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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após a Cúpula do Clima 2014. na sede da ONU - Nova Iorque-EUA

por Portal Planalto publicado 23/09/2014 19h37, última modificação 23/09/2014 21h56

Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2014

 

 

Jornalista: Fez boa viagem, Presidenta?

 

Presidenta: Fiz, mas é sempre cansativo. Vocês vieram quando?

 

Jornalista: Bom, eu estava em Washington, vim ontem.

 

Presidenta: Então você é uma moça feliz.

 

Jornalista: Cinco horas na fila de credenciamento, presidente...

 

Presidenta: É? Aqui? Desde que horas?

 

Jornalista: No domingo, de 3:45 até 9 horas da noite.

 

Presidenta: Mas todo mundo dormiu aqui, não é? Eu não, eu dormi menos, quer dizer, eu dormi também, mas dormi menos.

            Bom, gente, hoje, basicamente, eu estou aqui por uma questão fundamental. Amanhã tem a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, a reunião da Assembleia Geral, a 68ª, mas hoje tinha a Cúpula do Clima e, nessa Cúpula do Clima, o Brasil falava, depois da Bolívia e de Brunei era a palavra do Brasil. E, basicamente, nós fizemos uma manifestação no seguinte sentido:

Primeiro, o Brasil é a favor de um acordo entre todos os países do mundo, portanto, um acordo universal, um acordo efetivo, ou seja, com medidas concretas, e um acordo que produza resultados, tanto no que se refere à mitigação quanto no que se refere à adaptação, e eu acrescentaria prevenção, também.

            Desde 2009 nós… desde 2009, nós tivemos uma liderança - eu vou chamar assim - nessa questão do combate às mudanças climáticas, quando nós aceitamos reduzir voluntariamente de 36 a 39% as emissões de gases de efeito estufa. E viemos fazendo isso, não só no que se refere a desmatamento, mas também no que se refere à agricultura, energias renováveis e outros, combates a desastres naturais e outros.

            Em 2004, nós lançamos o PPCDAm, que é aquele Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia, o PPCDAm. De lá para cá, nós reduzimos muito o desmatamento. Se você comparar 2004, que é o ano do PPCDAm, com o último ano que nós temos dados, 2013, nós tivemos uma redução de 79%. E se você comparar todo o nosso compromisso, depois de 2009… Por que depois de 2009? Porque em 2009 nós assumimos o compromisso voluntário. Se você comparar, então, 2010 com 2013, que é também o último dado, em termos de reduções gerais, abrangendo todas as áreas, nós reduzimos 650 milhões de toneladas/ano de emissão de dióxido de carbono, o que é um número bastante expressivo.

            Então, nós chegamos aqui com todas essas realizações podendo ser dito. E, nos últimos quatro anos, depois do acordo lá em Genebra, voluntário nosso, do Plano Nacional de Reduções, de Remissão, nós conseguimos os quatro números melhores. São os quatro menores números, em termos de redução do desmatamento, da história do país.

            Bom, eu considero que tudo isso é extremamente bom, no que se refere à questão ambiental. Mas o que eu acho que nós provamos é uma coisa além disso, algo além disso. Nós provamos, com a nossa realidade, é que aquele lema da Rio+20, que é possível crescer, incluir, conservar e proteger, ele não é retórico, ele é real. Isso nós mostramos em várias atividades. Exemplo: na agricultura. Na agricultura, porque nossa agricultura é uma agricultura em que cresce o volume de produtos agrícolas, por exemplo, o volume de grãos, e a responsabilidade disso está na produtividade e não no aumento da área plantada.

            Isto fica ainda mais… se torna ainda mais significativo quando você considera dois programas, no Brasil. Um, que é a chamada “agricultura de baixo carbono”, o Programa ABC. O Programa ABC, ele coloca, com juros subsidiados, financiamentos de bilhões de reais para os produtores usarem algumas técnicas que são não só ambientalmente corretas, mas extremamente produtivas, ou seja, extremamente efetivas, no que se refere ao aumento da produtividade. Exemplo: plantio direto na palha. A soja, hoje, faz isso, muitos dos produtores de soja plantam direto, sem limpar a área. Isso é muito bom, porque preserva todas as riquezas que há na própria terra. Então, o plantio direto sobre a palha. Fixação de nitrogênio no solo, rotação lavoura-pecuária-pastagem. Além disso, recuperação de áreas de pastagens degradadas e melhoria, também, do tratamento de dejetos.

            Esses itens são aqueles que nós, com recursos subsidiados pelo governo federal, colocamos no Plano Nacional do Agronegócio, da agricultura comercial brasileira. Nós, como vocês sabem, colocamos 150 bilhões para a agricultura comercial brasileira. E, no caso específico, aqui, da agricultura de baixo carbono, ela deu extremos resultados.

