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Entrevista concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, aos jornais Valor Econômico, Folha de São Paulo, O Globo e Estado de São Paulo

por Portal Planalto publicado 07/11/2014 20h00, última modificação 25/11/2014 16h24

Palácio da Alvorada, 06 de novembro de 2014

 

 

Presidenta: …da ditadura e perdeu direitos. Perdeu, você vê só, na democracia até quem defende o golpe pode falar. Na ditadura, quem ousar falar em democracia dá cadeia. Então, o meu compromisso com as instituições é compromisso com a democracia e a partir daí, eu considero fundamental a separação dos poderes. Acho que nós, que somos democratas, temos que respeitar que há uma independência entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Essa independência não é para um ficar criando dificuldades para os outros. É para que nós também estabeleçamos uma outra relação que a Constituição prevê que é a de harmonia. Ou seja, além disso, você tem que respeitar e se harmonizar com os chefes dos outros poderes e com o poder em si. Você tem que construir esse duplo relacionamento.

Eu acredito que a democracia no Brasil, ela se aprofundou, ela se aprofundou. Nós não temos muito tempo de democracia, tanto é que na minha vida física eu vivi os dois momentos. Eu consegui, o que eu acho que é uma grande... pelo menos para o pessoal da minha geração, ter visto a democracia se implantar. E eu acredito que ela se consolidou no Brasil. Nós somos um país que tem instituições, elas funcionam. Se você me falar o seguinte: pode ser aperfeiçoado? Qualquer produto humano pode e deve ser aperfeiçoado. Mas, eu quero dizer que eu considero que as instituições no Brasil têm funcionado com uma regularidade, uma isenção e uma clareza fundamental. Nós avançamos muito, nós somos um exemplo de grande democracia no mundo. E acho que nossas eleições, elas são produtos disso. Nós temos momentos eleitorais, como qualquer momento eleitoral, não é? Tem conflito, tem debate, tem acirramento, porque em uma eleição, o quê que acontece, está em questão a diferença. Então quando está em questão a diferença é a diferença que surge, é ela que aparece, é em cima dela que o processo se dá. Agora, isso não significa, como em qualquer grande democracia, que os momentos democráticos são todos iguais ou homogêneos, eles não são. Os momentos pós-eleitorais eles implicam, necessariamente, em que... aliás, eu acho que eleição também implica nisso -  aquela história que eu cansei de falar na eleição, o eleitor não é de ninguém. Ninguém é dono do eleitor. Se você de fato tem uma concepção democrática, na democracia é: um homem ou uma mulher, um voto. E isso é a força da democracia, por quê?  Se tem um momento em que nós todos somos iguais perante, não só a lei, mas perante a urna, é na hora de votar. O meu voto vale tanto quanto o dele, faz um tanto quando o dela, vale tanto quanto o de qualquer pessoa e ninguém é dono do eleitor. Porque esta visão de que o eleitor é meu é uma visão ultrapassada, é uma visão patrimonialista que houve e durante muito tempo no Brasil foi dominante. Hoje nós não temos isso. Portanto, quando encerra a eleição, está encerrada a eleição. E se elege um governador, um prefeito e um presidente, é obrigação do presidente, do governador e do prefeito, ser presidente de todos os eleitores e mesmo daqueles que não votam, ou seja, os menores de idade, da idade de votar e o pessoal como a senhora minha mãe, que tem dificuldade de locomoção...

 

Jornalista: incompreensível.

 

Presidenta: Então, não é só que ele tem (incompreensível), a responsabilidade também é sobre todos. Ele tem responsabilidade sobre todos. Eu não posso chegar para o governador e falar: “Ah, governador, como o senhor não me apoiou, a minha política com o senhor é diferente daquele governador que me apoiou, e eu vou dar prioridade para ele porque ele me apoiou, o senhor não me apoiou”. Esta visão é uma visão patrimonialista. Confunde, confunde o público com o privado. E na democracia é tão difícil saber ganhar como saber perder. Tem hora até que eu acho que é óbvio, que é mais difícil saber perder. Mas saber ganhar também é muito difícil. Vou te explicar porquê: porque há uma tendência das pessoas, quando ganham, de achar que são os “reis da cocada preta”. Não são. Quando você ganha um processo eleitoral, você tem que ter consciência que a partir daí a sua responsabilidade, ela é para com toda a sociedade e que ninguém é “rei da cocada preta”, ou seja, que não sairá da sua cabeça, do seu pensamento o que deve ser feito para o país ou para aquela sociedade que tem uma interação, tem que ter, inclusive... não é que eu vou sentar e perguntar assim: “O diálogo é sobre quê?” Só tem diálogo sobre coisas concretas. Eu não estou propondo nenhum diálogo metafísico: quem sou, para onde vou com o segredo da felicidade. Não estou propondo isso. Diálogo, quando se fala em política, você está discutindo diálogo sobre coisas concretas. Olha, a minha proposta sobre educação é essa, a minha é essa. Quais são os pontos incomuns que nós podemos levar juntos? Eu vou ter governadores de situação e governadores de oposição. A minha relação com ambos, ela vai ter que ser uma relação de parceria, tá certo? O senhor governador de São Paulo, o senhor Alckmin, divulgou no Painel da Folha que, na terça-feira, que tinha me mandado oito propostas. Não tinha chegado naquele momento ainda, mas logo depois chegou por e-mail, e nós estamos chamando ele para fazer uma discussão sobre as oito propostas que ele tem. Por quê? Porque nós sabemos que é importante fazer discussão…

 

Jornalista: Só ele, presidente?

 

Presidenta: Ele me mandou, estou falando que ele me mandou…

 

Jornalista: Não tem nenhum programa de água no Sudeste?

 

Presidenta: Não. Que eu saiba, não. Nós fizemos uma discussão também com o Rio de Janeiro, antes, antes da eleição e eles estavam juntos também. Porque houve o conflito - aqueles que vocês lembram bem - sobre o Rio Paraíba do Sul. E não é um conflito que opõe São Paulo versus Rio, vou dizer porquê: uma questão muito simples. Porque da forma como o Rio Paraíba do Sul abastece os dois estados, tanto você tem de cuidar, na hora de olhar de onde você vai captar, você tem de olhar tanto os municípios paulistas - que estão mais abaixo - como você tem olhar os municípios cariocas, porque pode afetar… não vai afetar só o Rio de Janeiro. O que afetar uma parte do Rio de Janeiro, afeta São Paulo, porque é interligado. Então, você tem de fazer esse processo. Agora, ele me mandou concretamente, possivelmente... eu falei - ontem o Pezão esteve aqui com o Eduardo Paes - eu falei para eles, e eles estão encaminhando também a parte que lhes cabe. Vai ter de ter uma discussão com todos para harmonizar. Mas tem partes da proposta de São Paulo que nada tem a ver com Rio. Tem parte, ou seja, eu te digo, das oito propostas que eu vi, tem partes que não tem nada a ver com o Rio.

 

Jornalista: Como quais, por exemplo?

 

Presidenta: Não sei de cabeça.

 

Jornalista: Recursos…

 

Presidenta: Eles estão pedindo recursos, nós financiamos sem problemas. Não é esse…

 

Jornalista: Mas chegaram a um consenso com essa proposta da ANA.

 

Presidenta: Não. A ANA esteve lá tentando harmonizar o consenso. Eles já tinham chegado a um acordo. É um acordo que se faz em qualquer bacia. Vamos supor: a Cláudia precisa de 2 metros - vou falar, não é esse número - 2 metros/segundos, agora, eu, ao mesmo tempo, uso essa água para outra coisa. Vamos supor, para que aquele trecho seja uma hidrovia, por exemplo. O outro usa para hidrelétrica. Então, você fala o seguinte: o que é o acordo? Você pode usar tanto, ele pode usar tanto, ele pode usar tanto. Se ficar difícil, ou seja, se secar, se o nível do rio diminuir você muda o uso. Então, qual é a prioridade? É para beber? Então, vai água para beber. O povo da hidrovia e o povo da geração de energia tem mais restrição. Agora, sempre depois da água é geração de energia. E por último a hidrovia. Agora, dependendo, tem lugar que a pessoa come daquilo. Então, a gente harmoniza isso no São Francisco. Não tem nada de diferente. Em todos…

 

Jornalista: Tem que ter alguém para arbitrar, não é, presidenta? Por que senão cada um puxa para o seu.

