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Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff

por Portal Planalto publicado 28/01/2014 21h47, última modificação 04/07/2014 12h51

 

Havana-Cuba, 28 de janeiro de 2014

 

Jornalista: Buenas tardes, presidenta.

Presidenta: Buenas tardes. Vocês também estão no buenas tardes. Também, só falo “usted” em espanhol, tá?

Jornalista: No pasa nada. Como foi o encontro com Fidel Castro?

Presidenta: Muy bueno. Todas las veces que yo he venido aquí... estou brincando. Todas as vezes que eu vim aqui como presidenta eu vou visitar o Fidel.

Jornalista: Como a senhora encontrou ele. Ele estava bem?

Presidenta: Ele está bem, ele está inteiro, lúcido. É muito interessante, porque uma pessoa que viveu um período muito grande da história do mundo e conheceu pessoalmente muitas coisas, e ele tem uma excelente memória, e conta as histórias... É muito interessante.

Jornalista: Quais os exemplos do que vocês conversaram? Só uns dois exemplos...

Presidenta: Ele falou muito... Ele estava discutindo num momento, você veja como as conversas são. Nós começamos a conversar sobre... ele estava falando sobre o [Nikita] Kruschev, e falou sobre - porque o Kruschev foi responsável pela direção em Stalingrado. Ele discutiu a guerra, depois falou do Napoleão, aí discutiu sobre o Napoleão. E fala sobre toda a história da América Latina e do mundo.

Jornalista: Foi muito longa a visita?

Presidenta: Não, foi uma hora e meia, duas horas.

Jornalista: E a parceria Brasil-Cuba, presidenta? Qual é a motivação do Brasil? É mais uma afinidade política ou uma questão só econômica?

Presidenta: Olha, o Brasil tem grande respeito por Cuba, e nós achamos que Cuba é um país que está numa fase muito importante. Está transitando por um processo que nós apostamos nele e acreditamos que...  esse porto, por exemplo, de Mariel, faz parte de uma cooperação. Ao invés de você bloquear, fazer o bloqueio de Cuba, como fazem alguns, nós preferimos fazer o processo de integração. Hoje Cuba preside a Celac, está fazendo um porto, nós queremos uma parceria com toda a área de fármacos, de biofármacos, com Cuba. Nós temos em Cuba um grande parceiro da América Latina.

Aliás, eu vou te dizer, mesmo com... se você olhar, mesmo com o bloqueio, Cuba, hoje, tem o terceiro movimento de comércio aqui no Caribe. É uma sociedade que tem um nível educacional bastante qualificado, que pode dar uma grande contribuição aqui na região. E nós temos esse processo, que é um processo de aproximação, hoje. Têm 33 países, 33 presidentes – os que não tinham chegado, chegaram –, 33 presidentes aqui em Cuba, em um reconhecimento da presidência de Cuba na Celac.

Então, esse momento aqui, em Cuba, é muito importante, porque é o reconhecimento de que não existe integração na América Latina incompleta, seria incompleta se não tivesse Cuba. A presença de Cuba nos fóruns regionais é estratégica.

Me perguntou... foi você que me perguntou? Sobre a Cristina Kirchner. Eu estou seguindo uma certa ordem, porque eu vou ter que voltar. Então, eu vou responder a ele primeiro.

Jornalista: Presidente, sobre Mariel?

Presidenta: Sobre Mariel?

Jornalista: Sim, é porque há críticas no Brasil de que houve um investimento muito grande do governo brasileiro aqui em Cuba, na área de logística, sendo que o Brasil também precisa de investimentos importantes nessa mesma área de portos.

Presidenta: Nós continuamos fazendo investimentos na área de portos, no Brasil. O Brasil hoje é um país líder na América Latina e tem suas responsabilidades. Assim como a gente saúda, saúda países desenvolvidos que, ao fazer investimentos, financiam o fornecimento de suas empresas nacionais, por exemplo, o Brasil financiou o Porto de Mariel, agora, no acordo, quem forneceu os equipamentos, os bens e os serviços foram empresas brasileiras. Mais de 400 empresas brasileiras participaram desse esforço, gerando emprego e renda.

É muito interessante, porque esse é um modelo adotado por muitos países em desenvolvimento, inclusive, em alguns momentos, conosco. Vamos lembrar que muitos países desenvolvidos financiaram investimentos no Brasil não por nenhum processo caritativo, mas financiaram porque isso leva ao fortalecimento das empresas desses países. No nosso caso, aqui, é um processo ganha-ganha. Cuba ganha e o Brasil também ganha. É um bom negócio.

