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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, no Aeroporto Internacional de San José del Cabo - Los Cabos/México

por Portal do Planalto publicado 19/06/2012 19h54, última modificação 04/07/2014 12h37

 

Los Cabos-México, 19 de abril de 2012

 

Presidenta: Bom, eu acho que, assim, muito relevante, começando do início, foi o acordo que nós fizemos, dentro do grupo dos países BRICS, que eu acho que o Guido Mantega já falou para vocês, que é formalizar um acordo e, também, acordos bilaterais, de swaps de moedas e também a constituição de um fundo de reservas entre os BRICS. É o que eles estão chamando de um reserve pooling arrangement.

Jornalista: Se a senhora puder falar um pouquinho mais para o meio...

Presidenta: Pois não. Um pool de reservas, um arranjo, um acordo que constituiria um pool de reservas dos países BRICS, que são os maiores detentores de reserva do mundo. Por que isso? Porque nós estamos combinando duas coisas. Nós estamos combinando uma prática que existe entre os países asiáticos, principalmente, China, Coreia do Sul e Japão e outros países, que é o chamado Chiang Mai, com o que foi feito pelo Federal Reserve na crise de 2008 e 2009, que era um swap de moedas. Vamos fazer isso tanto dentro do conjunto de países BRICs, quanto eventualmente entre cada um de nós, países, ou seja, Brasil com a Índia, Brasil com a China e assim sucessivamente.

Além disso, nesta mesma reunião nós tomamos a decisão de dar, fazer um aporte ao Fundo Monetário Internacional. A China aportando 43, os três países – Brasil, Índia e Rússia -, 10 cada um e a África do Sul, dois bilhões. Isso faz parte de uma proposta que foi feita na outra reunião de Cannes, naquela época já tinha sido feita, não foi implementada, e, agora, está sendo implementada.

Obviamente, nós estamos absolutamente interessados em que haja uma reforma das cotas do Fundo Monetário, ela não é apenas uma questão técnica, é uma questão política, por quê? Porque a representação das cotas, ela implica no poder que cada país terá dentro do Fundo Monetário. Por que nós defendemos essa questão? Desde dos acordos feitos anteriormente, para serem implementados agora, havia um consenso de que os países estavam desproporcionalmente representados dentro do Fundo Monetário. Não mais pela sua presença na economia internacional, mas por uma situação anterior que já tinha sido superada. Assim sendo, o Brasil e os demais países emergentes, eles reivindicavam que houvesse uma proporcionalidade entre a participação destes respectivos países no PIB internacional. O acordo está feito. Agora ele está em implementação. Obviamente há resistência por parte de quem perde essa representação, essa sobrerepresentação e o que nós colocamos é que isso é absolutamente imprescindível que seja cumprido, porque é um acordo anteriormente realizado.

E isso significa também que nós – tanto o Brasil, quanto a Rússia, quanto a China, quanto a África do Sul e a Índia –, nós definimos que esses recursos que nós aportamos, eles tenham uma utilização, obviamente, após se utilizar todos os demais recursos que já foram aportados, inclusive por nós mesmos; que ele seja uma sequência de aportes.

Outra questão que eu acho relevante é num outro item. É a respeito do fato de que a crise, ela não pode servir de biombo para a prorrogação de uma situação de desequilíbrio global, no que se refere ao comércio internacional. A Rodada de Doha, por exemplo, ela reconhecia a existência de desequilíbrios, e, portanto, ela colocava na pauta que havia necessidade de se abrir negociações entre os diferentes países para recompor situações de desequilíbrio. Exemplo: alguns países tinham subsídios agrícolas, outros países consideravam que havia protecionismo na área de serviços, outros achavam que havia problemas na área industrial. A Rodada de Doha, ela tinha, por objetivo, sanar os desequilíbrios. O que está havendo? Nós acertamos, na crise de 2008-2009, uma prorrogação, até 2013, da situação vigente, sem ficar discutindo esses desequilíbrios.

O que nós estamos propondo? Que só... Não dá mais para ficar prorrogando, que é como você dar um cheque em branco. É como se você não reconhecesse essa situação de desequilíbrio. Então, nós estamos propondo que, em 2014, se reabra a discussão da Rodada de Doha e se dê prazo para fechar, para evitar prorrogações muito, de interesse muito grande de países que são privilegiados por subsídios agrícolas, por práticas de competição indevidas no momento atual. É óbvio que há muita resistência em reabrir a Rodada de Doha. O que se prefere é o free lunch, não é? Aquela história do lunch, do almoço gratuito ou do jantar gratuito, não interessa a refeição. Mas o que se quer é que seja gratuito.

