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Entrevista concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff durante visita a Doha/Catar

por Portal Planalto publicado 12/11/2014 15h15, última modificação 14/11/2014 21h04

Doha-Catar, 12 de novembro de 2014

 

 

Presidenta: Queria dizer para vocês... Vou fazer um balançozinho do que nós fizemos, não é? Eu estive com o Emir, antes, nós discutimos toda a relação bilateral que existe entre o Brasil e o Catar. Porque, eu não sei se vocês sabem, mas nós estamos fazendo 40 anos de relações entre os nossos países. Então, é um bom momento para a gente olhar as formas pelas quais a gente pode melhorar esse relacionamento. Ele se dá em algumas áreas: o Brasil é importador de gás natural do Catar, que é o terceiro maior produtor de gás no mundo, depois da Rússia e do Irã. Essa é uma relação muito importante para ambos os países que agora estão avaliando contrato de médio e longo prazo. Também avaliamos a questão das nossas relações em duas outras áreas: na questão da defesa, na área da defesa, em que eles estão discutindo com o Brasil a compra do sistema Argus, e também uma discussão a respeito dos nossos aviões da Embraer. É uma área de importância para nós, muito grande, é essa que eu vim… falei também com o Emir, mas vim discutir com a xeica Mozah que é uma cooperação na questão da educação. Essa cooperação na questão da educação, ela abrange duas questões: primeiro, propriamente dito, o fato de que a xeica, que é embaixadora da ONU para a questão da educação, defende que a educação é uma agenda ainda inacabada. Inacabada e que tem de ser priorizada. Nós concordamos inteiramente com isso, primeiro, porque no Brasil nós damos prioridade absoluta à educação como o caminho, de fato, do desenvolvimento do país, do desenvolvimento sustentável do país. Da creche à pós-graduação. Dentro disso, nós discutimos a importância da divulgação das melhores práticas de educação internacionalmente, tanto no que se refere a ensino fundamental, onde tem 58 milhões de crianças que, por vários motivos, não têm acesso a colégio no mundo, propondo a questão da universalização no ensino. Então, é uma luta contínua dentro da ONU, dentro do G20, dos Brics para tornar a educação uma questão prioritária.

Outra questão que nós discutimos também foi a cooperação entre o Brasil e o Catar, em termos dos arquivos que possam existir dentro da Biblioteca Nacional, e que já foram detectados alguns, e a digitalização deles e, cedência aqui para a Biblioteca Nacional do Catar, que são arquivos que dizem respeito à influência do mundo árabe na cultura brasileira via Portugal. Principalmente com a presença de D. João VI no Brasil, que traz uma parte dos arquivos portugueses que estão no Brasil. Então é uma cooperação no plano da Biblioteca Nacional. E para nós, também, dentro do Ciência sem Fronteira. Eles aqui trouxeram várias universidades de ponta, várias universidades internacionais como a Carnegie Mellon, várias outras, eu agora esqueci as principais… bom, não vou lembrar. E nós estamos interessados em fazer um intercâmbio, tanto no que se refere à parte do Ciência sem Fronteira na graduação, como na pesquisa. Basicamente, foram essas as questões de forma resumida, além de discutirmos bastante sobre a questão da crise do Oriente Médio e do conflito israelo-palestino, basicamente, que nós acreditamos pelo menos o Brasil, essa é a posição que nós sempre externamos, que é crucial se resolver esse conflito para que se possa ter paz no Oriente Médio. Isso passa pelo reconhecimento dos dois Estados.

 

Jornalista: Presidente, a senhora soube da demissão da ministra Marta Suplicy dentro do avião? Da carta?

 

Presidenta: Não, querido. Nós acertamos isso antes.

 

Jornalista: Mas a carta que seria divulgada a senhora soube no avião, chegando aqui?

 

Presidenta: Não, querido. Eu estive com ela antes. E ela entregou a carta.

