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Palestra proferida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, na Harvard Kennedy School of Government

por Portal do Planalto publicado 10/04/2012 21h48, última modificação 04/07/2014 20h10
Segundo a presidenta, apesar da crise econômica internacional, o Brasil tem conseguido manter o crescimento graças ao mercado interno

 

Boston-EUA, 10 de abril de 2012

 

Para mim, boa noite, é um prazer... Boa tarde, indo para a noite, é um prazer estar aqui, em Harvard, mais uma vez.

Eu queria cumprimentar o professor David Wood, decano da Kennedy School of Government.

Queria cumprimentar, também, a professora Merilee Grindle, diretora do Centro David Rockefeller para Estudos da América Latina.

Saúdo a comunidade docente e os estudantes de Harvard, em especial   as alunas e alunos do Brasil nesta renomada instituição.

Queria cumprimentar também os ministros que me acompanham nesta visita e cumprimentar os senhores representantes da imprensa, fotógrafos e cinegrafistas.

 

Eu expresso aqui a minha enorme satisfação de poder falar em Harvard. Eu conheço a importância desta instituição, porque como ministra de Minas e Energia do Brasil, a ela recorri para que nós pudéssemos delinear o modelo do setor elétrico no Brasil e levar luz através de um programa chamado Luz para Todos a mais de 12 milhões de brasileiros e brasileiras que não tinham em pleno século 21 acesso à energia elétrica.

Agradeço mais uma vez ao professor Ashley Brow, que coordenava, naquela época, o grupo de apoio ao Brasil nesta área. Eu estou também muito honrada de estar aqui, porque, pela primeira vez na história, Harvard está sob a direção de uma mulher, a reitora Drew Faust.

Estou certa de que o nível de avanço de uma sociedade pode ser avaliado pelo papel que desempenham as mulheres e isso para nós é um elemento de civilização, termos homens e mulheres em condições de ser presidentes de Harvard e presidentes do Brasil.

Agradeço a instituição Harvard Kennedy School of Goverment por permitir que eu compartilhe com vocês reflexões sobre o meu país, o Brasil.             Nós, brasileiros, temos muito orgulho de fazer parte das chamadas nações emergentes, que, na verdade, têm sustentado o crescimento econômico nesses últimos anos. Nós, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, os países do BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – respondemos por 56% do crescimento global.

Mas a posição que o Brasil ocupa decorre fundamentalmente das transformações sociais, econômicas e políticas que tiveram início quando o presidente Luiz Inácio da Silva foi em 2003 eleito no Brasil, mudando uma situação política e chegando, pela primeira vez, como um líder metalúrgico à direção do governo brasileiro. A partir daí, e até o meu governo, nós, nessa última década, praticamente uma década, nós tivemos mudanças muito importantes que levaram à estabilidade econômica, ao crescimento, à inclusão social com distribuição de renda. Talvez o Brasil seja um dos poucos países do mundo em que a desigualdade, ao invés de ampliar, encurtou. E isso nos orgulha muito, porque nós temos certeza que esse é um processo crucial para dar estabilidade política, para dar estabilidade social, mas, sobretudo, como uma força impulsionadora de grande porte. Levar brasileiros e brasileiras às classes médias significa para o Brasil como agregar uma Argentina no seu mercado consumidor, no seu potencial de fornecer empreendedores e também na capacidade de trabalho do país.

Nós também conseguimos estabilidade macroeconômica. Colocamos a inflação sob controle e as variáveis que informam a robustez fiscal de um país, elas melhoraram muito. Sobretudo, o Brasil era um país com uma grande dívida pública. E é importante sinalizar que a relação entre dívida interna líquida e Produto Interno Bruto, que em 2002 era de 60,4%, é hoje de 36,5%. Esse país, Brasil, tem hoje, um país que dependia, quando nós chegamos, do Fundo Monetário, tem US$ 362 bilhões de reserva, é um dos grandes compradores de títulos americanos e liquidou seus débitos com o Fundo Monetário, o que foi muito importante para o país, porque isso significou que nós pudéssemos assumir nas nossas próprias mãos toda a condução da política econômica e da política social. E nós passamos de devedores a credores do Fundo.

