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Entrevista exclusiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, à Agência de Notícias do Estado Mexicano - Notimex - Cidade do México/México

por Portal Planalto publicado 27/05/2015 18h00, última modificação 28/05/2015 15h03

Cidade do México-México, 27 de maio de 2015

 

 

Jornalista: Muito obrigado por essa entrevista, que é significativa, já que havia uma década que um presidente do Brasil não visitava México. Isso lhe dá uma enorme transcendência, dado que são 12 os países mais importantes da América Latina. Você poderia fazer um balanço de sua visita ao México, em que foram realizadas importantes atividades, e se reuniu com importantes personagens, como o presidente da República, Enrique Peña Nieto?

 

Presidenta: Eu creio que essa e uma viagem toda especial para o Brasil, porque o Brasil atribui ao México uma importância muito grande. Nós acreditamos que os dois países têm obrigação, para consigo mesmo, de desenvolver um relacionamento estratégico. E quando o presidente Peña Nieto, já eleito, visitou o Brasil, nós tivemos uma série de conversas e, nessas conversas, decidimos que iríamos construir um novo momento na relação entre México e Brasil, à altura do potencial das nossas economias.

Porque somos as duas maiores economias dessa região – 320 milhões de pessoas entre Brasil e México. Ocupamos um espaço territorial biodiverso e com muitas riquezas naturais. Temos indústrias desenvolvidas. Somos países emergentes. Buscamos justiça social e inclusão social. Então, essa minha visita aqui traz um marco muito importante. Ela muda as condições pelas quais Brasil e México vão se relacionar. Nós vamos nos relacionar, a partir de agora, baseados na convicção e na consciência de que, para ambos os países, nosso relacionamento é crucial para a prosperidade dos países, para a geração de renda e geração de emprego. Nós podemos ganhar com isso. Não somos países concorrentes.

 

Jornalista: Senhora presidente, aqui há um aspecto que é relevante não só para Brasil e México, mas para os países latino-americanos, dado que o mundo vive uma etapa de debilidade econômica que impacta muito desfavoravelmente a nossa região, e especialmente aos países exportadores de matérias primas, com a queda dos preços. Fundamentalmente, do petróleo, o mais notório. Para a América Latina, que importância tem essa relação nova, em que se pretende aprofundar a relação entre Brasil e México?

 

Presidenta: Eu creio que o senhor colocou um ponto importante. Se as nossas relações já eram importantes antes, agora, num quadro, num cenário da conjuntura internacional no qual há uma desaceleração econômica e ela, agora, atinge os países emergentes, para o Brasil e o México a consciência de que aquele superciclo dos preços das commodities, não só aí de petróleo, mas também de minérios e alimentos, alimentos menos, todos os produtos de proteína dos alimentos têm um desempenho diferenciado, mas provocou nos países da América Latina, como um todo, uma redução no seu crescimento. O que nós agora temos de fazer agora é apostar também nos nossos mercados internos. Na integração regional. Por isso que eu hoje comecei dizendo da importância de um mercado de 320 milhões de pessoas. O senhor veja que o Brasil, nesses 12 últimos anos, construiu um mercado interno muito significativo. Nós tivemos um momento em que mais da metade do nosso País vivia abaixo da linha da pobreza. Hoje, em torno de 52% do Brasil tem padrão de consumo de classe media.

Esse padrão de consumo de classe média vai permitir que nós tenhamos um grande potencial de consumo dos produtos que (...). Por isso que os dois acordos que fizemos são muito importantes. Primeiro acordo é o Acordo de Complementação Econômica, o ACE 53, que a gente tinha feito há mais tempo. Mas ele era só sobre 800 produtos, se eu falar pro senhor 800 produtos pode parecer muito. Mas é 800 produtos de mais de seis mil. Agora, o que nós decidimos: vamos ampliar esse numero de produtos. Vamos reduzir as tarifas desses produtos e vamos comerciar entre nós, aproveitando o potencial dos nossos mercados. Vamos aproveitar também o potencial que temos de complementação na área de investimentos.

O senhor sabe que, no Brasil, os investimentos mexicanos são muito importantes. Eles são os primeiros, se a gente considerar toda a América Latina. O volume é muito significativo, são bilhões e bilhões de dólares que empresas mexicanas investem no Brasil.

