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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após Visita à aeronave KC-390 da Embraer - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 05/04/2016 13h10, última modificação 05/04/2016 17h17

Brasília/DF, 05 de abril de 2016

 

Presidenta: Eu queria falar para vocês sobre a importância do KC-390. É um avião de carga, tipo o Hércules 130, só que um avião de carga a jato, um avião de carga bem maior, com uma grande capacidade. É, sem dúvida nenhuma, algo que deve nos orgulhar como brasileiros, é uma prova que a engenharia brasileira e as empresas brasileiras, juntamente com a indústria de defesa e a política de defesa nacional, elas são capazes de gerar uma grande vantagem para o País. Nós acreditamos que não só é importante enquanto realização tecnológica de engenharia, mas será sem dúvida também importante para a Força Aérea Brasileira, que será um dos consumidores do avião na medida em que esse avião, ele permite que você tenha uma grande capacidade, por exemplo, de resgate... em qualquer caso de resgate, o  acidente que precisa de você ter um hospital, o avião comporta a instalação do hospital, o resgate das pessoas. Incêndio, ele tem essa grande condição de apagar incêndios. Ele é um avião também que transporta tropas, é um avião que transporta equipamentos, dentro do avião cabe aquele helicóptero - dois helicópteros, não é isso que me disseram? O Black Hawk, aquele que tem aquela ponta preta, o Black Hawk é de ponta preta. E também, ele tem uma capacidade de transportar tropas, de transportar… Tem capacidade de abastecimento em voo, aquela, todo aquele tubo da frente, ele recebe o combustível e tem nas asas todo o sistema para também abastecer tanto jatos como abastecimento de helicópteros também.

Então é um avião que tem um significado bastante importante em si, além do fato de que ele é um avião, eu diria, único neste gênero e, portanto, também vai propiciar para o País divisas em moedas estrangeiras, na medida em que ele de fato é um produto extremamente robusto, um produto que tem grande capacidade estratégica pelo tamanho do que ele é capaz, a tonelagem que ele é capaz de movimentar. Então é um feito, sem sombra de dúvida, da engenharia nacional, da empresa Embraer, que é uma empresa que estruturou esse produto e também articulou um conjunto de empresas brasileiras que participaram do seu desenvolvimento e que participarão da sua sua produção.

Então eu acredito que é um momento bastante especial. Acho que tem coisas ainda que não podem ser mostradas de forma intensiva, na medida em que são produtos em desenvolvimento que a gente tem de preservar a autoria, a propriedade intelectual, basicamente.

 

Jornalista: Presidente, há expectativa do Palácio do Planalto fazer a repactuação da Esplanada agora ou depois da votação?

 

Presidenta: Olha, o Palácio do Planalto não está pretendendo transformar qualquer reestruturação ministerial antes de qualquer processo de votação na Câmara. Nós não iremos mexer em nada atualmente.

 

Jornalista: O MEC pode entrar nessa discussão também?

 

Presidenta: Ô, Tânia... Não, Tânia, o MEC não está em questão. Eu acredito que vocês têm de ter cuidado porque as especulações que fazem sobre ministérios, sobre mudanças no governo, são absolutamente isso que eu disse: especulações, sem base na verdade, sem consulta ao Palácio, isso não é bom jornalismo. Isso é um jornalismo especulativo que cria no País um tipo de clima e instabilidade extremamente nocivo, transformando factóides em realidades. Factóides. Eu lamento muito. Isso tem ido desde a minha saúde, desde a minha saúde, até a mudanças na estrutura de governo.  Então, por favor, a gente tem de se pautar por um grande realismo. E o realismo significa o seguinte: notícias verídicas.

 

Jornalista: O espaço do PMDB vai ser reduzido?

 

Presidenta: Ô, Tânia, eu estou te dizendo que o governo não está avaliando nenhuma mudança hoje, nenhuma.

 

Jornalista: Presidente, em relação ao PMDB, agora que houve o desembarque, a senhora avalia que eles foram precipitados?

 

Presidenta: Eu não avalio ação de partido nenhum, sequer a do meu. Eu não faço avaliações sobre ações partidárias, porque isso não é algo que é adequado para uma presidenta da República, ficar fazendo avaliação sobre ações políticas de quem quer que seja.

 

Jornalista: E essa proposta do senador Valdir Raupp de fazer eleições gerais em outubro, isso é uma coisa...

 

Presidenta: Meu querido, eu acho que essa proposta, como várias outras... São propostas.

 

Jornalistas: Então a senhora rechaça?

 

Presidenta: Não, nem rechaço nem aceito. Eu acho que é uma proposta. Convença a Câmara e o Senado a abrir mão dos seus mandatos. Aí vem conversar comigo, Tânia.

 

Jornalista: A senhora gostou da defesa que o ministro Cardozo fez ontem?

