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Entrevista concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS

por Portal do Planalto publicado 20/09/2013 19h38, última modificação 04/07/2014 12h48


Dilma avisa que governo federal não pode bancar metrô sozinho: "A vida é dura para todo mundo"

Presidente também falou sobre temas como a ponte do Guaíba, Mais Médicos e reeleição

Ao chegar à sala vip do terminal antigo do Aeroporto Salgado Filho para a entrevista que deveria durar 15 minutos, a presidente Dilma Rousseff justificou:

— Tem de ser rápido, porque estou perdendo a voz. Tem acontecido isso cada vez com mais frequência.

Lembrada de que no discurso no Piratini não parecia que estivesse afônica, explicou:

— Mas lá eu impostei e isso acaba desgastando.

A entrevista a Zero Hora e ao Correio do Povo acabou durando 33 minutos. Em dois momentos, Dilma se antecipou à pergunta: quando puxou o assunto da espionagem dos Estados Unidos e disse que vai tratar do tema na abertura da assembleia geral da ONU, e depois, para negar a reforma ministerial. Falou da ponte do Guaíba, de metrô, da crise no Ministério do Trabalho, do programa Mais Médicos e de reeleição.

Confira os principais pontos da entrevista:

NOVA PONTE DO GUAÍBA

A ponte nós vamos fazer aqui de qualquer jeito. Não tenha dúvida disso. Agora, nós estamos nos finalmentes. Eu ainda volto duas vezes até o final do ano. Em uma delas, nós liquidamos essa ponte de vez.

METRÔ DE PORTO ALEGRE

O metrô eu estou dependendo do prefeito José Fortunati. Porque tem um problema de redução do tamanho. Antes, ia até a Fiergs, e, agora, só vem até o Laçador (na verdade é até o Triângulo da Assis Brasil). E aumentou o preço. Eu sei que não é culpa do Fortunati. Tem sido assim em várias licitações no Brasil. Estamos tendo muita dificuldade, estamos vendo os prefeitos com muita dificuldade para conseguir os preços que eles planejaram quando fizeram os projetos. Nós tendemos a aceitar a mudança, mas não concordamos com todas as adaptações. Devemos fechar essa proposta até a metade do mês que vem. Querida, a vida é dura para todo mundo. Se eu ficar dando recursos a fundo perdido para todo mundo, não vou ter fundo perdido para dar. Então, uma parte vai ter de ser com aumento de financiamento para ele. Que ele faça PPP, que era a ideia. Nós vamos ver dos R$ 2 bilhões o que vai ser e o que não vai ser, mas eu te asseguro que tudo do orçamento da União é impossível.

CRISE ECONÔMICA

Na reunião do G-20 ficou clara a avaliação de que a economia americana está com indícios muito significativos de recuperação. Há indícios de que ela está saindo do processo que estava, de restrição do mercado de trabalho. Os Estados Unidos e a China melhoraram. Já a Europa não tem dados muito animadores. Mas, também não se tem mais aquele risco sistêmico de que o euro ia desaparecer. Então, há uma situação muito melhor no mundo. Eu diria que o fundo do poço passou. Mas, você tem de tomar cautelas, porque a duração da crise e a característica dela é de redução do comércio internacional.

CONCESSÕES

Nós estamos muito interessados nesse processo de concessões. O fato de ter havido uma concessão com oito candidatos e outra sem nenhum reflete uma coisa interessante. É impossível ter concessão sem tarifa de pedágio. Em alguns Estados, essa sensibilidade contra o pedágio é muito alta. Isso significa que nós vamos ter de abrir uma séria discussão no país sobre o seguinte: se querem o modelo de concessão, ou seja, se querem que as estradas sejam assumidas pela iniciativa privada, terá de ter pedágio. Eu concordo plenamente com a população quando ela diz que tem tarifas de pedágio que são insustentáveis. Mas, não se pode ter uma visão simplista de que toda tarifa de pedágio é insustentável. O DNIT não tem como assumir todas as estradas federais. Temos que encontrar o chamado caminho do meio.

PEDÁGIO NA ZONA SUL

Eu recebi um pedido de redução da tarifa na BR-116 e na BR-392. A alegação é de que a tarifa elevada compromete a competitividade da indústria naval. Essa é uma questão que tem de ser tratada com muita cautela, porque não há como você ter concessão e não ter pedágio. Não há. E não há como defender competitividade às empresas sem aumento de pedágio. Essa mágica não existe. O governo dá conta da rentabilidade das concessões e, ao mesmo tempo, das sensibilidades e reclames da população. Tem hora que as duas coisas podem estar excessivas. Tanto a exigência de rentabilidade quanto a sensibilidade excessiva da população em relação a pedágio. Na 392 nós vamos olhar com todo cuidado se a população tem razão. Nós que estamos fazendo a duplicação ali. Se não tiver estrada decente, eu estou comprometendo a indústria naval em Rio Grande. Então, para evitar confusão, nós duplicamos com dinheiro público. Agora, eu quero ver qual o problema que está ocorrendo. O que estou querendo mostrar é isso: não é possível tratar essa questão como sensibilidade a pedágio, porque, de fato, tem pedágios bastante altos no país. Não vou esconder o sol com a peneira, porque não sou responsável por eles. De fato, tem pedágio alto. Agora, isso não pode justificar uma ojeriza a pedágio. Não pode cobrar pedágio e o governo federal que se vire e faça obra pública.

