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Entrevista concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, ao Grupo RBS

por Portal Planalto publicado 06/11/2013 16h10, última modificação 04/07/2014 12h51

 

Palácio da Alvorada, 06 de novembro de 2013 

 

Jornalista: No último sábado, em reunião com 15 de seus ministros, a senhora cobrou celeridade no cumprimento dos cronogramas de obras de infraestrutura. Por que parece tão difícil fazer investimentos da maneira rápida que nós precisamos para acelerar também a nossa economia? E se a senhora pudesse escolher uma prioridade para o RS e SC, quais seriam?

Presidenta: Olha, no Brasil, é difícil fazer investimento. É algo que exige que a gente volte um pouco atrás. O Brasil parou de investir. Então, o que aconteceu nos últimos 30 anos? Nós tivemos uma situação que foi uma hipertrofria. Ou seja, aumentou muito a parte de fiscalização e reduziu-se muito a de execução Quando cheguei no Ministério de Minas e Energia (em 2003, no primeiro governo Lula), tinha três engenheiros e 25 motoristas. Tem outros ministérios que não tinham estrutura de engenheiros.

Até porque engenheiro, no Brasil, sumiu. Teve uma época em que engenheiro era contratado para atuar nas tesourarias dos bancos ou das empresas, porque não havia obras. Esse ano de 2013 é o primeiro em que a formação de engenheiros no Brasil ultrapassou a formação de advogados. E nós precisamos muito de engenheiros.

Tivemos dificuldades para contratar projetos, não só projetos executivos de obras físicas, mas também todos os projetos necessários, ambientais, para poder fazer uma obras. Nós voltamos a investir de uma forma global a partir de 2007, com o PAC. Em 2005, eu era ministra-chefe da Casa Civil e nós estávamos submetidos ao Fundo Monetário. Para saneamento, um funcionário do Tesouro chegou para mim e disse: "Nós conseguimos uma exceção do Fundo Monetário para investir R$ 500 milhões em saneamento no Brasil inteiro." Hoje, nós investimentos isso em uma cidade modesta. Porque a exigência de recursos para investimento em qualquer obra de infraestrutura é muito grande. Também não existia financiamento de longo prazo no Brasil. Nós é que construímos as condições de financiamento.

Jornalista: Prioridades?

Presidenta: O Brasil tem tanta carência de investimento que é um absurdo a gente discutir prioridades. Todos os investimentos são prioritários. Eu não tenho como dizer que primeiro vem esse e depois aquele. Eles têm que ser simultâneos, porque investir em infraestrutura vai exigir da gente investimentos em rodovia, ferrovia, porto, aeroporto, saneamento, prevenção de desastre. Nós estamos correndo atrás da máquina. Durante muito tempo não se investiu no Brasil.

Às vezes, nós somos criticados por ter pressa e, às vezes, por não ter pressa. É absolutamente imprescindível no Brasil que a gente tenha pressa no que se refere a investimento em infraestrutura, porque tem uma carência muito grande. Quando se fica muito tempo sem investir, se corre atrás da máquina e é o que estamos fazendo. Hoje, temos uma carteira de investimentos que nunca o governo federal teve e nós administramos essa carteira. Em algumas áreas, com grande facilidade, porque ela já se estabilizou.

Vou ter dar um exemplo: energia elétrica. Hoje, é mais tranquilo, o marco regulatório é estável. Outra área que é cada vez mais tranquila, apesar do pessoal fazer uma certa turbulência: petróleo e gás, tem regras e essas regras são internacionais. Não fomos nós que inventamos o modelo de partilha, que é usado onde tem muito petróleo e baixo risco. Modelo de concessão? É usado onde tem pouco petróleo e muito risco. Isso é da regra do jogo.

Jornalista: A senhora como primeira presidente, ou presidenta, como a senhora prefere, do Brasil...

Presidenta: Vocês não acha presidenta mais bonito?

Jornalista: Eu confesso que prefiro presidente...

Presidenta: Mas é uma honraria às mulheres. A gente faz o reconhecimento do feminino no nome da presidenta. É isso.

Jornalista: Então, a senhora, como primeira presidenta do Brasil, imagino que deve ser, obviamente, uma experiência única, mas que, para a senhora, também deve ser algo transformador. Eu vejo que a senhora é muito cercada de mulheres. A senhora confia mais nas mulheres? Outra questão: a senhora sentiu preconceito ao ser eleita presidenta? Houve algum tratamento diferenciado por ser mulher?