 

Presidenta: Eu concordo integralmente com ela, até porque discuti bastante todos esses aspectos. Acho lamentável essa questão em relação tanto aos decretos como à questão das chamadas pedaladas fiscais. Acho que qualquer tentativa de transformar isso em motivo de impeachment é golpe. É golpe porque não tem base legal. Foi de forma, eu acho que inequívoca e circunstanciada demonstrada pelo ministro José Eduardo Cardozo.

 

Jornalista: Então é vingança do presidente Cunha mesmo?

 

Presidenta: Vocês noticiaram. Sugiro que vocês peguem todas as notícias da imprensa e façam um cotejo com o que vocês disseram e com o que aconteceu. Porque também tem de ter essa responsabilidade jornalística. Não fomos nós que noticiamos o que foi noticiado na imprensa na antevéspera da aceitação do pedido de impeachment, não fomos nós do Palácio do Planalto que dissemos o que estava em curso. Sugiro que vocês leiam. Lá, em todas as noticias, está escrito que era uma retaliação pelo fato de nós não termos dado os votos para o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Vocês disseram isso. Sugiro que vocês que disseram assumam que foi dito isso por todos os jornais, sem exceção sequer de um único jornal.

 

Jornalista: O PT é o partido que mais está perdendo prefeitos no País por conta dessa modificação, mudança de partido. A senhora acredita que isso pode traduzir em votos perdidos no plenário por causa...

 

Presidenta: Posso falar uma coisa para ti, Tânia? Você tem o hábito de fazer uma afirmação e querer que eu concorde com a afirmação. Querida, eu não acho que tenha uma avaliação perfeita hoje de “quem perdeu o quê”. Ainda isso vai ficar para ser provado. Quem saiu, quem entrou. Em todos os partidos houve essa modificação. Se você for olhar na Câmara dos Deputados, o PT é um dos partidos que se manteve estável. Então, tem de olhar com cuidado isso. Agora, Taniazinha, você não tem de botar uma casquinha de banana no meu passeio, no meu lado da calçada.

 

Jornalista: A senhora está otimista, presidente?

 

Presidenta: Eu sou uma pessoa que luta, querida. Sempre lutei na vida. Eu tenho o otimismo da luta.

 

Jornalista: Presidente, então com as declarações de ontem, com a defesa do ministro Cardozo, a senhora está tranquila, está confiante com o processo… (inaudível)

 

Presidenta: Querida, eu acho que esta defesa do ministro Cardozo, nós viemos fazendo sistematicamente. Eu já falei isso em quase todos os meus pronunciamentos recentes, falei isso para o jornalismo internacional e reitero isso onde for necessário.

 

Jornalista: Presidente, o governo estuda realmente abaixar o preço da gasolina?

 

Presidenta: O governo não tem nada a ver com subir ou baixar o preço da gasolina. O que eu acho interessante é o seguinte: toda vez que é para subir, o governo não deixa, toda vez que é para descer, o governo não quer. Então, fica difícil, viu? Fica muito difícil. O problema é que eu acho, por qualquer avaliação, vocês podem perguntar para qualquer avaliação, há desde o ano passado  uma discrepância entre o preço praticado no Brasil e o preço praticado lá fora. Então, se a Petrobras houver por bem fazê-lo, é o caso de ela fazer. Se ela houver por bem não fazer, é o caso de ela não fazer. Agora, que existe a discrepância, existe. Mas nós sabemos que existe isso desde do ano passado.

 

Jornalista: Mas isso pode abalar as possibilidades da empresa nesse momento que está…

 

Presidenta: Ô, Tânia, veja bem. Durante um tempo nós nunca fazemos mudanças, nunca foi feito, não era prática fazer mudanças súbitas nem para cima nem para baixo. É essa a realidade. Teve um mês atrás aí que muita gente dizia que estava tão grande a diferença que tinha que baixar o preço. Isso é uma questão que vai dizer a respeito à empresa. Se ela estiver perdendo participação no mercado, ela vai tomar uma atitude. Se ela não estiver, ela vai tomar outra.

 

Jornalista: (incompreensível)

 