 

Presidenta: Tem. Mas tem um Comitê de Bacia que a gente integra. Geralmente o papel da União é fazer isso. Agora, no caso específico de São Paulo, havia estudos há mais tempos que dizia: não tendo investimento, terá problema de água. E esses estudos não são da oposição, esses estudos foram feitos pela situação. Se eu não me engano, na época do governador Serra. Eu li dois em fevereiro quando eu convidei o governador Alckmin para sentar aqui e para a gente discutir essa parte, para fazer uma obra emergencial.

 

Jornalista: O que a senhora topa fazer? A senhora disse: “O que nós financiamos (incompreensível)”. Qual é a (incompreensível), presidente, necessário…

 

Presidenta: Olha, querida, vai ser tudo discutido. As propostas que nós recebemos são bem, ainda, esquemáticas, elas não estão aprofundadas…

 

Jornalista: E aí seria via BNDES?

 

Presidenta: Ou ao BNDES ou ao BB ou Caixa. Aí depende, depende se é PPP, se não for PPP, quanto que é para nós. Não está preciso ainda isso. Por isso que nós chamamos ele para discutir.

 

Jornalista: Presidente, a senhora está falando no discurso de reeleição sobre diálogo, essa abertura toda. Teve um fato essa semana que foi a resolução do PT, na segunda-feira, que era uma resolução bem (incompreensível) do ponto de vista de colocação, ela falou em hegemonia na sociedade, chegada (incompreensível) na sociedade, usa termos bem… diz que o Aécio fez uma campanha racista, preconceituosa, machista. Eu pergunto se a senhora subscreve o tom daquela nota?

 

Presidenta: Não, eu não represento o PT. Eu represento a Presidência da República. E a opinião do PT é uma opinião do partido.

 

Jornalista: Até quando ele influencia a senhora?

 

Presidenta: Não me influencia.

 

Jornalista: A senhora representa o país, inclusive, o PT.

 

Presidenta: Não, eu represento o país. Eu não represento o PT. Eu não sou presidente do PT, sou presidente dos brasileiros. E acho que o PT, como qualquer partido, tem posições de parte, não do todo. É deles, é típico. E acho que essa questão das eleições, que o PT queixa que houve xingamentos, agressões… as duas partes reclamam da mesma coisa. Eu acho que não cabe nem… não deveria caber a mim e não cabe. Eu não faço isso. E não acho que deveria caber também ao adversário. Porque se a gente tiver um pingo de cabeça fria, nós vamos ver que, numa eleição, ninguém controla o que se diz nas ruas, muito menos na rede social. Só se controla o que nós mesmos dissemos.

 

Jornalista: Presidente, tem uma questão aqui - voltando à pergunta da Cláudia -, e se mantendo nesse tema que é a questão das instituições que é a seguinte: o PT defende alguma forma de controle da mídia. Essa é uma questão que a senhora, no seu discurso de posse, no primeiro mandato, a senhora fez uma defesa expressa da liberdade de expressão...

 

Presidenta: E ainda faço.

 

Jornalista: ...e deixou esse tema de lado. Agora, esse tema voltou com muita força nessa campanha por causa da radicalização, por causa da divisão do país. Qual é a posição da senhora?

 

Presidenta: Para mim, não voltou por isso não. É porque esta discussão comigo começou assim: em um debate lá no Alvorada...

 

Jornalista: Em um jantar com a gente.

 

Presidenta: Em um jantar com vocês, me perguntaram sobre a questão, se eu ainda achava que o controle (incompreensível), eu falei que achava, eu acho que a questão da liberdade de imprensa é, para mim, uma pedra, sabe aquelas assim, fundadoras da democracia. E acho que a liberdade de expressão talvez seja a grande conquista que emergiu de todo esse processo de redemocratização. A liberdade de expressão, ela não é só liberdade de imprensa. Ela é liberdade de imprensa, diríamos assim, sobretudo. Mas ela é também o direito de todo mundo que tiver uma opinião, mesmo que você não concorde com ela, dele ter direito de expressar. Mesmo quando eu digo o seguinte: o cara que fala contra a democracia, ele tem o direito de falar contra a democracia. A democracia é assim. Agora, isso é uma coisa, isso é um fundamento básico. Outra coisa diferente é confundir isso aí com regulação econômica. Regulação econômica, nós estamos tratando de outro assunto. Regulação econômica diz respeito a processos de monopólio e oligopólio, que pode ocorrer em qualquer setor econômico onde se visa o lucro e não a benemerência.

 

Jornalista: O Cade não está aí para isso?

 

Presidenta: O Cade está aí para isso em qualquer setor. Agora, posso te falar uma coisa? Por que é que o setor de energia, de petróleo, de qualquer setor, por exemplo, de transporte, tem regulações e a mídia não pode ter?

 

Jornalista: E quando a senhora fala em regulação econômica, já citou mais de uma vez, a senhora fala... estou falando aqui, a senhora citou a questão do monopólio, de propriedade cruzada ou que não está regulamentada?

 

Presidenta: Eu vou dar um exemplo, eu estou falando do que ocorre em muitos países do mundo. Centros democráticos. Ou alguém aqui desconhece a regulação que existe nos Estados Unidos? Alguém aqui desconhece? Não, né? Desconhece, por acaso, a regulação na Inglaterra? Que, de fato, talvez seja uma das – do meu ponto de vista – das mais duras que tem. Inclusive depois daquela história do World Of The News. Eu não estou falando – veja bem, hein? – eu não estou falando, eu estou dando dois exemplos de situações que nós não temos que ser igual. Não estou falando, não quero para nós uma regulação tal qual a inglesa ou tal qual a americana.

 

Jornalista: Mas por que, desculpa insistir, a questão do monopólio/oligopólio, a senhora se refere, então, a propriedade cruzada? O dono do jornal não pode ter rádio, não pode ter TV...

 

Presidenta: Não é só propriedade cruzada.

 

Jornalista: Mas inclui?

 

Presidenta: Eu acho que tem de haver o seguinte: você tem hoje, inclusive, o desafio de saber como é que fica a questão nas áreas das mídias eletrônicas. O quê que é de livre... ou seja... o quê que é livre mercado total? Aonde que é livre mercado total? Eu acho que tenderá a ser livre mercado a rede social. Acho que vai na tendência crescente de ser livre mercado. E aí teria que fazer uma discussão mais complexa sobre imprensa escrita.

 

Jornalista: Como assim?

 

Presidenta: Essa discussão: sobre o que sobra e o que que não sobra da imprensa escrita. E vocês sabem disso, que tem essa discussão no mundo. O New York Times discute isso, qual o destino. Mas ela tenderá a ser mais, eu acho uma... eu estou falando aqui sem, vamos dizer assim, sem reflexão profunda sobre o fato. Mas eu acredito que aí tenderá a haver mais uma liberdade maior pela dificuldade dos órgãos de sobreviver.

 

Jornalista: Quando a senhora fala em monopólio e oligopólio, automaticamente a gente pensa em propriedade cruzada...

 

Presidenta: Eu acho que tudo que é concessão é onde você tem que cuidar para não ter oligopólio.

 

Jornalista: Presidente, quando o PT discute isso, quando o governo discute isso, não está pensando na Rede Globo? Vamos ser sinceros...

 

Presidenta: Não. Não. Hoje, você pode... você está pensando na Rede Globo dos anos 70?

 

Jornalista: Na Rede Globo de hoje.

 

Presidenta: Mesmo assim, ela está mais diluída, não é?

 

Jornalista: A senhora não vê a Rede Globo como um problema?

 

Presidenta: Não, não acho que a Rede Globo é um problema. Isso é uma visão, eu acho, velha, da questão da regulação da mídia. Bem velha. Porque é o seguinte: o mal, a gente está demonizando uma rede de televisão quando você tem de ter regras que valham para todo mundo. Não só para eles, mas para todos.

