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Entrevista concedida pela presidenta da República, Dilma Rousseff, após a cerimônia de Recepção à Delegação Brasileira de WorldSkills 2015 - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 02/09/2015 17h30, última modificação 02/09/2015 17h35

Palácio do Planalto, 02 de setembro de 2015

 

 

Presidenta: E aí, jovens? Vocês viram o WorldSkills, não é? Uma glória, não é? Não vamos esquecer, 84% dos... São ou foram alunos do Pronatec e um dos alunos, um que teve medalha de ouro, a família recebe Bolsa Família.

 Jornalista: (Inaudível)

 Presidenta: Ganharam. De quem ganharam? É importante a gente discutir de quem ganharam. Ganharam da Coreia, da Alemanha e do Japão, entre outros países da Suíça, que ficou com o terceiro lugar. São jovens de grande qualidade. Então, é um orgulho, viu, nós termos ganho essa Olimpíada do Conhecimento. Um orgulho.

Agora eu sei que vocês querem fazer perguntas… pode perguntar.

 Jornalista: O governo vai mandar algum outro adendo do Orçamento para o Congresso, sem o rombo? E a CPMF, está descartada, não está descartada?

 Presidenta: Olha, posso te falar: o governo está… o governo vai, de fato, mandar - e é responsabilidade dele, nós não queremos transferir essa responsabilidade para ninguém. O que nós queremos é construir juntos; nós queremos cumprir a meta que estipulamos. Então, vamos buscar cumprir a nossa meta. A meta, nós vamos buscar reduzir esse déficit que está ocorrendo. Nós estamos evidenciando que tem um déficit, estamos sendo transparentes e mostrando claramente que tem um problema. Nós não fugiremos às nossas responsabilidades de propor a solução do problema. O que nós queremos, porque vivemos em um país democrático, é construir essa alternativa. Não transferindo a responsabilidade de ninguém, porque ela sempre será nossa. Porém, é importante destacar que iremos buscar, estamos avaliando, todas as alternativas. E iremos colocar de forma, também, transparente para o país. Passamos por um momento de dificuldades: as receitas no Brasil caíram; essas receitas não ficarão eternamente em queda, elas tenderão a se recuperar na medida que o país se recuperar. Nós acreditamos que neste momento é possível antever que, no futuro nós teremos um processo de recuperação, porque já produziu efeitos algumas das medidas que nós tomamos. Mesmo com essa variação cambial, a inflação tem uma tendência a reduzir-se bastante nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a própria desvalorização cambial tem levado a um aumento das exportações. Nós acreditamos que o investimento na área de infraestrutura, que o investimento na área de energia, que o Programa de Exportações, que não é só câmbio, é também convergência regulatória, acordos comerciais com vários países, tudo isso tenderá a levar a uma situação bem melhor no futuro. Nesse momento, então, haverá uma mudança da receita, mas até lá nós vamos ter que buscar mecanismos para cobrir o déficit, para cobrir essa diferença e cumprir as nossas metas.

 Jornalista: Mas vai mandar um adendo?

 Presidenta: Nós iremos mandar quando acharmos que a discussão maturou, quando acharmos que existem as condições para fazer isso, nós iremos mandar mais elementos para o Congresso.

 Jornalista: A CPMF está descartada, abandonada?

 Presidenta: Eu não estou afastando, nem acrescentando nada. Por que eu não estou afastando, nem acrescentando? Eu não gosto da CPMF, se você quer saber. Acho que a CPMF tem as suas complicações, mas não estou afastando a necessidade de fontes de receita, não estou. Não estou afastando nenhuma fonte de receita, quero deixar isso claro, para depois se houver a hipótese da gente enviar essa fonte, nós enviaremos.

 Jornalista: Presidenta, a senhora vai apoiar a proposta de taxação de grandes fortunas, que já corre no Congresso?

 Presidenta: Eu não vou, aqui, discutir nenhuma hipótese específica. O governo está aberto a todas as discussões. Nós queremos, nós estamos em uma fase que queremos construir uma proposta.

 Jornalista: (Inaudível)

 Presidenta: Olha, acredito que a dona de casa, que tem que equilibrar o orçamento doméstico, ela discute com a sua família. Ela discute com a sua família como ela vai fazer. Muitas vezes, inclusive, ela encontra por parte da família, boas sugestões. Não é algo que você deve fazer sem ouvir ninguém. Justamente pelo exemplo que você deu, eu acho que a população pode entender. Quando você tem uma dificuldade no seu orçamento doméstico, você procura como solucionar. Aqui, na WorldSkills, o grito de guerra, que eles chamam, dos ganhadores da Olimpíada, tinha uma parte final que era o seguinte: “vamos juntos, somos uma só Nação”. Eu acho que é isso que acontece em uma família, quando ela tem dificuldades para superar, “vamos juntos somos uma só família”. No Brasil é a mesma coisa, “vamos juntos somos uma só Nação”; não vejo mal exemplo, pelo contrário, eu vejo um exemplo de diálogo, eu vejo um exemplo de transparência, um exemplo de verdade. Nós não estamos tirando nada da cartola, não nos eximiremos da nossa responsabilidade. Iremos, sim, fazer as nossas propostas.