Mas, eu vou insistir, o aspecto mais importante desse processo, o aspecto que dá grande força e sustenta o crescimento da economia brasileira, é a chegada de 40 milhões de brasileiros as classes médias. Isso é um fator de muito dinamismo na nossa economia. Durante muitos anos, era voz corrente no Brasil, que não era possível ter crescimento econômico e resolver a questão da imensa desigualdade social que caracterizava o meu país. Nós não resolvemos ainda essa desigualdade. Nós estamos no caminho de resolver e ainda temos 16 milhões de brasileiros, que nós sabemos onde estão, quem são e isso vai nos permitir, assegurar que pelo menos tenhamos condições, políticas, tecnologias e programas adequados para hoje tirá-los da pobreza.

Nós viemos criando em torno de 2 milhões de empregos por ano. E temos uma expansão do consumo a uma taxa superior a 8%. E por isso, esses 8% decorrem justamente do fato de que essas pessoas chegaram à condição de consumidores. Nós também democratizamos o crédito e demos acesso a contas bancárias a milhões de brasileiros. Construímos uma poderosa rede de proteção social. Eu acredito que o Brasil seja hoje um país, que na área de políticas sociais, tenha conseguido armazenar um arsenal de tecnologias capazes de influir diretamente na questão da desigualdade.

Essa rede de proteção social, ela abrange idosos, mulheres, afrodescendentes e outros segmentos discriminados, além, obviamente, de uma política social extremamente inclusiva, que passa, por exemplo, por garantir agora, neste final de 2012, que nós tenhamos uma situação de universalização da energia elétrica.

Quando eu cheguei ao Ministério de Minas e Energia, em 2003, praticamente 12 milhões de brasileiros não tinham acesso à energia elétrica, e todos eles viviam no segmento rural. É impossível ter desenvolvimento econômico sem acesso aos bens da civilização, os elementares bens da civilização, que é a luz elétrica.

Nós também ampliamos o nosso sistema educativo, chave, principal alavanca da inclusão social. E assim nós melhoramos o acesso e lutamos sempre, sistematicamente, para melhorar a qualidade da educação, da creche à pós-graduação. Nós não achamos que tenha uma fase mais importante que a outra. Todas elas formam a continuidade da nossa capacidade de tornar acessível à população brasileira ensino de qualidade. Isso significou a regionalização de universidades, de escolas técnicas e significou também uma volta a métodos mais adequados para avaliação das crianças e dos jovens. Nós voltamos a avaliar, algo que não era a praxe no Brasil.

Esse grande movimento de nossa sociedade teve também, como resultado importante, a redução das desigualdades regionais no Brasil. O Brasil é um país que teve sempre um Sul desenvolvido e um Sudeste, e um Norte e um Nordeste muito atrasado. Nós estamos reequilibrando esta relação, e isso explica por que o Nordeste do Brasil e o Norte têm taxas de crescimento similares às asiáticas, o que permitiu que houvesse uma diminuição da diferença entre as diferentes regiões.

O arrefecimento do comércio internacional não impediu que nossa corrente de comércio ultrapassasse, de forma inédita, os US$ 480 bilhões. E a crise fiscal também não nos atingiu. As contas do setor público brasileiro vêm melhorando sistematicamente e, como já disse, a redução da relação dívida líquida sobre PIB é um dos indicadores.

Mas eu tenho de ser muito clara com os senhores e as senhoras. Nós temos imensos desafios, imensos desafios até porque o Brasil é um país complexo. Nós temos de tratar da erradicação da miséria, ao mesmo tempo em que tratamos de assegurar que nós consigamos, não só educação de qualidade, mas gerar pesquisa científica, tecnológica e inovação. Nós temos de, ao mesmo tempo em que tratamos de uma questão que é do século, final do século 19 e início do 20, que é energia elétrica, temos de assegurar rede de banda larga nas principais regiões do Brasil e caminhar para tornar o Brasil um país ligado a toda estrutura nova e do futuro, que é essa economia do conhecimento, que emerge com a possibilidade da gente encurtar distâncias e ter acesso ao conhecimento, que a internet, e todos os outros mecanismos de tecnologia da informação e da comunicação permitem.