Além disso, eu quero dizer para vocês que nós vemos com muito interesse a Zona Especial de Mariel. Lá na Zona Especial de Mariel nós estamos querendo estabelecer uma forte parceria. Cuba é um dos países líderes na questão de biotecnologia, de biofármacos. O Brasil perdeu a sua corrida no que se refere à farmoquímica. Perdeu no seguinte sentido: chegamos um pouco atrasados, estamos ali disputando, agora não vamos chegar atrasados na biotecnologia, na produção de biofármacos, na produção de vacinas também com esse conteúdo baseado na biotecnologia. Qual é um dos países mais fortes nessa área? Pois muito bem, é Cuba. Porque Cuba é um país diferenciado na América Latina, uma vez que tem uma formação científica e tecnológica especial.

Nós também agradecemos muito, eu não podia deixar de falar isso, vocês me dão licença, nós agradecemos muito a parceria de Cuba conosco. A imensa contribuição que Cuba está dando para a saúde pública no Brasil, com a chegada dos médicos cubanos. Não são só médicos cubanos que estão no Mais Médicos, mas eles têm uma contribuição a dar, até porque eles têm uma formação médica que implica no contato direto com o doente, no tratamento do doente de uma forma muito humana, e isso para nós é muito importante. É um médico que toca a pessoa, é um médico que escuta o que ela quer falar, e é um médico que, muitas vezes, vai até à casa da pessoa – como já nos relataram – olhar, por exemplo, no caso de uma criança asmática, olhar se naquela casa tinha, de fato, as condições necessárias para uma criança asmática, e dar orientação: “olha, tem que tirar isso, aquilo e aquilo outro porque isso provoca asma, porque provoca alergia”.

Então, eu quero dizer pra vocês que essa parceria do Brasil com Cuba é uma parceria estratégica. Como é estratégica a parceria e o que está acontecendo, aqui, hoje. A 2ª reunião da Celac ela se dá, essa é uma grande reunião, congrega 33 países. Isso significa o seguinte: há cinco anos isso não existia. Sabe onde que começou?

Jornalista: No Rio de Janeiro...

Presidenta: Não, começou no Rio de Janeiro não, foi na Bahia. A primeira reunião foi na Bahia. O que isso significa? Em um mundo como esse que nós estamos vivendo, ninguém pode diminuir a importância de um mercado de 600 milhões de consumidores. É isso que o mercado latino-americano e caribenho é, um imenso mercado. E este mercado, como estes países, estão passando por um processo muito importante. Qual é? De diminuição da desigualdade, de aumento da participação dos seus habitantes no consumo, porque estão melhorando a renda. Então, aqui, hoje, tem algo muito significativo. Todos os países latino-americanos diferentes, porque cada um é diferente, nós somos diferentes, diferenciados em termos de cultura, em termos de estágio de desenvolvimento, em termos de opções políticas, em termos de visões do mundo. Qual é o nosso objetivo aqui? Construir consenso. Você constrói consenso se você tiver respeito, diálogo e respeito. Nós não temos que ser iguais aqui. O que nós temos é que procurar pontos comuns que permitam que nós tenhamos uma construção, e essa construção é: cooperação e integração. E como você busca isso? Você busca isso tendo políticas de convergência. O Brasil deu uma demonstração disso ao financiar Mariel. Ao financiar Mariel, através de uma cooperação cubano-brasileira, com uma empresa brasileira, com participação cubana e, veja bem, o operador é de Cingapura, um dos maiores operadores portuários do mundo. Isto não significa que nós não estejamos investindo no Brasil em portos, que nós não tenhamos feito um modelo de portos, que abriu para o investimento privado os portos brasileiros. Agora, por favor, não vamos comparar o Brasil, com aquela quantidade de portos, com Cuba, que tem um porto, apesar de ser um porto de 18 metros de calado e que... onde vai ter a possibilidade de navios super Post-Panamax atracarem. Super Post-Panamax é o quê? Navio Panamax é o que passa no Canal do Panamá. Navios Post-Panamax são um pouco maiores do que o Canal do Panamá, e super Post-Panamax são os grandes navios.

Eu quero dizer para vocês por que um país como Cingapura investe aqui em Cuba? Porque isso significa o quê para eles? Significa que isso é uma rota muito importante de construção das diferentes cargas e descargas no mundo. É uma visão extremamente pequena não perceber a característica estratégica desse investimento. Estão de parabéns, eu acredito, as empresas cubanas que participaram, a empresa brasileira, o governo brasileiro, o governo cubano e também a participação, aqui, muito efetiva, de uma grande operadora, que é de Cingapura, que é considerada uma das melhores do mundo.