 Jornalista: E se o Congresso (inaudível)?

 Presidenta: Olha, eu acho que nessa questão do ministro Levy, eu já disse uma vez, que tem fatos que não são verídicos, não são verdadeiros. O ministro Levy não está desgastado dentro do governo, ele participou conosco de todas as etapas da construção desse Orçamento, ele tem o respeito de todos nós. É absolutamente... Não contribui para o país esse tipo de fala de que o ministro Levy está desgastado, que ministro A briga com ministro B; não contribui para o país. Ele não está desgastado.

 Jornalista: E isolado, isolado ele está?

 Presidenta: Ele também não está. É isolado de quem? De mim ele não está. Então, não está isolado, só uma coisa, eu gostei da pergunta dela da família. Dentro de uma família só tem uma opinião? Não! Dentro de uma família, nós todos sabemos aqui, tem várias opiniões. O fato de haver opiniões de A, de B, de C, de D, da mãe, do pai, de quem quer que seja, não significa que a família está desunida, não, significa que ela debate, discute, que ela quer enfrentar o problema e que ela quer superar o problema. Me desculpa, mas eu acho que é um desserviço para o país esse processo de transformar e de falar que o ministro Levy está isolado, está desgastado. Não está, não, dentro do governo ele não está. Nós temos o maior respeito pelo ministro. Aliás, por todos os ministros da área econômica: pelo Nelson Barbosa, pela equipe do ministro Nelson Barbosa, pela equipe do ministro Levy. Agora, nós somos um governo que debate. Nós debatemos, nós chegamos a uma posição e nós, a partir do momento que tomamos a posição, a posição é de todos nós.

 Jornalista: Presidenta, o governo subestimou o tamanho do déficit? Porque a partir do momento que essa proposta de Orçamento de 2016 chegou ao Congresso, os parlamentares já começaram a identificar que talvez o tamanho do rombo não seja aquele identificado pelo governo.

 Presidenta: Houve, de fato, uma fala nesse sentido. Nós estamos procurando averiguar do que se trata. O ministro Nelson Barbosa compareceu para discutir essa questão. Do nosso ponto de vista, nós não achamos que estamos errados.

 Jornalista: Acha que é 30?

 Presidenta: Nós achamos.

 Jornalista: E não 60 ou 70, como está sendo levantado?

 Presidenta: Nós achamos que o déficit que nós estamos apontando é 30.

 Jornalista: (Inaudível) falou que o déficit é desastroso. A senhora acha que é desastroso?

 Presidenta: Todo déficit é ruim. Eu não vou concordar com o desastroso, mas todo déficit é ruim. Se o desastroso significa uma avaliação qualitativa, se você está falando ele é bom ou ruim, déficit não é bom. Alguém falar que déficit é bom, não é bom. Nós não achamos o déficit bom, tanto é assim que se achássemos… Se a gente achasse o déficit bom, nós iríamos abraçá-lo. Nós não abraçamos o déficit, nós queremos resolver o problema do déficit. Nós vamos buscar medidas para resolver o déficit. Vocês podem ter certeza que essa é uma forma correta de condução. Por quê? Qualquer tentativa de fazer diferente, provocaria muito mais problema. Agora, está aqui, seu problema é esse, ele está claro. E fica claro também o seguinte: é responsabilidade de todo mundo. Qual é a responsabilidade de todo mundo? É impossível nessa situação que o país passa inventar despesa. É impossível. Nós não conseguimos, nós em situação normal, ou seja, com o país crescendo a taxas elevadas, nós... Tem alguns processos que foram vetados que a gente não daria conta, o país não dava conta. Muito menos quando tem um déficit, nós não damos conta.

 Jornalista: Qual vai ser o papel… (Inaudível)

 Presidenta: Muito obrigada, viu gente?

 Jornalista: (Inaudível)

 Presidenta: Ah, o do papel da reforma administrativa… Eu vou responder e na sequência a gente encerra, porque eu tenho um compromisso. Seguinte: eu considero a reforma administrativa muito importante. Muito mais pelo lado da gestão. Porque não produz um grande efeito de arrecadação de impostos. Se alguém falar isso para vocês, estaria fazendo demagogia. O efeito da reforma administrativa é muito mais melhorar a gestão. Melhorar a gestão tem um efeito indireto sobre recursos. Qual seja? Torna o governo mais ágil, facilita os investimentos, facilita, por exemplo, diminui a burocracia, é isso que nós queremos.

