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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 11/03/2016 15h30, última modificação 11/03/2016 15h47

Brasília-DF, 11 de março de 2016

 

 

Presidenta: Boa tarde.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: … pode falar, vamos ser gentis.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Não renuncio. Então deixa eu falar sobre isso. É o seguinte: eu acredito que não é absolutamente correto, por parte de ninguém, nenhum líder da oposição, ninguém tem o direito de pedir a renúncia de um cargo de presidente legitimamente eleito pelo povo sem dar elementos comprobatórios que eu tenha de alguma forma ferido qualquer inciso da Constituição ou qualquer previsão, que haja na Constituição, para meu impeachment. A renúncia é um ato voluntário. Aqueles que querem a renúncia estão, ao propô-la, reconhecendo que não há uma base real para pedir a minha saída desse cargo.

Portanto, por interesses políticos de quem quer que seja, por definições de quem quer que seja, eu sairei desse cargo sem que haja motivo para tal. Mesmo porque aqueles que pretendem a minha renúncia deviam proceder de acordo com a Constituição. Até porque nós vivemos em um momento em que temos que preservar todas as conquistas que obtivemos quando, ao longo de todo um processo de luta e de resistência à ditadura, um processo que começa e que chega e que se desenrola até a Constituição de 1988. E o que essa Constituição garante? Primeiro, a independência dos Poderes; segundo, o respeito ao direito de todos os cidadãos brasileiros. Se desrespeitarem o direito de uma presidente, desrespeitarão o direito de qualquer outro cidadão. O que é desrespeitar direitos? É tratar o cidadão sem base prevista em lei. Todos nós somos iguais perante a lei, e isso significa que, a cada um de nós, é devido o tratamento respeitoso da lei. Acho que solicitar a minha renúncia é reconhecer que não existe base para impeachment. Ou então tentem um impeachment e nós vamos disputar isso, nós vamos discutir com a sociedade e com o País inteiro: por que querem tirar um presidente legitimamente eleito? Não há nenhuma base para qualquer ato contra minha pessoa.

 

Jornalista: … a senhora estaria resignada a renunciar.

 

Presidenta: Bom, vocês acham que eu tenho cara de estar resignada? Que eu tenho gênio de estar resignada? Eu acho, olha, você sabe, eu acho que tem que ter uma certa responsabilidade da imprensa. É impossível, quem me conhece, achar que, pela minha trajetória pessoal, pela minha honradez e pelo respeito que eu tenho pelo povo brasileiro, eu me renuncie… eu me resigno diante de absoluto desrespeito a lei e à Constituição, que é como querem tratar essa questão. Eu fui presa, eu fui torturada pelas minhas convicções. Eu não tenho... e devo ao povo brasileiro o respeito pelos votos que me deram. Eu não estou resignada diante de nada. Não tenho, não tenho essa atitude diante da vida e acredito que é por isso que eu represento o povo brasileiro, que também não é um povo resignado. É um povo lutador, combatente e teimoso. Aquilo que a mãe da gente fala: “teime, teime”. E eu vou dizer para vocês: acho que essa onda de boatos, essa onda de informações, elas não contribuem, e elas criam uma crise política que é absolutamente negativa para  a economia brasileira. Nós temos todas as condições de fazer a retomada. Nós temos todas as condições de garantir as conquistas que tivemos.

Agora, em um clima de, eu acho, de vazamentos absolutamente seletivos…Por que é que vazaram de 400 páginas, conforme a revista diz, vazaram só páginas que diziam respeito a mim? E que, ao que parece pelo assunto vazado, pelo assunto vazado, não devem ser muitas. Por que nenhum jornal, nenhuma televisão que anunciou que a questão de Pasadena tenha sido arquivada pelo procurador da Justiça, não lembrou isso nas suas matérias?

Eu acredito, gente, que é preciso mais seriedade, mais seriedade. E pelo amor de Deus, tem dó! Essa história de resignação não é comigo, não.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Olha, eu vou te falar, eu acredito que o pedido de prisão do presidente Lula passou de todos os limites. Não existe, e acho que isso é quase consenso entre os juristas, não existe base nenhuma para esse pedido. É um ato que ultrapassa ao bom senso, é um ato de injustiça e é um absurdo que um país como o nosso assista calmamente um ato desses contra uma liderança política responsável por grandes transformações no País, respeitado internacionalmente.