 

Jornalista: A senhora não mistura esse tipo de regra, normatização que teria, com mecanismos de censura?

 

Presidenta: Não. Não só não misturo como eu repudio. Eu já respondi aqui. Eu, aqui, represento... eu não represento uma parte, eu quero representar o todo. E eu acho que isso jamais poderá ser feito sem uma ampla discussão com a sociedade. É o tipo da coisa que exige consulta pública, é o tipo da coisa que exige amplo debate. Você veja, vou dar um exemplo: Marco Civil da Internet. O Marco Civil da Internet, no início, tinha toda uma discussão a respeito que ele seria algo, vamos dizer assim, restritivo, seria encapsulador, que engessaria e que era um absurdo fazer uma discussão sobre Marco Civil da Internet. Tinha gente que achava isso. Bom, o processo da discussão do Marco Civil da Internet, o que ele evidencia? Ele evidencia pelo contrário. Passou a ser o processo que leva a você, vamos dizer, divergir ou não divergir diante do Marco Civil, foi o princípio da neutralidade. O que era o princípio da neutralidade? O princípio da neutralidade era interessantíssimo, era que não podia haver – onde todo mundo concordava – não podia haver interferência religiosa, não poderia ter interferência política, não poderia ter interferência estatal. E aí é que começou o problema: não pode haver interferência comercial. Por exemplo, vou dar um exemplo: eu não posso vender para ti, tá, e para ela um pacote com, vocês sendo consumidoras iguais, etc, não posso vender um pacote diferente. Fazer um preço para ti, um preço para ela. E isso tem a ver com as velocidades e as capacidades. Então, a discussão sobre o Marco Civil da Internet, a nossa, foi muito mais avançada, a nossa, no Brasil, foi muito mais avançada, muito na frente do que foi nos outros países. Tanto é assim que, se você for ver na NET Internacional, na hora da discussão, nós ficamos sozinhos, não mais com a história da neutralidade. O resto tudo fechou contra a neutralidade. Agora, com o passar dos meses, voltou tudo atrás e agora estão na neutralidade. Então, multilateral, multissetorial e neutro, esse é o Marco. Tem de ser assim, ninguém tasca. Na verdade, eu resumi o “pra ninguém tasca”. Porque foi isso que eles aprovaram, ninguém tasca. Então, vai lá, senta todo mundo, briga bastante e monta, vai ser assim, define os protocolos, e sai de um processo contraditório.

 

Jornalista: Como é que a senhora vai conduzir isso? Vai encaminhar um projeto?

 

Presidenta: Eu pretendo, primeiro, fazer, abrir um processo de discussão.

 

Jornalista: Quando que a senhora vai fazer isso?

 

Presidenta: Não vai ser agora. Vai ser no primeiro ou segundo trimestre, semestre do ano que vem.  

 

Jornalista: Do ano que vem?

 

Presidenta: É, isso vai ser, posso te falar, eu acredito não é um processo que se encerra, nem que se abra com rapidez.

 

Jornalista: Mas como é que a senhora fará esse processo, presidente? Abrindo um Grupo de Trabalho, chamando, fazendo audiência pública?

 

Presidenta: Eu acho que o melhor jeito é você usar a própria internet. Eu acho que a internet é o grande mecanismo de você abrir discussão pública. Mas isso não implica que você não faça discussões setoriais. A experiência demonstra, em todos os processos, que a reunião setorial é crucial. Porque ninguém entende mais do que dói, onde está apertando meu calo, do que o setor em questão. Foi assim, por exemplo, na TV digital, foi assim naquela questão que foi muito importante, que deu muita briga, muita confusão, muito disse-me-disse, mas que saiu, que foi a regulação do cabo, não é? Saiu, é uma regulação. Pode fazer isso, isso e isso e o resto, não quero saber. Agora, isso aqui tem de ser assim.

Jornalista: Eu tenho a impressão de que quando esse processo começar, e a internet se pronunciar, e vai haver uma sensação maior... a gente bombardeia a senhora com essa pergunta porque lá fora tem gente que acha que tem uma motivação bolivariana, não é, no tema...

 

Presidenta: Você já notou? Tem um cara na Veja, não, na Folha, falando sobre a história do bolivarianismo que eu faltei beijar ele...

 

Jornalista: O Samy, foi ontem.

 

Presidenta: Só faltei beijar ele. Porque ele mostra que é uma vergonha tratar os dois países como iguais. É uma vergonha, é uma, vamos dizer assim, uma excrescência. Porque não tem similiaridade. Eu sugiro que leiam o rapaz.

 

Jornalista: Não, de fato...

 

Presidenta: Não conheço ele, nunca vi mais gordo, não sei, nem sei onde ele está. Agora, ele fez um artigo de uma lucidez absoluta. Essa história de bolivarianismo está eivada de segmentos, camadas de preconceito contra o meu governo. Eivada. Tanto é assim que eu fiquei muito encantada com esse repórter porque ele foi lúcido. Ele não falou nada demais, a não ser constatou o absurdo que é esse tipo de comparação. Geralmente o uso ideológico de certas categorias distorce toda a compreensão da realidade. E se tem uma, que é usada indevidamente chama-se bolivarianismo. O mais estarrecedor, que eu cheguei à conclusão, é que o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social integrado pelo PIB brasileiro é bolivariano.

 

Jornalista: Quem falou isso? Quem disse que o Conselho é bolivariano?

 

Presidenta: Porque acusaram o governo de estar fazendo, com a questão da participação social, bolivarianismo. Um dos... porque quem é que criou o quê? A maioria dos órgãos de participação montam desde 35 e vão indo, vão indo, vão indo... a grande criação do governo Lula é a criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Daí porque, eu falei, bom, se não é o passado, o passado mais remoto antes de nós, então somos nós. Então tá bom, então nós criamos o quê? De grande, a coisa mais importante foi que – as conferências existiam, os conselhos... ah, o da fome também, o Consea. Se não é isso é o quê (incompreensível) da Participação Social? São os empresários? É o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que tem o PIB mais a CUT... é o quê?

 

Jornalista: Vai dar poder deliberativo, talvez.

 

Presidenta: Ele não tem poder... No decreto também, não.

 

Jornalista: A senhora não disse que tinha encaminhado por decreto e não por projeto?

 

Presidenta: E aí, você pega o decreto, está no decreto e você diz que é bolivariano?

 

Jornalista: Eu não, eles é que falam lá...

 

Presidenta: Você está me perguntando o que eu acho. Eu estou te dizendo...

 

Jornalista: Em falar nisso, presidente, foi muito engraçado o Ivan Valente durante essa votação. Dizendo assim: “Quem dera que esse decreto tivesse alguma coisa de bolivariano... se tivesse alguma coisa, ele era ótimo!”

 

Presidenta: Sabe o que é isso? É aquilo do Machado de Assis: “Preso não tem cachorro e pulga não tem cachorro.”

 

Jornalista: É como minha mãe dizia: “Pau pra comer sabão e pau pra saber que sabão não se come!”

 

Jornalista: Presidente, e a retomada do crescimento?

 

Presidenta: Agora, eu quero te dizer: eu acho que esse é o grande desafio nosso. E eu não acho que tem uma receita prontinha que alguém tenha e que nós devemos nos apropriar dela, segui-la à risca para crescer. Caso fosse assim, o que nós temos visto é o seguinte: os pragmáticos cresceram. Quem são os pragmáticos? Os pragmáticos… os Estado Unidos é o pragmático dos pragmáticos. Não salve empresas privadas. Eles vão lá e salvam todo o setor automobilístico. Não coloquem esta quantidade de moedas na economia. Eles vão lá e colocam. Não salvem bancos. Eles vão… e nem emitam títulos para salvá-los. Eles vão lá emitem e salvam. Os austeros…

 

Jornalista: Emite em dólar.

 

Presidenta: Não, minha querida, mas além disso, os austeros emitem euro. Os austeros emitem euros. Não vamos esquecer disso. E nós estamos com todos os bancos - eles mesmo dizem - em complicação. Nós todos temos um problema bastante sério porque isso está afetando de forma drástica o comércio internacional e, inclusive, as commodities. Ninguém vai me dizer que é trivial a queda do petróleo, ninguém vem me dizer que é trivial a queda do ferro, da soja.