Presidenta: Eu acredito que, primeiro, tem um tratamento diferenciado, tem um certo preconceito. Eu nunca vi ninguém falar que um presidente homem era duro, determinado, forte e exigente. E bravo. É interessante. Eu, inclusive, cheguei à conclusão de que eu estava cercada de homens meigos. Todos os homens do meu governo eram meigos e eu era muito brava.

Eu acho, sabe, que mulher tem algumas características que a diferenciam dos homens. Não acho que a gente pode ter essa preferência, como governante, entre homens e mulheres. Mas eu tenho uma inclinação, em alguns aspectos, pelas mulheres. Mulher é extremamente cuidadosa e detalhista. Quando você encarrega uma mulher de uma certa atividade, ela cumpre de uma forma muito precisa.

Eu tinha um amigo que se cercava de mulheres – e ele não era bobo – porque todas as mulheres eram muito mais obsessivo-compulsivas e faziam as coisas muito mais deliberadas. Eu não chego a esse ponto, mas acredito muito que as mulheres têm grande capacidade de trabalho e de lidar com muitas coisas simultaneamente – até porque elas fazem isso ao longo da vida. Os homens também têm muitas qualidades de gestão e elas são mais conhecidas, na medida em que os homens predominam em algumas atividades. Eu acho que é possível equilibrar as coisas.

Jornalista: Na primeira entrevista depois que assumiu o governo de Santa Catarina, o saudoso Pedro Ivo Campos surpreendeu os repórteres ao dizer que o poder deprimia. Qual a sua opinião sobre o poder? A senhora tem dormido bem?

Presidenta: Olha, eu durmo bem. Naturalmente, eu durmo bem. Agora, acho que o poder cria responsabilidades. Responsabilidade é algo que implica necessariamente que você tenha uma certa seriedade na vida e, importante, você tem um peso maior para carregar. Eu não lembro o nome dele, mas tem um pensador que diz que responsabilidade e felicidade não rimam. Que, por você ser muito feliz, você tem que ser livre e, portanto, irresponsável. Eu não acredito que chegue a esse ponto, não. Mas eu acho que poder significa responsabilidade, principalmente no caso de uma democracia em que você, além de ter poder, tem que escutar a sociedade.

Você tem que levar em conta que esse poder é relativo, que ele é compartilhado, que ele tem uma série de pesos e contrapeso. E que você tem de dar satisfação e prestar contas. E, portanto, necessariamente, você tem de estar centrado nisso. Não é possível dispersar. Então, acho que exige da vida privada da gente uma certa disciplina. Ao ter poder, você tem notoriedade e, ao ter notoriedade, você complica a vida alheia, o que exige todo o aparato de segurança.

Jornalista: A senhora tem viajado como nunca pelo Brasil. Acho que nem o ex-presidente Lula viajou tanto e os seus adversários dizem que isso faz parte da campanha. A senhora tem participado de formaturas do Pronatec, inaugurações de creches. A senhora consegue separar essa atividade administrativa de uma que já é de pré-campanha? Aproveito para perguntar: a senhora se sente mais a vontade numa formatura do Pronatec ou numa reunião do G-20?

Presidenta: Eu acho que é um absurdo esse tipo de colocação. Vou te dar dois exemplos. Acho que o presidente Lula, em alguns momentos, até viajou mais do que eu no seu último ano. Eu acredito que, cada vez que se aproxima o final do seu mandato, você tem mais coisas para entregar, então, a viagem se torna mais constante. Eu não vou deixar de viajar por razão nenhuma, é parte integrante do exercício da minha condição de presidente. Se ficasse só no gabinete, sem prestar contas para a sociedade, sem ir às atividades... Por exemplo: no RS, hoje, vamos publicar o edital da ponte. Vou lá, no RS, na sexta-feira. Quinta-feira eu vou em Guarulhos, SP, e sexta eu vou entregar outra plataforma que sai lá do Rio Grande. Tenho uma espécie de relação emocional com essas plataformas do RS. Vi aquilo, um areal, se transformar em estaleiro. Vi o sul do Rio Grande se transformar. Quando faço essas viagens, é o melhor momento do governo, porque você entrega concretamente coisas. Então, eu queria te responder isso.

