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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após bilateral com Barack Obama por ocasião da VII Cúpula das Américas - Cidade do Panamá/Panamá

por Portal Planalto publicado 11/04/2015 22h40, última modificação 12/04/2015 00h29

 

Cidade do Panamá/Panamá, 11 de abril de 2015

  

Presidenta: Primeiro boa tarde para todos. Vamos… Bom deixa só eu falar uma coisa. Acabamos então de anunciar, eu acho que vocês estavam lá, né, anunciamos aquilo que a gente vem construindo, que é a visita aos Estados Unidos. Vai ser uma visita de governo e não uma visita de Estado, porque a visita de Estado implicaria que fosse no ano que vem. O ano que vem é um ano eleitoral, então o Brasil, nós preferimos fazer esse ano.  Vai ser no final de junho. Os temas da nossa discursão bilateral, que teve curso há pouco, nós focamos em mudança do clima, energias - energia alternativa, energia solar, baterias, discutimos também etanol -, e uma cooperação muito forte na área de ciência, tecnologia e inovação e também na área de defesa. É uma discussão a respeito de céus abertos, né, na área de aviação civil e também toda uma discussão, que vai ser interessante para todos nós, de lado a lado, sobre a construção de mais democracia aqui no continente. É fundamentalmente porque nós cumprimentamos os Estados Unidos e tínhamos cumprimentado também o presidente Raúl Castro pelo acordo que eles fizeram que bota um ponto final na Guerra Fria. Então, de forma bem sintética, foi isso que nós tratamos há pouco.

 

Jornalista: Presidente, a senhora considera que, nós aqui estamos discutindo que o avanço, do ponto de vista prático, foi tímido no que diz respeito a Cuba e Estados Unidos, uma vez que o presidente Obama deveria ter anunciado a retirada de Cuba da lista dos países que patrocinam o terrorismo. Faltou o presidente Obama dar um passo mais ousado?

 

Presidenta: Olha, eu acho que eles estão construindo um caminho. E você não constrói um caminho querendo imediatamente chegar ao fim. Você constrói um caminho levando em conta quem é que está transitando pelo caminho. Então, eu acho que o passo decisivo foi dado, que é a vontade política de parte a parte de virar a página, né, dessa condição e dessa situação que era tipicamente uma situação da Guerra Fria e que hoje, no mundo, nós superamos. Então, eu acho que aqui na região foi um passo decisivo, foi um passo decisivo e corajoso de parte a parte. Extremamente corajoso, porque a primeira ruptura que é necessária para que você faça um movimento desses é a disposição política de fazer. E o que eu acho que esse momento dessa relação entre os Estados Unidos, ele Cuba evidencia é uma imensa disposição de construir um caminho em que, não só isso que você levantou seja superado, mas também que se construa uma relação em outros patamares, mesmo considerando que há diferenças. Mas o que é possível afirmar é que com diferenças ideológicas, culturais, políticas, com orientações diferentes em cada país, os governos não pensam igual, nós conseguimos cooperar e construir uma relação em um continente que tinha uma tradição, primeiro, de não se relacionar, né, cada uma das partes do continente olhava para o resto do mundo. Nós não, nós agora olhamos para nós, olhamos para nós, construímos e nos respeitamos. É obvio que as pessoas não pensam igual, mas os governos também não e isso fica claro aqui. Você veja que tem 35 países, na Celac também tem 33, na Unasul tem todos os países do nosso continente. Então o que é que se busca? Não se busca uma visão, assim, fundamentalista de que tem que estar tudo pronto, se busca construir uma forma de cooperação. Eu tenho que respeitar cada um dos países e tenho que contribuir para que haja… O quê? Mais democracia, mais respeito aos direitos humanos, sim, mas tem também que contribuir para que tenha esse continente que é o mais desigual de todos. Que esse continente seja um continente que se continue se caracterizando por duas coisas: inclusão social, melhoria no padrão de vida, né, de toda a população e educação, educação e educação.

 

Jornalista: A marcação da visita significa que o episódio de espionagem da NSA está totalmente superado?

