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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, no Hotel Ritz-Carlton

por Portal do Planalto publicado 14/12/2012 16h31, última modificação 04/07/2014 12h39

 

Moscou-Rússia, 14 de dezembro de 2012

 

 

Presidenta: Eles estão completando uma análise do que nós mandamos para cá, porque tem um hormônio do crescimento que eles não... que a Organização da Europa não permite. Então, eles estão completando, nós já mandamos todas as informações, então acreditamos que vai ser suspensa, tão logo eles completem essas análises.

Jornalista: Nenhuma garantia?

Jornalista: Isso que a senhora está falando é dos embargos aos três estados?

Presidenta: Estou falando dos embargos da carne suína.

Jornalista: Mas e o embargo dos três estados?

Presidenta: Bom, os outros países eu ainda não tive nenhuma relação com eles. Nós vamos fazer tomar todas as medidas para que nós nos enquadremos sempre nos requisitos da Organização Mundial da Saúde, nos requisitos fitossanitários de todos os países.

Agora, vamos, no caso específico desses últimos embargos a que vocês estão se referindo, na China e no Japão, nós vamos batalhar, primeiro, para esclarecer, porque é um caso muito localizado, sem características de doença e de infecção. Assim sendo, nós vamos tentar esclarecer e vamos torcer para que o resultado seja o melhor possível para a produção brasileira.

Jornalista: O presidente Putin chegou a falar alguma coisa? Chegou a falar alguma coisa?

Presidenta: Não. Não, a Rússia não tocou neste assunto.

Jornalista: Presidente, mas...

Jornalista: Houve (incompreensível) no caso sanitário? Ou foi demora muito grande na divulgação do resultado?

Presidenta: Nós, inclusive, estamos olhando por que houve tamanha demora.

Jornalista: A senhora acha que foi um problema (incompreensível)?

Presidenta: Eu ainda não tenho como dizer para vocês, porque nós estamos fazendo toda uma análise nesse sentido. A primeira informação que nós temos é que foram feitos vários exames, porque não tinha uma caracterização precisa de que havia o vírus, não é? Não havia isso.

Jornalista: Isso está claro agora.

Presidenta: Está claro que é incipiente. Está claro isso.

Jornalista: A senhora teme um efeito dominó ainda maior?

Presidenta: Não. Não, não temo, não temo. Agora, acho que os produtores todos vão ter de tomar todas as medidas, nós vamos ter de ser muito transparentes, nós vamos fazer todo esforço nesse sentido. Aí não é só uma questão do governo, não é? Faz, também, parte a iniciativa dos produtores em cumprir os requisitos internacionais.

Jornalista: Lá na Inglaterra houve aquela matança de gado, para evitar o problema da vaca louca...

Presidenta: É, mas lá havia epidemia, no Brasil não há.

Jornalista: E para evitar a epidemia?

Presidenta: Não há epidemia. A informação técnica é que está absolutamente restrito a este episódio. É um episódio. É bom que a gente trate disso com muita seriedade, porque senão nós criamos uma situação que não existe. No caso do Brasil é um episódio, não tem similaridade com o que aconteceu nos Estados Unidos.

Jornalista: A senhora acha que os países se precipitaram, então? Os países se precipitaram em declarar...

Presidenta: Não, eu acho que os países tomam as medidas para proteger suas populações, o que é absolutamente normal.

Jornalista: Presidente, agora a expectativa... tem duas coisas. Uma é o Brasil veio e comprou helicóptero, certo? US$ 200 milhões. A expectativa do lado brasileiro, pelo menos do setor privado, é de que houvesse o fim do embargo da carne de três estados que, inclusive, já foi anunciado no próprio Brasil...

Presidenta: Nunca houve essa troca.

Jornalista: Não, não é troca.

Presidenta: Não, não houve.

Jornalista: É simplesmente uma versão de que você...

Presidenta: Me desculpa, mas nunca houve essa troca.

Jornalista: A gente compra, mas não consegue levar ...

Presidenta: Pois é, só que nós fomos... nós... vamos tratar a questão de helicóptero junto com a questão, vamos dizer assim, aeronáutica, Não é? A Embraer foi... teve os seus aviões absolutamente credenciados para entrar nesse mercado. Inclusive foi mencionado hoje o interesse no KC-320, e não só isso, como nós fomos classificados para tal. Então, nessa área, não estava em questão e nunca esteve e nem pode estar, porque nós não podemos misturar carne com avião. Avião é uma classificação, carne tem outros requisitos. Então, é assim e não é uma coisa que nós queiramos ou não. Essa é a regra do jogo internacional.

Jornalista: Eu entendi, Presidente. Eu não consigo entender por que o governo brasileiro anunciou, em Brasília, há duas semanas, que tinha havido o fim do embargo à carne de três estados.

Presidenta: Porque nos foi...

Jornalista: A senhora veio aqui como Presidente e não consegue levar...

Presidenta: Meu querido, porque naquele momento eu não sei de onde vocês tiraram que tinha havido o fim do embargo.

Jornalista: Não, não fomos nós, Presidente. Foi o Ministério da Agricultura que anunciou.

Presidenta: Então o Ministério da Agricultura estava equivocado, porque o que o governo... é muito provável que haja, mas o governo, ele pediu, nos últimos dias, um item que diz respeito não só à Rússia, mas a todos os países da Zona do Euro, e é essa questão que está sendo...

Jornalista: Sim.