O G-20 tem outra característica. É uma reunião das lideranças internacionais, dos 20 países do mundo importantes. É um momento importante, mas ele não tem a emoção que é o contato com a população do seu país, com o fato de que você cumpriu metas. Tenho muito orgulho do Pronatec. Nós dissemos que iríamos fazer cursos para oito milhões de pessoas no Brasil. Capacitação profissional e técnica. Dois tipos de capacitação técnica: uma de mais curta duração (de três a seis meses) e outra de um ano e meio a dois, que é complementação do ensino médio. A outra é tanto para pessoas que estão no Bolsa Família e que, a partir do Pronatec, passam a ter profissão e rendimento e podem evoluir ainda mais, pois o fim da miséria é só um começo. Aí ela tem um caminho, que é o da educação. Tem muitas mulheres, inclusive, se formando na construção civil, como pedreiras ou azulejistas. São 600 cursos que nós temos em parceria com o Sistema S. O governo coloca R$ 14 bilhões, é curso gratuito, e o sistema S entra com todas as suas competências e habilidade para formar e capacitar profissionais. E a gente consegue dar uma grande contribuição para a indústria, para o serviço e, inclusive para a agricultura. Nós conseguimos dar a essas formaturas o status que elas devem ter. Elas são importantes e significam um passo adiante na vida de milhões de brasileiros. Estamos com 5 milhões, diziam que a gente não ia fazer os 8 milhões, mas já estamos com cinco em dois anos e pouco.

Jornalista: Um dos empresários que frequentemente conversa com a senhora no Palácio do Planalto, o Jorge Gerdau, deu uma entrevista criticando em determinado momento o excesso de ministérios. Segundo ele, é possível governar com menos ministérios. E seria até mais ágil. Ele cita na entrevista "meia dúzia". Pergunto para a senhora, dentro da realidade das articulações políticas e de gestão, é possível governar com menos ministérios?

Presidenta: Olha, depende de onde você quer chegar. Por exemplo: ontem eu estive numa atividade muito importante, com um dos ministérios que muita gente queria extinguir, que é o ministério da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Veja você, num país como o nosso, que tem toda a herança da escravidão, e a partir da abolição, a forma de manter a hierarquia gerada na sociedade escravocrata foi o racismo. Ou seja, a diminuição das capacidades de uma certa cor de pele como forma de manter uma hierarquia social. Isso durou e tem repercussão ainda hoje. Se nós não tratarmos dessa questão que torna o negro pobre e o pobre negro, nós não estaremos construindo as condições para esse país evoluir.

Para a gente fazer um país forte, eu preciso tratar de algumas questões que são ministérios que têm papel completamente diferente dos ministérios que fazem a gestão. Quais sejam: o ministério relativo às mulheres. Ele tem um sentido muito mais simbólico político e de luta em relação à mulher. Saiu aquele relatório sobre o aumento de todas as formas de violência contra a mulher, inclusive o estupro, apesar da Lei Maria da Penha. Então, o que esse ministério das mulheres está fazendo agora? Está construindo a casa das mulheres. Na casa das mulheres, nós vamos colocar quem? Nós, o governo federal, vamos colocar o governo do Estado e todas as estruturas da justiça que coíbem a violência contra a mulher, não só as varas especiais, mas também as delegacias da mulher através das parcerias com os governos estaduais, todas as estruturas do Ministério Público. Vamos concentrar ali um local que dê uma única resposta para a mulher vítima de violência, que é a resposta do apoio, de coibir e reprimir a violência e de levar a processos judiciais.

O que eu quero dizer: quero dizer que tanto o Ministério da Igualdade Racial como o das Mulheres e dos Direitos Humanos, eles têm papeis completamente diferente do Ministério dos Transportes. Vou dar outro exemplo: você tem a estrutura intermediária. A Advocacia Geral da União, a Corregedoria Geral da União, elas têm outras funções no Estado que é de ser uma espécie de retaguarda legal e de fiscalização do governos. E você tem ministérios fins.

Nessa reunião de sábado, reunimos fundamentalmente com os ministérios que prestam serviços públicos. E, em alguns casos, com ministérios de infraestrutura, como é o caso dos Transportes. Mas o grande foco de sábado foi serviço público. Saúde, educação, desenvolvimento social e combate à fome, as mulheres, os negros. Nós, inclusive, ontem lançamos um projeto de lei que cria um projeto de lei de cotas para o serviço público federal, no qual a gente prevê que 20% de todas as vagas dos concursos do serviço público federal deverão ser preenchidas por negros em qualquer caso. Eles serão tratados de forma diferenciada. Isso é uma ação afirmativa. E nós achamos que ação afirmativa é essencial para você aumentar o nível de oportunidade. Então, o que eu quero dizer com isso: que os ministérios não tem um igual ao outro.

