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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após Reunião de Cúpula do G4 - Nova Iorque/EUA

por Portal Planalto publicado 26/09/2015 15h50, última modificação 26/09/2015 15h55

Nova Iorque - EUA, 26 de setembro de 2015

 

  

Presidenta: Bom dia.

 Jornalistas: Bom dia.

 Presidenta: Primeiro, eu queria dizer que o Vila Nova vai distribuir para vocês a nota que a Reunião dos Líderes do G4 entregou agora há pouco para a imprensa, em inglês, mas nós já traduzimos, então tem para vocês essa nota, tá?

 Jornalista: Obrigada.

 Presidenta: Daqui a pouco ela vem. Bom, nós fizemos hoje, como vocês viram, uma reunião do G4, que é a Índia, o Brasil, a Alemanha e o Japão. Então, Brasil, Índia, Japão e Alemanha.

            O G4 ele foi constituído em 2004, e em 2005 ele fez a sua declaração inicial sobre reforma do Conselho de Segurança da ONU. Naquele momento o que se propunha era uma modificação na representação do Conselho de Segurança, tanto com membros permanentes como não-permanentes. Para vocês terem uma ideia, quando foi formada a ONU, você tinha uma Assembleia-Geral com 51 países, e uma representação, no Conselho de Segurança, de 11 países. Agora, em 2015, você tem 193 países com uma representação de 15. E nesta representação não constam, nos membros permanentes - que a proposta é expandir para 20 ou para 26, aliás, para 25 ou 26 - não constam países que estão hoje... O Brasil, por exemplo, é a sétima economia do mundo; a Índia tem uma das maiores populações do planeta, talvez a maior população do planeta, para ser precisa. Além disso, tem uma economia muito pujante. A Alemanha tem um papel que todos nós conhecemos na…A Alemanha tem uma economia importante, central, na União Europeia. O Japão é uma potência regional. Mais ou menos, nós somos um terço da população - os quatro países-, e um quarto do PIB do mundo.

Estão, essa representação ela traria mais efetividade nas ações do Conselho de Segurança da ONU. Vocês vejam que esse processo de construir uma agenda comum é um processo muito importante. Está expresso na Agenda 2030, na adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como esteve na adoção dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que, aliás, o Brasil é um dos países com o maior, um dos melhores e maiores desempenhos. Então no Conselho de Segurança da ONU teria de ser a mesma coisa: a busca por consenso, a busca por construir soluções que sejam soluções que resolvam conflitos que se espalham no mundo.

Hoje tem desafios colocados em termos da paz e da segurança que todos nós conhecemos. Você tem conflitos armados regionais que, não só destroem estados nacionais, como também suscitam e expandem, situações bastante dramáticas do ponto de vista da humanidade, que é o problema dos refugiados, e ao mesmo tempo situações extremamente perigosas, que são o terrorismo, como, por exemplo, o caso do estado Islâmico. Você abre a Caixa de Pândora com a guerra, e depois dentro da Caixa de Pândora, você não sabe, de Pandora, aliás, de Pândora não, de Pandora, você não sabe - é que eu escutei dois falando em espanhol e acentuação é sempre diferente. Você não sabe de onde que sai, você não coloca para dentro a pasta de dente depois que saiu do dentifrício, e é isso que nós queremos alterar.

O que é que houve nesse período que nos tornou bastante entusiasmados? Obviamente, sabemos de todos os desafios, reconhecemos também que, junto com alguns problemas graves, o Conselho de Segurança também teve a sua contribuição, porque você não pode ser tão negativo assim, mas nós acreditamos que para o mundo e para correlação de forças atual é fundamental que haja essa transformação. Esse não é um pleito só do Brasil, é um pleito dos quatro países, daí G4. O que nos torna mais otimistas? Nos torna mais otimistas o fato de que nós temos tido muitos contatos com vários outros países que pleiteiam também essa transformação, vários outros grupos que pleiteiam essa transformação, como um grupo que se chama L69, do qual nós até fazemos parte junto com a Índia, e que congrega países de várias áreas, tanto pequenos países, que também têm um que ser representados, pequenas ilhas, mas também grandes países do mundo em desenvolvimento. Assim como com grupo africano, que também é um dos maiores continentes do mundo, com uma população que merece a representação.

E nós, então, avançamos em vários caminhos, e também avançou o que aconteceu com o chamado facilitador, que é o jamaicano Courtenay Rattray. Ele fez uma coisa que vai permitir uma maior envergadura para esse processo que é ter um documento comum; ter um documento base para discussão. Quando você tem um documento base para discussão, mesmo que você não concorde com o documento inteiro, você tem uma referência e você organiza a discussão. Então, essa reunião de hoje ela foi muito importante, nós saudamos a iniciativa do primeiro-ministro Narendra Modi, nós saudamos também toda a efetividade da chanceler Merkel, e do primeiro-ministro Abe, que junto com o Brasil se dispuseram a fazer em todas as suas ações governamentais, fazer também uma peroração, uma fala, um pleito para todos os países no sentido da representação e da reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Basicamente, eu acredito que eu falei tudo para vocês do que nós decidimos nessa reunião.

 Jornalista: Chegaram a falar sobre os vistos dos refugiados, que estão na Alemanha que não puderam ser recebidos?