 

Jornalista: Mas a senhora não acha que isso é (incompreensível) moderação que nós vamos viver daqui... ainda por longos anos e, portanto, é…

 

Presidenta: Sabe, Cláudia, eu acho que os emergentes, os emergentes têm ainda espaço para voltar a crescer mesmo em um quadro complexo da economia internacional dos desenvolvidos. Quem que eu falo que eu acho que tem espaço para crescer? Nós vamos ter de fazer o nosso dever de casa. Nós vamos ter de fazer aqui: apertar o controle da inflação; nós vamos ter limites dados pela nossa restrição fiscal para fazer toda uma política anticíclica que poderia ser necessária agora, mas vão ter limites. Mas eu acho que nós temos alguns nichos que eles não têm. E mais, quando eu disse, em várias vezes que me entrevistaram, que a política nossa, econômica, era de defesa não de ataque, ao contrário do que diziam, nós estávamos defendendo o quê? Nós estávamos defendendo que não houvesse uma queda brutal no nível de investimento; que não houvesse uma queda no nível de renda, nem no nível de emprego. Por mais que no Brasil se fala: “ah, o desemprego está crescendo”, hoje mesmo tem vários falando que o desemprego inexoravelmente irá crescer. Não é isso que os dados demonstram. Até isso a gente vai ter de entender de forma mais profunda. Nem tampouco que os níveis de renda estão caindo. Inclusive, quero aqui protestar contra o fato de dizerem que nós ocultamos dados. O que o IPEA… o IPEA não produziu nenhum estudo, o IPEA criou… o que o IPEA fez? Pegou o que nós divulgamos em setembro, da PNAD, os microdados todos, que todo mundo tem acesso, e fez séries do jeito deles, com os métodos deles. Agora, é bom vocês saberem que nós temos um problema estatístico nesses dados, que têm a renda zero, têm um conjunto de pessoas que declarou que tinha renda zero. Quando foram ver essa renda zero - deixa eu ver se eu tenho isso aqui -, quando foram ver as pessoas da renda zero, o quê que nós descobrimos e avisamos ao IBGE imediatamente, lá atrás? Que havia uma inconsistência com essas pessoas que declararam a renda zero. Quais são os indícios de inconsistência? Os 84,3% dos classificados como renda zero… aliás, nesta faixa, 84,3% tinham abastecimento de água - isso, com renda zero; 73, nessa faixa, tinha esgotamento sanitário.

 

Jornalista: 73?

 

Presidenta: 73.

 

Jornalista: Será que não são os homens ficando mais tempo em casa? Saindo mais tarde de casa?

 

Presidenta: Pode ser… não, pode ser a pessoa se declarando… se negou a declarar renda. Só isso.

 

Jornalista: Surgiu agora (incompreensível)

 

Presidenta: Não, surgiu nesta (incompreensível) 5,3… vocês olhem aqui como é que é o resto. Essa eu acho que é a mais grave: 5,3 tem curso superior…

 

Jornalista: Completo?

 

Presidenta: Completo, com renda zero.

 

Jornalista: Mas isso talvez seja (incompreensível)

 

Presidenta: Não. Por que que não? Não é isso. O quê eles acham que é? Eles tinham de botar isso: “não declarou” - 80% dos renda zero. É assim.

Jornalista: Qual o tamanho da população?

 

Presidenta: Isso você pode perguntar para a Tereza Campello ou para o Neri. A Tereza Campello que mais faz a crítica dos dados e da pesquisa, e foi uma das pessoas, uma das instituições que detectaram a incorreção aquela vez, e que avisou a eles que tinha isso. Falou: “Olha a inconsistência do dado, olha o dado.”

Jornalista: E não olharam?


Presidenta: Tão olhando querido, você acha que se faz assim e olha dado? Eles divulgaram em setembro. Quem que a Tereza avisou? O pessoal do MDS avisou ao IBGE que tinha essa inconsistência. A sua renda zero tem gente em todas as faixas, está acima da média. Então há probabilidade que você tenha um problema estatístico aí. O que o pesquisador... com renda zero quem não quis declarar renda é alta, por favor, reveja. Só que são milhares de… entendeu? A primeira que ela viu, ela acertou, que o resto todo viu também.

 

Jornalista: A senhora falou que os pragmáticos estão conseguindo recuperar suas economias.

 

Presidenta: Não, não, o pragmático

 

Jornalista: O pragmático.

 

Jornalista: A Inglaterra também, digamos assim.

 

Presidenta Você faz um país, acaba com toda a indústria, cria só banco.

 

Jornalista: No caso do nosso Brasil aqui, sem entrar em juízo de valor, o que está acontecendo hoje é uma situação clara. O Brasil parou, o empresário brasileiro está aguardando sinais sobre qual será a política econômica do segundo mandato para saber o que fazer. Existe uma falta de confiança. O nível de confiança da indústria, tanto da CNI quanto a medida pela FGV, mostra que estão em níveis parecidos próximos de 2009, que aí, sim, tinha uma crise. O Brasil não está em crise, não tem uma crise fiscal, nem existe uma crise de insolência externa, mas tem uma crise de investimento. E o consumidor…

 

Presidenta E como você explica o IDE ser US$ 66,5 bi?

 

Jornalista: Mas quando você vê os dados por dentro, tem poucos investimentos em novos projetos.

 

Jornalista: Muito desse dinheiro deve ser reinvestimento.

 

Presidenta: Mesmo se for... ô  gente tem alguém...Tem alguém tocando. Nós somos de qualquer jeito o 5º país do mundo receptor de investimento direto externo. O 5º. Neste caso aqui o que fica claro é uma coisa, mesmo sendo reinvestimento é investimento novo. Quando você reinveste você está fazendo um investimento novo. Se você pega seu lucro... é isso que você está falando?

 

Jornalista: É. Está ampliando, criando fábrica nova.

 

Presidenta: Não, mas aí é manutenção não é investimento. Reinvestimento é, se eu vou reinvestir, eu vou expandir. Não é isso. O nosso negócio é expansão de investimento.

 

Jornalista: Presidente, a senhora falou assim...

 

Presidenta: Não é a rodízio.

 

Jornalista: A senhora falou assim: “Vamos apertar o controle da inflação e teremos limites fiscais.” “Apertar o controle da inflação” é subir os juros e “teremos limites fiscais” é cortar gastos?

 

Presidenta: Meu querido, sempre será cortar gastos. Cortar os juros eu não me manifesto, aliás, subir juros eu não me manifesto. Nem cortar, nem subir.

 

Jornalista: Cortar a senhora preferia até que fosse o contrário, né?

 

Presidenta: Ah, preferia. Agora, não é uma questão da minha preferência, é uma questão de política monetária. Não, não, isso eu não me manifesto. Me desculpa, eu não falo sobre isso.

 

Jornalista: Quando a senhora fala em limite fiscal…

 

Presidenta: Limite fiscal nós vamos ter de reduzir os gastos.

 

Jornalista: Em quanto, presidente?

 

Presidenta: Não sei, querida. Se eu pudesse saber eu te diria tudinho aqui, agora. Estou te dizendo teoricamente.

 

Jornalista: E a senhora pretende anunciar isso junto com o novo Ministro da Fazenda, ou antes?

 

Presidenta: Olha, eu pretendo fazer o anúncio da minha equipe econômica ao voltar do G20, tá? Eu volto do G20, na semana seguinte, nas semanas… eu não tinha dado prazo nenhum para você. Esse “semanas”.

 

Jornalista: Com vários esses… pode se estender até dezembro? Até o G20 do próximo ano? Pode ser até janeiro?

 

Presidenta: Meu neto não fala o “s”, tá? Então ele fala assim...

 

Jornalista: Goiano não fala “s”.

 

Presidenta: Mas ele é gaúcho. Aí a gente fala para ele assim: copo, copos… aí agora ela fala o seguinte “quer me dar um copos?”

 

Jornalista: Eu estou com uma tremenda desconfiança, que eu vou colocar aqui, já pode pensar que eu sou maluca.

 

Presidenta: Jamais falarei uma coisa dessa.