É óbvio que o empresário tem maior sensibilidade por alguns ministérios, como o Ministério do Desenvolvimento e da Indústria e Comércio. É normal que um diplomata olhe o Ministério das Relações Exteriores. Agora, que esses três ministérios (Igualdade Racial, Direitos Humanos e das Mulheres) que são sempre colocados como devendo ser extinguidos, e transformados em secretarias puras e simples, eu discordo. Eu acho que o status deles de ministério, só o status, eles não interferem, não melhoram nem prejudicam a gestão dos outros. Eles melhoram e avançam na gestão daquelas políticas que são essenciais.

Por que não podemos ter um ministério que trate dos direitos humanos? Devemos ter. Agora ele não tem a mesma característica de gestão do Ministério de Minas e Energia. Não tem. E não tem a mesma função. E um não vai substituir o outro. Eu acredito que você pode discutir que vai ter necessariamente instâncias de gestão. Nós temos instâncias de gestão. Eu faço reunião, por exemplo, com ministério fim. Educação e saúde tem outro patamar.

Não é igual, por exemplo, a turismo. Apesar de turismo ser essencial num país belo como o nosso, temos condição de ter um PIB muito expressivo nessa área do turismo. Mas eu não posso deixar de considerar que o turismo está num patamar de gestão e saúde, educação e segurança estão em outro. Em termos de prioridade social, é saúde, educação e segurança. Em termos de prioridade econômica, o turismo, a pesca e a agricultura tem outra função.

Jornalista: Presidenta, da última vez que conversamos, a senhora falou bastante da espionagem dos Estados Unidos. Depois, fez aquele discurso forte na ONU, cancelou a viagem aos EUA. Quando que as relações devem se normalizar e até que ponto esse episódio influenciou ou prejudicou a relação comercial com os EUA que são importantes para a nossa economia? Também a proposito desse assunto, agora vem a informação de que o Brasil espionou diplomatas estrangeiros. Qual a diferença entre um caso e outro?

Presidenta: Veja bem, Rosane. O que está em questão no caso da espionagem, da denúncia de espionagem não só contra o Brasil, mas contra outros países, é o fato de que foram violados e-mails privados, ligações telefônicas. Se violou internet, violou a privacidade, e não foi só de chefes de Estado, mas de indivíduos e de empresas dentro de um processo que não tem muita justificativa de luta contra o terrorismo. Só lembrando alguns países, é o Brasil, a Alemanha, a França e alguns outros. Pode ter mais, mas os que vieram a público são esses. Veja você que a questão da defesa e da inteligência dos governos é uma questão velha, remonta a todas as guerras, até medievais. Um Estado tinha de se informar sobre o outro. Isso é uma coisa. Outra coisa bem diferente é você violar a soberania e violar direitos humanos.

E acho que não pode comparar o que a Abin fez em 2003 e 2004, até porque tem um lado dessa ação da Abin que, segundo eles, era contra inteligência, porque estavam achando que tinham interferências em negócios privados, negócios públicos no Brasil. Foi preventivo. Não levou a nenhuma consequência de espionar ninguém na sua privacidade. Acompanhou atividades. Isso é previsto na legislação brasileira, não cometeram nenhuma ilegalidade. Até porque, se cometessem ilegalidade desse nível, nós seríamos obrigados a afastar as pessoas envolvidas. No outro caso, não é isso. No outro caso, é um aparato de violação da privacidade, dos direitos humanos e da soberania do país. Algo que não acho correto.

Jornalista: A senhora vai remarcar a viagem?

Presidenta: A questão é a seguinte: eu iria viajar. A discussão que derivou das denúncias nos levou a fazer a seguinte proposta aos EUA: só tem um jeito de a gente resolver esse problema. Eles teriam de se desculpar pelo o que aconteceu e dizer que não aconteceria mais. Não foi possível chegar a esse termo. Se eu botasse o pé nos EUA, o que poderia acontecer?

Ninguém sabe o que tem o Snowden. Tem esse problema. Ninguém diz o que ele tem. Acho que nem os EUA sabem o que ele levou. O que aconteceria? Eu e o presidente Obama estaríamos submetidos ao constrangimento de uma nova denúncia. E aí o tema que vocês pautariam não seria as nossas realizações. Seriam justamente essas denúncias. Então, veja bem, não há interrupção nas relações comerciais, não há interrupção nas relações diplomáticas, não há interrupção em nenhum nível nas relações tradicionais entre Brasil e Eua. Agora, não é possível que entre países amigos, com relações estratégicas, não se leve em consideração que não é possível espionar a presidente ou a primeira-ministra. Não é adequado.

Jornalista: De que forma esse episódio influencia o seu governo e sua vida pessoal? A senhora mudou comportamento?

