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Entrevista concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Programa do Ratinho

por Portal do Planalto publicado 08/10/2013 00h00, última modificação 04/07/2014 12h48

Palácio da Alvorada, 07 de outubro de 2013

 

Ratinho: ...o mais interessante nessa conversa que nós vamos ter com ela. Nós vamos ter dois dedos de prosa com uma das mulheres mais importantes do mundo, a presidenta Dilma. Eu estive em Brasília visitando a presidenta Dilma, batendo dois dedos de prosa muito especial.

Presidenta, obrigado por aturar a gente aqui, aceitar o nosso convite. Muito obrigado, viu?

Presidenta: Obrigada, Ratinho, por você estar aqui me visitando, aqui no Palácio da Alvorada.

Ratinho: Esse quadro “dois dedos de prosa” é um espaço para colocar a conversa em dia. É bem informal, é para bater um papo. E é difícil a gente conseguir bater um papo com a presidenta, uma das mulheres mais importantes do mundo hoje. E eu estou muito feliz e honrado por poder fazer essa conversa com a senhora, (...).

E eu queria dizer o seguinte, começando já com uma coisa que eu não sei se a senhora vai gostar de responder: como é que a senhora vê as manifestações nas ruas?

Presidenta: Sabe, Ratinho, eu vi as manifestações nas ruas, de julho, com uma visão muito positiva. Eu acho que elas fazem parte do processo de democracia e de inclusão social no Brasil. Sabe por que, Ratinho? Porque em nenhuma das manifestações eu não vi os manifestantes, em nenhum momento, pedindo para voltar ao passado. Nenhum dos manifestantes vem às manifestações mostrar qualquer intuito de uma volta atrás por algo que tinham perdido lá atrás. Eu acho que elas têm um sentido positivo, que é o seguinte: um país que teve a maior transformação na última década, o que eu acho que as manifestações queriam era avançar mais, queriam mais democracia, queriam mais garantia de direitos, queriam mais informação e queriam melhores serviços públicos, o que é absolutamente legítimo.

E eu acho que nós, no Brasil, nos distinguimos, e eu tenho orgulho de falar isso, porque isso é reconhecido internacionalmente: nós tivemos uma atitude de ouvir as ruas. E ouvir as ruas significa perceber que quem conquista mais democracia é mais democracia ainda; quem tem a possibilidade de conquistar direitos, depois que os conquista quer mais direitos. Eu acho que isso é das pessoas. Ninguém quer ficar parado ali, onde está, não é? Você quer sempre avançar.

Ratinho: Avançar, melhorar.

Presidenta: É. E essa força das manifestações levaram a gente a fazer vários... a ter várias conquistas hoje. Eu vou te dizer, nós fizemos aqueles cinco pactos, não é? Eu gostaria, por exemplo, de sinalizar: dificilmente sem as manifestações de junho nós teríamos conseguido os royalties para a educação. Eu já tinha mandado duas vezes para o Congresso e conseguimos 75% dos royalties para a Educação e 25% para a Saúde, o que é fundamental. Nós não teríamos conseguido, de uma forma tão rápida, estruturar e, agora, estar conseguindo aprovar. Já aprovamos na Comissão o Mais Médicos.

Ratinho: Mais Médicos que não vai... o problema... em muitos lugares do Brasil vai ter pelo menos um médico lá.

Presidenta: E nós vamos querer, viu, Ratinho, distribuir os médicos considerando dois critérios: população e pobreza. População, nós temos uma grande concentração e de necessidade de médico não é só no Nordeste e no Norte, não. Também nas grandes cidades do Sudeste – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – há uma necessidade, nas periferias das cidades, de médicos. E há também no Nordeste, talvez a maior necessidade, junto com o Norte, as fronteiras e a população indígena.

A gente vai dar prioridade e vai procurar atender o maior número possível de médicos. Nós vamos fazer um grande esforço para transformar essa questão, porque eu acho que o Mais Médicos não resolve toda a questão da Saúde, nós ainda temos que fazer um grande esforço, aumentando a infraestrutura, criando mais postos médicos, mais unidades de pronto atendimento e mais hospitais.

Agora, também é verdade uma coisa, não é, Ratinho? Não adianta você ter os locais, os equipamentos e não ter o médico. E a população se queixa de uma coisa que eu considero muito importante. Eu vi duas pesquisas qualitativas, só sobre a saúde, não é eleitoral, que diz o seguinte: o que a população fala? “Eu quero atendimento”. Depois, ela fala o seguinte: “Eu quero o atendimento humanizado. Eu quero que o médico me pegue, assim, e examine”. Igual sempre, pelo menos o meu médico me examina, não é? Quer uma atenção do médico qualificada.

E eu não sei se você sabe que 80% das doenças mais... as mais frequentes do Brasil, que é mais ou menos diabetes, pressão alta, que é o problema sério da hipertensão, na criança, asma, bronquite e diarréia. São doenças que você pode atender na atenção básica, no posto médico. Se tiver um médico lá no posto médico, ele vai atender melhor. Por isso vai sobrar médico para atender no hospital, não vai sobrecarregar o hospital.

Então, eu tenho uma imensa esperança que melhore substantivamente. Não vou dizer que é uma melhora total, definitiva, porque seria um absurdo, mas eu acho que vai melhorar muito a saúde do povo brasileiro o Mais Médicos.

Ratinho: E o dinheiro do pré-sal vem quando? Daqui a pouco a senhora responde, depois do intervalo comercial. Quando que começa isso, todo mundo fala isso, e quanta gente não sabe o que é o pré-sal.

Presidenta: São duas partes, tem... Vamos dizer, Ratinho, tem dois dinheiros do pré-sal. Tem um dinheiro do pré-sal que já começa a vir por agora, porque é aquela parte do pré-sal que a gente não sabia que existia o pré-sal, mas já estava, nós estávamos explorando a parte de cima. A pessoa, a empresa tem direito de explorar a parte de baixo, ela ganhou aquela concessão e, quando ela ganhou aquela concessão, naquela época, há uns dez anos atrás, não sabia.

Ratinho: Então ela pode furar?

Presidenta: Ela pode continuar furando. Bom, esse dinheiro, ele entra mais rápido. O dinheiro do próprio pré-sal, ou seja, do pré-sal que é a partilha, ele começa a entrar daqui a cinco anos. Vai precisar, para você ter uma ideia, entre de 12 a 15 plataformas. Você considerando que cada plataforma, dependendo do tamanho dela, vão dar, assim, a maior, em torno de 1 bilhão e 800, você veja o que ele vai movimentar de dinheiro.