 

Jornalista: Mas, eu estou com uma sensação de que o Guido Mantega pode não sair.

 

Presidenta: Oh, querida, essa é sua sensação. E aí, você fica com ela. Vou repetir: conversei uma vez com o Trabuco. Eu não minto, eu não falei depois com ninguém.

 

Jornalista: Nesse telefonema, ele falou muito sobre o futuro dele no Brasil?

 

Presidenta: Não.

 

Jornalista: Porque me contaram esse telefonema.

 

Presidenta: Não. Ele me disse simplesmente o seguinte, que ele me cumprimentava e, como sempre que ele tinha feito ao longo de todo o processo, ele estava disponível para ajudar a tudo o que fosse necessário, não significando isso que ele estava se oferecendo para nada. Ele estava sendo gentil igual, da mesma forma, que o Abílio Diniz e outros tantos.

 

Jornalista: Não houve um convite expresso, formal, do Trabuco?

 

Presidenta: Querida, eu não conversei com ninguém a esse respeito.

 

Jornalista: A senhora não fez nenhum convite até agora, é isso?

 

Presidenta: Eu não fiz nenhum convite sobre este assunto que vocês perguntaram.

 

Jornalista: Então vamos avançar, presidente.

 

Presidenta: Não, eu não vou falar sobre isso. Querido, eu não vou divulgar ministério agora, não farei isso, o que eu vou fazer no limite é o que eu disse a vocês. A minha equipe econômica será divulgada, primeiro, nas semanas.

 

Jornalista: Seguintes.

 

Presidenta: Igual eu falo para o meu neto.

 

Jornalista: Pois é, deixa eu te perguntar, pode ser dezembro então?

 

Jornalista: Quando o neto dela usa o “ss”, é singular.

 

Presidenta: Não é, não. É plural, a gente está tentando explicar o plural para ele.

 

Jornalista: Quando a senhora fala equipe econômica, a senhora inclui Ministro da Fazenda, Tesouro Nacional, Ministério do Planejamento…

 

Presidenta: Eu não vou dizer quem tem que ir, não vou. Não vou contar.

 

Jornalista: Mas presidente, a gente está falando de sinalizações.

 

Presidenta: Eu sei bem o que é sinalização para vocês. Sinalização para vocês é assim: vocês vão, constroem…

 

Jornalista: Uma história.

 

Presidenta: Não, não. Que história… Eles vão construir um farol, botar uma luz no topo do farol e anunciar que é aquilo.

 

Jornalista: E piscar.

 

Jornalista: Presidente, fala um pouco sobre o ajuste. A senhora falou o seguinte, “Vamos fazer o dever de casa, vamos fazer um ajuste.”

 

Presidenta: Olha, nós temos que fazer um ajuste em várias coisas, não é só cortar gasto, sabe? Ao longo do governo você descobre várias coisas - eu até vou usar uma palavra, mas não estou usando de propósito, não - que estão desajustadas. Várias contas que podem ser reduzidas.

 

Jornalista: Por exemplo, presidente?

 

Presidenta: Eu não vou divulgar, gente, coisa que eu ainda não completei. O que eu estou dizendo é que esta visão de corte de gastos é similar àquela maluca de choque de gestão, tá? Que vende o que não consegue entregar. Eu não vendo o que eu não consigo entregar. O que nós vamos tentar é um processo de ajuste de todas as contas do governo, todas. Nós vamos revisitar cada uma, olhar. Conhece lupa? Lupa: o quê que pode reduzir, o quê que dá para tirar, o quê que dá para modificar e, inclusive, o quê que dá para mandar modificações para o Congresso, para tentar reverter.

 

Jornalista: A senhora pretende reduzir, cogita reduzir ministérios, presidente?

 

Presidenta: Ô meu querido, eu acho que é outra lorota. Vou dizer porque que eu acho outra lorota, porque eu não posso, por exemplo, hoje acabar com Portos, nem Aeroportos. Por que que eu não posso? Porque eu ainda não acabei…

 

Jornalista: Concessões…

 

Presidenta: Não, porto eu estou no meio. Eu não vou desmontar isso e remontar. Aeroporto: idem, ibidem, tá? Nós vamos ter um problema porque tem de fazer aeroporto regional. Nós temos de fazer aeroporto regional, agora é preciso do marco regulatório. Vou ter dificuldade de aprovar agora, vamos ter de tirar, vamos ter de por, então vamos ter de olhar como é que fica. Portos e Aeroportos? Eu estou falando o que eu criei. O quê que eu criei? Portos e Aeroportos: Um. Criei, Micro e Pequena Empresa. Não tiro, não acabo com Micro e Pequena Empresa… aí entra na categoria “vaca tussa”. Entra nessa categoria. Por quê? Porque nós estamos no processo de focar neles, de olhar os problemas e de tentar equacionar para esse setor um fluxo de crescimento, que eu acho que vai ser muito importante para esse país voltar a crescer. Aí, vamos olhar outras coisas. Eu já falei para vocês que Direitos Humanos, Mulheres e Negros, têm status de Ministério, mas status de Ministério, status político. Não é status, de maneira alguma, que envolve estrutura. Não tem estrutura. Eles têm, eles têm o seguinte: eles ficam agindo, usando os demais ministérios para poder crescer. No caso de Mulheres, ainda tem a Casa da Mulher Brasileira, que ela é específica da mulher por causa da violência. Aí tem de por lá, colocar lá tudo da Defesa, de todas as áreas do Judiciário, passando por Delegacia da Mulher, por todos os órgãos de defesa da mulher, tem de botar num lugar só, junto com trabalho para ver se você dá proteção e autonomia para a mulher denunciar que foi estuprada cinco vezes pelo tio ou com não sei mais quem, tá? Tem de ter isso. Então, isso aqui eu não mexo. Aí deu seis, não deu?

 

Jornalistas: Cinco. Cinco. Deu seis. Seis.

 

Presidenta: Aí, quem é que querem acabar? MDA. Tem Desenvolvimento Agrário e Agronegócio. Não são iguais. Não tem similaridade, não se pode fazer política igual para um e para outro. Uma coisa é Pronaf e PAA e Seguro Garantia Safra. Outra coisa diferente é seguro barra pesa para o agronegócio, é os 156 bilhões deles… 156 bilhões, o outro ganha 24 bi, tá? É isso, a diferença é essa. Aí, falam para mim: “por que que não bota a Pesca junto?” Por que que eu não ponho a Pesca junto? Porque a Pesca não saiu do chão ainda, ela está para sair do chão. Ela, para sair do chão, o que eu falo é o seguinte: está que nem Aeroportos e Portos, ela vai decolar. Ela precisa de decolar para ir para qualquer outro lugar, se for necessário. Agora, ou faz isso, ou não vai dar certo. E é um escândalo querer acabar com o MDA, escândalo. Aí fala para mim: “Junta Micro e Pequena Empresa com MDIC”. Acaba a Micro e Pequena Empresa. Porque o problema da indústria é um, o da micro e pequena empresa é outro. Por que que nós deixamos assim? Porque ainda não está maduro para não ser assim. Então eu não acho que é questão do gasto público no Brasil seja, é quantidade de ministério. Isso é mentira, isso é jogo. O que que é a questão do gasto? A questão do gasto é ver estas despesas que eu não direi quais são.

 

Jornalista: Presidente, eu vou dar um exemplo para a senhora. A pensão com morte no Brasil consome 3% do PIB.

 

Presidenta: Essa é uma.

 

Jornalista: Pensão por morte, o tanto de fraude que deve ter.

 

Jornalista: Seguro desemprego, por exemplo, presidenta a senhora exibe no seu governo as menores taxas de desemprego na história do País. No entanto, o gasto com seguro desemprego é de 50 bilhões.

 

Jornalista: Estão trabalhando para o seguro desemprego. Hoje é um grande patrão o seguro desemprego.

 

Presidenta: E é um grande patrocinador de fraude.

 

Jornalista: Presidente, a senhora tem que encaminhar, o governo tem que encaminhar para o Congresso a mudança na LDO por questão da meta de superávit primário. O governo cogita zerar a meta de superávit para este ano?