O que nós achamos é o seguinte: a crise já deu tempo suficiente para as coisas baixarem e todo mundo sabe quais são os desequilíbrios globais. Vamos sentar à mesa e retomar a Rodada de Doha. Tem gente que diz que a Rodada de Doha não pode ser nos mesmos termos dos acordos anteriores. Perfeitamente. Alguns acham isso, outros não acham isso. Mas há que retomar a Rodada de Doha sem a gente desconsiderar que foi feita uma série de avanços e que há um acúmulo... se é parte do acúmulo e modifica. Mas nós não aceitamos mais é prorrogar por prorrogar.

Bom, só uma coisa. Além disso, agora falando da questão dos BRICS, não, do G-20 propriamente dito, porque isso é G-20, não é? Nós, todos os países se manifestaram extremamente preocupados com a crise global e todos os países também há um consenso de que não adianta só implementar políticas de austeridade ou de consolidação fiscal e não ter, associado a elas, políticas de crescimento através de políticas de estímulos fiscais ao investimento.

É evidente que existe um problema sério de curto prazo para além desse, que é o problema das dívidas bancárias. A relação entre dívidas bancárias e dívidas soberanas é uma relação que nós temos clareza de que os países da Europa estão extremamente preocupados com essa questão, e estão encaminhando uma série de iniciativas para tentar solucionar esse problema. Aliás, problema que decorre do fato de se ter uma moeda e não ter um ente político ou uma união fiscal, como se queira chamar, que sustente essa união monetária, e, ao mesmo tempo, a dificuldade que tem em você transmitir para a dívida soberana todas as dívidas bancárias existentes.

Há um consenso de que desalavancar simultaneamente dívidas públicas e privadas é igual a recessão. Não há dúvida disso. Nunca no mundo foi diferente. Você desalavanca a dívida pública e privada simultaneamente, você tem um quadro recessivo grave. E o que nós esperamos – eu acho que todos os países que não são da União Europeia –, o que nós esperamos é que sejam tomadas medidas no tempo certo e o tempo certo não é a gente que impõe, o tempo certo é aquele das necessidades das populações, e aí é uma questão política, e necessidade dos mercados, que aí é uma questão financeira. E que todas essas medidas sejam rápidas e, mais do que rápidas, suficientes.

Há, de fato, um clima, eu acho que de cooperação, que é sempre um clima melhor, e também há um clima de preocupação. De cooperação e de preocupação. E é fundamental que se dê uma perspectiva o mais rápido possível.

Há uma solidariedade grande com os países da Europa. Essa solidariedade se manifesta na quantidade de países que definiram por um aporte ao Fundo Monetário. Eu queria destacar aqui a África do Sul. É um país africano dando uma contribuição para um firewall europeu. Por que isso? Porque eu acho que é uma grande manifestação de solidariedade. E acho que esse firewall, que é o chamado “muro de contenção”, como a gente queira traduzir, ele implica num reforço das condições do Fundo Monetário para atuar nessa situação.

Jornalista: O G-20 (incompreensível) nessa linha de tomar medidas. A senhora está satisfeita ou ficou além, aquém do necessário, sobretudo a postura da chanceler alemã, Merkel, que insiste ainda nessa postura de disciplina fiscal e só.

Presidenta: Olha, eu acho que há uma evolução. Há uma evolução, há percepção da importância da consolidação fiscal com a questão do crescimento. Eu, pelo menos, senti isso. Ou seja, há uma percepção de que não se tem como fazer a consolidação fiscal sem crescimento. Essa é a nossa experiência. Nem tampouco ter crescimento sem contas públicas sólidas, também é nossa experiência. Essa é uma questão em que há, eu acho, um consenso. Agora, a partir daí, os mecanismos pelos quais a União Europeia, especificamente a Zona do Euro, vai resolver seus problemas, obviamente implicam em decisões internas das lideranças.

Jornalista: Presidente, a senhora esteve hoje com a chanceler Merkel. A senhora percebeu essa mudança de alguma evolução na (incompreensível)?