Presidenta: Não. Inclusive eu acho que o presidente Obama ficou bastante constrangido. Não acredito que a ele possa se atribuir a responsabilidade por nós não termos feito a viagem. Deve-se ao fato de que, como não é só comigo, não é só com o Brasil, eles não teriam como fazer tratamento específico ao Brasil. Eles teriam de fazer com todas as nações amigas. Pessoalmente, eu percebi que ele sentia muito, percebi que ele compreendia, e percebi que não é uma questão pessoal entre dois chefes de Estado. É uma questão política entre dois países.

Não podemos conceber que o Brasil não tenha o respeito a sua soberania que ele merece. É impossível que eu, como presidenta, aceite negociar a soberania do país. Isso é inadmissível. O presidente que fizer isso não merece a condição de presidente. Impactou em mim pessoalmente nesse aspecto: eu percebi perfeitamente de que, na minha condição de presidenta da República, eu não poderia admitir que os meus cidadãos, o meu país, os cidadão que por dever da minha eleição eu devo prestar contas, tenham seus direitos violados, tampouco as empresas. Espionagem industrial não pode ter guarida entre nações civilizadas. Não é possível. Eu fico um pouco indignada porque eu acho que isso não é civilizado. Nós escutamos sempre que nos EUA nasceram os direitos civis. E é verdade. É um país que tem essa tradição escrita na sua fundação.

Jornalista: Mas são incoerentes e hipócritas?

Presidenta: É, num certo sentido foram incoerentes. Mas eu acredito que o fato de isso ter vindo a público, ter chegado ao conhecimento de todo mundo, vai provocar uma modificação.

Jornalista: O que a senhora sabe hoje sobre o Brasil que não sabia até se tornar presidenta e governar por esses quatro anos?

Presidenta: Olha, eu fui nos últimos dez anos, quase 11, eu fui ministra de Minas e Energia e depois fui chefe da Casa Civil. Então eu cheguei à Presidência com um nível de conhecimento grande sobre o governo federal e o Brasil.

Agora, todo dia, é uma coisa impressionante, todo dia eu aprendo uma coisa. Mesmo eu tendo esse conhecimento, mesmo eu sabendo como é que funciona, todo dia eu aprendo alguma coisa sobre a diversidade desse país e sobre as necessidades diferenciadas que ele tem. Eu sempre soube, desde que eu entrei no governo e um pouco antes também, que tem regiões desse país que são regiões que merecem tratamento diferenciado. São regiões que, por vários motivos, se atrasaram em relação às demais e a sua população sofre as consequências.

Você tem o Norte e o Nordeste, no Rio Grande do Sul tinha a Metade Sul do Rio Grande. E São Paulo tem outras regiões extremamente pobres, como o Vale do Ribeira, em Minas o Vale do Jequitinhonha. Enfim, você conhece isso. Mas essas viagens, inclusive que muitos reclamam que eu faço, são momentos importantíssimos para você conhecer esses problemas. Então, tem muita coisa que eu aprendi ao longo dos dois últimos anos. Principalmente porque aí a responsabilidade e o fardo passaram a ser meus. Antes era do Lula. Eu ajudava, mas quem carregava era ele. Agora me ajudam, mas o fardo é meu. O conhecimento do país aumenta a paixão e a vontade de resolver o problema. Eu tenho data para entrar e para sair. Nesse período eu tenho de cumprir a minha obrigação.

Jornalista: Nesse tempo do seu governo e do governo do ex-presidente Lula, é notório que nunca tanta gente de classe baixa passou para a classe média, as pessoas aumentaram o poder de compra. Tudo isso já se sabe. No entanto, sempre acreditamos que diminuindo a miséria iria diminuir também a criminalidade. A gente nota algumas diminuições pontuais, como no RJ com as UPPs. Por que a diminuição da miséria não diminuiu em geral a criminalidade no Brasil?

Presidenta: Eu acredito que existe uma relação, sim. A miséria cria um meio ambiente para aumentar a criminalidade. Agora o fato de você ter tirado em termos de renda uma parte da população da miséria, uma parte que nós queremos transformar em toda, estamos num processo final de retirada da miséria, o cálculo da ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome é de que temos ainda uns 600 mil brasileiros que não acessam o Bolsa Família por exemplo. Nós fazemos a busca ativa para poder incluí-los.

Eu acho que a saída da miséria, vou te falar uma frase que a gente diz e que eu acredito nela: isso é só um começo. Os fatores que levam as pessoas, principalmente os jovens, a esse ambiente de criminalidade não são simplesmente resolvidos com o aumento da renda mínima. São resolvidos com outras questões, uma delas é a educação. Então, eu considero que a maior arma que temos a médio prazo para reduzir a criminalidade é a educação. Principalmente em jovens e negros. Tem vários programas nesse sentido, a Juventude Viva é um.