Agora eu vou falar da Cristina porque ele pediu.

Jornalista: O governo vai oferecer alguma ajuda?

Presidenta: Não, nós não vamos oferecer nenhuma ajuda por um motivo muito simples também: não foi pedida. Porque aí você me pergunta... não, só um pouquinho. Aí você me pergunta, eu respondo e não aparece a sua pergunta. Eu conheço... então, estou avisando. Por que não tem nenhuma ajuda? Porque em nenhum momento a presidenta Cristina a pediu. A presidenta Cristina acha que lida com aquela situação e cada país tem uma característica. A situação econômica da Argentina é diferente da situação econômica do Brasil. A do Brasil e da Argentina é diferente de outras situações. Então, a presidenta afirmou que ela tem todas as condições, que eles estão atentos, que eles vão tratar da questão. E aquilo que eu falei lá na Suíça, vocês lembram? O que é que eu falei na Suíça? Que eu achava que eles tinham uma margem de manobra e graus de liberdade, por quê? Eu tomei, naquele momento, eu tomei pelo Brasil. Nós temos uma das maiores safras esse ano, uma das maiores safras, e vamos começar a comercializar ela daqui a pouco. A mesma coisa acontece com eles. Eles têm uma grande safra e vão começar a comercializar, e ainda têm restos da safra anterior. Então, eu acredito que eles vão ter as condições de superar isso, pelo menos eu desejo que isso aconteça.

Jornalista: Presidenta, queria saber da senhora sobre os protestos em São Paulo, relativos à Copa. Essa questão vai ocupar a sua agenda essa semana? Como é que a senhora pretende tratar isso?

Presidenta: Olha, a primeira coisa é a seguinte: tem umas coisas que eu não sei como aparecem no jornal. Apareceu no jornal que eu tinha uma reunião, que eu a convoquei. Como é uma informação sobre o que eu fiz, era de todo oportuno que alguém perguntasse para mim: “você convocou a reunião?” Quero informar: um, que ninguém perguntou; dois, que deduziram; três, que até agora quem está eleita para dirigir, para ser a presidenta do Brasil sou eu. Portanto, nenhum jornal tem condições de definir como é que é a minha política.

Eu acredito o seguinte: tem um problema, o Brasil sempre vai cooperar com todos os estados. Houve um problema, tem que ser esclarecido, mas também não pode ter aquela história que nós gostamos muito, de prejulgar, tanto prejulgar para um lado quanto prejulgar por outro. É importante que o governo do estado de São Paulo esclareça as condições, como tem feito o secretário da Segurança Pública. Nós esperamos esses esclarecimentos, junto com todos os brasileiros.

Eu defendo a seguinte posição: o Brasil tem uma maturidade democrática, isso ninguém tira de nós. Pode olhar que poucos países do mundo tiveram a atitude com manifestações que nós tivemos. Nós não fomos para a repressão, escutamos as vozes da rua e tomamos medidas, fizemos os cinco pactos, não é? Uma das consequências dos cinco pactos é a aprovação da lei que transforma os royalties de petróleo e os recursos do Fundo Social em educação. A outra é o próprio Mais Médicos que nós estávamos falando aqui, há pouco. Agora, eu acho que quando tem tranquilidade e é manifestação pacífica, é obrigação do país, e da maturidade do país, dessa coisa chamada democracia, que nós conquistamos. Agora, eu sou contra, o governo é contra, atos de vandalismo, de violência contra pessoas, contra o patrimônio público e contra o patrimônio privado. Isto é inadmissível. Nenhum governo e nenhuma sociedade – não é um governo, é uma sociedade – democrática e civilizada, aceita que o vandalismo e a violência gratuita ocorram sob que forma for, sob que alegação for. Não é possível que isso ocorra.

E também nós temos que entender uma coisa. O Brasil é um país que tomou uma série de medidas para essa Copa. É fato que nós investimos em estádios. É fato. São 12 estádios, e eu perguntei, recentemente, ao presidente da Fifa quantos estádios os outros países tinham feito. É similar ao nosso esforço: 12 estádios. É fato. Mas não é esse o principal investimento. O principal investimento está em todas as estruturas de aeroportos, em todas as estruturas de portos, em todas as obras que são muito maiores do que a Copa: de mobilidade urbana. O Brasil está gastando em mobilidade urbana para além da Copa – e também contemplando a Copa – mas é para além da Copa isso, R$ 143 bilhões. Nove estados do país vão ter sistema de metrô. Outros tantos  são 600 quilômetros sobre trilhos. Nunca este investimento foi feito no Brasil.