Presidenta: Eu percebi uma grande preocupação da chanceler e uma preocupação e uma determinação no sentido de resolver a crise. Eu acho que há por parte dela um peso grande – sobre a Alemanha que está recaindo essa responsabilidade de uma forma especial. Não que os demais países não tenham responsabilidade, acho que todos têm responsabilidade. Agora tem problemas. A questão é essa: você tem uma união monetária e não tem o Estado. Você tem uma união monetária, não tem o Estado e não tem um banco central para as funções que qualquer banco central nacional tem, que é de ser emprestador em última instância.

Jornalista: Ela deixou claro para a senhora que a linha dela é ainda a austeridade?

Presidenta: Não, ela não tocou numa fala desse jeito comigo. Ela falou da importância do crescimento, etcetera.

Jornalista: Você tem insistido nessa tese há pelo menos um ano, que eu me lembre. Inclusive diretamente com ela na Alemanha.

Presidenta: É, a gente insiste. Agora, eu entendo a complexidade do problema, não acho que é uma questão fácil. Porque, veja você, não há um Estado supranacional, multinacional, por trás do euro. Enquanto a economia estava em expansão não tinha problema nenhum. Está em expansão, todo mundo ia bem, não tinha ataque de mercado contra país nenhum, não é? Agora, quando há crise, os problemas aparecem de uma forma aguda, quando você não tem um Estado por trás de uma moeda, qual é o problema? Quem é o garantidor dessa moeda em última instância? Porque, você veja, colocaram um trilhão de euros. Não colocaram um trilhão de euros?

Jornalista: Nos bancos.

 

Presidenta: Nos bancos.

Jornalista: Oficializaram os prejuízos...

Presidenta: Não, mas...

Jornalista: Privatiza o lucro.

Presidenta: Mas veja bem. Os bancos, com esse um trilhão de euros, aonde foi o euro? Mesma coisa que aconteceu naquela época lá atrás na quebra do Lehman Brothers, quando, naquele filme até, Too big to fail, –a não sei se vocês se lembram –, o banqueiro que recebe o dinheiro fala: “Para quem eu empresto?”.

Jornalista: Presidenta, o governo brasileiro insiste nessa posição e não é de hoje. Agora, me parece que ganhou até o apoio com a argumentação do governo americano também, que passou a defender a necessidade da expansão da economia, do investimento no crescimento, nos últimos meses. Isso ajudou a ...

Presidenta: Eu espero, você sabe, eu espero que ajude. Agora, eu não pretendo... Acho que nenhum de nós pode assumir uma atitude de ficar dando lições para os países da Zona do Euro. Acho que cada situação internacional, principalmente, acho que a experiência deles têm de ser levada por eles. Não tem como a gente passar a experiência, por exemplo, histórica do Brasil. Nós enfrentamos várias crises, nós temos uma vivência. O que nós aprendemos? Nós aprendemos a valorizar inflação baixa, nós aprendemos que isso é um valor, nós aprendemos que temos de ter bancos sólidos, que tem de ter controle e fiscalização, nós aprendemos que os requisitos de Basileia – tanto Basileia I, II e depois, agora, III – são imprescindíveis. Aprendemos que é mais, é muito mais consistente combinar uma consolidação fiscal com um processo de crescimento. Nós tivemos crises bancárias. Então, nós temos um processo. Nem por isso a gente pode chegar e ficar, vamos dizer assim, entre parênteses, deitando regra.

Agora, essa experiência que nos atinge, eles estão passando pela variante deles. Eles estão passando por crise bancária, por crise fiscal. Esse, por exemplo, essa aversão à presença do Fundo Monetário, controlando o país e aumentando as exigências, também nós conhecemos, não é?

Jornalista: Conhecemos de longa data.

Presidenta: Nós conhecemos. Cada vez que o Fundo Monetário aparecia, nenhum de nós gostava. E também sabemos como ficamos contentes quando pagamos o Fundo Monetário. Aliás, na época em que nós pagamos o Fundo Monetário, presidia o Fundo Monetário o Rato, que era o gestor do Bankia, que era o gestor do Bankia e que agora saiu do Bankia. É interessante notar como a vida dá voltas, não é? Clóvis Rossi, você que já assistiu muita coisa. A vida dá voltas.

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: O quê?

Jornalista: Já assisti tanta coisa e o contrário também.

Presidenta: Pois é, para lá e para cá.