Nós acreditamos que esse... que a gente vai ter à disposição da Educação, imediatamente, começa já o ano que vem, mais 2 bilhões. E aí é sucessivo: são 112 bilhões nos próximos 10 anos, aí só royalties. Do pré-sal Fundo Social é esses que vão entrar a partir de... daqui a cinco anos. Então, você soma 13 mais cinco, dá 18. A partir de 19, você vai ter constantemente um aumento. Nós vamos ter uma quantidade muito expressiva de dinheiro para botar na Educação. Isso significa botar em quê? É como... É a mesma coisa da Saúde, viu, Ratinho? Não se dará uma educação de qualidade sem formar professor direito e sem pagar professor direito.

Então, vai ter que ser gasto em melhoria da formação dos professores, melhoria também dos salários dos professores. Vai ser gasto em expandir todos os programas, os programas principais de educação. Vou te dar um. Nenhum país do mundo ficou um país desenvolvido sem ensino em tempo integral, ou seja, em dois turnos, e não é para... e em dois turnos, Ratinho...

Ratinho: Mas esse dinheiro vai dar para fazer isso?

Presidenta: Ah...

Ratinho: Colocar a criançada toda no mesmo período?

Presidenta: Ah, meu querido, dá, vai dar, sim, e ainda vamos só considerar: essa é uma parte só. Tudo o que entrar daqui para frente... no ano que vem, eu fizer outro leilão, vai para o pré-sal, desculpa...

Ratinho: Vai para a educação?

Presidenta: Vai para o Fundo da Educação e para a Saúde.

Ratinho: Tem cidade, Presidente, que ela já sobra dinheiro da educação, mas a prefeitura não gerencia bem esse dinheiro. Não tem que ter um programa para ensinar o prefeito a gerenciar esse dinheiro da educação? Eu já vi muita prefeitura que sobra dinheiro da educação.

Presidenta: Olha, Ratinho, eu acho que tem um problema de gestão. Tem, sim... assim, esse problema de gestão não é só dos prefeitos, eu acho que é generalizado no setor público brasileiro. Nós sempre vamos ter de melhorar a gestão dos recursos públicos. Gastar bem é tão importante quanto ter dinheiro. Você pode fazer mais com menos se você gastar bem. Você sabe disso. Isso acontece nas empresas, acontece na sua empresa, em qualquer lugar acontece. Agora, eu vou te dizer com sinceridade: eu não acho que sobra dinheiro na educação. Eu, assim... não estou querendo defender os prefeitos, mas estou querendo reconhecer... por exemplo, Ratinho, eu estou muito preocupada com duas coisas. Nós não temos a quantidade suficiente de professor de Física e de Matemática que nós temos de ter, porque o Brasil não pode só formar... outro dia até falaram que eu estava com preconceito contra os advogados. Eu não estou, não. A minha filha é advogada, o meu genro é advogado, meu ex-marido é advogado e, qualquer dia desses, aquele menino lá que está com três anos vai querer ser advogado – não tenho nada contra advogado –, o meu neto. Eu acho até que é uma profissão muito boa, mas o Brasil precisa de engenheiro.

Ratinho: Precisa bastante.

Presidenta: Eu tenho de reconhecer isso. Eu não posso falar...

Ratinho: E de médico.

Presidenta: Precisa de médico, precisa de engenheiro, precisa de cientista, precisa de biólogo, precisa de químico, de matemático...

Ratinho: Esse dinheiro da educação?

Presidenta: É esse... Isso nós temos de formar.

Ratinho: Esse dinheiro que vem do pré-sal vai ajudar também nessa formação?

Presidenta: Vai.

Ratinho: Ele vai abrir, por exemplo, universidades e faculdades de Medicina?

Presidenta: Vai, vai continuar abrindo faculdade de Medicina, interiorizando o ensino, porque quanto mais perto... Ontem, por exemplo, Ratinho, eu estive no Rio Grande do Norte. Nós estávamos formando uma turma de 4.500. Não é de ensino regular, é de formação e capacitação técnica. É um programa que nós temos, que se chama Pronatec, em parceria com o Sistema S, com o Senai, o Senat, o Senar e o Senac, e nós damos ensino técnico. O que é que é isso? Nós estamos formando... você tem de capacitar... educação também é capacitar profissionalmente a força de trabalho do país, os adultos, os jovens que estão tendo acesso ao primeiro emprego. O pessoal que está no Bolsa Família, a gente tem de dar educação, capacitação profissional... por exemplo, outro dia eu participei da formatura de uma eletricista. Ela era mãe do Bolsa Família, e aí ela fez um curso de seis meses, e o que é que ela estava aprendendo? Ela estava... se eu não me engano, foi lá no Rio Grande do Sul, até. Ela estava fazendo... ela tinha condições de trabalhar na instalação de eletricidade numa casa, era isso. Você veja, a educação é o único caminho para você estabilizar tanto todas as conquistas sociais do país quanto para você dar um salto.

Ratinho: Então é por isso que a senhora está entusiasmada com a educação?

Presidenta: Ah, estou muito entusiasmada!

Ratinho: Eu vejo isso (incompreensível), viu?

Presidenta: (incompreensível), viu, Ratinho? Eu acho uma das coisas mais importantes para o presente e para o futuro do país.

Ratinho: Vou fazer uma pergunta. Gastamos muito dinheiro com os estádios da Copa?

Presidenta: Olha, Ratinho, eu acho que se você olhar todo o conjunto de gasto da Copa, o que... onde foi... onde se... para onde se destinou o maior gasto? Em primeiro lugar para a mobilidade. Foram os VLTs, os veículos leves sobre trilhos, depois o monotrilho e os BRTs, e aqueles corredores de ônibus que você tem (incompreensível).

Ratinho: Que, aliás, em São Paulo está funcionando muito bem.

Presidenta: É verdade, não é?

Ratinho: Está funcionando muito bem (incompreensível).

Presidenta: O prefeito Haddad está de parabéns.

Ratinho: Está de parabéns. Eu achei que ele não ia conseguir fazer em tão pouco tempo, e conseguiu.

Presidenta: E você veja, essa é uma questão crucial para as pessoas, porque aí a gente está falando do tempo livre de vida, o tempo em que ela... se ela tiver um transporte rápido e de qualidade, ela ganha para a vida dela, para a família dela, para o lazer dela ou até para estudar.

Ratinho: Presidenta, por que é que no Brasil nós temos tão poucas ferrovias?

Presidenta: Mas deixa eu só concluir a questão da Copa?

Ratinho: Pode concluir.

