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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após assinatura de atos - Brasília/DF

por Portal Planalto publicado 16/07/2014 12h20, última modificação 16/07/2014 12h25

Palácio da Alvorada-DF, 16 de julho de 2014

 

 

Jornalista: Foi satisfatório, presidenta, o que foi fechado ontem lá nos BRICS?

 

Presidenta: ... absolutamente. Veja vocês, cinco países criam um banco, fazem um acordo contingente de reservas, um banco com capital subscrito e bem significativo, com partes iguais para todos, com a governança compartilhada. Isso muda as condições de financiamento desses cinco países, são os Brics. Isso não é satisfatório? Além de um acordo contingente de reservas de 100 bilhões? Eu acho que tem de olhar com uma perspectiva mais séria e de médio ou longo prazo para isso que (incompreensível) ontem lá em Fortaleza. Acho que é extremamente relevante para esses cinco países. Extremamente. Muda as condições tanto de financiamento, quanto cria uma rede de proteção.

Eu queria lembrar que nós propusemos o acordo contingente de reservas, e a Índia propôs o banco, o novo Banco Brics. E hoje, nós, dois anos, um pouco mais de dois anos daquela proposta, hoje... ontem, hoje, no sentido do presente, nós conseguimos realizá-la. Nós tivemos... é um processo complexo, não é algo trivial e eu acredito que isso signifique bastante para o cenário multilateral internacional, é muito importante que isso ocorra. Como vai ser também essa relação que nós vamos estabelecer a exemplo do que foi feito lá na África do Sul, quando nós fizemos uma reunião com os países africanos, nós faremos aqui com os países da Unasul, que também é muito importante no relacionamento Brics.

 

Jornalista: É injusto dizer que o Brasil cedeu na presidência do banco?

 

Presidenta: O Brasil não cedeu porque não tinha... não era dono do... eu acho fantástico, eu acho isso típico do Brasil, se a gente tivesse ficado com a primeira vice-presidência, a imprensa, hoje, estaria dizendo: o Brasil perdeu a sede. O que se trata é de um banco, um banco gerido por um conselho de administração que o Brasil preside, por um conselho de ministros que a Rússia preside, com um presidente que a Índia tem no primeiro banco e localizado lá na China com um escritório nos dois continentes, tanto na África, como na sequência, na América Latina, no Brasil. Na África, na África do Sul e aqui no Brasil. Isso significará uma forma de gerir o banco que vai ser a mesma forma que os Brics têm. Eu não sei se vocês sabem, mas nós temos uma forma Brics de falar e de fazer a alternância, por exemplo, na direção da Cúpula: começa com B, nós somos o primeiro, depois foi a Rússia, depois a Índia, depois a China e o S é de South Africa, foi a África do Sul. Agora voltou para mim. Nós temos essa forma rotativa de gestão. Por quê? Porque entre nós cinco, nós optamos sempre por um padrão igualitário, um padrão em que todos os países têm o direito de assumir a direção. Então, é absolutamente, eu diria assim, inadequado avaliar o resultado dessa Cúpula, sim. Cada país tem o seu papel e vai tendo nas outras esferas, sistematicamente. Agora, a diretoria e o conselho vai ser integrado por pessoas indicadas pelos países Brics. A diretoria, o conselho e a representação dos ministros será uma representação que vai refletir esse fato básico: o Banco é um banco que não tem um país com um poder acionário maior que o outro. Essa é a realidade dos Brics. E eu acho que é mais importante perceber o efeito disso.

Me perguntaram ontem se significaria, por acaso, abertura, que nós estávamos abrindo mão da nossa presença em outras instituições multilaterais. De maneira alguma. Um dos pontos de pauta de ontem foi o problema da reforma acertada no G-20 das instituições financeiras multilaterais como o FMI, por exemplo. Por quê? Na distribuição de cotas do FMI, lá não tem refletido o poder, a correlação de forças econômica dos países que integram o G-20, que são as vinte maiores economias do mundo. O que nós reivindicamos, por exemplo, no FMI, é que haja aquilo que foi acertado quando da criação do G-20 e toda reação diante da crise de 2007-2008, foi acertado que haveria essa adequação, a representação econômica dos países seria refletida no acordo de cotas. Nós não temos o menor interesse em abrir mão do Fundo Monetário. Pelo contrário, temos interesse em democratizá-lo, tornar o mais representativo. O novo Banco dos Brics não é contra, ele é a favor de nós. É diferente, é uma postura completamente diferente, e terá sempre uma postura diferenciada em relação aos países em desenvolvimento.

Também me perguntaram – eu já antecipo porque o que vocês perguntam eu sei o que é -, também me perguntaram que países que poderão fazer, que não são Brics, que poderão pedir para...

 

Jornalista: ... integrar o Bloco.