 

Presidenta: O governo está ainda fazendo, nós estamos fazendo estudos ainda. Mas até metade da semana que vem eles já terão concluído o quê que vai ser concretamente.

 

Jornalista: Vai mandar um outro número?

 

Presidenta: Vai.

 

Jornalista: A senhora retomaria as reformas estruturais, tipo Previdência, que é uma coisa que…

 

Presidenta: Em que direção, hein, Sandra?

 

Jornalista: Por exemplo...

 

Presidenta: Porque a direção da campanha era… liberou geral…

 

Jornalista: Não, a direção… não, quando ocorre…

 

Presidenta: Não era o quê.

 

Jornalista: É o negócio da idade.

 

Jornalista: O Fator Previdenciário?

 

Jornalista: Aquela combinação…

 

Jornalista: Juntar os dois fatores...

 

Presidenta: Pois é, mas essa ela é mais, diríamos assim…

 

Jornalista: (incompreensível)

 

Presidenta: Não. É mais liberal do que o fator.

 

Jornalista: Ah, não sei, presidenta. Só sei que eu vou me aposentar pelo fator, é um vexame, não vou nem comentar aqui…

 

Presidenta: Gente, nós tentamos 85, 95 vocês lembram?

 

Jornalista: Lembro.

 

Presidenta: O 85 era não sei quanto de aposentadoria de idade, eu não lembro mais…

 

Jornalista: É 35 e 55.

 

Presidenta: 85, 95, porque é idade e tempo. Não é isso?

 

Jornalista: Idade e tempo de contribuição.

 

Presidenta: Idade e tempo de contribuição. De mulher era 85, somava idade mais tempo de contribuição, dava 85. Homem dava 95. Nós tentamos essa hipótese. Vocês lembram disso? Até era o Pepe Vargas, se eu não me engano.

 

Jornalista: Mas não chegou a mandar para o Congresso?

 

Presidenta: Foi. Foi e na hora de aprovar...

 

Jornalista: Não precisou mandar porque já tinha uma proposta lá.

 

Jornalista: O Pepe era o relator.

 

Presidenta: O Pepe era o relator.

 

Jornalista: E por que não...

 

Presidenta: Não houve acordo.

 

Jornalista: Provavelmente isso é melhor do que o fator. Porque o fator... (incompreensível)

 

Presidenta: Pois é, mas tem de olhar essas coisas. Isso aumenta gastos, viu, querida? Vocês são ótimos.

 

jornalista: Ou seja, a senhora não pensa em mexer no fator por enquanto?

 

Presidenta: Não, não é isso. Nós nos comprometemos a abrir a discussão. E, obviamente, nós sempre abrimos a discussão olhando também a consistência e a situação que vai fazer depois a Previdência. A gente não quer prejudicar o aposentado e não quer explodir a Previdência.

 

Jornalista: Uma outra fonte de gasto muito forte hoje no orçamento do governo era o Abono Salarial, que está na Constituição.

 

Presidenta: Eu estou achando ótimo, você podem fazer minha pauta. A imprensa, então, fez e colocou três co-problemas para mim. Vamos botar escrito. A imprensa me deu uma sugestão que eu vou encaminhar para o governo: Pensão por Morte, Abono Salarial e Seguro Desemprego. Eu agradeço porque achei muito interessante e criativo por parte de vocês.

 

Jornalista: Colaboração.

 

Jornalista: Por que o abono foi criado, hein, presidente? O abono foi criado na época que não tinha esses programas sociais todos de hoje, não é?

 

Presidenta: É verdade.

 

Jornalista: Por que ele não pode ser absorvido pelo (incompreensível).

 

Presidenta: Eu estou achando que vocês levantaram problemas sérios no que se refere à estrutura do gasto público no Brasil.

 

Jornalista: A senhora concordou com pelo menos dois.

 

Presidente: Eu concordei que vou levar em grande consideração essa sugestão.

 

Jornalista: Sugestões dos companheiros da imprensa.

 

Jornalista: Foi mais direta.

 

Presidenta: Não. Eu disse: esse… Pensão por Morte, eu falei. Os outros dois eu estou aqui…

 

Jornalista: A senhora falou que é uma grande patrocinadora de fraude.

 

Presidenta: Sim, mas você pode controlar a fraude.

 

Jornalista: Presidente, a senhora falou que a inflação é um tema que a senhora vai enfrentar. Eu queria saber o que a senhora pretende fazer

em relação à inflação, ou seja, reduzir a meta…

 

Presidenta: Nós temos… posso te falar uma coisa? Eu temo que num quadro de deflação internacional, as pressões inflacionárias fiquem mais diluídas. Não é? Nós sabemos.

 

Jornalista: Já estão, né?

 

Presidenta: Elas tão começando a ficar mais diluídas, uma vez que os preços internacionais estão todos cadentes. Além disso, tudo indica, até agora, a gente não sabe, porque isso é um tipo de bola de cristal, mas tudo indica que os anos de seca mais duros que o país passou, podem, porque em matéria de clima a gente fala “podem”, né? As variações no nosso caso são muito extremas para alguém externar uma opinião, mas nós achamos que haverá uma tendência de redução da seca no Nordeste, e mesmo no Centro-Oeste, e Sudeste, e tudo indica que há essa possibilidade de chuvas moderadas. Portanto, nós não teremos essa pressão monstruosa que houve no Brasil por conta…

 

Jornalista: Mas no ano que vem ainda vai ter problema de oferta de água, não é?

 

Presidenta: Não, não há certeza disso, não.

 

Jornalista: Não?

 

Presidenta: Não.

 

Jornalista: É pelo lado das tarifas, eu acho, presidente.

 

Presidenta: Nem nas tarifas. Se uma coisa não tem, na outra não tem. Querido, a forma pela qual se forma o preço, ele cai de 300 pra 0, o PLT cai de 300 para 0, em um dia.

 

Jornalista: Mas e essas térmicas que estão rodando?

 

Presidenta: Elas param de rodar, querido.

 

Jornalista: Mas em algum momento elas têm que ser pagas também, não têm?

 

Presidenta: Mas vocês acham que ela não foi paga, vocês acham isso. Nós pagamos elas. Nós tivemos, um dos gastos que nós tivemos esse ano no orçamento nosso, é pagamento delas.

 

Jornalista: A senhora acha que 2015 vai ser o ano do fim do mundo?

 

Presidenta: E acho o seguinte, acho interessantíssimo: nós estaríamos, hoje, na situação de São Paulo, se não tivéssemos 20 mil Megawatts de térmica que nós temos. Nós temos 20 mil. Quando houve o apagão, se tinha 4 mil era muito.

 

Jornalista: Mas acho que a crítica não é em cima das térmicas (incompreensível).

 

Presidenta: A consequência para qualquer, qualquer sistema, em que você prevê o risco, a consistência se paga pelo risco. Se você quer reduzir o risco, você pague por ele. Em qualquer sistema é assim. A nossa sorte é que o sistema elétrico brasileiro não tem, hoje, similaridade com o que foi. Similaridade. Nem parece. Por que eu estou te dizendo isso? Se você tem, hoje, condições de despachar a térmica na base e manter, com o nível de seca que nós temos, o país funcionando e sem problema de abastecimento, deva-se o fato de que a gente investiu e providenciou. Sobre qualquer aspecto, não se pode criticar despacho de térmica. O sistema é hidrotérmico, sabe por quê? Porque uma parte da sociedade brasileira optou por não fazer grandes reservatórios mais. Quando você não tem grandes reservatórios, como é que você vai ter energia? Não tem milagre no mundo. Faça térmica. Nós fizemos térmica, o sistema nosso é hidrotérmico. Ainda é muito hídrico, tem 75%. Mas, hoje, ele tem térmica suficiente para segurar a pior seca de todos os tempos.

 

Jornalista: Então, a senhora está dizendo que essa conta está paga?

 

Presidenta: Esta conta, ela foi paga ao longo desse ano todo. Gente, olha, mas olha o nível de aumento das tarifas de energia. Vocês botam isso, esquecem, inclusive aquela história do represamento, onde que está o tarifaço?

 

Jornalista: Em 2015?