Presidenta: Ratinho, eu acho que nós todos vamos ter de fazer uma campanha pela Copa. Em todo lugar que eu vou, Ratinho, então você veja, lá na reunião dos Brics, estavam lá sentados o presidente da China, o primeiro-ministro da Índia, o presidente da África do Sul, o presidente da Rússia e eu, e a reunião começando. O primeiro ponto de pauta era discutir a próxima reunião dos Brics que vai ser, assim, uma... Mas eles não estavam querendo discutir essa reunião, não. Eles estavam querendo discutir se eu ia – perguntaram para mim, é óbvio que eu vou – se eu ia convidá-los para vir na Copa. Porque tem um valor, primeiro, porque o futebol é uma coisa que envolve o mundo.

Ratinho: E mostra o Brasil para o mundo.

Presidenta: Não, e o povo – é bom falar – o povo das nações gostam de futebol, o russo, o alemão... Outro dia foi o da Mercedez-Benz e eles falam assim: “Então, vamos torcer para a final ser entre o Brasil e a Alemanha”, não é? Eu falei: “Vamos torcer para a final ser Brasil e a Alemanha e o Brasil ganhar”.

Ratinho: E ganha.

Presidenta: Então, o que eu quero te dizer é o seguinte: a Copa é um valor que nós temos, e nós temos de saber que ele é importante, que ele vai mostrar o Brasil para o mundo. Mas não é só isso. Bom, nós temos o melhor futebol do mundo, o melhor do mundo. O nosso futebol é... e eles olham para nós e para a Copa, eles não olham só para a Copa ser aqui, eles olham também para ver – e sempre me perguntam isso: “Vocês ganharam a Copa das Confederações, vocês vão fazer uma baita Copa não é?”

Ratinho: Eu estou esperando isso.

Presidenta: Maravilhosa.

Ratinho: Todo mundo está esperando isso. O mundo inteiro.

Presidenta: Então, eu acho o seguinte: houve gastos nos estádios... Eu queria esclarecer o seguinte: o governo federal deu, para todos os doze estádios, nós colocamos financiamento, foram 400 milhões iguais para todos. Você lembra bem que no início a Fifa disse que os estádios seriam construídos pela iniciativa privada e seriam da iniciativa privada. Não foi bem isso que aconteceu, os estados também entraram. Agora, Orçamento da União, nós não colocamos um tostão.

Em que nós colocamos dinheiro do Orçamento da União? Nós colocamos nessas obras de mobilidade, de segurança, e também colocamos em telecomunicações. Tudo isso vai ficar para o país. É que nem quando você dá uma festa na sua casa: você arruma a casa, você limpa a casa, você bota móveis, agora, os convidados chegam, mas eles vão embora e você fica com tudo aquilo.

Ratinho: É verdade.

Presidenta: Uma coisa, nós estamos preparando a casa.

Ratinho: E Brasília é uma coisa importante, Presidenta, o que a senhora está falando porque todo mundo sabe disso, dessa mobilidade, que esse dinheiro foi na maioria para essa mobilidade que é importante, né?

Presidenta: A parte do Orçamento Geral da União foi para isso, fundamentalmente.

Ratinho: Falando em futebol, a senhora torce para algum time, Presidenta? Porque o presidente Lula, infelizmente, torce para o Corinthians.

Presidenta: Ô Ratinho...

Ratinho: O ex-presidente Lula.

Presidenta: ...dizem que políticos não podem falar isso. O Lula sempre falou.

Ratinho: Sempre falou.

Presidenta: O Lula adora futebol.

Ratinho: O único defeito que eu vejo no meu amigo, presidente Lula, é torcer pelo Corinthians.

Presidenta: Pois é. Eu torço, eu vou te falar...

Ratinho: Para o Internacional.

Presidenta: Eu torço, no Rio Grande do Sul pelo Internacional, mas eu sou... eu nasci em Minas Gerais. Então, eu torci, durante toda a minha vida para o Atlético. Eu sou... Eu tenho duas camisetas. Eu sou atleticana e sou Inter.

Ratinho: Inter. Duas camisetas.

Presidenta: Duas camisetas.

Ratinho: Vamos voltar para aquela pergunta, porque as pessoas me perguntam: por que é que a gente não tem trem no Brasil?

Presidenta: Ah, vou te falar. Nós não temos trem no Brasil por um erro. Eu acho que, talvez, um dos maiores erros, entre outros que nós cometemos. Nós cometemos o do metrô também, tá? Nos anos 80 diziam que a gente não tinha, não tinha por que ter metrô, porque metrô era coisa de país rico, e como nós não éramos ricos, ninguém ia fazer um esforço e investir em metrô. E isso é muito ruim porque cidades do tamanho de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte e das outras cidades grandes do nosso país, elas precisam de metrô. Nós, inclusive, estamos financiando cinco metrôs, que é: Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Bahia, Fortaleza... Mas, voltando às ferrovias. Eu acho que houve um equívoco. Nós apostamos em rodovias só. Teve um período grande, no século passado – é engraçado a gente falar em século passado, né, mas foi no século passado.

Ratinho: Foi.

Presidenta: Principalmente nos anos 50, 60 que nós fizemos um grande esforço e construímos uma malha rodoviária no Brasil. 40, 50. O próprio Getúlio fez também. Mas nós não investimos em ferrovias. Todos os países continentais do mundo investiram em ferrovias no final do século 19, início do 20. Nós tínhamos de ter uma malha ferroviária porque não tem estrada que aguente transportar minério e grãos...

Ratinho: Os últimos dez anos ...

Presidenta: E aí como é que você distribui a carga? É melhor botar carga pesada em ferrovia e carga de container, mas leva e trás, mesmo o container. O mundo todo transporta por ferrovia. Nós estamos agora – viu, Ratinho? – fazendo um esforço enorme de construir uma malha ferroviária. Ela, uma parte dela é muito cara, fazer uma malha ferroviária, no início é muito caro, mas é aquela história da formiga e da cigarra: uma ferrovia é que nem... é mais formiga do que cigarra, porque você, no início, gasta, sofre, mas você deixa para o futuro um custo bem menor, e você deixa um país com muito mais capacidade logística.

Então, eu sou a favor. Nós estamos fazendo 10 mil, agora, 10 mil quilômetros de ferrovia. Nós estamos fazendo um imenso esforço, porque uma parte disso, uma parte do gasto em ferrovia, não é ressarcido imediatamente, ele é ressarcido mais em longo prazo, mas o povo ganha. O que o povo ganha? O povo ganha... Porque a gente tem sempre que perguntar isso: como é que as pessoas, com o que você está fazendo, como é que as pessoas ganham? Ganham porque, Ratinho, diminui o custo do país, o custo do país, melhora a produtividade do país como um todo, e as empresas brasileiras ficam mais competitivas, que nem os portos.

Ratinho: Diminui muito acidente, não é?