Jornalista: Presidenta, mas há um problema prático nessa mensagem que o G-20 está dando, que (incompreensível) nas decisões que a União Europeia tem que tomar, que está no discurso, na posição dos próprios europeus de que é impossível tomar decisões em curto prazo. Isso foi dito claramente pelo presidente da Comissão Europeia, pelo presidente do Parlamento Europeu ontem de manhã. Eles não vão tomar nenhuma decisão, ele diz, foi aspas dele, na decisão da Reunião de Cúpula de (incompreensível). Ou seja, a mensagem do G-20 aqui cai no vazio?

Presidenta: Não, é assim. Vocês lembram do Nelson Rodrigues? Tinha um personagem que se chamava “Sobrenatural de Almeida”. Sabe o que eu acho? Existe um personagem, e ele é internacional, se chama “Inexorável da Silveira”.

Jornalista: “Inexorável da Silveira”?

Presidenta: “Da Silveira”. As coisas não são do jeito que nós escolhemos, nenhum de nós. Se vão esperar ou não, é uma questão, o seguinte: de uma combinação de decisões políticas com reações do mercado. E aí é o movimento inexorável das...

Jornalista: Vem da pressão popular, não é?

Presidenta: Também. Esse também é outro “Inexorável da Silveira”.

Jornalista: E foi levado em conta?

Presidenta: “Inexorável da Silveira” é um movimento real. Eu posso querer uma coisa e dar outra. O que a gente tem sempre de fazer é entender as situações, por mais difíceis que elas sejam, pelo seu nome real. Não se pode ocultar a realidade.

Jornalista: Mas, Presidenta, (incompreensível)

Presidenta: Agora, eu não acho correto pontificar a respeito da situação... Não é papel do G-20 chegar e pontificar a respeito da situação europeia. Nem tampouco cabe ao G-20 achar a fórmula mágica para resolver a crise europeia. Essa não é uma atribuição dos países do G-20. Tem soberania, tem países soberanos nessa ação.

Jornalista: O G-20 decidiu, lá atrás, mudar a regulação do sistema financeiro...

Presidenta: Está mudando.

Jornalista: Está mudando, mas até agora não implementaram. Três anos de crise e, não obstante, Basileia III não entrou em vigor. Os governos têm medo (incompreensível)?

Presidenta: Vírgula, exceto nós, que estamos implementando. Vários outros governos estão implementando Basileia III. Hoje, inclusive, se prestou conta de todas as questões relativas à regulação financeira.

Há um clamor geral por ampliar a regulação dos chamados shadow bankings, os “bancos sombras”, ou sistema sombra. Chama-se sistema sombra aquela parte do sistema financeiro não regulado, ampliar essa regulação. Se discutiu bastante a questão do FMI e das suas cotas. Houve também um grande interesse em acelerar o cumprimento de todos os compromissos, todos os compromissos nesta questão. Isso eu acho que é uma exigência do G-20. Isso não é uma decisão. O país, na medida em que ele adere ao G-20, ele tem que cumprir o compromisso. E é errado qualquer país que não cumpra. Nós procuramos cumprir sistematicamente os nossos.

Jornalista: A senhora esteve com a Espanha hoje?

Presidenta: Também estive com a Espanha.

Jornalista: A senhora pode falar alguma coisa? Como é que foi?

Presidenta: Obviamente, nós temos relações bilaterais com a Espanha, a Espanha tem grandes investimentos no Brasil, tanto do ponto de vista de investimentos diretos, são grandes empresas, bancos, inclusive – Santander – e também empresas na área de serviços, como a Telefônica e outras empresas, muitas da área de energia. Há um interesse imenso, não é, que essas relações se mantenham. Nós temos clareza da importância desses investimentos no Brasil. Temos uma valorização nessas empresas, externamos isso para o rei e externamos isso para o presidente Mariano Rajoy. Uma parte expressiva do meu encontro bilateral foi isso. A outra parte, as mesmas preocupações que todos externam com a questão, a questão da Europa. Especialmente no caso do Mariano Rajoy o que ele já externou para todos os jornais internacionais e os nossos também, que é a desvinculação das dívidas bancárias da dívida soberana.

Jornalista: Ele ou o rei, ou ambos pediram solidariedade sobre o caso da YPF lá na Argentina?

Presidenta: Não, nenhum deles. Não tocaram na questão YPF comigo, pelo menos.

Jornalista: Presidente, hoje de manhã foi assinado, aprovado um rascunho do documento final da Rio+20...

Presidenta: Foi mesmo.