Jornalista: Escola Integral também?

Presidenta: Escola Integral. Eu acho que não é só. É assim: é uma combinação de creche ou pós-graduação. Por que creche? Porque creche muda as condições de aprendizado da criança ao longo de toda a sua vida. A creche trabalha não só fatores cognitivos como também os não cognitivos. Vai ter uma conferência da ONU sobre os fatores cognitivos, que faz com que as crianças aprendam mais e melhor. Toda a neurociência mostra isso. Creche não é para a mãe deixar o filho. É para a criança. Não é para nós mulheres apenas.

Eu acredito que a alfabetização na idade certa decorre de uma boa creche. Alfabetização na idade certa, creche e mais ensino integral implica com que tenhamos outra forma de introduzir o jovem na sociedade. E obviamente acesso a ensino profissionalizante e universidade. Mas esses três primeiros, creche, alfabetização na idade certa, escola em tempo integral e obrigatória para todos, por isso que nós lutamos tanto para que os royalties e o fundo social fossem uma parte expressiva, esses 75%, para a educação.

Jornalista: A senhora conseguirá alcançar a meta de construir 6 mil creches até o fim de 2014?

Presidenta: Nós vamos ter um pouco mais do que isso, talvez. O presidente Lula contratou, no final do seu governo, algumas creches, mas quem está executando esse processo somos nós. Tem sido muito demorada a contratação de creches. porque tem todo aquele processo que leva um ano ou dois. Para resolver o problema, o MEC resolveu contratar módulos e pré-fabricados, que têm a mesma qualidade. Por meio desse fornecimento, vamos conseguir contratar creches com período de construção de quatro meses, o que era antes um ano e meio. Então, nós iremos contratar 6 mil sem a menor sombra de dúvida.

Outra questão relevante é essa dos royalties e do Fundo Social para financiar a educação, porque educação tem de ser algo em que você gasta dinheiro. Primeiro, em quem? Tem de gastar com o professor. Todos nós sabemos que o professor no Brasil tem status menor, ganha menos, e a formação do professor também era meio descuidada. Há um esforço grande, feito no governo do presidente Lula, e eu continuo com esse esforço, no sentido de melhorar a formação do professor. A Universidade Aberta do Brasil foi feita fundamentalmente para isso. Então, professor bem formado e bem remunerado é essencial para a gente melhorar a qualidade da educação. E isso exige recurso. Não adianta botar um patamar mínimo, um salário mínimo, e o Estado, o município, não ter recurso.

Tínhamos de ter uma fonte de financiamento de educação. Porque a educação nossa tem de ser de qualidade e isso também implicar em escolas de tempo integral. Para ter escola integral com a estrutura existente, nós conseguimos fazer 50 mil. Mas não é um processo completo, porque a gente é obrigado a usar escola expandida, utilizar outras instituições e utilizar, muitas vezes, de forma precária. Nós teremos de fazer um grande investimento em escolas públicas para elas comportarem ensino em tempo integral. Não estou falando em prédios. Estou falando em laboratórios, sistema de computadores. O que queremos fazer no segundo período? Português, matemática, ciência e uma língua. Isso é o que significa escola em tempo integral. Não é só, como muitas vezes se disse no Brasil, arte e esporte. Arte e esporte são essenciais. Mas numa escola, por exemplo, de ensino médio ou fundamental dos últimos anos, é necessário um nível de dedicação muito grande ao ensino formal.

Jornalista: A senhora sempre menciona a necessidade de pagar bem os professores para que tenha melhora na qualidade do ensino, mas nós vemos os prefeitos e os governadores querendo mudar a lei do piso, porque a correção é muita alta, a maioria não pagando. Como se resolve essa equação?

Presidenta: Mas eles têm razão. Por isso, é que é fundamental... Veja bem: só com o Campo de Libra (área do pré-sal), o que se destina para a edução, você terá algo em torno de R$ 600 bilhões em 35 anos. Com os royalties existentes, tem aí algo entre R$ 180 bilhões e R$ 220 bilhões em 10 anos. Terá de ter recurso. A melhor coisa será transformar essa riqueza finita em riqueza perene?

Jornalista: Mas e quando acabar essa riqueza do petróleo?