 Presidenta: Olha foi abordado de forma, não foi abordado de forma, assim, específica. A chanceler Merkel tem a posição da Alemanha, essa que é pública nos jornais. Agora, do ponto de vista do Brasil, nós somos um país, se você for olhar, de refugiados. O Brasil é um país de refugiados. Meu pai era refugiado da Segunda Guerra Mundial, e tivemos sempre uma relação de abertura, não só temos hoje no Brasil uma população síria muito expressiva, que mora, vive, trabalha e cria seus filhos, tem seus amigos, seus parentes no Brasil. Nós estamos de braços abertos para receber. Mesmo nós enfrentando as nossas dificuldades, isso não significa que no nosso País não caiba sempre mais pessoas. Nós somos um país continental, e todos os refugiados que quiserem vir trabalhar, viver em paz, ajudar a construir o País, criar seus filhos, desenvolver e viver com dignidade, nós estamos de braços abertos.

Outra coisa que eu acho que é importante, é essa questão de ter uma política que não seja xenófoba, que não seja preconceituosa, que não leve às cenas como nós vimos, a cena do menino morto ali na praia, ela é simbólica de que você, ao abrir a caixa de Pandora, você tem consequências que você não controla, uma dessas é essa. A outra consequência é aquela que também se viu pelas estradas que é a morte das pessoas asfixiadas, ou a morte das pessoas em quaisquer circunstâncias. E deve ser extremamente dramático, cá entre nós, o deslocamento de pessoas ao longo deixando para trás, sua família, seu lugar de nascimento, toda sua história fica para trás.

Então, tudo isso é um momento especial, porque a 70a Assembleia-Geral da ONU, nós comemoramos 70 anos; 10 da declaração de reforma do Conselho feita pelo G4 e 70 da ONU. E acho que essa reunião da ONU, ela tem um significado todo especial. Primeiro porque eu acho que a Agenda 2030, é algo que é uma conquista para o mundo. Ter esse compromisso que, é bom a gente lembrar da onde, é óbvio que várias outras reuniões contribuíram para que isso ocorresse, mas eu quero lembrar vocês da Rio+20, que foi na Rio+20 que nós definimos os ODS, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Foi lá na Rio+20 que nós definimos que era possível crescer, incluir, conservar e proteger. Porque quando você tem claramente definidos esses objetivos e articula - e aí, tem um todo o trabalho do secretário-geral da ONU, senhor Ban Ki-moon -, é possível você construir um caminho comum para a humanidade. Se é possível construir um caminho para humanidade na mudança do clima, é possível construir um caminho comum para a humanidade também no caso da segurança, da resolução de conflitos, do combate ao terrorismo, de evitar o drama humano dos refugiados. Então tudo isso eu acho que é importante, mas, sobretudo, eu acho que essa reunião ela é um símbolo político da importância de reformar o Conselho para que ele seja mais eficaz, mais legítimo e, sobretudo, que a gente tente evitar a guerra, que é, sem sombra de dúvida, o pior dos males.

 Jornalista: Chegaram a falar sobre os desafios que os mercados emergentes têm agora com... Os desafios econômicos …(inaudível)

 Presidenta: Não, nessa reunião não. Essa reunião, eu não posso dizer que nós tratamos da questão de todos os desafios relativos ao fim do superciclo das commodities ou de qualquer outra situação a respeito.

 Jornalista: Em relação ao G4, tem uma estratégia nova? Porque essa aliança até hoje não teve resultado na reforma do Conselho de Segurança...

 Presidenta: Teve. Você sabe que eu acho que agora que a estratégia nova, ela surge quando... Eu falei na questão do documento, do facilitador que foi indicado pelo secretariado da ONU. A presença do facilitador com um documento de proposta ela viabiliza a discussão, e nós temos a necessidade, nós G4, temos a necessidade de ir  em cima disso agora, também eu te diria, ampliar a nossa ação comum. E é isso que eu disse que a gente faria em cada uma das conversas que teremos com diferentes chefes de Estado e de Governo que visitam nossos quatro países, ou que é a nossa ação regional também, no sentido de construir esse consenso. E o Brasil tem duas áreas importante, junto com a Índia, que é o L69, que eu disse para vocês, que é um grupo de 69 países. Vamos lembrar que para ser aprovado, você tem 193, você não precisa de todos os 193, mas a maior parte possível. Então, esse é um processo que a gente vai buscar aliados na África, no Caribe, na América Latina, nos países da Europa, nos países da Ásia, em todos os países do mundo e nós representamos cinco continentes, veja você. A Índia...

 Jornalista: E a China, tem o apoio da China, por exemplo?

 Presidenta: Olha eu acho que nós vamos buscar o apoio da China, da Rússia, de todos. Cada país na sua região, tem os seus problemas. Todos países têm seus problemas.

Jornalista: A senhora falou do fim do ciclo das commodities, da situação financeira... (inaudível)

 Presidenta: Agora, eu não vou dar uma entrevista sobre isto. Depois que eu falar lá na Assembleia-Geral, eu dou uma entrevista sobre isso. Hoje eu quero falar sobre G4.

 Jornalista: Presidenta se a senhora puder falar um pouco sobre esse governo, dessas questões que o PMDB colocou para (incompreensível)

 Presidenta: Também não vou falar aqui fora, gente não sobre isso, eu não vou falar aqui fora, até porque vocês vão ter assunto a semana que vem inteira sobre essa questão. Obrigada e um abraço.

 Jornalista: Presidenta, e a questão do dólar… (inaudível)

 Presidenta: Meu querido, a questão do dólar é algo que o Brasil hoje tem reservas suficientes para que nós não tenhamos nenhum problema em relação a... Nenhuma disruptura por conta do dólar. Estamos extremamente preocupados porque tem empresas endividadas em dólar. Então, o governo terá uma posição bem clara e firme como foi essa que o Banco Central teve ao longo do final da semana passada. Muito obrigada para vocês.

Jornalista: Obrigada, presidenta.

 

Ouça a íntegra da entrevista (14min29s) da presidenta Dilma.