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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após declaração à imprensa com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama - Washington/EUA

por Portal Planalto publicado 30/06/2015 16h43, última modificação 30/06/2015 16h43

Washington-EUA, 30 de junho de 2015

 

 

Jornalista: Presidenta, a senhora cancelou a sua visita anterior aos Estados Unidos depois das revelações de Edward Snowden sobre a espionagem. A senhora ainda está preocupada com essas revelações e foi assegurada de isso não voltaria a ocorrer? A senhora está satisfeita com as garantias?  

 

Presidenta: É verdade, eu cancelei a minha visita aos Estados Unidos naquele momento. De lá para cá, algumas coisas mudaram, e a mudança se deve ao fato do presidente Obama e o governo dos Estados Unidos terem declarado, em várias oportunidades, que não teriam mais atos que seriam de intrusão em países amigos. Eu acredito no presidente Obama, e mais: ele também me disse que quando quiser,  ele… se fosse o caso de ele precisar de alguma informação não pública sobre o Brasil, ele me telefonaria. Então eu tenho certeza que as condições passaram a ser bastante diferentes agora.

 

Eu agora queria chamar a jornalista Sandra Coutinho, da Globo News. Sandra?

 

Jornalista: Presidente, o Brasil se vê como um líder global no cenário mundial, e os Estados Unidos vêem o Brasil como um cenário regional. Como conciliar essas duas visões?  

 

Presidenta: Eu acredito que uma parte da minha resposta o presidente Obama deu, e eu agradeço a ele por isso. Mas eu queria fazer uma consideração. Os países, eles passam por crises e dificuldades. O fato de passarem por crises e dificuldades não pode implicar em que haja qualquer diminuição do papel de um país. Até porque um país só é, de fato, um grande país, se ele é capaz de superar as dificuldades. Isso vale para países, para pessoas, vale para tudo: a coragem de superar dificuldades e enfrentá-las e ter, de fato, compromisso com o seu povo e o seu país, mas também um relacionamento com países como os Estados Unidos e com o resto do mundo é algo fundamental. Então, eu acredito que o Brasil e os Estados Unidos têm muito em comum. Nós somos países que tiveram uma marca que nós lutamos para superar, que é a marca da escravidão. Nós somos países com grandes populações negras. Nós somos países com multidiversidade étnica, cultural, e esse é, talvez, um dos nossos grandes patrimônios, e acho que os Estados Unidos também. E somos democracias muito fortes, o Brasil, eu tenho certeza, assim como os Estados Unidos - e eu saudei hoje o presidente Obama por ter superado a crise que atingiu o país em 2008/2009 - o Brasil também vai superar os efeitos dessa crise que recai agora sobre ele, e vai fazer isso com muita decisão, muito empenho e mais do que isso, nós vamos não só voltar a crescer mas assegurar todas as conquistas que tivemos nos últimos 12 anos e, além disso, fazer com que essas conquistas se multipliquem. Nós queremos, de fato, construir um grande país de classe média. Acho que redução da desigualdade foi uma conquista, e nós temos de lutar para preservá-la.

 

Jornalista: Presidente Dilma, esse convite para o presidente Obama ir às Olimpíadas, e levando em conta a determinação do Grupo ISIS de aterrorizar o mundo inteiro, que tipo de segurança os senhores estão preparando para as Olimpíadas?  

 