 

Presidenta: Não, mas onde que ele está? Ele já aconteceu. Essa história que nós represamos é lorota. Ao longo do ano inteiro houve o pagamento pelo uso da térmica. O governo fez o quê? Suavizou um pouco, para não ser aquele impacto. Mas mais do que isso não fez, não. E é engraçado. Agora nós vamos viver o outro, o oposto. Pelo menos tudo indica. A fase, que é sempre assim no petróleo, sabe? Aí passa um tempo que nós estamos acima do preço.

 

Jornalista: Mas está para sair em breve.

 

Presidenta: Eles definiram o reajuste, esse reajuste é para o passado. É só para o passado, é para uma parte do passado. Porque vai ter um período agora que vai ser assim: preço internacional aqui, preço nosso lá em cima. Eu passei 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 com essas variações, às vezes ficava para baixo, às vezes ficava para cima.

 

Jornalista: Então 2015, presidente, não será um tsunami?

 

Presidenta: Só não acho que é correto, querer atrelar o preço internacional, ao preço internacional do petróleo, o preço do combustível do Brasil, que os nossos queridos pragmáticos, conhece eles? Pois eu vou falar dos nossos queridos pragmáticos. Eles são 240 milhões de habitantes. Eles fizeram o quê? Pegaram o shale gas deles, né? Deixaram ele a US$3,96 a última vez que eu vi, hoje deve estar menos, deve estar uns dois e pouco, 1 milhão de BTU, enquanto o preço internacional pipocava em 15, 14, dependendo da onde você quisesse vender, inclusive, para dona Ucrânia, não é? Não permitem exportação, tem uma proibição, um bump, tanto é que se você procurar na internet, liquid bump, é proibição. Tire a proibição de exportar. Proibiram a exportação. Eu estive, você esteve lá em Davos, quem esteve lá em Davos e assistiu a palestra de um dos funcionários importantes do governo americano, de um dos... eu não lembro quem era, eu confundo se é o do Tesouro.

 

Jornalista: A senhora falou que era do Tesouro, por isso que eu estou

dizendo.

 

Presidenta: Mas não acho que era do tesouro. O que ele falava era simplesmente o seguinte: “Venham para os EUA que nós somos competitivos”. Por quê? Porque eles recuperam indústria siderúrgica, eles recuperam petroquímica, química, e uma parte para eles é importantíssima que eles recuperem, que é a parte central da cadeia produtiva antiga. Eles estão lá na nova, né? Mas eles recuperam uma parte e recuperam com competitividade. Siderúrgica, por exemplo, recuperam toda a cadeia, faz redução direta com o gás, vê se compete com algum produto nosso, redução direta de gastos, a US$ 3, vê se compete.

 

Assessor: Deixa eu ser o chato...

 

Presidenta: Nós temos, querido, o problema é que nós temos, ele tem nome, endereço e telefone, o nosso.

 

Jornalista: Tá (incompreensível), ali embaixo (incompreensível), o sal ali?

 

Presidenta: Tá ali, ó. Não só no sal, tudo que nós exploramos aqui dentro.

 

Assessor: Deixa eu ser o chato aqui, ela tinha me dado até às quatro com vocês, tá.…

 

Presidenta: E vocês lembrem de uma coisa: lá, também não se pode exportar óleo bruto, viu.

 

Jornalista: Presidente, tem uma análise muito pessimista sobre o que vai ser 2015. Pelo que a senhora está descrevendo, os ajustes que já estão sendo feitos antes mesmo da eleição etc, etc. Então, 2015 não vai ser o tsunami que os analistas preveem. Vai ser o que, então? Vai ser uma marolinha? O quê que vai ser 2015?

 

Presidenta: Não. Não bota isso na minha boca, porque isso foi de um outro momento chamado... um momento de início da crise, mas ainda de boom do sistema. Você não pode pegar e comparar o mundo hoje, não pode comparar o mundo hoje com o mundo de 2008, 2009 e 2010. Não é o mesmo mundo. E isso é tão sério, que a nossa companheira Angela Merkel, que até vai vir aqui no Brasil, porque nós, ela, nós vamos fazer aqui uma, ela já foi convidada, nós vamos insistir, né, ela vem aqui nos visitar. Ela está com problemas na indústria mais competitiva do mundo. Por quê? Porque o mundo, tirando os Estados Unidos que têm essa política, vamos dizer assim, pragmática, né, tirando os Estados Unidos, o resto do mundo não está comprando, não está comprando manufaturas e os que compravam commodities continuam comprando, mas não compram como compravam antes. Se você olhar a queda nos preços nossos, pode ser preço e quantidade, mas dá assim: 28%, né? E aquela história que diziam para mim na campanha: “Os nossos vizinhos vão estar ótimos, todos os nossos vizinhos da América Latina”. Não é vero.

 

Jornalista: Hoje crescem mais do que nós.

 

Presidenta: Mas querida, não é vero uma coisa. Todos eles dependem de commodities. Todos, já começaram a reduzir seu nível de crescimento. Todos. Só tem um que mantém, que é uma coisa que sempre me interessou muito. Por que é que o preço do cobre não cai? Numa conjuntura de queda geral, vocês podem pegar a CRB, a CRB é aquele índice lá, cai assim, ó: tshhh… Você tem alguns que não caem. Em um quadro de commodities que é em queda, a América Latina vai sofrer feio. Porém, o quê que eu espero? Eu espero que essa queda das commodities não resulte em algo muito duradouro. Por quê? Porque eu andei conversando por aí e me disseram: “Olha, não é tanto a China. Porque até a China está se mantendo comprando. O problema maior de queda é na compra da zona da União Europeia.” Que lá que está mais, se você perguntar, por exemplo, para o pessoal da Vale: onde que diminui mais? União Europeia.

 

Jornalista: Mas como é que a senhora qualifica 2015, então, presidente?

 

Presidenta: Minha querida, eu não sei, eu não vou, eu não tenho aqui nenhuma pretensão de estar fazendo uma conversa com vocês e uma prospecção para o futuro. Eu posso dizer o que eu espero, qual é a minha esperança? Minha esperança é: o Brasil terá uma recuperação, o Brasil terá uma recuperação. Enquanto isso eu espero que o mundo também tenha. Porque, aí, a nossa recuperação será mais potencializada pela recuperação internacional. Por isso que eu torso para que nossos queridos pragmáticos continuarem sendo pragmáticos e para os não-pragmáticos ficarem um pouco mais pragmáticos. E eu tenho certeza que tanto a China quanto a União Europeia serão fatores decisivos. Meu interesse na reunião do G20 é ver como é que eles estão encarando esse futuro, que eu, no Brasil, nós vamos fazer nossa parte, vamos fazer por onde. Nós vamos fazer nossa parte para a gente está, porque até agora nós não deixamos o barco cair, ou se você for falar afundar. Nós mantivemos o nível de investimento, em um sufoco danado, mas mantivemos. Mantivemos também o emprego e a renda. Então, emprego e renda é mercado de consumo. Investimento e infraestrutura é precondição da produtividade. Fizemos tudo que pudemos com o pessoal da CNI, do Senai, aliás, da CNI, vou falar... Senai, Sesc, Senac, Senar e Senat, Sistema S. Para quê? Para que eles tenham um nível mínimo de mão de obra com uma formação melhor hoje e não daqui a dez anos. Nós tomamos providência para desonerar, sim. Na desoneração, perdemos, se você for ver, em termos de arrecadação, nós não teríamos problema hoje se não tivéssemos desonerado, é quase R$ 70 milhões. Agora, pergunta: a desoneração foi boa, você se lamenta, você se arrepende? Não arrependo, não. Porque a desoneração, na recuperação, ela vai ser fundamental. Porque é uma força que se adapta ao setor privado. Então, o que nós fizemos é o seguinte: A gente segura a situação e cria as condições para que a oportunidade da retomada não seja perdida, nem seja como no passado, que você leva, só para ligar o carro, você leva uma década. E aí não, dessa vez não levamos uma década para acelerar o carro. Nós temos condições de acelerar o carro. Agora, por isso, que é isso que eu disse para vocês é importante. Nós vamos olhar o fiscal e nós vamos olhar a inflação. A inflação é porque nós acreditamos que não teremos choque também. Nós não teremos choque de oferta como tivemos de alimento nem choque como tivemos por conta da seca. Tivemos dois choques.