 

Presidenta: Olha, significa que nós reconhecemos que nas ações que foram tomadas a  partir daí ao longo de vários meses e que levou a um posicionamento em que o governo americano não diz só para o Brasil, mas diz para todos os países do mundo que os países amigos, os países irmãos não seriam espionados. E também em uma declaração do presidente Obama, quando ele quiser saber qualquer coisa, ele liga para mim.

 

Jornalista: Ele disse isso?

 

Presidenta: Há pouco, agora. Falou para mim agora. Quando ele quiser saber qualquer coisa ele liga para mim.

 

Jornalistas: E a senhora atende, né?

 

Presidenta: Não só atendo, mais fico muito feliz quando ele liga.

 

Jornalista: E a Venezuela, a senhora teve a chance de se encontrar com o presidente Maduro?    

 

Presidenta: Não, mas eu conversei com o presidente, eu o encontrei, óbvio, conversei um pouco, mas eu tinha recebido um telefonema do presidente Maduro. Eu acredito que essa questão é uma questão... essa questão da relação dos Estados Unidos com a Venezuela, é uma questão que nós temos todas as condições de construir também o caminho para isso voltar aos bons tempos. Porque é uma posição da Unasul, não é só do Brasil, mas é da Unasul como um todo. A Venezuela não é ameaça para os Estados Unidos. Acho que esse é um texto antigo que foi usado neste caso, porque a Venezuela, de fato, não se trata de uma ameaça em hipótese alguma. Você pode discordar disso, disso e daquilo, mas não pode concordar em tratar a Venezuela como um inimigo dessa proporção, porque eles não são.

Eu acho que tem que ser construído junto com a Venezuela, e o Brasil integra, vou repetir isso, você sabe que tem uma comissão de chanceleres na Unasul que é integrada pelo Brasil, pela Colômbia e pelo Equador. Nós três, essa comissão de chanceleres que representam os presidentes diretamente e que tiveram também a participação do núncio apostólico do Vaticano, nós temos um objetivo, é construir uma... um diálogo entre o governo e a oposição, para que não haja ruptura democrática na Venezuela que não vai beneficiar ninguém no continente. Se beneficiar alguém, não é alguém que mora aqui. Então, vai beneficiar pessoas que não têm... não beneficia ninguém. Porque vai ser uma guerra, vai ser um conflito ou vai ser qualquer outra forma de conflito que rompe com a democracia.

Então, o que é que nós queremos? Nós queremos que se sente, que se faça acordos. Porque acordo é possível, mesmo havendo diferença é possível acordo. E é possível que se transite respeitando todos os processos democráticos. E cada vez que houver eleição, você tem que respeitar o resultado da eleição, não pode reabrir tudo outra vez. Então, essa é uma questão que nós temos, olha, tem bastante tempo que nós fazemos isso e continuamos fazendo e achamos que passos podem ser dados no futuro. Todos os países da Unasul estão empenhados em assegurar um clima de democracia cada vez maior nesta relação entre o governo e a oposição.


Jornalista: (...) o Obama, os Estados Unidos, na tentativa de estabelecer uma ponte dos Estados Unidos com a Venezuela, a senhora teve a oportunidade de conversar com o presidente Obama?

 

Presidenta: Olha, nós sempre, sempre que formos chamados faremos isso, mas parece que não foi necessário. Porque o nosso antigo embaixador americano no Brasil, que vocês devem lembrar dele que é o Tom [Thomas] Shannon, o Tom Shannon foi, antes dessa cúpula, esteve conversando, o próprio presidente Maduro manifestou isso.

 

Jornalista: Incompreensível.

 

Presidenta: Meu querido, eu não vou falar do Brasil.

 

Jornalista: (...) a situação do Ministério da Saúde, da Caixa Econômica?

 

Presidenta: Não. Não vou falar. Sabe por que é que eu não vou falar? Porque eu posso falar para vocês amanhã ou depois de amanhã quando nós chegarmos lá, sem problema nenhum. Agora, aqui, eu vou falar do que eu estou fazendo aqui.