Nós sabemos, também, que nós somos afetados pela situação do mundo. E achamos que nós temos condições de enfrentar esse momento. Vivemos um momento de muita preocupação. Nós consideramos que a crise nos países desenvolvidos, e agora, mais recentemente, da União Europeia, ela persiste ainda com um quadro de recessão e desemprego muito forte.

Apesar de reconhecer que as ações dos bancos centrais, principalmente do Banco Central Europeu, melhorou muito a situação, nós sabemos que ainda persistem várias ameaças. De fato, os bancos centrais impediram que houvesse uma crise aguda de liquidez. Porém, o fato de persistirem só em políticas monetárias, e ao mesmo tempo, o fato de que os países que não estão na mira dos mercados, ou países que são superavitários, não terem políticas de expansão dos investimentos coloca alguns problemas muito fortes em cima dos países emergentes. Principalmente, uma forma de concorrência via desvalorização das moedas dos países desenvolvidos, que afeta e produz graves problemas sobre a indústria manufatureira dos países emergentes, o que é o caso do Brasil. Nós temos hoje, até porque temos um sistema bancário sólido e sadio, nós temos condições de fazer face a isso.

Mas consideramos que esse fator - só políticas de consolidação fiscal e não políticas de expansão daqueles que podem - não contribuem para a retomada do crescimento, nem da prosperidade. Além disso, temos um problema sério que é o preço do petróleo, num quadro de recessão da demanda dos países desenvolvidos, que vai contribuir para impedir também a retomada do crescimento.

Mas, de qualquer jeito, eu queria sinalizar, que o Brasil, neste ano de 2012, está melhor situado do que no ano passado. Nós tivemos, o ano passado, de fazer uns rearranjos na nossa política macroeconômica e estamos, neste ano, prontos para crescer de forma mais significativa do que crescemos no ano passado.

E tudo isso, eu queria sinalizar, foi feito com respeito à democracia, que, no Brasil, se expande progressivamente. Porque a democracia é algo que você tem que tratar sistematicamente, você tem que assegurar que ela ocorra. E afirmando também, tanto os direitos humanos, quanto a questão da presença soberana do Brasil no mundo.

Para nós e para os da minha geração, eu própria, que pagamos um elevado preço por opor nos à ditadura, que durou no Brasil em torno de 20 anos, nós aprendemos não nos livros. É possível aprender nos livros, eu acho que é um jeito melhor de aprender até. Mas também com as nossas experiências sobre a importância da democracia e dos direitos humanos. E acho que o país, o Brasil tem hoje um grande mérito. Nós somos uma grande democracia e eu sempre digo que é muito melhor as múltiplas vozes que a gente escuta na democracia, mesmo que sejam contra algumas coisas que você é ou pensa, do que o silêncio das ditaduras. Esta uma realidade que nós incorporamos no Brasil, porque o povo aprendeu isso.

Nós no passado vivíamos sempre de costas para a nossa região. Nós só olhávamos o mundo com uma ótica eurocentrista ou também só focada nos Estados Unidos. O Brasil mudou bastante. O Brasil hoje olha para os seus vizinhos, para a sua região, nós vivemos há 140 anos em paz com os nossos vizinhos e acreditamos que a cooperação com os países latino-americanos, caribenhos é estratégica para a nossa região. Temos hoje uma relação sólida e percebemos claramente a importância dos Estados Unidos para o Brasil. Nós achamos que neste mundo multipolar que esta surgindo os Estados Unidos terão um papel estratégico.