Presidenta: Ah, isso, vamos dizer assim, isso é crucial. Diminui acidente porque você tira aqueles caminhões pesados das estradas; diminui acidente, também, porque você não tem um congestionamento que às vezes dá nas estradas, por exemplo, na época da safra. E também melhora o meio ambiente, melhora o meio ambiente.

Ratinho: A senhora está brava, presidente, com o presidente dos Estados Unidos, ainda não?

Presidenta: Olha, você sabe que não é uma questão pessoal. Eu não estou nem brava, nem...

Ratinho: Mas e quando a senhora cobrou ele, a senhora cobrou assim: “Ô, tá me sondando lá, como é que é o negócio?” Foi assim essa conversa, ou não?

Presidenta: Não, a conversa é uma conversa entre chefes de Estado...

Ratinho: Mas, eu queria saber, como é que o chefe de estado fala? É com muita lisura...

Presidenta: Você viu... Não, do mesmo jeito que eu falei na ONU. O que eu falei na ONU eu tinha falado para ele, da mesma forma. Primeiro, é inadmissível esse tipo de relação entre países que têm parceria estratégica. Por quê? Primeiro porque afeta direitos humanos, direitos civis, privacidade das pessoas. Segundo, porque afeta interesses estratégicos de empresas brasileiras. Terceiro, porque afeta nossa soberania. E eu deixei claro duas coisas para ele. Primeiro, que o Brasil sabia se defender. Então, ninguém precisa defender o Brasil contra terrorismo. Segundo, que não é possível afirmar direitos humanos de um país em detrimento dos direitos humanos de outro país. Então, se ele estava defendendo o país dele, nós também estávamos defendendo o nosso, e não íamos admitir esse tipo de atitude. Segundo, em relação à soberania. É impossível, se você não respeitar a soberania de um país, ter relação com esse país. E falei uma coisa para ele, é o seguinte: o Brasil queria, primeiro, desculpas pelo que tinha acontecido e, segundo, queria o compromisso de que não se repetiria. Como ele não se sentiu em condições de garantir isso, porque para mim ele disse que não era só o Brasil que estava sendo afetado. Aliás, eu não disse para mim, ele disse isso publicamente.

Eu disse a ele que eu não tinha condições políticas para visitar, fazer uma visita de chefe de Estado aos Estados Unidos, que eu não tinha condições porque as condições estavam dadas, não tinham sido criadas por ele, e ele tinha, na reunião, em São Petersburgo, dito para mim que ele ia construí-las. Então, como não tinham sido construídas, e as condições eram essas que eu te disse, eu queria um pedido de desculpas e queria um compromisso claro de que não se repetiria. E outra coisa que é muito desagradável nessa história toda é que você veja: quem vaza, quem vaza essa notícia é um rapaz que não tem mais de 25, 26 anos, que estava empregado numa empresa terceirizada na área de inteligência há quantos meses? Dizem que há quatro, cinco meses, e como é que uma pessoa dessas...

Ratinho: Consegue tudo?

Presidenta: ...consegue todos esses dados de tantos Estados e, no caso, que me interessa, no caso, o Brasil? Como é que ele conseguiu? Como é que explica?

Ratinho: Quer dizer, também está muito frágil lá.

Presidenta: Pois é, mas como é que explica uma situação dessas? Então é uma conversa, Ratinho, que é de alto nível. Não tem, vamos dizer, o que eles chamam de maus sentimentos. Não tem uma questão de... pessoal, apesar dele ter... dos Estados Unidos. E pelo que vazou, os Estados Unidos ter feito espionagem sobre a minha relação com os meus assessores, ao que consta. Bom, mas para além disso, é uma questão de soberania do país, e é uma questão de direitos humanos do meu país, da população do meu país e das empresas. Mas que história é essa de ficar sondando? Em nome do quê? Do terrorismo? Mas este país tem uma característica: não fixa grupos terroristas, repudia o terrorismo, nunca teve nenhum dado, nenhuma informação de que aqui tinha atuação terrorista. Primeiro. Segundo, nós vivemos em paz, em profunda paz com os nossos vizinhos.

Ratinho: Com todo mundo.

Presidenta: Há 140 anos. Nós estávamos falando há pouco, antes do programa começar, da relação...

Ratinho: Brasil-Paraguai.

Presidenta: Brasil-Paraguai, que é uma relação de parentesco.

Ratinho: É verdade.

Presidenta: De parentesco.

Ratinho: Tem muito brasileiro lá dentro e tem bastante paraguaio aqui.

Presidenta: E deve ter brasileiros com filhos que nasceram lá, que devem ter casado com paraguaio. Por isso que eu chamo, já não é uma relação entre países, ali já é parentesco. Bom, nós vivemos 140 anos de paz, 140 anos. Me dá outra região do país que tem um história de paz durante 140 anos, recentemente.

Ratinho: Agora vou mudar de pergunta, uma pergunta bem, assim, da presidenta Dilma aqui no Palácio. É verdade que você mora aqui em cima, presidente, você mora num apartamento?

Presidenta: É. O quarto é grande, viu, Ratinho? Mas é só um quarto, um quarto, um banheiro e uma sala.

Ratinho: E é verdade que tem terra, tem teto. E a senhora é uma presidenta sem fogão?

Presidenta: Sou uma sem fogão.

Ratinho: Não tem fogão lá?

Presidenta: Não.

Ratinho: Se tiver fome de noite, como é que faz, Presidenta?

Presidenta: Eu acredito que você tem que comer frio.

Ratinho: Não tem nenhum fogãozinho?

Presidenta: Tem queijinho frio. Não, não tem fogão. Você, no máximo, pode ter um micro-ondas, mas fazer comida no micro-ondas...

Ratinho: E onde é que fica a cozinha aqui no Palácio? Tem que descer a escada?

Presidenta: Olha, ô Ratinho, fica no extremo oposto. Então, eu sempre disse: você vai... É longe pra danar. Por quê? Porque tem de cruzar todo o Palácio do Alvorada, e é no subsolo, lá no fundo. Então, você teria de... você... E mesmo tem uma pequena, também, no extremo oposto, ali, aqui em cima. Então, você teria ou ir de patins, ou de patinete.

E eu sou uma pessoa, como qualquer outra do mundo, sou normal, não é? Eu gosto, todo mundo gosta disso: ninguém gosta de ficar comendo comida, né, que não seja aquela caseira.

Ratinho: Exatamente. Você já fez mexidão, não?

Presidenta: Olha, eu sou, eu sou, assim, uma adepta do mexidão.

Ratinho: Arroz, feijão...

Presidenta: Arroz, feijão, eu gosto de farinha...

Ratinho: Farinha.

Presidenta: ...gosto de ovo.