Bom, isso é uma parte da questão, mas tem uma outra, muito importante. Nós somos a casa do futebol. Ninguém pode negar esse fato. Ganhamos cinco Copas. Nunca deixamos de ir a nenhuma. É claro que o futebol nasceu lá na Inglaterra. Tudo bem, ele nasceu lá, mas viveu, cresceu e se desenvolveu no Brasil. O nosso povo gosta de futebol, homens e mulheres. Eu tenho certeza que, com os craques que nós temos, os torcedores que nós temos, porque a torcida desse país importa. Não só aquela que vai pro estádio, mas aquela que chama os amigos, os parentes, os conhecidos, a comunidade, para assistir junto o futebol. E tem uma outra coisa, temos dois técnicos que são campeões. Quem é que tem dois técnicos campeões? Onde no mundo tem dois técnicos campeões? O Felipão e o Parreira. Além disso, o Brasil tem uma característica, que eu acho que é muito importante. Nós sabemos, como em qualquer festa que a gente dá em casa, a gente vai dar uma festa na casa da gente. O que você faz? Você melhora. Dá uma melhorada na casa. Não dá uma melhorada na casa? Dá uma melhorada na casa. Agora, quando a visita vai embora, pra quem fica a melhoria? Para o dono da casa. É a mesma coisa conosco. Nós estamos dando uma das maiores festas do mundo, que é a Copa. É uma visão pequena do Brasil, muito pequena do Brasil, não perceber a importância que para o povo brasileiro e para o país tem a Copa do Mundo. Não só porque nós gostamos, mas porque a Copa do Mundo é um dos eventos culturais mais importantes do nosso país. Ele mobiliza todas as classes, ele recorta todas as classes. E, quero dizer, está no nosso coração. Nós todos gostamos de futebol. Aí eu fui lá no Blatter, e disse para o Blatter que além de querer a Copa, queríamos um tema pra Copa, temas pra Copa. O Brasil é um país pacífico. Então a nossa Copa vai ter que falar sobre paz. Vai ter que transmitir isso. É um momento de paz. Assim como fez o Mandela. Nós temos que falar de paz para o mundo. O Brasil é um país que mais de 50% da sua população se declarou, com honra, nesse último censo de 2010: somos negros. Então vai ter que ser uma Copa antirracista. E o Brasil, além do futebol, se apaixonou... as mulheres hoje jogam futebol. A Marta é o nosso símbolo, ou seja, é a nossa variante de Pelé. É a Marta. A Marta é a nossa variante do lado do futebol feminino. Então, são três coisas: é paz, antirracismo e afirmação no futebol feminino e da questão de gênero. Então o futebol também é um momento – e isso ao longo da história a gente aprendeu – todas essas cerimônias, elas podem servir, também, para lidar com uma coisa muito importante, que são os chamados valores. Valor para o nosso futebol é isso, é essa alegria imensa que nós temos, mas também antirracista, pró-questão de gênero das mulheres e pela paz. Essas três questões eu acertei com o Ban Ki-Moon. Tenho que agradecer ao Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU, e tenho que agradecer ao Blatter. É algo que transcende. Não é só o governo brasileiro, não é só a Fifa e nem só a ONU. Nós todos congregados em torno disso.

Jornalista: Presidente, o superávit estimado, o governo vai levar...

Presidenta: Espera lá, deixa falar sobre superávit.

Jornalista: O governo vai levar...

Presidenta: Não, é o seguinte. Eu acho que tem duas coisas que o Brasil não pode continuar fazendo: especulações indevidas. Ninguém do governo falou quanto vai ser cortado e nem qual o superávit primário. Lamento que tenha sido anunciado números, valores e compromissos. Quando for a hora e, ao longo do mês de fevereiro, eu mesma disse isso lá em Davos, perguntada pelos... na reunião dos empresários se eu iria declarar ali qual era o superávit primário, o meu compromisso fiscal, eu disse: isso é coisa que se faz no Brasil. Enquanto eu estiver fora do Brasil ninguém vai fazer uma coisa dessas, e nós temos um prazo, é fevereiro. Está desautorizada qualquer manchete e informação nesse sentido, tipo assim: “fontes do Palácio do Planalto”... uma vez eu já disse para vocês: fonte do Palácio do Planalto, eu estou desconfiada que é aquela água que jorra ali, porque só pode ser ela. Fontes do Palácio do Planalto! Eu olho para aquela água todo dia com uma suspeição de que ela anda falando demais.