Primeiro, porque, por alguns motivos muito simples. Primeiro, porque os Estados Unidos têm uma economia flexível, que sempre foi capaz de enfrentar as crises. E, segundo, porque é um país detentor da liderança nas áreas de ciência, tecnologia e inovação. E, terceiro, porque as forças democráticas que fundaram este país tornaram este país com grande capacidade de reação. Eu tenho certeza que, para o século 21, do ponto de vista do Brasil, nos interessa essa parceria. E interessa essa parceria e ela tem um lugar especial na medida em que somos as duas democracias, grandes democracias deste hemisfério. E, além disso, acredito que temos uma especial relação, porque somos democracias jovens, multiétnicas e temos similaridades em várias características culturais e comportamentais.

Nós também reatamos nossos laços com a África. Nós temos uma relação muito íntima com a África. Nós achamos que a raiz – e reconhecemos isso, e nos orgulhamos disso – a raiz de mais da metade da população brasileira está lá, está na África. É responsável por uma parte expressiva da alegria do povo brasileiro a sua capacidade de ser flexível e também é um componente da nossa criatividade.

Nós construímos uma parceria, que eu considero também muito importante, com os países BRICS. Essa parceria permite que países diversos, nos diferentes continentes do mundo, tenham um contato sistemático e tratem dos seus assuntos, mesmo que, muitas vezes, nem todas as questões sejam resolvidas, porque não se tem consenso amplo. Mas, naquilo que se tem consenso, nós temos sido muito bem-sucedidos, e temos o hábito de nos consultar, o que também é muito importante.

Nós queremos, hoje, deixar claro que recessão, desemprego e precarização do trabalho não constituem saídas sistemáticas para a crise. Acreditamos que, junto com políticas fiscais sóbrias, é fundamental a recuperação do investimento, do consumo para retomada do crescimento. O Brasil tem uma experiência nesta área de 20 anos. Durante 20 anos, nós aplicamos só processos de consolidação fiscal, melhor dizendo, de ajuste fiscal radical. E tivemos extremas dificuldades de sair de um processo de estagnação, de crescimento baixo, de ausência de políticas sociais, ao ponto de ser um problema grande para nós uma política de saneamento nas grandes cidades brasileiras, porque não tínhamos capacidade nem de financiar o saneamento nem tampouco de usar recursos públicos para fazer.

Durante muito tempo também sequer tivemos um programa habitacional descente. O fato de termos conseguido superar as relações que nos tornavam independente do Fundo Monetário Internacional permitiu, não só que fizéssemos política sociais de integração, como essa hoje Brasil sem Miséria, mas também permitiu que nós víssemos que não é só por uma questão ética, é por uma questão ética também, que é necessário eliminar a pobreza e reduzir a desigualdade entre as diferentes camadas da população, a desigualdade de renda e de oportunidade, sobretudo. Mas é por uma razão econômica. Um país como o Brasil tem no seu mercado interno de massas uma das maiores forças de sustentação do seu crescimento. Se nós não tivéssemos isso a cada crise que ocorria nos países desenvolvidos nós entrávamos, como diziam, um espirro aqui fora, levava a uma pneumonia dentro do país.

Esse processo hoje ele mudou, porque o Brasil está focado nessa relação que parte do seu mercado interno e que mira o mercado internacional. Nós não somos um país protecionista, nós não consideramos correto o protecionismo, nem achamos que ele rende em matéria de crescimento da competitividade do país. Pelo contrário, o que nós temos clareza é que é fundamental para o Brasil ter 190 milhões de habitantes, ser um país continental, que tem uma riqueza inequívoca no pré-sal, que tem minério, que tem uma agricultura com capacidade produtiva e tecnológica elevada, e que tem uma indústria complexa, que sofre bastante no momento atual, mas que sobreviverá, eu posso assegurar aos senhores e se tornará um dos suportes do crescimento brasileiro.

Nós temos, no entanto, um gravíssimo atraso a superar na educação. Todo esforço ao longo desses anos, no sentido de ampliar o acesso, de assegurar e de ofertar oportunidades, ele vai exigir que nós apostemos imensamente e coloquemos todos os nossos esforços nesta questão de igualdade e oportunidades, no que se refere à educação.