REFORMA MINISTERIAL

Não pretendo fazer, agora, uma reforma ministerial. A minha reforma está marcada para o final do ano e terá a ver com o processo de saída dos ministros para concorrer. Isso não precisa ser no último dia (possível), porque, como eu tenho um ano de governo, tenho de dar conta desse ano. Então, tem o interesse do ministro, mas tem o interesse do governo.

Nós vamos fazer uma reforma que esteja centrada, fundamentalmente, no interesse do governo, porque é isso que eu devo à população. Eu devo à população a garantia de continuidade do processo até o dia 31 de dezembro de 2014. Não quero solução de continuidade. Quero manter um padrão. Temos vários projetos em andamento, e eles serão mantidos rigorosamente.

CRISE NO MINISTÉRIO DO TRABALHO

Minha querida, eu não julgo o ministro Manoel Dias. Ele acabou de entrar no governo. As responsabilidades do Manoel Dias são muito circunscritas. Vou avaliar todos os dados. Nós não temos, hoje, nenhuma razão para modificar nossa visão e avaliação do ministro. Nenhuma. Como não tenho de nenhum outro ministro. Agora, havendo algum caso concreto e fundado, qualquer pessoa está sujeita às exigências legais e éticas do país.

ESPIONAGEM

Eu vou aos Estados Unidos neste final de semana, início da outra semana, para abrir a assembleia geral da ONU. Irei à ONU falar a respeito disso, principalmente da neutralidade da rede, da internet, da importância da rede não ser usada para espionagem. Inclusive, quando estive com o Obama, avisei ao governo americano que, em qualquer hipótese, levaria isso para os fóruns multilaterais. Já estávamos tomando muitos cuidados e nós continuaremos a tomar cuidado. Agora, o Brasil vai ter de se preocupar muito com criptografia, com desenvolvimento de certas tecnologias, para poder se proteger de fato.

VIAGEM A WASHINGTON

Terei a oportunidade hoje de falar com o meu ministro das Relações Exteriores, que chegou dos Estados Unidos ontem pela manhã. Obviamente, vou fazer uma conversa com ele, ele vai me reportar o teor das discussões, faremos uma avaliação e, acredito, na terça-feira darei uma posição a respeito disso.

MAIS MÉDICOS

Há uma questão de redução da quantidade de médicos para que a oferta (de profissionais) seja maior do que a demanda. No Brasil, nós temos 1,8 médico por mil habitantes. Na Argentina, 3,2. No Uruguai, 3,7. Em Portugal, 3,9. Espanha, 4. Reino Unido, 2,7. Além de tudo isso, eles são mal distribuídos. Eles estão no Litoral, não estão interiorizados, nós não temos médicos em toda a região norte. Não temos médicos no nordeste, mas também não temos médicos nas periferias das grandes cidades, inclusive em São Paulo. O Fortunati fez um discurso que eu comecei a lembrar de como era a situação. Ele dizia o seguinte: não tem médico na Vila Tronco, na Lomba do Pinheiro, na Bom Jesus, na Zona Sul, na Restinga, na Zona Norte. Nós sabemos perfeitamente que temos de melhorar a estrutura e a infraestrutura de postos de saúde e UPAs, porque esses médicos são só para a atenção básica. Oitenta e cinco a 90%, nós resolvemos na atenção básica, principalmente os problemas crônicos, como hipertensão, diabetes, asma, diarreia, enfim, aquilo que é mais generalizado na população. Os pacientes no Brasil reclamam que eles não são examinados, que os médicos não tocam nos pacientes. Nas pesquisas qualitativas, as pessoas se queixam de duas coisas: de que não tinham atendimento médico e de que ele era desumano.

REVALIDAÇÃO DO DIPLOMA

Nós tentamos fazer o Revalida para ter o benchmark. Qual é o nosso benchmark? Revalida para quem se formou no Brasil. Mas não foi aceito. Então, nós temos hoje de usar a seguinte prática, a prática da tutoria, porque na verdade eles não poderão sair da atenção básica. Nós iremos fazer um grande programa de tutoria. Nós vamos, inclusive, não só acompanhar o médico, mas fazer o médico fazer estudo de caso, trazer pessoas de fora para fazer palestras em rede.

PROGRAMAS ELEITOREIROS

Falaram isso de vários programas. Antes, em 2010, era o Minha Casa Minha Vida. Eu tive de explicar dias a fio que o Minha Casa Minha Vida era uma questão de déficit habitacional. Falaram isso do Bolsa Família. Vão falar do Minha Casa Melhor, porque agora descobriram que ele existe, porque quando lançamos ninguém deu bola. O programa que eles acham que vai dar certo, é eleitoreiro. Fico feliz com isso, sabe.

REELEIÇÃO

Eu disse quando estive aqui da última vez que estou no governo. Eu sou a presidenta. Os outros querem o meu lugar. Eu não tenho de me preocupar com eleição, tenho de me preocupar em governar. E é isso que vou fazer até o último dia. Eu estou no governo, eu sou a presidente. O que tenho de fazer é isso, governar. Discutir o Minha Casa Minha Vida, o Mais Médicos... Saber o que o G-20 e os Bricks estão fazendo, discutir a Síria. É colocar os problemas do Brasil na frente de qualquer coisa.


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Assunto(s): Governo federal