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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após visita e realização de videoconferência na Sala Nacional de Coordenação e Controle para Enfrentamento da Dengue, Chikungunya e Zika Vírus - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 29/01/2016 18h36, última modificação 12/02/2016 16h12

Brasília-DF, 29 de janeiro de 2016

 

 

Presidenta: Bom gente, nós fizemos há pouco. Primeiro, muito bom dia a vocês.  Nós fizemos há pouco uma reunião, presente o ministro da Saúde, o ministro da Defesa, o ministro-chefe da Casa Civil, o ministro da Educação, o ministro Gilberto Occhi, da Integração Nacional, sob quem está a Defesa Civil Nacional. Nós fizemos na sala de situação com cinco governadores. O governador da Paraíba, o governador de Pernambuco, o governador da Bahia, o governador de São Paulo e o governador do Rio. Sobre a nossa mobilização para combater o mosquito que produz, que é o Aedes aegypti, que produz essa variante que se chamou vírus da zika. Esse mosquito, ele é da família, vamos dizer assim, da dengue.

A boa notícia, que nos foi dada pelo governador Alckmin, é que segunda-feira eles já começam os testes para a vacina da dengue, que está sendo desenvolvida lá no instituto Butantan.

O objetivo da reunião é que nós estamos desencadeando uma operação de mobilização de todas as instâncias de governo. O governo federal hoje começa uma faxina dentro de todas as unidades do governo federal. Todas as unidades das Forças Armadas, todas as unidades do Ministério  do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que são os Cras, e todas as demais unidades que nós temos descentralizadas por todo o Brasil na Educação, enfim, em todas, na Saúde, em todas as esferas, em todas as esferas do Ministério do Transporte.

Os governadores e os prefeitos estão tendo uma grande mobilização também. É óbvio que  ela é diferenciada, não é homogênea. Tem alguns estados que estão mais avançados, outros que estão começando  a se mobilizar fortemente. Qual é a nossa ideia? Nós não temos ainda uma vacina que permitiria proteger nossas crianças, nossas mães, nossas grávidas da microcefalia. E o Zika Vírus, suposto..Há evidências claras que o mosquito produz microcefalia, ou seja, cria nas crianças, principalmente pelo fato dele ter uma incidência sobre o sistema neurológico, cria nas crianças que não têm ainda o cerebro desenvolvido essa terrível doença que é a microcefalia.

Então, não tem esse vacina. Diante deste fato, o que é que os governos responsáveis têm de fazer? O que que é que todos os cidadãos tem de fazer? Nós temos de erradicar o criadouro do mosquito. Os governos, as igrejas, os times de futebol, os sindicatos, cada um de nós. Nós temos de eliminar o que? Água parada. Onde tem água parada? Pode ter numa piscina, pode ter num vaso de flor, ali na base do vaso de flor, no piresinho. A água parada pode estar também nos depósitos de resíduos sólidos, dentro de um pneu, numa tampa de refrigerante, ali é o criadouro do vírus.

Principalmente nos períodos de chuvas, quando a chuva cai e, depois, ela passa e esquenta a temperatura, o que que acontece? Esse é o momento em que a fêmea do mosquito põe 400 ovos e eles se transformaram em larvas e durante dois meses esse será um processo que pode levar à contaminação de muita gente.

Então, a gente tem de matar o mosquito, de preferência antes dele nascer. Depois que ele nascer, nós temos  de fazer o chamado fumacê, mas aí nós já perdemos uma parte da guerra. Então, a mobilização do governo federal não é porque nós achamos, ou dos estados, ou dos municípios, que só nós vamos dar conta desse combate. A mobilização ela também tem um lado que é para evidenciar que nós todos temos de entrar nisso. Do soldado, passando pelo cientista, da pessoa que limpa uma rua, a dona de casa, cada um de nós vai ter de estar preocupado com isso.

Daí porque hoje nós estamos aqui iniciando, iniciando propriamente não, porque nós já iniciamos, mas deflagrando, cada vez de forma  mais mobilizada, esse processo de combate  a esse mosquito. Nós só temos essa vacina contra ele, enquanto a vacina, propriamente dita não existe, que é a vacina do extermínio dos criadouros, impedir que ele nasça. É essa a ideia para proteger as nossas crianças, as nossas mães, as nossas grávidas.

 

Jornalista: Presidente, essa reação do governo federal, estados e municípios, não é muito tardia? A OMS falou ontem que de um total de 1.5 mi de brasileiros que podem ter essa  doença. Não é muito tarde essa reação?

 

Presidenta: Olha, eu acho estranho ser [considerado] muito tarde, porque recentemente foi avaliado que essa seria uma doença. Aliás, quem contribuiu muito para que houvesse essa consciência foi o Brasil, através dos órgãos do Ministério da Saúde e de toda a nossa avaliação. Eu quero lembrar que nós estamos nessa mobilização há mais de 1 mês. Eu estive já, lá em Pernambuco, porque Pernambuco foi o estado que começou mostrando que estava havendo uma situação muito específica. Qual era a situação? Começou a serem reportados casos de microcefalia acima do que existia no ano anterior. E que isso nos chamou a atenção, esse é um processo que está ocorrendo, está em curso. Nunca, para não dizer nunca, houve sim, houve relato desse vírus, se não me engano, nas Indias Orientais, certo? (...)