Presidenta: Mas eu estou falando do suíno. O embargo dos três estados é de carne suína. Bovino ninguém... aqui não tem embargo de carne bovina. Por favor, não vamos criar um problema onde não tem. Por favor! O embargo dos três estados é exclusivamente de carne suína e ele está no fim. E já esclareço que nada tem a ver com o episódio da vaca porque não há contaminação entre animais. Vamos precisar nossa informação para a gente não prejudicar produtores brasileiros.

Jornalista: A Síria, Presidente, a senhora falou que expressou a expectativa do Brasil para uma solução política. Qual foi a posição do presidente Putin? A senhora pode detalhar um pouco mais essa conversa?

Presidenta: Foi bastante incisiva, no que se refere a uma solução política. O presidente Putin disse não acreditar, de maneira alguma, que haja solução militar possível para o conflito.

Jornalista: Hoje houve o agravamento da situação, Presidente. Os Estados Unidos anunciaram que vão deslocar tropas para a fronteira da Turquia com a Síria, e a Alemanha também. Vão enviar 400 soldados para a fronteira entre a Turquia e a Síria, ou seja, aumentou a possibilidade de uma intervenção externa.

Jornalista: E os próprios russos vão tirar gente de lá.

Presidenta: Olha, eu vou me manifestar sobre isso com muita cautela, porque eu acho que o Brasil – e acho que isso é uma grande vantagem nossa –, nós temos sido extremamente pessimistas no que se refere a soluções militares de conflitos internacionais, até porque não tem dado certo, ou seja, aqueles que defendem a solução dos conflitos através das armas têm tido grandes problemas. Exemplo: Afeganistão, a retirada, estão retirando as tropas e continua a mesma situação no Afeganistão; a mesma coisa ocorreu no Iraque. E nós hoje vemos também que a situação, o que tem acontecido na Líbia não é tão tranquilo assim. Benghazi não é um raio num céu azul, não é isso.

Então, nós achamos... O que o Brasil acha? Acha que não existe solução militar para o conflito sírio. Solução militar significa o seguinte: uma solução que implique em deslocamento de tropas e que resolva e estabilize a região. O que tem acontecido é que há e ocorrem intervenções militares que, ao invés de estabilizar, criam mais impasses, criam conflitos que duram uma... vamos dizer, que não acabam mais, duram uma infinitude.

Então, é uma situação que eu lamento se está agravando. Eu não estou acompanhando, até porque estive até agora lá nessa reunião com o presidente Putin, eu não estou acompanhando se houve ou se não houve esse acirramento dos problemas. Agora, se houve, lamento, porque não acredito, e não é só eu que não acredita, muitos países do mundo não acreditam numa solução militar para o conflito sírio.

Jornalista: Pode ter um novo risco de massacre, Presidente, caso haja uma intervenção (incompreensível)?

Presidenta: Olha, lá na Síria, a situação é complicada. É inequívoco que o governo de Damasco é o maior responsável pelo início dos conflitos armados, pelas reações que existiram. Mas há também uma verdade que as oposições são as mais diferenciadas possíveis, muitas delas armadas por potências externas à Síria. Nós, brasileiros, ou seja, nós que representamos os brasileiros, que somos pacíficos, que vivemos em paz com os nossos vizinhos, defendemos que o conflito sírio tem de ser resolvido pela Síria e, ao mesmo tempo, que não... aliás, que está claro que não existe nenhuma solução militar para essa crise, que a solução tem de ser diplomática, através do diálogo, que nós apoiamos o alto representante da ONU para essa questão, o Lakhdar Brahimi, e supomos o seguinte: não é possível se acreditar numa solução militar mais... não se pode acreditar nisso nem ...

Jornalista: Presidente, uma coisinha. Os russos já estão anunciando que vão tirar o pessoal deles de lá e há especulação aqui de que os...

Presidenta: Olha, eu não posso me manifestar sobre outros países e não vou me manifestar como é que vai desenrolar a situação na Síria. É uma situação muito complexa, que requer muita calma e tranquilidade, e não ficaria bem o Brasil ter uma posição leviana a respeito. Essa tem de ser... tudo tem de ser encarado com muita tranquilidade. Para discutir embargos, tem de discutir quem os... quem fará os referidos embargos, porque não adianta, não somos nós que vamos embargar porque o nosso comércio com a Síria é pequeno. Então, é algo que tem de sair da ONU. Nós temos de pautar as nossas relações internacionais na base do direito internacional, dos princípios estabelecidos pela ONU, e apostar na ONU como um instrumento para a construção da paz no mundo.

Jornalista: Mas, Presidente, como apostar no diálogo se as duas facções parecem não estar dispostas a chegar a um consenso?

Presidenta: Como apostar no diálogo? Tem partes, vamos chamar... Na terceira parte. Quem é a terceira parte? É a ONU e a comunidade internacional. Só tem essa solução, do nosso ponto de vista.

Jornalista: Presidente ...

Presidenta: Um abraço para todos vocês, e eu espero...

Jornalista: O que a senhora vai fazer hoje?

Presidenta: Eu? Eu vou fazer aquilo... eu vou sentar naquele quarto lá e vou descansar. Mas sabe o que é descansar? Eu estou extremamente cansada.

Jornalista: Não tem nenhum bolinho?

Presidenta: Não, não, bolinho não tem, não. Bolinho engorda, gente.

Jornalista: Estrogonofe também não, hein?

Presidenta: Não, estrogonofe também não. Vocês comeram muito estrogonofe? Não?

Jornalista: Com carne brasileira, com carne brasileira.

Presidenta: Com carne brasileira.

Jornalista: E muito boa.

Presidenta: Beijos para vocês.

 

Ouça a íntegra da entrevista (11min54s) da Presidenta Dilma

 

 

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Assunto(s): Governo federal