 

Jornalista: A senhora soube da carta…

 

Presidenta: Não, querido, não soube. Eu soube antes.

 

Jornalista: O que a senhora acha do conteúdo da carta?

 

Jornalista: Ela fez avaliação sobre economia não muito favorável.

 

Presidenta: Foi a declaração dela, é a opinião dela.

 

Jornalista: Incomoda ter um ministro falando isso, presidente?

 

Presidenta: Não. Acho que ela externou a opinião dela.

 

Jornalista: A praxe não seria ela entregar a carta para a senhora no Palácio do Planalto, a senhora…

 

Presidenta: Não, meu querido, eu conversei com a ministra e nós acertamos a saída da ministra. Ela falou para mim, tem mais de um mês que isso está acertado. E ela entregou a carta naquele espírito que todos os ministros que vão sair entregarão uma carta para mim. Ou os que não vão sair também. Ela não fez nada de errado nesse aspecto.

 

Jornalista: A senhora chegou a ficar surpreendida?

 

Presidenta: Não. Eu estou te dizendo, nós tivemos uma conversa.

 

Jornalista: Mas o conteúdo da carta a senhora leu quando chegou aqui.

 

Presidenta: Não. Eu sabia o conteúdo da carta.

 

Jornalista: Presidente, o Catar, um país que tem projetos (incompreensível), mas é um país também, com polêmicas que há indícios de (incompreensível)

 

Presidenta: Posso te falar uma coisa? Eu não falo, eu não faço avaliação sobre políticas internas do Catar. Não faço. Nós temos uma relação com o Catar, o que... a política interna do Catar eu não me manifesto.

 

Jornalista: (incompreensível)

 

Presidenta: Nós discutimos a questão da situação israelo-palestina.

 

Jornalista: (incompreensível)

 

Presidenta: O Brasil, na questão de Gaza, eu fui muito clara. Nós não concordamos nem com os ataques que levaram a bombardeios por parte de grupos sobre Israel, mas não concordamos ainda muito mais com a desproporção do ataque, que comprometeu crianças, matou crianças, que matou mulheres, que matou civis. O Brasil teve uma posição bem clara a esse respeito. E nós, sempre em todas as circunstâncias, externamos a importância de estabilizar a região - passa por uma negociação da criação dos dois Estados.

 

Jornalista: Como é que a senhora vê esse momento, presidente, em que tem palestinos, indivíduos palestinos atacando israelenses e a resposta, também de Israel, com as prisões e também mortes palestinas.

 

Jornalista: É uma nova onda de violência, diferente do que acontecia antes.

 

Presidenta: Isso agora está muito mais, mais… vamos dizer, diminuiu muito. O momento crucial foi há tempos atrás quando houve aquele ataque muito forte sobre Gaza e, a partir daí fizeram um acordo, e a situação melhorou. Nós vimos uma… tivemos uma posição muito clara, vou repetir: nós manifestamos nosso integral desagrado com o fato e não concordamos com um recrudescimento da reação. A reação foi maior que o ato.

 

Jornalista: Presidente, a senhora espera que todos os ministros entregue os cargos até terça…

 

Presidenta: Não, não espero, não.

 

Jornalista: A senhora estabeleceu um prazo a eles?

 

Presidenta: Não estabeleci nenhum prazo, eu não vou fazer a reforma imediatamente. Vou fazê-la por partes. A ministra Marta é um caso que ela tratou comigo logo após, logo após o final da eleição, ela tratou isso comigo.

 

Jornalista: Na entrevista a senhora vai falar sobre economia e sobre essa (incompreensível)

 

Presidenta: Não é sobre isso que é o G20. O G20 é sobre o fato de que o mundo ainda está numa situação bastante difícil, não é? Enfrentando vários problemas, principalmente, desemprego. Altíssimas taxas de desemprego. Perda grande de renda e, em vários países, até tendências deflacionárias. Então, o G20 é sobre isso, sobre como se prossegue na reforma do Fundo Monetário. E como se traduz o desejo do G20 de um desenvolvimento sustentável e equânime, como isso se traduz em medidas concretas. Acho que o foco muito forte vai ser sobre emprego.