Com isso… Porque um outro objetivo de tudo isso que nós estamos fazendo, um objetivo que é um dos mais centrais, eu te dividiria em três: o primeiro objetivo nosso é transitar, o mais rápido possível, por esse momento de dificuldades, superar esse momento, passar, fazer com que haja estabilidade macroeconômica, queda da inflação para que a gente possa fazer o quê? Crescer, gerar empregos e gerar renda. Segundo objetivo: nós fizemos cortes bastante significativos, muito significativos. Reduzimos ao máximo as despesas, preservamos algumas. Nós não vamos acabar com o Bolsa Família, nós vamos manter vários programas, como o Minha Casa Minha Vida, não tem o ritmo quando ele está em pico, mas também ele não está a zero; nós vamos manter o Bolsa Família, continuar fazendo o Prouni, continuar fazendo o Fies, aliás, esse ano de dificuldades, 906 mil estudantes novos terão acesso, por meio das políticas do governo, à universidade, tanto através do Enem; do concurso nacional de vestibular quanto, que a gente chama de vestibular mas não se chama vestibular, chama SISU, eu acho o nome um pouco feio, e não sei se todo mundo entende, mas é o Sistema Único que permite que as pessoas, através do computador, façam suas inscrições e tenham acesso a milhares de cursos, quanto pelo Prouni, que as empresas não pagam ao governo os seus impostos em dinheiro, mas pagam em vagas para alunos que não teriam de outra forma acesso à universidade privada; e o Fies, que é o financiamento que nós damos à educação inteiramente subsidiado. Esses três são responsáveis por 906 [mil] alunos novos nesse momento de dificuldades, mas nós não diminuímos isso, nós fizemos um esforço para manter as políticas sociais para quê? Para o Brasil não voltar para trás.

Agora, é bom que vocês olhem lá no orçamento que as discricionárias representam uma parte muito pequena do gasto do governo. O gasto do governo, o peso do gasto do governo, são as chamadas despesas obrigatórias. Elas são despesas que surgem o maior problema, até por que caiu a arrecadação, mas o gasto está ali, mais de 90%, pouco mais de 90, é despesa obrigatória. Do R$ 1,210 trilhão, se não me engano, posso errar o final, R$ 1,210 trilhão. Então, o que eu queria dizer para vocês é o seguinte: a reforma administrativa ela é crucial, ela melhora a gestão. Melhora como? Melhora porque você vai diminuir o número de ministérios. Melhora como? Porque tem… Você não vai só diminuir o número de ministérios, você pegar em alguns ministérios e também diminuir o número de secretarias. Tânia, você é apressada, eu juro que vocês serão os primeiros a saber. Terceiro, eu tenho até o final do mês, posso falar antes, posso falar durante, minha meta até o final do mês. Meta é o seguinte: eu quero ter cumprido tudo até o final do mês, é nesse sentido. Posso fazer algumas coisas antes. Além disso, nós vamos reduzir também o número de cargos de livre provimento e vamos - o que eu acho importante - tomar várias medidas de gestão, no que se refere à gestão de custeio. Uma que a gente dá sempre de exemplo é aquela dos carros governamentais. Hoje você tem aplicativos que permitem que você faça uma gestão de carros mais eficiente com menos carros. Um dos exemplos que se cita para explicar o que é, mas não é igual, é o Uber. Aquele sistema que faz isso com táxi. Eu acho que o Uber é complexo, porque ele tira o emprego de muitas pessoas. Ele não é uma coisa tranquila. Depende também da regulamentação de cada cidade, de cada estado, porque não é a União que decide isso. Ele tira os taxistas do seu emprego, ele diminui.

 Jornalista: (Inaudível)

 Presidenta: Você sempre tem que pesar, não é Tânia? Eu acho que você tem que ter sempre uma posição mais ponderada em uma questão dessas. É óbvio que a tecnologia sempre produziu isso no mundo. Ela altera. Eu sei por que meu avô era seleiro, fazia sela de cavalo. Vocês imaginam o que aconteceu com o emprego dele quando, a destruição criadora, quando apareceram os carros. A vida é assim. Voltando, no nosso caso, não é o Uber, por quê? Porque os carros são nossos. Nós estamos fazendo isso com frota nossa ou terceirizada de nós, que nós contratamos e pagamos.

 Jornalista: Com a reforma administrativa, o Banco Central vai perder o status de ministério?

Presidenta: Tá vendo? É outro curioso, o senhor Valdo Cruz. Não vou antecipar a reforma administrativa para o senhor, mas prometo que te ligo e te aviso a hora que eu divulgar. Um beijo.

 

Ouça a íntegra da entrevista (18min26s) da presidenta Dilma.