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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, no Hotel Sheraton - Santiago-Chile

por Portal Planalto publicado 27/02/2016 17h00, última modificação 27/02/2016 17h15

Santiago-Chile, 27 de fevereiro de 2016

 

 

 

Jornalista: Presidente, nós vimos a senhora ter muitas conversas com empresários, alguns saíram dizendo coisas muito bacanas e animados, etc, com perspectivas com as respostas que a senhora deu. Eu lhe pergunto: há possibilidade de o Brasil recuperar o grau de investimento? É uma meta para a senhora? A senhora estima isso para médio prazo? O que é preciso fazer para o Brasil recuperar o grau de investimento?

 

Presidenta: Olha, para todos vocês, eu acredito que essas reuniões, várias outras que eu tenho tido, o que é necessário para o Brasil recuperar o grau de investimento? Primeiro, nós temos de fazer duas coisas: nós temos de estabilizar a situação fiscal. É fundamental que as pessoas percebam que não existe o fim em si em equilibrar o orçamento do Estado brasileiro. Não é um fim em si. Você faz isso porque é essencial para que se crie um ambiente favorável ao investimento, um ambiente extremamente favorável que esteja com inflação controlada e que permita que haja um horizonte de expectativas positivas.

Além disso, o Brasil precisa se unir. O Brasil não pode sistematicamente se mostrar desunido, todas as pessoas pessimistas, ou - todas as pessoas, eu não digo, porque eu acho que o povo brasileiro é um otimista -, uma parte, grupos muito pessimistas que só olham a  parte mais vazia do copo. E isso nós não podemos permitir. Por quê também é necessário ter boas expectativas. O Brasil precisa de encarar as necessárias medidas que devem ser tomadas diante de uma crise forte como a que nós estamos passando.

 

O que é importante é que os empresários, todas aquelas pessoas que geram, trabalham, e produzem emprego e renda, eles percebem a força do Brasil, eles percebem que o Brasil tem sólidas estruturas e precisa agora de uma âncora no fiscal. Precisa que a gente tenha uma reforma previdenciária; não para tirar direitos do trabalhador, mas para garantir esses direitos no futuro. Então, nós podemos hoje - porque não precisamos de uma reforma no curtíssimo prazo -, nós podemos fazer uma reforma com tranquilidade, com período longo de transição em que você absorva todas as expectativas de direito, mas que você reconheça uma realidade que é o fato, muito bom, que a população do Brasil está envelhecendo porque a nossa expectativa de vida aumentou. E aqueles que trabalham vão ter progressivamente de sustentar uma parte maior da população que é a que não trabalha. Quais sejam: os que aposentam e as crianças e os jovens. Como nós não queremos colocar no mercado de trabalho crianças e jovens - até porque eles são o futuro, serão eles que vão garantir a nossa produtividade, o aumento da nossa produtividade, um padrão maior de educação. Nós queremos que os jovens e as crianças estudem -, é fundamental que nós trabalhemos um pouco mais, mas isso não agora, não amanhã, não depois de amanhã - que eu acho que é o que as pessoas temem -, mas no futuro. E por isso o período de transição numa reforma previdenciária, ele tem de ser longo para que você possa diminuir os impactos sobre aquilo que as pessoas estão esperando.

Ao mesmo tempo nós precisamos, sim, de corte nas despesas, mas precisamos, também, de receitas. Nós não passamos por essa ponte sem receitas. E daí a importância da CPMF.

Mas tudo isso você só faz por um motivo: nós queremos voltar a crescer. E para voltar a crescer também é importante que você tenha investimentos, como do setor privado, e também que o setor público faça sua parte, por exemplo, na infraestrutura. Nós vamos, este ano ainda, nós vamos leiloar aeroportos, portos, rodovias e ferrovias. Por quê? Porque isso faz parte também do crescimento do País.

Além disso, é importante sinalizar que nós vamos fazer um grande esforço e continuar na nossa política de inclusão e de garantia de acesso à educação. Vocês vejam que o ano passado, 2015, mesmo com crise e tudo, o Brasil conseguiu pelo setor público, sem contar o setor privado, universitário… então, pelas universidades públicas e pelo programa Prouni e pelo programa de financiamento à educação do governo federal nós conseguimos garantir o acesso para 906 mil brasileiros e brasileiras cursarem a universidade. Agora nós estamos com a mesma meta, um pouco mais do que os 906 mil que nós iremos… nossa meta, o nosso objetivo.

Mesmo em dificuldade é fundamental que alguns programa sociais sejam mantidos. Nós estamos fazendo um grande esforço, uma cooperação forte com o Sistema S, vamos manter o Pronatec, inclusive vamos ampliar uma parte das vagas para formação profissional, porque isso é muito importante também para o Brasil.