 

Jornalista: Quais são as prioridades da visita aos Estados Unidos?

 

Presidenta: Eu dei uma faladinha, mas eu repito. É o seguinte: o que é que é para nós importante? É importante o seguinte: o Brasil e os Estados Unidos têm uma parceria bilateral. Nessa parceria bilateral tem vários assuntos que nos interessam de forma muito especial há anos. Exemplo: a questão da mudança do clima e da reunião de Paris, por que é que nos interessa? Vou dar, assim, dois exemplos concretos. Não vamos esquecer que recentemente os Estados Unidos sofreram o pior inverno da sua história e nós enfrentamos uma seca que dura três anos, sendo que uma parte dessa seca atingiu fortemente uma região do Brasil que não tinha experimentado seca, qual seja? O Sudeste. Então, esta é uma área muito importante para nós, por quê? Porque um conjunto de países se, de fato, definirem uma posição sobre mudança do clima, altera a situação. A China, os Estados Unidos, a União Europeia, os países grandes, a Índia, o Brasil, enfim, nós precisamos assumir a responsabilidade de liderar nesse processo. Segundo, eu acho que os Estados Unidos têm uma grande contribuição a dar ao Brasil e eu pedi essa contribuição na área de educação. Os Estados Unidos têm a educação terciária, que é a educação superior e pós, né, eles construíram universidades que são institutos de pesquisa. São universidades de pesquisa. E estão extremamente avançados nessa área, para nós ela é importante, mas também pelo fato de que eles têm de enfrentar o mesmo desafio que nós temos, que é o seguinte: você precisa da educação para garantir que a sua inclusão social não volte para trás. Quanto mais você incluir pela renda, mais vai ser necessário assegurar para as pessoas, para as famílias, que seus filhos, seus netos, jovens e crianças tenham acesso a uma educação que vai lhes garantir emprego de qualidade. Então, isso é algo que é um desafio para os Estados Unidos e é para nós, cada um na sua etapa, né, de desenvolvimento. Agora, essa é uma área que a nós interessa extremamente participar.

 Na questão da energia interessa também, por quê? Porque o Brasil e os Estados Unidos têm o etanol, mas não é só no etanol, nos interessa uma cooperação na área solar. O Brasil, em que pese ter avançado muito com a eólica, não avançou muito com a solar, porque a solar é mais cara. Mas tem tecnologias solares que nós estamos usando, por exemplo, no Minha Casa, Minha Vida. Você pode olhar que o Minha Casa, Minha Vida que tem unidades unifamiliares, ou seja, casas, elas têm lá em cima uma solar térmica. Eles têm outras formas. Tem uma discussão sobre baterias no mundo muito importante. Por quê? Porque bateria pode ser uma forma, uma forma de você também ter alternativas energéticas. E certamente uma das áreas que vai ser objeto de algumas transformações vai ser o que se chama setor de transporte. Porque o uso da energia nesse setor, ele é algo que, vamos dizer assim, representa massivamente o que se usa de energia em todas as regiões do mundo. Se você me perguntar: ‘Ah, presidente, você está dizendo que vai acabar o petróleo?’ De jeito nenhum, estou falando outra coisa. Cada vez vai haver uma convivência das diferentes formas de energia com o petróleo. Isso não significa perda de importância do petróleo, mas significa que a humanidade só vai conseguir continuar consumindo essa quantidade de energia se buscar fontes alternativas que não sejam de energias, aliás, desculpa, buscar fontes alternativas que não sejam de fontes não renováveis, que sejam fontes renováveis. Então, essa combinação, em qualquer circunstancia, se você olhar o século XXI, ela é fundamental. Então, é nessa área.

Também, a nós interessa colaborar, e como eu disse, na área de aeronáutica, né. Hoje, nós temos uma grande empresa brasileira que coopera com uma grande empresa americana, nos interessa expandir essa cooperação. Nos interessa cooperar na área de defesa, nos interessa cooperar na área de comércio, nos interessa cooperar na área de investimentos recíprocos.

 

Jornalista: Presidente, a senhora vai chegar aos Estados Unidos em plena campanha eleitoral?