 

Jornalista: Presidente, o Financial Times divulgou esses dias que autoridades americanas estão investigando a Petrobras nos Estados Unidos. Preocupa a senhora esse tipo de investigação numa empresa brasileira?

 

Presidenta: Não. Isso faz parte das regras do jogo. Empresas cotadas na Bolsa de Nova Iorque têm de prestar contas das… segundo as regras da Bolsa de Nova Iorque. Além disso - que também não são muito diferentes das brasileiras, não - além disso, os Estados Unidos têm de investigar se tem cidadãos americanos envolvidos em alguma irregularidade. Eu acho que, pelo contrário, isso mostra que o mundo está evoluindo no que se refere a isso.

 

Jornalista: A senhora tem um encontro com o presidente Obama no G20, pretende resolver as questões diplomáticas…

 

Presidenta: Não, não. Nós não vamos tratar assim de questões pontuais. Essa questão é uma questão que se trata bilateralmente, não no âmbito do G20, não.

 

Jornalista: Presidente a senhora encaminhou para o Congresso um Projeto de Lei para mudar a LDO, a senhora acha que esse projeto, a senhora concorda (incompreensível) esse projeto de alguma forma, evidencia um fracasso da política fiscal...

 

Presidenta: Dos 20 países do G20, que são as 20 maiores economias do mundo, 17 hoje estão numa situação de não cumprir, de ter déficit fiscal. Nós estamos ali no zero. Nós não temos nem déficit, nem superávit. Os países do G20, 17 têm déficit. Nós não somos, nós estamos até numa situação um pouco melhor. Nós temos uma das menores dívidas líquidas sobre PIB, 35%. Os países do G20, média, está acima de 60, a dívida líquida. A nossa situação, se você olhar nos fundamentos, ela é uma das, uma situação bastante diferenciada no que se refere aos demais países. Nenhum deles está cumprindo o superávit primário. Nenhum dos 17. Agora, é importante sinalizar que o próprio Fundo Monetário fez um apelo no sentido de que haja uma melhoria bastante significativa na política de empregos do mundo. Porque o cálculo da OCDE se eu não me engano, dá 65 milhões de desempregados no G20, nas economias do G20. O que é um recorde.

 

Jornalista: Presidente, não ficou muito claro, a gente queria entender aqui. A carta que a ministra divulgou foi entregue para a senhora antes? A senhora leu antes?

 

Presidenta: Meu querido. Não… eu estive… ela me disse o texto, o teor da carta. Ela me disse antes de eu viajar. Mas antes disso, antes de eu viajar, eu estou dizendo que logo depois que eu fui reeleita a ministra falou comigo que sairia. A ministra não fez nada de diferente. Ela não teve nenhuma atitude incorreta, ela me disse que sairia, eu aceite que ela saísse. E aí nós acertamos que ela ia me enviar uma carta. A estrutura de praxe.

 

Jornalista: A senhora sabia que seria ontem?

 

Presidenta: Ela me disse antes de eu viajar.

 

Jornalista: Mas o tom não estava muito crítico em relação à equipe econômica, ela no Ministério da Cultura, a senhora não achou que ela, enfim...

 

Presidenta: Meu querido, esta é uma opinião dela. Eu acho que as pessoas têm direito de dar opinião. Eu não acho nem A, nem B. Estou constatando o que aconteceu.

 

Jornalista: Presidente sobre o acordo (incompreensível) a senhora poderia dar mais detalhes?

 

Presidente: Não, não tenho como te dar mais detalhes. Eles sequer iniciaram negociação, é um processo agora, não é? Não tem como te dizer concretamente. Não porque seja alguma coisa que eu não queira dizer, é porque ainda não foi feito.