 

Presidenta: Não, não é integrar. Para receber financiamentos. Eu quero dizer para vocês que o Banco sequer foi formado, mas nós olharemos com ... sequer ainda, ele vai levar uns dias, um tempo para estabelecer a sede, colocar o presidente, começar as reuniões. A integralização foi aprovada, do capital, tudo isso. Agora, ele tem um tempo. Nessa medida o que eu quero afirmar é o seguinte: nós sempre olharemos com muita generosidade os nossos empréstimos. Agora, eles serão feitos com padrões absolutamente de boa gestão. Ninguém vai sair por aí, nem é esse papel do Banco dos Brics, fazendo qualquer ação financeira sem fundamento técnico, sem base, sem avaliação.

Então, eu quero dizer para vocês que eu acho um momento significativo. E não é aqui só no curto prazo, ele é significativo no longo prazo. De fato ele reflete um mundo mais multipolar.

 

Jornalista: Presidenta Dilma, a gente tem visto a senhora, essa semana, com a Cúpula dos Brics, chefes de estado e todo mundo da América do Sul, a gente está numa época de campanha eleitoral. Quando que a gente vai ver a senhora na rua fazendo campanha...

 

Jornalista: ... a partir da próxima semana começa uma agenda intensa?

 

Presidenta: Olha, eu sou obrigada a ter duas atividades. Uma atividade é a minha atividade como Presidente, ela se sobrepõe à outra, necessariamente. Eu tenho responsabilidades com o país. Então eu estou representado o Brasil na Cúpula dos Brics. Eu vou fazer campanha quando estiver no momento em que eu possa fazer campanha.

 

Jornalista: A partir da semana que vem, presidenta?

 

Presidenta: Olha, eu tenho de avaliar quando é que começa essa campanha.

 

Jornalista: Ainda não deu tempo de pensar direito, não?

 

Presidenta: Meu querido, eu saí da Copa do Mundo, que vocês acham, não sei hoje o que vocês acham, mas imagino que vocês devem achar que foi muito bem sucedida, porque se não achassem isso nós estaríamos diante de uma situação muito grave que é não perceber a própria realidade. Nós fizemos um imenso esforço, o governo fez um imenso esforço para essa Copa ser o sucesso que foi. Nós nos esforçamos, nós organizamos várias áreas. Se vocês olharem a quantidade de avião que subiu e desceu nesse país sem atraso significativo, ou seja, abaixo, inclusive, do padrão internacional. Se vocês olharem todas as atividades na área de segurança, na área de garantia do trânsito adequado das seleções, dos turistas, do trânsito... não estou falando do... deslocamento dessas pessoas, e de toda a estrutura, imensa estrutura que foi montada, um planejamento para essa Copa ser o sucesso que foi, vocês saberiam que eu saio disso e entro nos Brics que também requer todo um cuidado. Afinal de contas, tem cinco chefes dos países Brics, mais todos da Unasul, que se eu não me engano dão 12, dão 12. Então, são 17 chefes de estado agora nesse momento. E ainda por cima, com visitas bilaterais. Amanhã tem uma visita bilateral com a China, muito importante, por exemplo.

 

Jornalista: Presidenta, a criação desse novo banco cria uma independência com o FMI de uma certa forma?

 

Presidenta? Olha, eu não diria isso. Eu não sou dependente do FMI. O dia que esse país – eu estava presente, é um momento histórico – era presidente do FMI, o Rato, aquele do Banker, vocês entrem na internet e olhem o que é o Banker, um dos bancos espanhóis que quebraram. Ele era presidente do FMI quando o governo brasileiro pagou a nossa dívida. A partir desse momento, nós, nunca mais dependemos do FMI. O FMI nunca mais dirigiu a política brasileira. A nossa relação com o FMI passou de relação devedora para credora diante da crise em 2008-2009-2010, e mesmo no nosso período, 2011 e 2012, nós contribuímos com recursos para estabilizar algumas situações. Queria lembrar do... vocês lembram do guarda, do... chama Firewall, aquela proteção que se queria criar para evitar que a crise do Euro se aprofundasse, nós contribuímos. Então, nossa relação com o FMI há muito tempo é uma relação de independência. Nós, em relação ao FMI, temos reivindicações, com eu expliquei, de mudança na distribuição de cotas. Dependência, jamais!

 

Jornalista: Presidenta, na semana que vem a senhora recebe dirigente do Bom Senso Futebol Clube e até times de...

 

Presidenta: ... eu não vou antecipar minha agenda... vocês não... não. Agora eu estou em Brics, semana que vem nós mudamos o disco. Um beijo para vocês.

 

Jornalista: mas a senhora está animada para essa nova agenda, presidenta?

 

Ouça a íntegra da entrevista (12min55s) da Presidenta Dilma