Agora é que se tornou um caso que não é só do Brasil, é da América Latina, também de outros países. Necessariamente nós estamos diante da possibilidade de haver uma situação internacional, que ameaça a saúde pública. Não é algo que se tem experiência, não é algo que se pode comparar com o que já ocorreu. E, ainda por cima, é importante que se diga, está em fase de estudo, muita coisa ainda vai ser descoberta e vai se ter uma  correlação mais clara ainda sobre esse mosquito e a doença. Agora, os dados são muito recentes, não existia isso antes.

 

Jornalista: No início da semana teve rumores de que a senhora não estava contente com os trabalhos que estavam sendo (...). Falou-se até de uma possível saída do ministro. Queria saber como está a relação?

 

Presidenta: Querida, para mim não foi assim que perguntaram não, viu. Eu vou responder o que me perguntarem e o que estava no jornal. Diziam que o ministro falou que nós estávamos perdendo a luta contra o mosquito. E nós estamos perdendo a luta contra o mosquito. Por quê? Porque enquanto o mosquito reproduzir-se, todos nós estamos perdendo a luta contra o mosquito. Então, nós temos de nos mobilizar para ganhar a luta. Nós não vamos ganhar a luta se ficarmos de braços cobertos. Então perguntarei para vocês: quantos vasos vocês botaram areia? Onde que nós acabamos, cada um de nós precisamos fazer isso.

Então, eu acho interessante a imprensa. A imprensa me pergunta se eu sou contra dizer isso. Eu não sou contra dizer isso. Eu não vou dizer que nós estamos ganhando a luta. Se eu dissesse que nós estamos ganhando a luta, nós estaríamos em uma fase mais avançada. Agora, nós vamos ganhar a luta. É outra coisa. Nós vamos ganhar essa guerra. Nós vamos, aqui no Brasil, demonstrar que o povo brasileiro é capaz de ganhar essa guerra. O povo brasileiro, as igrejas, os sindicatos, o governo. Cada um de nós.

Agora, é impressionante. Eu achei fantástico. Para quê criar um problema com a constatação da realidade? Dizer que nós estamos perdendo é porque nós queremos ganhar. Nós queremos ganhar. Nós estamos dizendo: “Olha gente, se não nos mobilizarmos, nós vamos perder isso”. Vamos nos mobilizar.

 

Jornalista: Presidente, mas é uma derrota acumulada? Por três décadas o Brasil tem casos muito grandes de dengue. No ano passado, bateu recorde. Mais de um milhão de casos de dengue. E é o mesmo mosquito. O Brasil está há 30 anos perdendo a guerra contra o mosquito?

 

Presidenta: Olha, eu te digo uma coisa. Agora, eu acho que nós viramos. Nós estamos virando essa guerra, quando descobrimos a vacina. Da mesma forma, tem várias doenças que você não consegue vacina para elas. Então, agora é mais grave a situação, porque essa mutação do aedes aegypti, que é o zika, que surge este ano, as referências a eles são extremamente...É só olhar os estudos e os artigos científicos, as referências a ele são muito imprecisas. Ninguém conhece direito esse mosquito.

Nós, no caso da dengue, que começamos a ganhar em definitivo, que é a vacina. Como a humanidade ganhou essa luta quando descobriu a vacina contra a febre amarela. Mas,  primeiro você tem de  resistir, você tem de exterminar o mosquito. Veja bem, eu acho que a gente tem de ter cuidado com essa visão, todo poderosa, de que se fizer assim se resolve uma questão. Para resolver o problema da ebola, tiveram de botar muito dinheiro para achar uma pesquisa, para financiar pesquisa, para achar como combater essa doença, que era uma doença que poderia ser pandêmica. Ou seja, podia atingir o mundo inteiro.

Da mesma forma, a dengue, pela primeira vez, tem uma vacina francesa e agora vai ter uma vacina brasileira, que eu considero que será a melhor. Por isso que nós vamos ter uma mobilização três vezes maior  do que tivemos com a dengue. A dengue é que nem uma gripe. Agora, o zika não, o zika não é uma gripe.

 

Jornalista: A senhora falou dos vasos, mas encontraram água parada inclusive, ali no Panteão, que fica a 200 metros do Planalto, com larva. Como é que a senhora vê isso?

 

Presidenta: Pois é, minha querida, é isso  que nós não podemos permitir. Além disso, onde tiver de ter água parada, tem de botar um larvicida, tem de botar ele lá e aí dura um tempo - e você tem de voltar a botar outra vez. Eu não estou defendendo que a gente acabe as lâminas d’água que enfeitam as cidades desse País, mas eu estou dizendo que nós vamos ter de pegar um larvicida e jogar na água, para não ter a larva sendo criada. Isso que você falou é justamente o que tem de ser feito em todos os lugares, no Panteão, eu estou fazendo isso no Palácio da Alvorada, tem de fazer no do Planalto. E é isso que nós estamos começando hoje.

 

Jornalista: Com relação ao Carnaval, há alguma preocupação com o Carnaval?

 

Presidenta: Tem. Inclusive, foi mencionado hoje, pelos governadores que têm Carnaval de forma bastante expressiva, que eles vão fazer toda uma campanha e uma divulgação sobre essa questão.

 

Jornalista: Presidenta, com o orçamento apertado, vai faltar, pode faltar dinheiro nesse combate?

 

Presidenta: Não, não pode. Não pode faltar dinheiro para essa questão. Não pode, eu tenho certeza que, não só o governo federal, o Executivo considera que não pode, mas eu tenho certeza que o Congresso também. Esta despesa é uma despesa que tem a ver com a saúde pública no País. Então ela não sofre contigenciamento nem limites. Nós temos de usar todos os nossos recursos para combater.

 

 Ouça a íntegra(14min52s) da entrevista da Presidenta Dilma Rousseff