 

Jornalista: Todo ano tem choque, presidente. Tá virando sazonal.

 

Presidenta: Não. Eu acho que houve. A gente não menospreza o nível de seca que nós tivemos. Não menospreza. Em oitenta anos. Tanto é que choveu na semana passada. E eu estava conversando com o pessoal que faz a previsão. Eles disseram o seguinte: a terra estava tão seca - você conhece esponja? Você imagina uma esponja seca. Quando cai a primeira água, ela desaparece. Ela desapareceu, inclusive, não vi, esse é o problema lá da Cantareira, você entende ela, não ouviram o que eles chamam, no setor elétrico, o jargão: energia fluente, ou seja, a aguinha não vai ali, não entra ali, não sai por ali, entendeu? É isso.

 

Jornalista: Presidente, a senhora está (incompreensível) inflação?

 

Presidenta: Uma parte foi.

 

Jornalista: A questão internacional, a esperança da senhora é que…

 

Presidenta: Não, não. Eu acho que nós temos problema interno na inflação.

 

Jornalista: Então, é isso que eu queria colocar para a senhora…

 

Presidenta: No mundo tem deflação, é outra coisa.

 

Jornalista: Tem uma deflação no mundo e nós temos uma inflação, hoje aqui no Brasil, de 6, 6,5%, que já é uma das maiores do mundo, se for comparar. E ela, essa inflação, ela diminui, inclusive, a competitividade do país perante seus principais parceiros comerciais. Tem um fator da demanda, sobre o qual a senhora poderia falar um pouco para a gente, que é a questão da demanda. Ou seja, existe um estímulo permanente aqui no Brasil, nos últimos anos, ao consumo. E isso tem pressionado muito administrador de serviços, que acaba gerando essa inflação muito resistente. A senhora pretende, nessa questão da

Inflação que a senhora diz que vai enfrentar, trabalhar com uma, enfim, procurar reduzir essa inflação que hoje está em 6,5% para um patamar menor, reduzir meta, mexer no intervalo de tolerância? Que medidas que a senhora pretende adotar para enfrentar a inflação?

 

Presidenta: Eu não pretendo mexer em intervalo de tolerância de inflação. Não pretendo fazer isso.

 

Jornalista: Nem no centro da meta?

 

Presidenta: Não, eu pretendo reduzir a inflação e não reduzir a meta da inflação. São coisas distintas.

 

Jornalista: Reduzir a inflação com reforço fiscal e menos monetário, é isso?

 

Presidenta: Isso. Nós vamos fazer uma política de inflação que leva em conta o fato também, que nós não vamos desempregar nesse país, põe na cabeça isso.

 

Jornalista: Presidente, mas essa é uma variável que independe do governo.

 

Presidenta: Você que acha.

 

Jornalista: A indústria automobilística está demitindo.

 

Presidenta: A indústria automobilística não é… como é que você explica que no Sul tenha estados com 12,8% de desemprego?

 

Jornalista: Aonde? No Rio Grande do Sul?

 

Presidenta: Santa Catarina. Os estados do Sul todos têm taxas de desemprego estarrecedoras. Os três estados do Sul.

 

Jornalista: Presidente, o quadro que a senhora colocou…

 

Presidenta: Onde que está o desemprego maior é do Sul para cima. E mesmo aí, não é grande.

 

Jornalista: Presidente, uma coisa é, esse quadro realista que a senhora coloca agora, necessidade de ajuste e tudo o mais, ele não alimenta o discurso oposicionista de que houve um estelionato eleitoral?

 

Presidenta: Por quê?

 

Jornalista: Porque durante a campanha estava tudo bem, agora, isso eu estou simplificando como se simplifica na rua…

 

Presidenta: Eu não concordo com isso, não. Eu não estou falando que vou fazer o arrocho que eles estão fazendo, que eles falaram. Pelo contrário, estou dizendo para você que vou manter o emprego e a renda. Não falei que vou reduzir meta de inflação e eles cantaram isso em prosa e verso. E tampouco não concordo com choque de gestão. Eu sei o que o estelionato que choque de gestão é.

 

Jornalista: Presidenta, agora, eu tenho uma dúvida. A senhora ganhou…

 

Assessor: Encerrando, vai.

 

Presidenta: Não, dá sim, querido. Quatro e cinco, pode olhar... pode ser, querida, mas fica para a próxima.

 

Assessor: Teremos outras, teremos outras.

 

Jornalista: A senhora vai pedir para os ministros para que eles coloquem à disposição seus cargos para facilitar?

 

Presidenta: Não, eu não vou pedir isso, não. Eles… veio dois, vieram alguns ministros sugerindo isso. Se eles quiserem fazer, faz. Agora, eu me sinto extremamente à vontade, que eu posso nomear… eu acho que é um gesto, você está entendendo? Elegância.

 

Jornalista: A senhora deu um acordo para eles que vieram falar sobre isso?

 

Presidenta: Eu falei: “Se vocês quiserem fazer, façam.”

 

Jornalista: Sobre a questão da Petrobras, o Lava Jato, a senhora teme essa confusão, que vem sendo conduzida no Congresso, com relação...

 

Presidenta: Olha, eu acho, que vou te falar, acho que é um momento que nós temos no Brasil, para acabar, vou repetir o que eu disse durante toda a campanha, para acabar com a impunidade.

 

Jornalista: A senhora ver a lava jato como oportunidade de acabar com a impunidade?

 

Presidenta: Por que, sabe por quê? Porque eu não vou, não vou engavetar nada, não vou pressionar para não investigarem, e quero todos os responsáveis devidamente punidos.  Eu não vejo ela como isso, porque eu acho uma maluquice se eu achar que tinha de ter uma coisa dessas para eu poder investigar e daí punir, me desculpa, isso eu jamais eu vou achar, eu lamento que tenha ocorrido.

 

Jornalista: O quê que essa eleição mostrou para senhora, o que ensinou para a senhora, o que as urnas ensinaram para a senhora?

 

Presidenta: Entre outras coisas me ensinou o seguinte: o povo não é bobo. O povo é muito esperto nesse país. E como são gentis, e são elegantes, mesmo se não sabem seus eleitores. É uma pequena elite que é deselegante que xinga e que maltrata. O povo não faz isso, não. O povo é de uma elegância no trato e eu vou falar para vocês: eu vi momentos assim muito importantes nessa campanha. Um deles foi aquela manifestação que eu e o Lula assistimos no Recife. Foi uma coisa que eu vou dizer, os anos vão passar e eu nunca vou esquecer.

 

Jornalista: E a Graça Foster na Petrobras?

 

Presidenta: Querida, isso é um absurdo você me perguntar uma coisa dessas.

 

Jornalista: Você se arrepende de alguma coisa da campanha que no calor da disputa acabou acontecendo, não que fosse intencional, mas que na disputa ali normal de vez em quando, alguém dá uma cotovelada?

 

Presidenta: Você sabe, você se arrepende do que você não falou, e não do que você falou.

 

Jornalista: O que você não falou que se arrependeu?

 

Presidenta: Já passou.

 

Assessor: Senhores, vamos lá, a última.

 

Presidenta: Meu querido, eu não acho nada, acho que tanto uma coisa pode acontecer, como outra. Tem de se olhar o que vai acontecer.

 

Jornalista: E o Eduardo Cunha a senhora já se acostumou com (incompreensível)?

 

Presidenta: Nós estamos há muito tempo convivendo com o Eduardo Cunha.

 

Jornalista: E?

 

Presidenta: Minha querida, vou falar uma coisa, os caminhos que as pessoas percorrem, cada um percorre um caminho, se encontram no futuro, não existe nada predeterminado.

 

Jornalista: A senhora sabia que o apelido dele é o Malvado Favorito?

 

Presidenta: Isso, vocês são muito criativos, vocês são muito criativos, e eu estou assim muito calma.

 

Jornalista: Presidenta...

 

Presidenta: São quatro e dez, e eu vou ter de falar com o primeiro Ministro da Austrália.