 

Presidenta: Não querida. Não, não. A campanha eleitoral, ou seja, eu vou chegar na pré-campanha. Considerando que a campanha se dá mais no ano que vem, ou eu estou enganada, posso estar enganada, mas eu penso assim, até junho, 30 de junho, ainda não esquentou, não, esquenta depois.

 

Jornalista: A senhora acha que está na hora de ter uma mulher na Casa Branca?


Presidenta: Olha, eu não posso ficar dando palpite sobre eleição em país que não é o Brasil. Agora, eu sempre acho que mulher é muito importante ser ponderada. Então, a minha resposta é genérica. Eu acredito que as mulheres elas crescentemente vão... bom, se nós somos parte do céu como dizem os chineses, agora deu, nós queremos ser metade do céu, segundo os chineses. Deu para eles, nós queremos ser é metade do mundo mesmo e, aí, isso se expressa também em presidentes ou presidentas, tá? E não sejam preconceituosos contra as mulheres.

 

Jornalista: Presidenta desculpa insistir, mas 63% da população...

 

Presidenta: Querida você pode insistir mas eu não vou responder, está desculpada. Inteiramente desculpada.

 

Jornalista: Vamos voltar à Venezuela, então? Houve uma (...) polêmica agora em uma declaração que a senhora deu a um brasileiro que interpretou...

 

Presidenta: Como que ela quis. Aliás, a liberdade de imprensa implica que vocês possam interpretar como querem.

 

Jornalista: Então a senhora pediu, está pedindo a liberdade do preso...

 

Presidenta: Eu não estou fazendo isso, eu estou fazendo o seguinte: eu estou dizendo, primeiro porque eu respeito, tá, e não interfiro em questões relativas, internas de outros países. Assim como eu não fico discutindo os presos da Venezuela, eu não discuto os presos de Guantánamo. Apesar de ter posições a respeito. O que eu quero dizer na questão da Venezuela, é que eu acho que seria importante para toda a região que a gente tivesse uma situação em relação a Venezuela de tranquilidade, de institucionalidade mantida. O que não é possível é aqueles que pensam que a ruptura, a  ruptura na Venezuela leva a bom termo. A ruptura na Venezuela pode levar a um conflito sangrento. Então, o Brasil, a posição do Brasil é no sentido de assegurar que quanto, vamos dizer, até aonde a gente possa, até aonde a gente possa fazê-lo sem interferir na situação interna de cada país, nos interessa a pacificação. E aí, é por isso que nós participamos do grupo que senta oposição e governo. Nós achamos que a oposição tem que respeitar, tem que fazer, tem que ter esse respeito e o governo tem que ter esse respeito um pelo o outro porque só se discute com quem você respeita.

 

Jornalista: Presidente, o Brasil pode receber presos de Guantánamo por razões humanitárias?

 

Presidenta: Olha, querida, você é a primeira a me perguntar, nem os interessados eventuais o fizeram. Eu te agradeço, mas não tenho o menor interesse em responder uma coisa que...

 

Jornalista: Presidente, eu sei que a senhora não quer falar de Brasil, mas a senhora está prestes a anunciar o nome do novo ministro do STF...

 

Presidenta: Olha, querido, eu não vou falar de Brasil e eu tenho, assim, uma imensa capacidade de resistir a interrogatório, eu te asseguro, uma imensa... Se vocês um dia quiserem, eu até explico como é que faz.

 

Jornalistas: Vários presidentes adotaram um tom… conciliador nessa… tanto o Obama...

 

Presidenta: Mas, oh gente, foi um momento único, né, cá entre nós.

 

Jornalistas: Mas alguns não tanto... o Rafael Correa, o Morales… A senhora acha que no futuro...

 

Presidenta: Eu posso te assegurar que todos os presidentes acham que foi um grande passo. Agora, cada um vai avaliar isso de acordo com as suas posições. Agora, que foi um grande passo, eu acho que isso estava, sabe como é que é, você sentia, você sentia no ambiente. Foi um grande passo.

 

Muito obrigada.