Ratinho: Ovo. Você falou banana?

Presidenta: Eu gosto de banana e gosto de tomate e uma cebolinha.

Ratinho: Mas aqui não dá para fazer.

Presidenta: Não. Aí eu tenho de...

Ratinho: Eu não queria ser a cozinha.

Presidenta: Olha, Ratinho, tem outras vantagens, mas eu acho que essa, de fato, é um problemão. Sabe por que, Ratinho? Eu vou te falar. É óbvio que é por fase determinada, né? Ser presidente é por fase determinada, mas todo mundo gosta... se você for pensar, o cotidiano da gente, de todo mundo, é muito parecido. O que é que você gosta?

Ratinho: É, todo mundo.

Presidenta: Você gosta... você quer descansar, você quer fazer uma comidinha, não é isso que você quer?

Ratinho: Todo mundo.

Presidenta: Ver um filmezinho.

Ratinho: Você assiste filme aqui, Presidenta?

Presidenta: Eu assisto.

Ratinho: Mas aqui? No cinema, fora, você não pode ir.

Presidenta: Eu até posso, mas eu incomodo as pessoas. Não é que as pessoas me incomodem, não. Não é isso. É o contrário.

Ratinho: Ainda leva todo o cerimonial, né?

Presidenta: Não, leva a segurança.

Ratinho: Tem que levar.

Presidenta: Tem de levar a segurança. Você não pode entrar num lugar sem a segurança. Às vezes eu negocio. Outro dia eu negociei. Falei para o general, que é o chefe da minha segurança: “General, vamos andar ali na Praça da Liberdade?”, lá em Belo Horizonte. Porque eu comecei a caminhar lá na Praça da Liberdade. Olhei para a Praça da Liberdade, fim de tarde, falei: “General, dá uma força, meu querido, vamos lá andar naquela praça”. Aí, de súbito, você vai andar, vai menos gente, porque senão é um... Dá para fazer sempre subitamente. Agora, você incomoda. No cinema, você se senta, eles te cercam, né? E depois, tem muita gente, as pessoas ficam incomodadas.

Ratinho: Aqui dentro não tem um cinema?

Presidenta: Tem, tem um cinema, tem.

Ratinho: Agora, Presidenta, você fica muito isolada aqui, muito sozinha?

Presidenta: A gente fica, sim, Ratinho porque eu, eu acho que um outro prazer na vida que todo mundo tem é andar na rua. Nós fomos criados em cidade.

Ratinho: É isso mesmo.

Presidenta: A gente gosta de esquina.

Ratinho: Isso mesmo.

Presidenta: Você não gosta de esquina?

Ratinho: Gosto de esquina e boteco.

Presidenta: É, bar que tem esquina, boteco, bar...

Ratinho: É.

Presidenta: ...esquina. Tem de ter esquina, tem de ter gente andando na rua.

Ratinho: E esse privilégio você não pode ter mais.

Presidenta: É, é, e vou te dizer por que. Eu também não me incomodo quando me pedem para tirar fotografia, nem nada disso. O que eu acho é que o que é que adianta eu andar, cercada de gente por todos os lados, tudo junto? Às vezes eu fujo.

Ratinho: Me contaram, Presidenta...

Presidenta: Hum?

Ratinho: Me contaram que a senhora é muito exigente em tudo, é verdade? Perfeccionista, é verdade?

Presidenta: Não digo que eu sou perfeccionista, mas eu sou exigente. Eu que se a gente... Se você está numa função dessas, óbvio que você é humano, você comete erros, você não é perfeito, você não faz... nem sempre você acerta. Agora, você tem de se esforçar para ser perfeito, para acertar. Porque você não é sangue de barata, não é mesmo, ninguém é. Agora, você tem de fingir que você é... não é fingir, você tem de falar para ti: “Olha, tem de ser o melhor possível, eu não posso...” Se você largar o corpo e falar: “Ah, não, não precisa”, aí não vai dar nada mesmo. Você tem de exigir o melhor de você, você tem de ter meta, você tem de cumprir a meta, e quando não cumprir, lamentar bastante, querer saber por que não cumpriu. Se não for assim, Ratinho, se não for assim... Eu acho até que eu tenho de me esforçar para ser mais um pouco, mais um pouquinho, porque não dá para largar, todo mundo sabe.

Ratinho: Ouve música?

Presidenta: Eu adoro música. Eu gosto de duas músicas...

Ratinho: Mas dá tempo?

Presidenta: Ah, sempre dá. Eu sempre chego aqui para dormir. Eu não consigo dormir... ou eu leio, ou eu escuto música, eu leio.

Ratinho: E tem, assim, um tipo de leitura que você gosta mais?

Presidenta: Tudo. Quando eu não tinha livro, eu já li até bula de remédio, você não tem jeito, não é? Mas isso foi em outra circunstância da minha vida, que eu não livro, eu lia qualquer coisa. Ler é, para mim, uma forma de você ver o mundo.

Ratinho: E a senhora já leu o livro proibido?

Presidenta: Eu leio...

Ratinho: Livro daquele de papel, ou a senhora está no computador aí?

Presidenta: Eu vou me (...), mas eu gosto, eu tenho livro em casa. Eu gosto de livro em papel e cheiro, eu gosto de cheirar.

Ratinho: Eu gosto...

Presidenta: Eu gosto do papel, nisso eu sou completamente antiga. E eu tenho por livro uma verdadeira adoração. Acho que é uma das maiores criações que o mundo humano...

Ratinho: Leva. Te leva onde quiser. Tem aqui uma biblioteca que, de vez em quando...

Presidenta: É uma das coisas mais bonitas daqui.

Ratinho: E você desce ali...

Presidenta: Eu desço agora, gosto. E ali tem uma outra coisa: sabe aquelas bibliotecas que têm escada, que você anda assim, de escada. Você para a escada, sobe na escada, vê a lá de cima, vê a do meio. Além disso, é biblioteca com escada, sabe biblioteca de filme? Ela é muito bonita. Tem até... tem uma fotografia do Juscelino. Dizem que ele também gostava muito dela.

Ratinho: Da biblioteca?

Presidenta: É. Não era igual a essa. Ela foi melhorada, ao longo dos outros presidentes.

Ratinho: Agora vamos para uma pergunta que todo mundo, do Brasil inteiro quer saber: a senhora é candidata a Presidente?

Presidenta: Olha, eu tenho uma vantagem na vida, sabe qual é? Em relação a qualquer outra pessoa: eu sou a Presidenta. Então, antes de eu ser candidata, eu sou Presidenta até o dia 31 de dezembro de 2014. E isso é uma diferença.