Jornalista: E houve críticas da sociedade civil de que o documento é tímido e jogou acertos de metas, mecanismos de financiamento para 2014. A senhora acha que a Rio+20 vai ser considerada um fracasso? Como é que a senhora vê, espera o resultado da Conferência.

Presidenta: Olha, eu estive e acompanhei Copenhague, depois Cancun e depois Durban. Um acordo entre 191 países e delegações, ex-chefes de Estado, tudo, é um acordo complexo. Tinha gente que queria aprofundar mais e já ter, já sair definidos os objetivos do desenvolvimento sustentável. Tinha outros que queriam que isso fosse parte de um processo democrático de discussão que desaguasse numa definição com a participação de todos. Isso é um problema. Depois tinha todas as questões das contribuições financeiras.

Então, é sempre bom olhar que há a necessidade de um balanço entre os países. A questão do documento não é uma questão que diga respeito a um só país. É impossível você ter um documento que representa as partes se você não considerá-las. As partes são quem? São os países. Então, nós estamos fazendo um documento, que é o documento possível entre diferentes países e diferentes visões do processo relativo à questão ambiental.

Agora, é importante notar uma outra coisa. Não houve, em Copenhague, um documento. Era impossível tirar. Eu acredito que o documento da Rio+20, ao contrário, é um grande avanço e é uma vitória, porque eu não conheço nenhuma reunião ambiental que tenha tido um documento prévio acordado entre as partes. Nunca isso foi fácil, nunca. Não é fácil. Você não... construir um consenso... você vê que às vezes é difícil construir um consenso entre 17 países. Nós estamos vendo isso na União Europeia. Nós estamos falando de 191. Então, eu acho que a gente tem de comemorar, sim, como uma vitória do Brasil, ter conseguido aprovar um documento que seja um documento oficial entre os diferentes países, contemplando posições distintas, porque não tem só...

Jornalista: Mas...

Presidenta: Desculpa, mas não tem só europeus, não tem só asiáticos, não tem só países do G-77. São todos, cada um é um voto e cada um tem a mesma consideração que o outro, ou então não tem reunião possível entre países.

Jornalista: A senhora não considera... a senhora, como brasileira – vamos deixar à parte o fato de a senhora ser a grande anfitriã desse encontro de cúpula. A senhora, como brasileira, não se sente um pouco decepcionada pelo fato de o documento ter sido validado por um denominador mínimo comum?

Presidenta: Se a gente tivesse decepção quanto a isso, não podia recepcionar uma conferência internacional. Esta é uma visão de quem acha que a relação internacional é uma relação em que não se respeite chefes de Estado. Não há essa hipótese. São todos soberanos, todos com direito. Ao recebê-los e ao receber uma conferência da ONU, nós temos de ter postura. E a postura é essa: temos de respeitar a soberania de cada país, entender e procurar construir um acordo. É tão difícil, que em Copenhague não se conseguiu.

Jornalista: O que é mais difícil: fechar um acordo aqui no G-20 para estimular a economia ou fechar um acordo no Rio para cuidar do meio ambiente?

Presidenta: Posso te falar?

Jornalista: Eu espero que sim.

Presidenta: Não sei, não sei. Acho que todos são muito difíceis. É sempre difícil fechar acordo quando há uma multi... uma multidão de multidiversos.

Jornalista: Mas quando existe uma urgência mais clara, como é a situação...

Presidenta: Ah, é mais difícil. A urgência coloca uma pressão.

Jornalista: Mas deveria ser mais fácil.

Presidenta: Não.

Jornalista: A senhora conversou sobre o documento da Rio+20, aqui nas bilaterais, sobre a Conferência?

Presidenta: Não. Essa...

Jornalista: Não tinha interesse...

Presidenta: A Conferência, basicamente... Aliás, ela tratou, basicamente, da premência da crise econômica. Hoje de manhã, agora no final, quando eu saí é que nós falamos de desenvolvimento sustentável, mas foi uma discussão genérica. Todo mundo a favor. Agora, o problema é que está no detalhe, não é? Não está no geral. Mais uma, que agora eu me voy.

Jornalista: (incompreensível) Rodada de Doha, ela tem alguma possibilidade de ser (incompreensível) comunicado oficial, ou é mais uma posição brasileira...