Presidenta: Querido, aí quando acabar a riqueza do petróleo deste campo, terão outros. É o que nós supomos. E isso será nos próximos 50 anos. E o que significa isso? Esse país ficou rico. E se ele ficou rico terá dinheiro necessariamente, porque o petróleo não é nossa riqueza única. Por isso, no caso do petróleo, exigimos que tenha estaleiro aqui, que se produza navio aqui, como é o caso do sul do Rio Grande, por isso queremos que façam todos os equipamentos todos aqui. Terá uma indústria e ela poderá exportar. Nós estaremos ricos, porque nós precisamos ficar ricos antes de ficar velhos. O Brasil precisa aproveitar esse momento em que a sua janela etária, onde a população ativa é maior do que a inativa.

Jornalista: A senhora foi apontada como uma das mulheres mais influentes do mundo. Não seria hora de estender esse prestígio para o Mercosul, que está carente de um líder?

Presidenta: O Brasil dá grande importância para o Mercosul, que, ao contrário do que algumas pessoas falam, tem sido um elemento de crescimento para o Brasil. Se a gente for olhar, o comércio internacional cresce bem menos do que cresce o comércio dentro do nosso bloco. Como todo bloco comercial do mundo, temos problemas. Somos uma união aduaneira e queremos nos transformar também numa união de investimentos recíprocos. Ou seja, aproveitar que as nossas cadeias produtivas podem começar no Brasil e acabar na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, e isso meio que está acontecendo.

Eu acredito que o Mercosul terá de dar cada vez maiores passos no sentido da sua integração e também na sua relação com os outros países e blocos econômicos. Nós temos de apresentar para a União Europeia a nossa proposta e a União Europeia, a deles. O Brasil e os outros países do Mercosul estão em fase de conclusão da sua proposta. Será uma coisa importante, porque implica a relação do bloco com a União Europeia, que tem problemas muito maiores que os nossos. Até porque nós nunca fomos na direção de uma moeda única e nem tem cabimento, antes de uma união fiscal, ir para uma moeda única. E a União Europeia mostrou isso. Tem problemas, lá, quase incontornáveis, no caso da Grécia e de alguns países do Sul, como Portugal e Espanha.

Jornalista: Quais são os momentos de vida dura da presidenta da República? Aquela situação em Santa Maria, por exemplo...

Presidenta: Do ponto de vista pessoal, aquela [a tragédia da Kiss] foi o momento mais dramático que eu vivi, porque ali você enfrentava a dor humana sem nenhum bloqueio. É muito difícil isso. Momentos de comoção de comunidades são momentos muito fortes. A dor é muito tangível. É impossível você ver uma mãe e um pai com a situação invertida. A natureza não previu que filhos morressem antes do pai e da mãe.

Jornalista: E que outros momentos de vida dura?

Presidenta: Vou te dizer uma coisa: todo o dia a vida é dura. É dura, mas é bela.

Jornalista: Recentemente, o ministro da Defesa de Margaret Thatcher, no tempo da guerra das Malvinas, revelou que tinha feito uma declaração de amor para ela. E se diz que o poder é afrodisíaco. A senhora, como a mulher mais poderosa, se sente diferente como pessoa e como mulher?

Presidenta: Não. A vida é tão dura que eu me abstraio. Mas os ingleses têm essa característica. Não é de graça que eles inventaram o romance e a novela.

Jornalista: A senhora vai fazer carteira para pilotar motocicleta, depois desse tão falado passeio?

Presidenta: Se eu tivesse tempo, ia fazer sim. Ainda não descartei essa hipótese, não. Deve ser muito interessante. Agora entendo porque tem tanto motoqueiro. Grande sensação de liberdade.

Jornalista: Há quanto tempo a senhora não dirige?

Presidenta: Desde o dia em que virei presidente. Mas antes eu dirigia, e eu tenho um carro ótimo, que tem 11 ou 12 anos. Ninguém pode falar que ele é poluente, porque ele deve ter uns 50 mil km.

Jornalista: O seu amigo Barack Obama joga basquete na Casa Branca e come hamburguer numa lanchonete que ele frequentava antes de ser presidente. Lula jogava futebol, fazia churrasco...

Presidenta: Eu ando.

Jornalista: Como é o seu lazer? A senhora reclama da falta de lazer...

Presidenta: Eu reclamo de não poder andar na rua. Porque vou eu e a segurança e todo o incômodo. Aqui, a não ser que a gente ponha lanchonete no (Palácio do) Jaburu... Brasília tem um incoveniente, porque não tem esquina do jeito que tem nas outras cidades. Não tem como eu caminhar e ir ali comer uma coisa.