A mesma coisa no caso do Minha Casa, Minha Vida. Nós não vamos fazer os 3 milhões, mas vamos fazer entre 1,5 milhão e 2 milhões de moradias. E é importante lembrar que no Brasil, a cada dia, 1.220 casas são entregues - não é que nós contratamos -, são entregues. Você entrega as chaves. Para quem? Para quem mais precisa. É óbvio que as pessoas pagam uma parte, mas a parte maior, quem paga é o governo federal. Nós, de uma casa de R$ 100 mil... ela não é de R$ 100 mil. Ela está entre [R$] 40, 50, 55 [mil]... Nós pagamos 95% das casas para a população mais pobre, aquela que ganha uma renda muito pequena. Para a que ganha uma renda maior, nós só damos uma contribuição. Mas não é uma contribuição desprezível. Para a pessoa poder ter acesso à casa nas faixas um pouco maior de renda que representa uma grande maioria da população brasileira, nós entramos entre R$ 25 mil a R$ 30 mil. O que é muito significativo, porque a existência da casa - a casa não é só uma construção e alvenaria com tijolo. A casa é, sobretudo, um local onde você cria filhos, você constrói o futuro das gerações desse País, das próximas gerações.

 

Jornalista: Presidente, o PT ajudará a senhora nessa tarefa que é tão grande? Parece que o partido não compreendeu.

 

Presidenta:  Olha, eu espero que o PT, o PMDB, o PSD, o PP, o PRB, o PCdoB, enfim, toda a minha base, todos os partidos que estão na minha base, eu posso não ter falado aqui algum - porque vocês já fizeram uma cara feia para mim, porque eu estou falando muito -, eu espero que todos contribuam. Obviamente cada partido tem o seu programa, cada partido vai se posicionar diante da realidade com sugestões, umas diferentes das outras.

 

Jornalista: Mas é preciso a ajuda do PT? É necessária?

 

Presidenta: Lógico. É preciso a ajuda de todos os partidos da minha Base, e o PT, sobretudo, porque é o partido a qual eu pertenço, pelo qual eu fui eleita.

 

Jornalistas: (ininteligível)

 

Presidenta: Eu já entendi. Você está perguntando se eu não vou à reunião do PT. Eu gostaria muito…

 

Jornalista: E por quê? Se está havendo um afastamento da senhora com seu partido?

 

Presidenta: Minha querida, eu gostaria muito. Eu imagino que você perceba que entre o Chile e o Brasil tem um problema de distância. Aliás, que nós mesmos dissemos aqui para todos aqueles, tanto chilenos quanto brasileiros, que são responsáveis pela construção da nossa realidade econômica, política e comercial, que está importante, US$ 26 bilhões de estoque de investimento chileno no Brasil não é desprezível. Bom, mas nós sabemos a distância. São 4 horas de avião. Eu ainda tenho um almoço com a presidente Bachelet e ainda tenho uma fala na [Cepal], o PT foi avisado que eu não compareceria. Não é…

 

Jornalista: Acha que está sendo justo com a senhora, presidente? As pessoas, divulgaram um documento muito contrário às suas diretrizes.

 

Presidenta: Olha, posso te falar uma coisa, querida Cristina, posso falar uma coisa? Não acho que seja uma questão de justiça ou não. Eu acho que nós vivemos numa democracia. O governo é uma coisa, os partidos são outra. Em que pese eles serem a Base, muitas vezes eles divergem. Isso é normal e tem que ser encarado com normalidade.

 

Jornalista: Mas senhora pedirá o apoio… Essas divergências tendem a ser um abismo?

 

Presidenta: Olha, eu pedirei, sempre pedirei apoio e conto com o apoio deles. Eu não acredito que nossas relações se caracterizem nem pelo fato de que há um posicionamento de adesão sem avaliação, sem avaliação crítica… não é só avaliação crítica, mas sem o fato de que… Um partido é um partido, um governo é um governo. Eu não governo só para o PT, eu governo para os 204 milhões de brasileiros. Eu não governo só para o PP, só para o PSD, só para o PDT, ou só para o PTB, ou só para o PMDB. Eu tenho de governar olhando todos os interesses. E como o nome diz, o partido é sempre uma parte. São fundamentais os partidos numa democracia. Não vai existir, não valorizar partido, demonizar partido. Achar que partido é responsável por isso, por isso e por aquilo é uma visão incorreta. É não entender que é assim que as democracias modernas funcionam. E esse papel é um papel que tem de ser preservado, respeitado. Porque isso constitui a democracia na sua maior foça.

 

Jornalista: Sem mágoas e sem crise?

 

Presidenta: Não é pessoal isso, Cristina. Não é possível vocês, jornalistas, acharem que esta relação é uma relação que tenha mágoas ou não. Tem concordâncias, discordâncias, tem propostas diferentes e tem, inclusive, o amadurecimento do governo, que não é o dono da verdade, nem dos partidos que são donos cada um da sua verdade. Mas cada um tem a sua verdade e acha que ela deve ser externada. E nós, governo, temos de respeitar.

 

Presidenta: Muito obrigada.