Ontem, por exemplo, eu acho que foi um repórter que me perguntou: a senhora está fazendo campanha eleitoral? Eu estava dando diploma para os 4.500. Eu disse: “Não, eu estou exercendo a Presidência”.

Ratinho: Exatamente.

Presidenta: É diferente. As outras pessoas que não são presidente, e que querem ser presidente, elas estão no direito delas e elas fazem campanha. Eu sou a única pessoa deste país que exerço a Presidência. Então, antes de querer ser reeleita, eu tenho de querer exercer a minha presidência.

Ratinho: Até o dia 31.

Presidenta: Até o dia 31, e com aquela garra e aquela exigência, sabe, Ratinho, que eu tenho de impor para mim mesma: que nós façamos o melhor trabalho possível, que nós tentamos errar o menos possível, que nós não olhemos para nós mesmos e tenhamos uma cumplicidade conosco, de achar que não é necessário fazer o melhor. Não, é necessário fazer o melhor todos os santos dias.

Ratinho: Agora, falando em crime, em terrorismo. Nós temos condição de... O Brasil me comove, Presidente, sobre criminalidade. O que o governo federal pode fazer, talvez para diminuir? Daqui a pouco a senhora responde, depois d intervalo.

Nós estamos aqui conversando, batendo dois dedos de prosa com a Presidenta da República, uma das mulheres mais importantes do mundo e que graças a Deus é brasileira. E estamos conversando, eu fiz uma pergunta para ela que acho que todo mundo em casa quer perguntar: tem jeito de baixar a criminalidade? O governo federal pode fazer alguma coisa?

Presidenta: Pode e está fazendo, Ratinho. Nós criamos duas operações. Na nossa atividade de segurança tem um papel fundamental proteção das fronteiras, tá? Que é pelas fronteiras que entra as armas, a droga e tal. Então, nós criamos duas operações que se conjugam. Uma chama-se “Sentinela”, é a Polícia Federal e a inteligência da Polícia Federal, olhando, avaliando, vendo onde há... fazendo parcerias com as polícias dos outros países vizinhos para avaliar por onde que está entrando, onde é que tem plantação de coca, etc. A outra é uma dupla que é feita com as Forças Armadas e a Polícia Federal.

Nós já fizemos várias dessas operações conjuntas, mas eu vou falar da última, que foi feita em julho, que levou 19 dias. Por que, como é que funciona? Nesses 19 dias, a gente escolhe uma área da fronteira e 33 mil, na última eram 33 mil homens do Exército e 1.100, em torno de 1.100 das polícias. A gente faz uma... chega num determinado dia, de surpresa, ela não é avisada, a mobilização se dá na hora, ninguém sabe onde será. E nós apreendemos, só para você ter uma ideia, nessa última, quase 427 toneladas, entre cocaína e maconha, e também apreendemos armas, apreendemos carros roubados. Enfim, a Sentinela é para segurar essa volta.

E aí nós, com as outras polícias, fazemos um cerco, num todo. E muita atividade de inteligência. A gente tem parceria, lá de baixo, com todos os países que são fronteiriços com o Brasil, da Argentina até lá na região do Amazonas, que é a mais difícil de todas, é a região do Amazonas. Onde nós temos focado muito a nossa atenção é justamente lá na sua região, ali em Foz.

Ratinho: Conheço.

Presidenta: Em toda aquela vasta região da fronteira, nós temos focado. Agora nós estamos com uma política, junto com os outros países, de criar parques, de urbanizar a parte maior... mas não é nem urbanizar, de transformar em parque, de criar caminhos, para você poder ter mais controle sobre o que entra e o que sai. Bom, isso eu te diria que é a parte, é uma parte, assim, que nós estamos usando muito a inteligência, muita presença também das Forças Armadas. E se complementa a isso uma parceria com países e também com os governos estaduais.

Bom, num segundo momento, eu acho, da nossa atividade na área de segurança dentro dos presídios. Nós colocamos 1 bilhão e cem em modernização em forma de...

Ratinho: Presidenta, aproveitando que está falando sobre isso...

Presidenta: 1 bilhão e cem.

Ratinho: ...uma pergunta que eu quero fazer: se privatizar presídio não sai mais barato para o Estado?

Presidenta: Sim, mas aí não somos nós que decidimos, né? Porque o presídio não só... nós temos presídio de segurança máxima, e esse é (incompreensível) do Estado.

Ratinho: Aí é governo federal?

Presidenta: É. É segurança máxima para colocar os maiores...

Ratinho: Aí não tem jeito de privatizar, não.

Presidenta: Não. Os nossos, nós não teremos...

Ratinho: É, aí não tem jeito.

Presidenta: ...presídios de segurança máxima, agora, os estados... têm estados pensando em privatizar. Aí, como os presídios são estaduais nós damos 1 bilhão e cem. Aí não é financiamento, é dinheiro do orçamento para os estados modernizarem presídio, melhorarem presídios, construírem condições melhores para presídios para evitar rebeliões, para evitar que se dê margem à organização dos presos sem controle e uma situação que, muitas vezes, as péssimas condições dos presídios provocam também e criam mais facilidade para o crime organizado no presídio. E é onde, por exemplo, os grandes, vamos dizer, as lideranças das quadrilhas nós temos de colocar, porque se você... eu acho que em vários lugares o combate ao crime organizado deu certo. Onde deu certo, você pode saber que quando começou a repressão estadual ao crime organizado há uma reação. Essa reação tem, necessariamente, de resultar em prisão das lideranças. Se você deixar a liderança no estado, essa liderança articula...

Ratinho: Continua mandando.

Presidenta: ...e continua mandando, e faz aqueles ... ou manda matar agente penitenciário, gente da segurança. Então, é imprescindível, pelo menos por tudo o que eu vi nos meus anos de presidenta e nos meus anos de chefe da casa civil do presidente Lula, é que se você não tirar as lideranças do crime organizado das cidades onde elas agem, você não controla o crime organizado.

Ratinho: Perfeito.

Presidenta: Onde ocorreu isso diminuiu o grau de interferência das prisões sobre quem estava solto e, portanto, o grau de violência reduziu. Agora, sempre tem um primeiro momento em que há uma violência maior. Como essa questão é uma questão dos estados, o governo federal não tem competência para decidir se é de um jeito ou de outro. Muitas vezes, só para você ter uma ideia... não sei se você lembra, vou dar o exemplo do Rio. Você lembra quando a polícia do Rio, junto com o governo do Rio ia pacificar alguma favela. Para a gente participar, o governador tem de pedir... ele tem de pedir para mim uma coisa que chama “garantia da lei e da ordem”. Só com garantia da lei e da ordem eu posso colocar, por exemplo, aqueles equipamentos pesados da Marinha para ajudar a subir e impedir que quando a polícia chegue haja tiroteio.