Presidenta: Não só o New York Times, né, Tânia? Vários jornais. Los Angeles Times, não. Eu vou te dizer o que que eu acho. Eu acho o seguinte: todos aqueles que apostaram na instabilidade, que apostam no “quanto pior, melhor”, criam uma situação bastante difícil para o País. Não é porque o New York Times botou na capa que isso é um problema. É um problema porque todo mundo  sabe que sem estabilidade política não se tem crescimento econômico, recuperação da economia, não se tem basicamente a volta do crescimento com geração de emprego. E a manutenção e as novas conquistas, os novos caminhos de oportunidades que têm que se abrir para a população brasileira. Então, não é uma questão de estar ou não estar na capa do New York Times. Essa seria da nossa parte uma visão um pouco colonial. É porque isso prejudica o País internamente, não é externamente. Se extravasou para o mundo é porque aqui nós estamos em uma situação que não é correta. É aquela situação em que a oposição, desde o dia em que eu assumi, criou todo tipo de instabilidade, uma quantidade enorme de pautas “pautas-bomba”. Recentemente tem uma transitando no Congresso, que simplesmente é uma “pauta-bomba” e de hidrogênio, por quê? Porque ela tem um impacto de R$ 300 bilhões ao transformar os juros das dívidas dos estados em juros simples. Eu pergunto, quem é aqui que consegue um empréstimo com juros simples? Nenhum de vocês. O que que é juros simples? Se eu devo R$ 100 e a taxa de juros 5%, eu devo R$ 105. No outro ano, se a taxa de juros continua 5%, eu devo 5% sobre R$ 105. No caso do governo, eles querem que não seja assim, que seja somando só, não multiplicando.

Então, é o seguinte, regras para o governo são inconsistentes com a situação. Isso não está certo. E a instabilidade política sistemática é algo extremamente danoso. É público e notório que há um vaso comunicante entre a economia e a política. É público e notório, no Brasil, que tem um pessoal que torce para o “quanto pior, melhor”. Quanto pior para nós todos, para a população brasileira, quanto melhor para eles que querem cortar o caminho do poder. Eu acho que o País é uma democracia. Nós somos uma democracia. Uma democracia que nós conquistamos a duras penas. Todos aqui da minha geração lutaram para que esse País fosse um país onde a gente pudesse manifestar de forma tranquila. Porque, na nossa geração, você fazia qualquer protesto, você ia preso para a cadeia e lá  ficava um tempo como eu fiquei três anos. Nós que lutamos por isso sabemos que o preço disso é muito alto. Não tem estabilidade sem democracia. Não tem crescimento econômico sustentável sem democracia. Não tem esse resgate que nós temos que fazer da população brasileira.

E aí, não dá para uma parte da população achar o seguinte: que Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni, Fies é algo que só beneficia uns poucos, não beneficia a todos. Um pessoal de classe média alta não pode pensar isso, sabe por quê? Porque esse País, ele tem uma riqueza imensa. Como é que chama essa riqueza imensa? Chama-se mercado interno. Mercado interno é transformar 204 milhões de pessoas em pessoas com renda suficiente e que condição suficiente. Para quê? Para ter um bom emprego. Para ter um bom emprego é preciso ter boa educação. Para ter boa educação é preciso que nós tenhamos a tranquilidade para crescer. É impossível.

O próprio Fundo Monetário Internacional, que é insuspeito diz, no seu relatório do final do ano passado, ou início desse ano, eu não lembro bem se é de dezembro ou se é de janeiro, dizem que eles esperavam que o Brasil passasse por isso, por esse período de crise que todos os países emergentes estavam passando, pela violenta queda nos preços das commodities, de forma mais rápida. No entanto, isto não se deu e atribuí uma parte à instabilidade política. Isto é algo que a gente tem de levar em conta. É impossível. É impossível. Nenhum governo conseguirá governar o Brasil se não tiver um pacto pelo diálogo, pela estabilidade política. Se não se respeitarem as regras do jogo, porque a hora que você desrespeita uma regra do jogo, você desrespeita o próprio jogo democrático. É isto que está em questão.

É por isso que é extremamente grave que, desde o início do meu segundo mandato - primeiro pediram recontagem de votos,  depois falaram que as urnas tinham problema, fizeram auditoria nas urnas e não apareceu problema nenhum, depois sistematicamente tentaram construir mecanismos para me tirar do governo. Como? Um é esse processo de impeachment com base nas chamadas “pedaladas fiscais” de 2015,  que não foram julgadas pelo TCU nem pelo Congresso. Foram apresentadas sexta-feira. De quando é o processo de impeachment? Ou seja, eu tenho um processo de impeachment por algo que não foi apresentado. Então, depois criaram, depois de aprovadas as contas, as contas da campanha no TSE, criaram toda sorte de problemas. E aí acham que, ao tirar um governo legitimamente eleito, esse País vai ficar tranquilo, vai ser a pacificação. Não é.

Quando você rompe um contrato dessa magnitude, que é um contrato que é base do presidencialismo, que são 54 milhões de votos, você rompe contratos em geral, você rompe a base da estrutura democrática do País. Então… não, sabe Tânia, nós não estamos nessa época mais. Mas a instabilidade pode permanecer de forma profunda e extremamente danosa. Não se faz isso é porque quando você de fato tem responsabilidade diante do País, você não cria tumulto desnecessário, sem base. Não faz isso. É disso que se trata. Então, abrir o diálogo, o governo está inteiramente disposta a abrir o dialogo, inteiramente.

Agora, Tânia, eu agradeço, mas eu vou embora. Beijo para vocês.

 

Ouça a íntegra da entrevista (19min14s) da presidenta Dilma.