Muito obrigada a vocês.

 

Ouça a íntegra a entrevista (17min41s) da presidenta Dilma.

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Assunto(s): Governo federal