Ratinho: E deu certo.

Presidenta: Deu certo. Mas a lei exige que eu só possa entrar no estado a pedido do governador. Isso por determinação da Constituição, não é? Eu não posso chegar e falar: agora o Estado vai... o Exército vai para ali, ou vai para ali. O que eu concordo com a Constituição, é uma questão de respeito aos entes federados, não é?

Ratinho: Agora, por exemplo, a senhora vai entregar trator amanhã também...

Presidenta: Não, é mais do que trator, é máquina.

Ratinho: Máquina, não é?

Presidenta: Vou contar para ti isso. O Brasil tem em torno de uns 80 ou mais por cento de prefeituras com menos de 50 mil habitantes. Nessas prefeituras, é interessante porque os prefeitos falam assim para mim: “Lá na minha prefeitura, lá no meu município, tem uns 400 quilômetros lineares de estradas vicinais de terra, e eu não tenho recurso”. Uma estrada vicinal de terra escoa a produção, passa por ali as pessoas, os ônibus escolares, as ambulâncias e as pessoas.

Então, o que nós fizemos? Nós criamos um kit. O kit prefeitura é o seguinte: uma retroescavadeira, uma motoniveladora e um caminhão-caçamba. E essas três máquinas dão um total de R$ 1 milhão, dá um milhão e pouco, a preço de mercado. Então, nós compramos, o governo federal compra. E aí, quando você compra, esse preço, esse 1 milhão, que é preço de mercado, vai diminuir. Mas nós pegamos essas máquinas e doamos para o prefeito, a fundo perdido. A fundo perdido, ele não paga nada para nós, nós doamos essas máquinas, distribuímos e doamos, independente de quem seja o prefeito...

Ratinho: O partido.

Presidenta: O sobrenome, o partido, a crença e o time de futebol. Não precisa de ser nem do Inter, nem do Atlético. É para todas as prefeituras abaixo... até 50 mil. E isso é muito importante, Ratinho, porque dá autonomia para o prefeito e ele vai estar recebendo uma motoniveladora, uma retroescavadeira e um caminhão-caçamba dos melhores que têm no mercado brasileiro, tudo de marca boa e produzido no Brasil. Isso significa...

Ratinho: Dando emprego.

Presidenta: ...que também eu estou dando emprego e renda.

Ratinho: Muito bem. Agora a última pergunta. O que mais emocionou a presidenta Dilma, até agora, no exercício da Presidência?

Presidenta: Ô Ratinho, sabe o que mais emociona a gente? Eu vou te dizer. Quando você vê que você transforma a vida de alguém, é isso que te emociona, certos depoimentos. Você está fazendo... porque eu acho que nós temos alguns programas que mudam a vida das pessoas. Vou te falar quais eu acho: Minha Casa, Minha Vida.

Ratinho: Ah, não tenha dúvida.

Presidenta: Então você vê uma...

Ratinho: Esse vai continuar, né, Presidenta?

Presidenta: Vai.

Ratinho: Se você for presidenta de novo, vai continuar.

Presidenta: Pode ter certeza que se eu for presidenta de novo, Ratinho...

Ratinho: Não, porque eu acho isso de uma importância. Eu só comecei a crescer na vida depois que eu tive a minha casa, Presidenta, e era uma casa popular.

Presidenta: E vou te falar, Ratinho: as pessoas sabem disso e as pessoas sentem isso. E nós fizemos esse programa, ele tem uma característica. Todos os programas nossos, é a relação direta do Estado brasileiro com a pessoa, com o cidadão. Não tem intermediário, não tem quem diga que a casa... e ninguém pode dizer... Estou falando aqui, do seu programa, que é muito escutado. Ninguém pode querer usar o programa Minha Casa Minha Vida em benefício próprio, que não seja o morador. Não tem ninguém que é dono do programa. Esse programa é um programa de direito do cidadão brasileiro. Nós vamos chegar, Ratinho, logo, logo... a segunda fase é 2 milhões, 750 mil. Nós vamos ter de continuar esse programa, sim, tem de ter continuidade e tem de ter, no próximo período, algo em torno desses 2 milhões, desses 2 milhões e 750 mil. E vou te dizer mais: o que é emocionante? É a pessoa com a chave na mão, com a consciência de que a vida dela mudou. E aí nós não fizemos só isso. Nós juntamos ao Minha Casa Minha Vida o Minha Casa Melhor...

Ratinho: Minha Casa Melhor...

Presidenta: ...que é...

Ratinho: ...que é aquele cartão...

Presidenta: ...aquele cartão que permite que ele compre... a gente dá 5... a gente coloca no cartão 5 mil reais. Esses R$ 5 mil tem carência e juros especiais. E eles permitem que as pessoas comprem fogão, geladeira, TVs de plasma, máquina de lavar roupa automática, permite que comprem também um tablet, permite que comprem um computador com ou sem televisão, permite que comprem também móveis, armário de cozinha agora, que nós autorizamos, sofá, cadeira...

Ratinho: Fogão.

Presidenta: Fogão eu já falei. Fogãozinho lindo, maravilhoso, de quantas bocas for. É R$ 5 mil. E eles podem, mas lojas, as lojas têm um acordo conosco que o preço não pode sair de tal base, que é um preço que tem de ser acessível pela quantidade de gente. Você só imagina que foi um momento importante para o varejo esse programa. Eu referi, inclusive, o pessoal do Instituto do Varejo, do IBV, e inclusive disse como esse programa, além de melhorar a vida das pessoas, melhora também a situação do varejo, as empresas crescem, compram, vendem. O pessoal dos móveis, também a Associação dos Móveis. Bom, essa é uma.

O outro é esse que eu estou falando, do Pronatec, que dá a formação e capacitação profissional, enfim. Ontem, o formando que estava falando em nome dos 4.500, é 4.340, disse o seguinte: “Eu sou de uma geração com oportunidade. A minha geração tem nome, é geração pronatequiana”. Porque, de fato, ele forma e tem emprego. E isso e todas as áreas. Eu fui a uma no Tocantins, que era na área de formação do pessoal para o agronegócio. Então tinha gente que desfrutava do agronegócio e da pequena, da agricultura familiar, gente que estava especializado em hortaliça, produção especial de hortaliças, que para nós... As pessoas não dão valor, assim, pensam que não tem valor, mas tem muito valor, ele tem os alimentos.

Ratinho: É, exatamente.

Presidenta: Operador de máquina, de colheitadeira. Não é? Porque diz que a máquina hoje, Ratinho – eu não sabia disso – ela mede a umidade do buraco para saber como é que a semente fica. Então, o cara tem de aprender.