            O Brasil não tem só o agronegócio. Uma parte expressiva da produção de alimentos no Brasil é feito pela agricultura familiar, a pequena agricultura. Na pequena agricultura, está sendo extremamente relevante a chamada agroecologia, que é a produção agroecológica de vários produtos para consumo domiciliar no Brasil, considerando que agricultura familiar responde, junto com as cooperativas, junto com toda uma política de incentivo a expansão dela, ela responde por uma parte fundamental da nossa alimentação, está entre 60, 70% de muitos dos produtos produzidos… de muitos dos produtos que está sendo produzido pela agricultura familiar. Então, vocês vejam: esses dois programas explicam também que a agricultura tem contribuído para a redução das emissões.

            Outra questão que é importante é o fato que nós mantemos aquela característica que é nossa, não é dos países desenvolvidos, não é em desenvolvimento, talvez o Canadá seja parecido conosco, que é uma presença forte de energia renovável na matriz. Nós, hoje, temos 79% na matriz elétrica Brasileira, sendo da energia, 79% da energia sendo fornecida por fontes renováveis. E ai, eu queria dar um dado para vocês que é um dado muito interessante, que é…  vocês sabem que a energia eólica e a energia solar, elas são complementares. Elas não são energias de base como se chamam, mas elas são complementares, elas entram complementarmente na matriz. A hidrelétrica segura, e, estou falando em termos renováveis, é a energia de base e é complementada pelas energias solar, eólica de biomassa.

Mas eu vou dar o exemplo da solar. Em 2003 - vocês sabem que eu fui ministra de Minas e Energia - só tinha 22 megawatts de energia eólica, só 22. Aí nós, agora em 2014…

 

Jornalista: Eólica ou solar?

 

Presidenta: Eu falei a eólica não é a solar. Solar, nós ainda temos uma presença pequena. Então era 22% em 2013. Em 2014, passou para 4.557 megawatts e a projeção para 2015, ela é muito interessante. É mais nós chegarmos a 10.473 megawatts. Se comparado nos termos de hoje, nós teremos a segunda maior expansão do mundo no ano que vem. Se os demais países mantiverem a expansão de hoje. Mas é muito significativo, porque que é muito significativo, porque é uma presença de uma fonte alternativa importante, muito importante e, ao mesmo tempo, uma fonte que está estabilizando o seu custo, está reduzindo seu custo de kilowatt instalado e também aumentando seu grau de eficiência, porque o grau de eficiência era baixo. Geralmente as alternativas tem um grau de eficiência baixo. Quê que é grau de eficiência? Se você instala 100, quanto se aproveita de fato, tá? 33, 34, 35 geralmente nas hidrelétricas se aproveita 55, por ai. Nas usinas térmicas, se aproveita bem mais. Ela tem maior grau de aproveitamento porque ela é constante você colocar combustível nela, mas ela é mais cara porque você paga o combustível. Você não paga vento e não paga água.

Bom, uma das coisas importantes que eu acho é perceber que ao longo desse tempo e aqui eu queria mostrar até para vocês, nós viemos numa trajetória de queda. Alguém tem uma… desmatamento, alguém tem… A ministra Izabella, por acaso,  tem uma que não esteja toda amassada? Eu ia falar lambida, mas é amassada... Você vê direitinho a trajetória, por governo. Você vê como nós fomos progredindo. Hoje nós estamos aqui. O nosso objetivo... é desmatamento, é desmatamento. Mas, o nosso objetivo é chegar a 3 mil, deixa eu falar para vocês, 3920 km, 925? Obrigada, bem precisa. 3925 km2 em 2020. A gente chega tranquilo, podemos até estar atingindo um número maior. Agora...

 

Jornalista: Quanto que é hoje?

 

Presidenta: Hoje, está em 5.891.

 

(...)

 

Jornalista: O ataque na Síria. Os EUA começaram os ataques aéreos na Síria, qual a posição do governo?

 

Presidenta: Eu lamento enormemente isso. O Brasil sempre vai acreditar que a melhor forma é o diálogo, é o acordo e a intermediação da ONU. Eu não acho que nós podemos deixar de considerar uma questão - nos últimos tempos, todos os grandes conflitos que se armaram, tiveram uma consequência: perda de vidas humanas dos dois lados. Agressões sem sustentação, aparentemente, podem dar ganhos imediatos. Depois, causam enormes prejuízos e turbulências. É o caso, por exemplo, do Iraque. Tá lá, provadinho no caso do Iraque. Na Líbia, a consequência da Líbia no Sael. Eu acredito a mesma coisa na Faixa de Gaza. Nós repudiamos sempre o morticínio e a agressão dos dois lados e não acreditamos que seja eficaz. Além disso, não acreditamos que seja eficaz. O Brasil é contra todas as agressões. Acha, inclusive, que o Conselho de Segurança das Nações Unidas tem de ter maior representatividade para impedir essa paralisia do Conselho diante do aumento dos conflitos em todas as regiões do mundo. Amanhã eu vou falar sobre isso, vou deixar isso muito claro, qual é a posição do Brasil no meu discurso. Obrigado para vocês.

 

 Ouça a entrevista (14min31s) da Presidenta Dilma Rousseff