O governo repudia em gênero, número e grau esse ato praticado contra o presidente Lula. Chama o País a mais diálogo, a mais calma, a menos turbulência, a menos pessoas tentando se promover em situações que não cabem isso. Nós acreditamos que esse é um momento de diálogo, é um momento de diálogo, é um momento de pacificação, é um momento de calma, de tranquilidade. Nós todos devemos isso ao País.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Olha, eu vou dizer para vocês: eu não costumo discutir como é que eu formo o meu ministério. Eu teria o maior orgulho de ter o presidente Lula no meu governo, porque o presidente Lula é uma pessoa com experiência, é uma pessoa com grande capacidade de formulação de políticas, e aí eu estou dizendo da capacidade gerencial do presidente Lula. E por isso posso garantir a vocês que teria um grande orgulho de ter ele no meu governo. Agora, não vou discutir aqui com vocês se o presidente vai ser ou não vai ser, como é que vai ser, como é que não vai ser.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Eu também não vou discutir esta questão.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Você sabe quando a gente era criança tinha uma história que contavam que era sobre a festa do céu. Então você virava para o sapo e falava “onde você quer cair, sapo”? Ele falava: “no fogo”. E aí a pessoa que estava jogando os sapos jogava na água. Eu acho que os comentários da oposição, eles são enviesados. O presidente Lula, sem sombra de dúvidas, em qualquer governo, daria uma enorme contribuição, uma imensa contribuição.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Nunca. Nunca. Isso é uma invenção. Nunca. Não tenho o menor interesse, a menor propensão, nem nenhuma justificativa para isso. Para mim isso, inclusive, é uma ofensa.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Vamos esperar a convenção, em vez da gente ficar aqui fazendo um exercício de futurologia, Tânia.

 

Jornalista: (incompreensível)

 

Presidenta: Eu sempre converso…

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Eu sempre converso com todas as lideranças, o PMDB é um partido muito importante na minha base.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Nós estamos fazendo uma avaliação acurada sobre isso.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Tânia, posso te falar uma coisa? Quando eu falo nós estamos avaliando, nós estamos avaliando tudo. Todo mundo sabe que, tanto a reforma da Previdência quanto a CPMF, são questões que têm dificuldades porque são questões complexas e que vão exigir muita dedicação da nossa parte. Então, estamos avaliando. A gente não pode ser “Joãozinho do passo certo”, nós temos que ver com as diferentes forças políticas como as coisas se darão.

 

Jornalista: (incompreensível) … O ministro da Fazenda…

 

Presidenta: Olha, Tânia, o ministro Nelson Barbosa… essa questão de ficar perguntando se ministro está firme no cargo é um processo que é, inequivocamente, de tentativa de enfraquecimento do ministro. O ministro não está enfraquecido, não existe essa hipótese, e críticas são normais. Ou bem nós vivemos em uma democracia ou bem nós não vivemos.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Não, não temo não. Acredito e peço, até, que não haja confronto, faço um grande apelo às pessoas para que sejam capazes de manifestar de forma pacífica. A manifestação é um momento importante no País, de afirmação democrática. Por isso não deve ser manchada por nenhum ato de violência. Isso é até uma questão que eu peço, como presidenta da República. A gente tem que manter aquelas que são vitórias da democracia brasileira, e sem dúvida, uma das vitórias da democracia brasileira, é o direito de livre manifestação. Então não cabe, de jeito nenhum a gente perder esse patrimônio, que é o patrimônio da tolerância, característica do nosso país. Não cabe.

 

Jornalista: O ministro da Justiça… (inaudível)

 

Presidenta: Eu já disse Tânia, eu vou repetir assim com uma imensa coerência, eu não discuto, eu não posso fazer isso, eu não discuto ministros com a imprensa.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Ô querido, a decisão do Supremo eu não acho, eu cumpro. Decisão do Supremo a gente não acha, a gente cumpre, isso também é base da Constituição brasileira.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Ô meu filho, eu vou fazer o seguinte - Eu vou olhar para ele e falar: “Olha, meu querido, você decida o seu destino de acordo com as suas convicções, e as suas - eu diria assim -, aquilo que lhe é interessante”. Veja bem, ele tem 25 anos de Ministério Público, não cabe a mim fazer nenhum apelo. Eu não posso prejudicar ninguém.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Minha querida, eu não vou discutir, só um pouquinho, eu não vou discutir. Não adianta falar, eu não vou discutir.

 

Jornalista: (inaudível)

 

Presidenta: Meu querido, não adianta. Chama-se casca de banana, eu até queria saber em inglês como é casca, por que hoje eu iria usar em inglês com vocês. Tá? Agora, por favor, pelo menos testemunhem que eu não tenho cara de quem vai renunciar.

            Obrigada.

 

Ouça a íntegra da entrevista (14min19s) da presidenta Dilma