 

Jornalista: A senhora (incompreensível) possibilidade de investimento (incompreensível).

 

Presidenta: Eles sempre colocam essa questão, do interesse deles.

 

Jornalista: Dos setores tem algum detalhe que poderiam ser...

 

Presidenta: Não. Nós, inclusive, é uma coisa que eu esqueci de falar - muito obrigada por você perguntar… esqueci mesmo - nós combinamos de manter um grupo de alto nível que possa ter decisões sobre as questões que nos interessam e que isso seja feito de forma rápida.

 

Jornalista: E sobre a reforma, a senhora disse que vai começar por partes. Qual seria a primeira parte?

 

Presidenta: Eu não vou dizer qual vai ser a primeira parte porque o dia que eu começar vai ser o dia que eu divulgarei.

 

Jornalista: Mas até dezembro, até o final do mês?

 

Presidenta: Não, não, vocês desculpem gente. Eu não estou aqui hoje… eu não vou falar isso… o dia que eu for fazer uma entrevista sobre a minha reforma ministerial, eu farei uma entrevista sobre reforma ministerial.

 

Jornalista: E a influência do Lula nessa reforma ministerial, ele vai indicar alguém?

 

Presidenta: Meu querido me desculpa, mas não tem cabimento isso.

 

Jornalista: Divulgou-se em Brasília que a senhora teria dado um prazo até terça, o Palácio teria falado...

 

Presidenta: Eu não dei prazo nenhum até a terça e o Palácio, companheiro, não fala. Até onde eu sei, o Palácio é integrado por paredes mudas. Só fala sobre reforma ministerial esta modesta que vos fala aqui. Não tem reforma ministerial terça-feira. Terça-feira é quando eu voltar? Nem pensar.

 

Jornalista: (incompreensível).

 

Presidenta: Não dá nem tempo, gente. Eu pego… quanto eu pego de volta? 23 horas, sei lá quantas horas.

 

Jornalista: (incompreensível).

 

Presidenta: Não tem meu querido. Vocês não vão ter essa manchete. Sinto muito. Eu gostaria que vocês tivessem, mas essa vocês não terão porque não será assim.

 

Jornalista: Então a senhora não acha que a ministra esperou a senhora viajar para divulgar a carta?

 

Presidenta: Não, não acho isso, não. E não é verdade. Isso seria uma injustiça com a ministra.

 

Jornalista: (incompreensível)

 

Presidenta: Não, não é isso. É uma coincidência, só. Eu dou muita importância ao Catar. Acho que é um país com o qual o Brasil tem uma ponte muito grande e é uma ótima relação para nós, não só pelo povo, por todas as relações que nós tivemos, estabelecemos há 40 anos com eles. Mas porque também temos interesses comuns. Tem agora vôo São Paulo... aqui Doha, que é uma ponte nossa com o Oriente Médio.

 

Jornalista: Presidente, o que a senhora achou das mulheres aqui, da diminuição da mulher…

 

Presidenta: Aqui é mais ocidentalizado, né? Eu acho, inclusive, a estatura da xeica uma coisa muito importante. Uma mulher muito competente, inteligente, com uma agenda, sem sombra de dúvida, da melhor qualidade possível. E com essa visão de levar essa questão da educação para o mundo. Eles estavam me mostrando o projeto, o projeto é de um conjunto de países que eles sistematicamente ajudam, colocaram recursos significativos, mais de US$ 1 bilhão, então, eu acredito que tomando esse padrão mostra, sim, uma mulher muito educada, culta. Então, eu acredito que ela é um exemplo e também um símbolo, porque a cultura islâmica e árabe foi muito forte no mundo. Não vamos esquecer. Quando nós estávamos mergulhados na mais negra idade média o iluminismo vinha deles, a luz vinha deles. Um beijo.

 

Jornalista: Uma última pergunta, presidente, como a senhora (incompreensível).


 

Ouça a íntegra da entrevista (18min49s) da Presidenta Dilma Rousseff