Presidenta: Olha, eles estão discutindo, porque tem três propostas. Tem a proposta de tirar tudo, tem a proposta de até [20]14 e tem a proposta de até [20]15. O caso é o seguinte: é interessante que ninguém queira tocar no assunto, não é? Nós queremos. O documento fala de Doha.

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: Fala por alto. Não, nós queremos Doha.

Jornalista: Porque o prazo, o stand still, era até 2013.

Presidenta: É, ele está esgotando. O que estão discutindo é o que faz de [20]13 para frente. Nós dissemos: a partir de [20]13 tem de abrir Doha.

Jornalista: Pois é, não é?

Presidenta: Tem de abrir Doha e dar um ano.

Jornalista: (incompreensível) imaginando que seria a partir de [20]13, porque termina...

Presidenta: Não, não, não.

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: Eles querem que dê um prazo em [20]14.

Jornalista: Então posterga...

Presidenta: Eu fiz a proposta para...

Jornalista: Posterga por um ano.

Presidenta: O quê?

Jornalista: Posterga por um ano.

Presidenta: Não posterga por um ano.

Jornalista: Não, não, não. Termina em 2013 e...

Presidenta: E discute Doha, porque se você não discutir Doha, se você prorrogar, não tem Doha, não é, (incompreensível), como não teve até hoje.

Jornalista: Mas aí, entre [20]13 e [20]14, todos os países vão poder ampliar suas barreiras comerciais...

Presidenta: Não, não vão, não vão. Isso é uma ficção. O que está acontecendo é o contrário, porque até [20]12, até [20]13 também não teve nada. Tem o status quo, que ninguém sabe direito definir do que se trata. O problema é que a todos os países que não tende a acabar com os subsídios na área agrícola, que não têm de tratar das questões relativas a toda a sua economia, que podem, por exemplo, fazer política de desvalorização monetária da moeda que quiser, é extremamente vantajoso. Trata-se de uma interessante forma de lanche gratuito, de lanche não, de almoço gratuito, de jantar se você quiser e de café da manhã.

Jornalista: Mas o que eu não entendi foi o seguinte: a senhora...

Jornalista: Está muito paz e amor.

Presidenta: Eu?

Jornalista: Entende os europeus, entende a Cruz Vermelha.

 

Presidenta: Meu querido, você acha que adianta alguma coisa eu não entender?

Jornalista: Não, não adianta.

Presidenta: Mas entender... Eu vou te falar uma coisa. Sabe o que significa entender? Significa o seguinte: você acredita que é fácil resolver uma questão, uma moeda que não tem Estado?

Jornalista: Não (incompreensível), senão já teríamos resolvido...

Jornalista: Mas, Presidenta...

Presidenta: ...essa questão.

Jornalista: (incompreensível) paga o preço.

Presidenta: Eu estou pagando o preço de todo, de tudo isso. E protesto. Pode ter certeza. Veementemente.

Jornalista: Vai ser paz e amor com eles?

Presidenta: Não é que seja paz e amor. Protesto veemente. Agora, estou relatando para vocês que eu também não acho que a minha atitude possa ser de ficar fazendo receitas fáceis para os outros cumprirem.

Jornalista: Por isso tem sido o baixo crescimento?

Presidenta: É outro estilo, não é? Você não pode ter esta relação com outros países.

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: Como?

 

Jornalista: O preço que o Brasil tem pagado é esse crescimento baixo nos três trimestres?

Presidenta: O preço que o mundo está pagando é que agora esta crise chegou também em todos os países. Você não pode ter uma queda da atividade econômica na Europa e nos Estados Unidos e achar que as coisas ficam perfeitas. Nós não somos uma ilha. A gente tem mais capacidade de resistir. Nós temos. Nós quem? Os países emergentes têm. Os mais dinâmicos. Agora, tem países em desenvolvimento que não têm a mesma capacidade. Você vai, você está comprometendo os fluxos do comércio, você está comprometendo o desenvolvimento de todo mundo, quando você cai em um nível, a sua atividade econômica cai em um nível tão baixo, como está caindo.

Jornalista: Pelo que eu entendi.

Presidenta: Muito obrigada, gente.

Jornalista: Obrigada, Presidenta. Boa viagem.

Presidenta: Eu sempre desejo felicidades, paz e amor para vocês. Eu vou na minha fase paz e amor.

Jornalista: Eu sou um bom psicólogo, Presidente.

 

Ouça a íntegra da entrevista (32min02s) da Presidenta Dilma

 

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Assunto(s): Governo federal