Presidenta: Bom, nós levamos muito a sério a questão da segurança nos grandes eventos. E isso significa que nós envolvemos todos os órgãos que podem garantir, e vão garantir, a segurança nas Olimpíadas, a saber: as Forças Armadas, a Polícia Federal e todos os órgãos de polícia do Estado do Rio de Janeiro. Nós temos uma experiência nessa área, porque no ano passado nós organizamos a Copa do Mundo e não tivemos que dar segurança apenas para uma cidade. Nós asseguramos a segurança, não houve nenhuma ação que não fosse controlada, em 12 cidades brasileiras, criando, inclusive, um sistema bastante efetivo de controle através de centros de operação e de monitoramento e controle de todas as atividades e deslocamento de... Tanto o deslocamento de esportistas quanto de autoridades. Nós acompanhamos todos e asseguramos toda a segurança. Por isso, eu tenho certeza, e não é bom ficar a gente dando ideias pela imprensa, eu tenho certeza que nós teremos todas as condições de garantir a segurança das Olimpíadas, assim como garantimos a segurança da Copa do Mundo. Aliás, eu acredito que as Olimpíadas agora de 2016, ano que vem em julho, nós teremos uma Olimpíada especial, porque vai combinar a alegria do Brasil e a beleza - cada país acha que a sua cidade é a mais bonita. Eu acho que a cidade mais bonita do mundo é o Rio de Janeiro. Então, vai combinar toda uma excelente organização, com a capacidade fantástica do povo brasileiro de receber os visitantes, receber os esportistas. Nós convidamos a todos aqueles que queiram ir ao Brasil que vão. Porque nós vamos garantir não só a segurança, mas também uma grande festa nas Olimpíadas de 2016.

 

Agora tenho que chamar aqui o nosso repórter da Folha de São Paulo, Raul Juste Lores, para a segunda pergunta.

 

Jornalista: Presidenta, a senhora vai manter os ministros Aloizio Mercadante e Edinho Silva no governo?

 

Presidenta: Gostaria de destacar que a Petrobras é, de fato, uma das grandes empresas produtoras e exploradoras de petróleo e gás. A Petrobras tem mais de 90 mil funcionários. Alguns funcionários da Petrobras cometeram delitos de corrupção. Assim é a investigação do Ministério Público e da Polícia Federal que os investiga e atualmente já os processa. Eles vão ter de ser primeiro considerados culpados, mas os indícios que os procuradores levantam são grandes. Com isso eu quero dizer o quê? Eu quero dizer que todas as medidas legais que se tomarem em relação à Petrobras, vão ter de considerar que, dentro da Petrobras foram cometidos atos de corrupção. Porém, não são de todos os funcionários, não do é conjunto da empresa e, portanto, tem de haver a responsabilização de quem é aquele que cometeu. Se houver claramente isso, os autores vão ser punidos, para depois se saber o que vai acontecer nos processos em relação à empresa.

Agora, a boa notícia em relação à Petrobras é que ela é uma empresa forte. Hoje muito bem gerida, com processos de governança e de compliance bastante ajustados. Se não fosse assim, como a gente poderia considerar que ela tenha chegado a produzir 800 mil barris/dia, e tenha ganho este ano o chamado “Oscar” do petróleo, por inovação, que é o prêmio da OTC. Então, eu quero dizer o seguinte: a Petrobras não é uma empresa sub judice. A Petrobras é uma empresa em pleno uso da sua atividade.

Da minha parte, eu quero te dizer o seguinte: eu nunca demiti ministro ou aceitei ministro nomeados pela imprensa, ou demitidos pela imprensa, e assim sendo, eu vou aguardar toda a divulgação dos fatos para avaliar a situação. Agora, em princípio, acredito que seja necessário pelo menos, que todos nós tenhamos acesso às mesmas coisas. O governo brasileiro não tem acesso aos autos. Estranhamente, há um vazamento seletivo e alguns têm. E aí, durante um tempo podem falar o que quiser que, aqueles que são mencionados, não têm como se defender porque não sabem do que são acusados. Nós, que viemos de um processo de democratização, que somos um país que conseguiu romper com tudo o que havia de mais discricionário, arbitrário e sem direitos, que foram as ditaduras - e no caso do Brasil uma forte ditadura -, nós temos de ter o maior respeito pelo direito de defesa e por uma coisa que se chama: se condena quando se prova. Não tem o inverso, a pessoa tem de se provar inocente. Quem prova que a pessoa é culpada é quem acusa, esse é o princípio básico da civilização ocidental que nós compartilhamos. Quando a gente fala em democracia, nós falamos é disso, o direito de defesa das pessoas e a obrigação da prova ser formada com fundamentos e não simplesmente com ilações ou sem acesso às peças acusatórias. Isso é um tanto quanto idade média. Então, não é isso que se pratica hoje no Brasil.

 

Ouça a íntegra(36min26s) da entrevista da Presidenta Dilma Rousseff