É isso que pode construir um país de classe média, como um país que é capaz de se reformar a si mesmo. Eu queria lembrar para vocês, que no século 16 foram criadas as primeiras universidades na América Latina. Harvard, eu olhei, data no século 17. No Brasil, as universidades surgiram apenas no século 20. Esse processo nós temos de acelerar agora. Nós queremos melhorar a qualidade do ensino universitário, mas, de fato, nós queremos resolver o problema da creche a pós-graduação. O Brasil precisa de creches. Brasil precisa de creches, porque é uma das raízes da desigualdade está no acesso diferenciado que as crianças têm a estímulos pedagógicos, a apoio, acolhimento e a uma estrutura afetiva. Isso, para nós, é crucial, como um mecanismo de desigualdade no Brasil. A educação é o fator relevante para nós.

Por isso, nós consideramos que todo o esforço que fazemos, no sentido de ampliar as bolsas, de garantir o acesso a universidades privadas, comprando vagas em troca de impostos, ampliação da nossa capacidade de financiar o estudo em universidades privadas, juntamente com a expansão das universidades públicas e a interiorização dessas universidades, são momentos e são passos nesses processos. Mas agora trata-se também de assegurar que alguns déficits que nós temos sejam resolvidos, que alguns modelos de articulação entre a pesquisa científica que existe dentro dos institutos de pesquisas e nas universidades brasileiras seja muito vinculada a questão da inovação.

Nós não podemos mais ter uma visão muito característica dos países de origem ibérica, que dá mais importância, não que elas não tenham importância, mas dá mais importância a uma publicação do que a uma patente. Nós damos, nós temos que dar importância a patentes. E o Brasil precisa de fazer um imenso esforço para que este processo se complete dentro dessa dupla característica: amplia oportunidade, garante mais acesso e melhora a qualidade.

Até porque, um dos efeitos de levar à classe média a 40 milhões de pessoas, é que essas 40 milhões de pessoas passam a ser sujeitos, passam a ter reivindicações. No passado, havia claramente um divisor de águas. Todo serviço público era para o que nós chamávamos de população de baixa renda. Todo serviço, por exemplo, de educação e de saúde privado era para a população de classe média alta e para as camadas mais ricas. Agora, o que está acontecendo no Brasil é que o serviço público tem de melhorar a qualidade. Isso também significa que também o Estado brasileiro vai ser cobrado no sentido de garantir e assegurar uma qualidade no serviço público que ele jamais teve antes. O Brasil mudou. Quando se mexe com milhões de pessoas, se eleva a renda e se cria oportunidades, essas pessoas também tornam-se críticas, são capazes de reivindicar. E nós, governantes, temos de dar a resposta a não ser que queiramos que essas pessoas não apoiem as políticas dos governos.

Por isso, que eu acredito que nós estamos no bom caminho com o programa Ciência Sem Fronteiras. Por que ele é um bom caminho? Porque nós sabemos que as grandes empresas brasileiras, elas são capazes de gerar, através das suas universidades corporativas e dos seus contatos e das suas relações com instituições internacionais, elas são capazes de formar seus gerentes, elas são capazes de gerar a tecnologia que lhes interessa. O Brasil tem experiência nessa área, por exemplo, com o Cenps da Petrobras, que é um dos centros que gerou conhecimento para que nós achássemos petróleo a sete mil metros abaixo da lâmina da água.

No entanto, o que nos interessa com o programa Ciência Sem Fronteira é garantir e assegurar e progressivamente ampliar isso. Essa primeira etapa com 100 mil estudantes é isso. É uma primeira etapa. Outras seguirão, porque o que nos interessa? Primeiro é garantir que estudantes tenham acesso a melhores instituições – estudantes de graduação. Mas, além dos estudantes de graduação, professores e doutores, que possam utilizar as oportunidades dadas por uma bolsa bancada pelo país para estudar no exterior e trocar experiências, mas, além disso, nós queremos trazer pesquisadores seniores e juniores para ter uma relação como Brasil.