O Brasil também tem que investir no México. Nós estamos, por exemplo, muito satisfeitos com o investimento que está sendo feito por empresas brasileiras, em parceria com empresas mexicanas, na área do polietileno. Aliás, do 'etileno del siglo XXI´, que eu acho que pode levar, enfim, se é polietileno ou é etileno, pode levar a uma agregação de valor na cadeia produtiva de petróleo e gás. Isso gera emprego, isso gera renda, isso gera melhoria pras nossas economias.

Então, eu acredito que eu e o presidente Peña Nieto demonstramos vontade política, demos um impulso a essa relação. Esses dois acordos estão num marco de um acordo maior. Na área de serviços aéreos o México é extremamente atraente para os brasileiros porque vocês são berço de uma das maiores civilizações que a humanidade assistiu se desenvolver, aqui na chamada mesoamérica pré-colombiana, tanto os maias, astecas, olmecas, enfim, as culturas que se desenvolveram aqui produziram uma série de bens culturais de enorme valor que é do interesse de todos os países. Vocês têm excelentes praias. O Brasil da mesma forma, tem a sua cultura, então serviços aéreos, turismo, enfim, agricultura tropical, parcerias na área de ciência e tecnologia e inovação são muito importantes para o México e pro Brasil.

 

Jornalista: Senhora presidente, sem dúvida esses acordos já assinados por México e Brasil são relevantes nesse momento geral da economia mundial. Porém há um aspecto que é especialmente importante, suponho que para ambos os países, dado que em matéria petroleira, a nível global, México e Brasil, Brasil e México, são duas potências que enfrentam uma problemática comum. Que vem sendo pensado sobre a cooperação entre a empresa brasileira de petróleo, a Petrobras, e a Pemex, nesse novo esquema em que está a Pemex, com a promulgação da reforma energética, que é uma das mais transcendentes no país em muitíssimos anos?

 

Presidenta: Eu acredito que essa reforma é muito importante para permitir uma real parceria entre a empresa brasileira, por exemplo, a Petrobras, e a Pemex, que é uma das grandes empresas petrolíferas do mundo. A Petrobras, por exemplo, ela participa hoje já no Golfo do México, na parte americana. Nós temos parcerias ali com várias empresas internacionais. Para nós seria importantíssima uma parceria com a Pemex, do lado mexicano do Golfo do México. Nós temos todo o interesse também que a Pemex vá ao Brasil e participe também da nossa exploração em águas profundas. Até porque a Petrobras tem um acordo, uma parceria, um acordo tecnológico de formação também técnica de profissionais, um acordo de cooperação global. Qual é o forte da Petrobras? É a exploração de petróleo em águas extra profundas, que é o caso do Golfo do México. Então, seria de todo importante para nós, brasileiros, e pros mexicanos, que as duas grandes empresas aqui do continente na área de petróleo, elas façam parcerias, entre si e com outros, para que possam explorar petróleo. Isso não impacta, de nenhuma maneira, o controle que os Estados nacionais têm sobre as riquezas petrolíferas. No caso do Brasil, e tenho certeza também no caso do México, é monopólio do Estado nacional os recursos inexplorados do fundo do mar ou do subsolo.

Isso não impede que há uma presença de empresas internacionais na exploração de blocos porque não há esse monopólio na exploração e nem no desenvolvimento. Nós temos um modelo muito similar. O nosso modelo, do nosso ponto de vista, foi muito bem-sucedido. A Petrobras teve um teve um grande aumento na produção. Nós, inclusive na área do pré-sal, conseguimos marcos surpreendentes. Tenho certeza de que também aqui isso ocorrerá.

 

Jornalista: Algo mais que queira dizer?

 

Presidenta: Olha, eu quero te dizer uma coisa, eu sou muito grata ao governo do presidente Peña Nieto, muito grata ao povo mexicano. E agora, daqui a pouco, eu estarei no Congresso, na casa da democracia. E nós nunca vamos esquecer: quando o Brasil passou por um período de ditadura, o México nos recebeu de braços abertos. E eu acredito que a democracia mexicana é um dos valores que o continente latino-americano deve respeitar e considerar como sendo uma das nossas origens democráticas. Muito obrigada