Jornalista: Mas, em Porto Alegre, a senhora também não consegue. Eu sei que um dia a senhora convidou seu ex-marido para ir a um restaurante, mas a segurança vetou...

Presidenta: É, mas eu ando fugindo, viu? E uma pessoa que foge não fica contando que foge.

Jornalista: A senhora se disfarça?

Presidenta: Não, não disfarço, não. Mas é fácil fugir.

Jornalista: Mas senhora está fugindo para namorar também?

Presidenta: Não, querido. Infelizmente, não. Seria muito bom se eu tivesse fugindo para isso, seria um momento de grande relaxamento. Eu estou fugindo para coisa muito pequenininha ainda, como essa da moto. Outro dia eu tive uma pequena fuga. Olhei para a praça da Liberdade, onde eu aprendi a andar, e é uma praça muito bonita. Então, estava entrando no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), olhei para o general que é responsável pela minha segurança e disse: "General, vamos ali na praça, sem gente?" E ele aceitou. E aí eu andei, mas não durou muito, porque veio uma coluna de câmeras.

Jornalista: A senhora vê as suas imitações?

Presidenta: Vejo sim. Tem umas que eu acho ótimas.

Jornalista: Qual é o seu preferido? A Dilma Bolada?

Presidenta: Eu gosto muito da Dilma Bolada, mas gosto das outras também.

Jornalista: E o diário da Piauí?

Presidenta: Tem almas generosas que trazem para mim e leem alto.

Jornalista: A senhora se diverte?

Presidenta: Também gosto de charge. Acho que foi o Caruso que me mandou algumas que eu gostava. Tinha umas da Chapeuzinho Vermelho, do Lobo e da Vovozinha, que, se eu não me engano, era o Lula.

Jornalista: Qual sua opinião sobre a imprensa e os políticos brasileiros?

Presidenta: Sou da época que a imprensa não tugia nem mugia. Porque se tugisse ou mugisse, fechava o jornal e adotava medidas drásticas contra os jornalistas. Acho que é um valor inequívoco a liberdade de imprensa no Brasil, e é algo que nós conquistamos. E que transforma o Brasil, assim como a liberdade de manifestação...

Chefes de Estado que estiveram aqui quando tinha duas manifestações na Esplanada perguntaram: "Mas não incomoda?" Não, porque, para nós, não tem uma dimensão catastrófica a livre manifestação que pode ter em outros lugares. Acredito que a imprensa tem papel fundamental, mas não tenho dúvidas de que tem excessos. E os excessos a gente tem que debater, discutir criticar...

Jornalista: E os políticos?

Presidenta: A mesma coisa. São pessoas absolutamente naturais e normais. O que eu não acho correto é supor que é possível um país não ter a ação política. O que nós devemos buscar é o aperfeiçoamento dela. É uma prática política que tenha ética, princípios éticos, compromisso com a transformação e a melhoria do país e compromisso com o povo.

Não podemos aceitar também políticos que pregam a discriminação, o racismo, o ódio. Seja de que tipo for. E não podemos concordar com aquelas manifestações em que as pessoas escondem a cara e praticam vandalismo. Tudo isso é uma questão de ter equilíbrio. Não é possível achar que manifestação que destrói patrimônio público e privado e fere outras pessoas é manifestação democrática. Eu tenho dito que, de civilizadas, elas não têm nada. Isso é a barbárie.

Jornalista: Teremos aumento no combustível ainda neste ano?

Presidenta: Querida, isso não é uma pergunta que se faça para presidente da República responder. Tem algumas coisas que me deixam intrigadas e eu tenho conversado com meus botões. Falam assim: "fontes do Palácio do Planalto". Outro dia, eu disse: "Fontes, só se forem as aquáticas". Outro dia disseram: "a presidenta Dilma". Aí eu acordo e pergunto para o meu botão: "Será que falei em sonho alguma coisa?" Não vi, não me deram e eu não me manifestei sobre nenhuma proposta. Então, considero que tem algumas matérias desse teor que são especulativas, para não dizer que elas estão faltando com a verdade. quando se referem a mim. Eu não posso o dia inteiro ficar desmentindo matéria. Quando se acumula e fica muito grave, aí eu desminto. Eu acho que seria melhor que não tivesse essa questão das fontes. Eu entendo o uso do off. Perfeitamente. Agora, dizer que "um assessor do Palácio do Planalto disse que"... Aí, me desculpa. Estou começando a achar que o assessor do Palácio do Planalto não trabalha lá. Também pergunto para os meus botões: onde será que trabalha esse assessor? Surpreendente. Vou te dizer as fontes e os assessores.

 

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