Ratinho: É verdade. As máquinas, não precisa mais nada.

Presidenta: Mas ele tem que saber operar, tem de formar. Então, tem uma outra região que a demanda é por operador de computador, eles querem operador de computador. Tem outra que é a moça, ela tem um pequeno negócio, e ela quer melhorar a vida para ter acesso aos financiamentos, então ela faz um curso e melhora a sua competência. Essa, que ontem... se eu não me engano chamava Maria Janaína. Olha, a minha memória até que está boa.

Ratinho: Está boa.

Presidenta: A Maria Janaína era isso. Ela tinha uma... como é que chama aquilo? Um pequeno restaurante, tá, e num lugar que eu acho o nome maravilhoso. Chama São Miguel do Gostoso.

Ratinho: São Miguel.

Presidenta: São Miguel do Gostoso? É Miguel, é? Miguel. E dizem que é um lugar lindíssimo. Nunca fui, mas todo mundo diz...

Ratinho: O nome, pelo menos, é bonito.

Presidenta: O nome é maravilhoso, é lá no Rio Grande do Norte. Então, teve isso.

Ratinho: São essas coisas que...

Presidenta: Isso te mobiliza a vida.

Ratinho: É isso...

Presidenta: O Bolsa Família, ver a mãe do Bolsa Família receber o Bolsa Família, mas já estar tendo uma profissão. Isso eu acho, Ratinho, mudar, ajudar as pessoas a mudarem a vida.

Ratinho: Isso te emociona mais?

Presidenta: É, eu me emociono, e a gente sabe como dar uma oportunidade.

Ratinho: A senhora podia mostrar para a gente, Presidenta, a sua biblioteca?

Presidenta: Mostro, Ratinho.

Ratinho: Eu sei que você não gosta muito...

Presidenta: Eu gosto demais da minha biblioteca e de mostrar.

Ratinho: De mostrar você gosta?

Presidenta: Sou exibida, porque a biblioteca não é minha. Eu sempre falo para o meu neto: não pega nisso, que é do povo brasileiro. A biblioteca é do povo brasileiro.

Ratinho: E quando o seu neto vem aqui, ele bagunça muito aqui, não?

Presidenta: Eu não deixo ele vir. Ele pode pegar... Até, outro dia, eu falei: ele vai ficar querendo saber quem é esse povo brasileiro, porque tudo é do povo brasileiro, entendeu? “Não pega nisso!” Agora, lá em cima ele pode pegar, porque é meu ali, aquelas coisas ele pode pegar.

Ratinho: Presidenta, a senhora já entrou naquela piscina?

Presidenta: Já.

Ratinho: Já entrou?

Presidenta: Já. Aquela piscina...

Ratinho: Mas dá tempo?

Presidenta: Não dá, não, porque eu não entro muito, não, viu? Eu entrei umas duas vezes só. Mas aqui também tem uma outra coisa muito boa. Eu gosto muito de flor, não sei se você gosta.

Ratinho: Eu gosto, gosto de flor.

Presidenta: Aqui, Brasília, é um clima maravilhoso para flor. Esse... eu acho que o jardim está muito bonito.

Ratinho: Eu notei que tem muito passarinho. A gente está conversando aqui...

Presidenta: Tem passarinho, arara...

Ratinho: Muito passarinho. A senhora contrata ou eles vêm porque eles querem vir aqui?

Presidenta: Eu contratei, estou pagando passarinho. Viu, Ratinho, eu tenho muito passarinho na folha de pagamento.

Ratinho: Eu já vi um monte de passarinhos aqui.

Presidenta: Você já viu quanto passarinho?

Ratinho: Muito passarinho.

Presidenta: E tem uns que são muito...

Ratinho: Ainda são ousados.

Presidenta: ...muito atrevidos. Eles entram por aqui, entram por aqui, dão a volta, e eu desconfio que eles se alojam ali em cima. Eles sobem aqui em cima.

Ratinho: A senhora viu as três casinhas de joão-de-barro que têm ali?

Presidenta: Já, eu cuido delas.

Ratinho: Três casinhas de joão de barro ...e a casa dele, arruma mais duas amantes.

Presidenta: Você está suspeitando do joão de barro, é, Ratinho? Fica levantando contra a honra do joão de barro.

Ratinho: Nome de construtor...

Presidenta: Mas você viu que gracinha as casinhas?

Ratinho: Maravilha, maravilha.

Presidenta: Não, e tem... aqui tem muito passarinho, tem... nós temos quatro araras, aqui no Palácio. Tem duas araras que voam direitinho e tal, elas...

Ratinho: Vê se não tem nenhuma americana aí?

Presidenta: Não, todas elas são de... E tem duas, Ratinho, que são daquelas que o Ibama resgata porque o pessoal ou cortou o músculo das asas... Então, essas duas são muito mal-humoradas. Se você vê... E elas acham que elas são donas daqui, elas andam, elas caminham e vêm esconder aqui debaixo. Tem duas araras bastante mal-humoradas, cheias do direito.

Ratinho: Vamos correr a biblioteca?

Presidenta: Vamos embora.

Ratinho: Aqui é bom.

Presidenta: Não é bonita?

Ratinho: Ficou chique. A gente gosta muito, também, que é a capelinha.

Presidenta: Ah, eu vou te mostrar a capelinha. Olha que gracinha. Olha para cima, Ratinho.

Ratinho: Meu Deus! Olha que coisa!

Presidenta: Eu acho essa Nossa Senhora aqui maravilhosa. Olha essa Nossa Senhora. Eu gosto dessa foto, Ratinho, olha a foto, essa foto dela.

Ratinho: Eu acho que pouca gente mostrou isso aqui, não é?

Presidenta: Eu acho que ninguém mostrou. E também ninguém vê isso aqui, Ratinho. Você é dos poucos que vêem que veio aqui, nesse fundo aqui, da capelinha. E ali, ó, é ali que tem a pista que a gente caminha, tá vendo?

Ratinho: Presidenta, você pratica esporte?

Presidenta: Eu? Eu caminho.

Ratinho: Presidente, eu queria te agradecer muito mesmo.

Presidenta: Eu é que agradeço. Espero que você tenha gostado.

Ratinho: Gostei muito de ser recebido.

Presidenta: Vou te convidar outras vezes.

Ratinho: Muito obrigado. Um abração. E se é sua opção, mando um fogão para a senhora.

Presidenta: Manda um fogão? Tá bom. De quatro bocas ou de seis?

Ratinho: Quatro bocas.

Presidenta: Tá bom. Demais, não, porque é só um mexido.

Ratinho: Um mexido que nós vamos fazer. Obrigado, Presidente.

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Assunto(s): Governo federal