Jornalista: Presidente... a reação do Brasil...

Jornalista: A senhora está engasgada com as notícias sobre a sua estada em Lisboa?

Presidenta: Olha, eu vou te falar, viu? Eu acho fantástico. Vou te falar o que eu acho fantástico. Eu fui pra Zurique, e pra Davos. E tinha uma estrutura em Zurique e Davos. E não comparem o gasto em Zurique, ou na Suíça, com o gasto em Portugal. Não vamos comparar. Agora interessante que foram procurar meu gasto lá em Portugal, e não em Zurique. A minha estrutura, aliás, até vocês lembram, houve aquela crítica violenta ao “aeroLula”, vocês lembram disso? Bom, o avião chamado “aeroLula”, ele não tem autonomia de voo, ao contrário dos aviões do México e de outros países, da Argentina, é, aqui você vai achar vários aviões com maior autonomia que a minha. Eu, pra ir, eu faço uma escala. Para voltar, eu faço duas, para voltar para o Brasil. Neste caso agora nós tínhamos uma discussão. Eu tinha que sair de Zurique, podia ir para Boston, ou pra Boston, até porque... vocês vão perguntar, mas é mais longe? Não é não, a Terra é curva. De Zurique eu ia para Boston, para Pensilvânia, ou para Washington. Acontece, como vocês sabem, tinha, podia ter, não se sabia se confirmaria ou se não confirmaria. Tinha um problema forte lá por causa das nevascas. Então a Aeronáutica montou uma outra alternativa. Eu cheguei. Qual é essa outra alternativa? Eu fui para Lisboa com a equipe que estava comigo em Zurique e Davos. E lembra bem, hein? Tem uma parte da equipe que faz mais escalas do que eu, porque o meu é um airbus-319. O deles é um avião do Escav, o avião reserva, ele tem menos autonomia de voo ainda do que o meu. Bom, então saí de Zurique, pousei em Lisboa às 5h30 da tarde, e fui embora às 9 horas da manhã. Quem anunciou que eu estava passando um fim de semana em Lisboa não sabe fazer a conta. Eu dormi em Lisboa. No que se refere a restaurante, eu quero avisar para vocês o seguinte: é exigência de todos, para todos os ministros, eu só faço exigência que eu também exijo de mim, que quem jantar ou almoçar comigo, pague a sua conta. Já houve casos chatos no dia do meu aniversário porque a conta foi um pouquinho alta e tinha gente – que eu não vou dizer quem – que estava acostumada que seria um pagamento do governo. No meu aniversário eu paguei a minha parte, porque é assim que eu lido com isso. Então, não vem... eu posso escolher o restaurante que for, desde que eu pague a minha conta. Eu pago a minha conta, pode ter certeza disso. Pode olhar em todos os restaurantes que eu estive, em alguns causando constrangimento porque fica esquisito uma presidente e uma porção de ministros fazendo aquela conta: “é quanto para cada um? Soma aí, deu quanto?” E com calculadora. Tem gente que acha estranho. Eu acho que isso é extremamente democrático e republicano. Não tem... Não, só um pouquinho. Não tem a menor condição de, alguma vez, eu usar cartão corporativo. Não fiz isso. Até, no meu caso, está previsto para mim cartão corporativo, mas eu não faço isso porque eu considero que é de todo oportuno que eu dê exemplo, diferenciando o que é consumo privado do que é consumo público. Então, podem ter certeza disso.

Jornalista: ...a imagem da senhora de austeridade, presidenta?

Presidenta: Olha, você sabe, eu vou preferir... eu não olho o que as pessoas... eu não olho o que tem por trás das coisas, sabe? Cheguei a um ponto que o couro ficou duro, não preciso olhar isso. Eu não suporto, numa boa... É da vida, é papel de vocês.

Jornalista: A reforma ministerial, presidente, a senhora está voltando agora para o Brasil...

Presidenta: Ah, não. Reforma ministerial eu converso no Brasil. Fora do Brasil eu converso sobre assuntos fora do Brasil. Por quê? Porque isso é uma questão de respeito com a população brasileira. Tá, gente? Beijos.

 

Ouça a íntegra (27min35s) da entrevista da Presidenta Dilma

 

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