Nós achamos que o que caracteriza esse século XXI - e esse é o nosso esforço que vamos fazer - é assegurar que seja possível essa trajetória. Essa trajetória em que o Brasil tem que correr muito para estar à altura dos desafios que se nos apresentam no caso da ciência, tecnologia e inovação.

Eu queria aproveitar a oportunidade para agradecer as autoridades dessa instituição pela disposição de facilitar o nosso projeto no Ciência Sem Fronteiras.

Eu queria, também, finalizando a minha intervenção falar da importância que nós atribuímos à Conferência da ONU, Rio+20. A Conferência da Rio+20 vai estudar, vai discutir e vai trabalhar um novo paradigma para os próximos anos no que se refere ao desenvolvimento.

Vejam vocês que, além da Conferência das Partes Sobre Mudança do Clima, da ONU, que ocorreu em Durban, e se seguirá no final deste ano, nós temos a Conferência do Rio+20 e temos também a Conferência da Biodiversidade na Índia. Mas a Conferência Rio+20 é uma que foca, não só nem na mudança no clima, nem na biodiversidade. Ela foca no conceito de desenvolvimento sustentável. E a pergunta é: qual é o desenvolvimento sustentável para as próximas décadas, neste século?

O Brasil e a ONU concordam em que o tema desta Conferência seja sintetizado na seguinte questão: nós podemos crescer, incluir e preservar, e proteger, ou seja, focando na importância que eu acho que, cada vez, as consequências dessa crise que atinge os países desenvolvidos e muitos dos países em desenvolvimento, que é a ampliação da desigualdade social no mundo, vai tornar-se progressivamente o centro de muitas discussões. Portanto, nós colocamos a questão da redução da desigualdade e da inclusão social, ou da inclusão em todas as áreas, com todas as oportunidades, uma questão essencial que emerge desse momento e dessa conjuntura política.

Junto com isso, a questão do direito ao crescimento, e a questão do respeito e proteção do meio ambiente. Nós somos um país que, nessa área, tem uma situação especial, eu reconheço isso. Nós temos uma matriz de energia baseada fundamentalmente em energias renováveis, o que não é o caso da maioria dos países, que tem a sua matriz baseada em energia fósseis ou físseis.

O Brasil também tem uma grande biodiversidade, é um dos países mais biodiversos do mundo, e vê nisso um grande potencial de crescimento na área de biotecnologia e, enfim, na proteção dessa biodiversidade. Ao mesmo tempo, nós temos as nossas florestas a preservar, os nossos grandes rios a proteger. Nós não queremos ser um país devastado. Nós temos a maior reserva florestal do mundo na Amazônia, mas temos também um bioma como o Pantanal e outros e, para nós, esta é uma questão fundamental de discussão do futuro: a questão de como é possível no mundo, um mundo que tem de usar a tecnologia para isso, que tem de usar também a vontade política, como é  possível um mundo em que o crescimento, a inclusão social e a distribuição de renda, e a preservação do meio ambiente, é um mundo possível. Essa é a pauta de discussão.

Eu queria dizer para vocês que eu estou muito feliz de estar aqui. Eu nasci num estado onde houve os primeiros movimentos de emancipação do jugo colonial, que chamou Inconfidência Mineira, e que foi derrotada, mas foi um marco na luta pela liberdade.

Quem inspirou as lideranças da Inconfidência Mineira, com as ideias do Iluminismo e os princípios de liberdade, foi a Revolução Americana. Eu acredito que esses princípios libertários, que remontam a séculos atrás, possam também nortear nossos povos para sedimentar nossa cooperação econômica e política, e aproximar, cada vez mais, nossas culturas.

Eu tenho certeza, como eu disse hoje, que o Brasil precisa de Harvard. Acredito, também, que Harvard, considerando que nós somos, hoje, com todas ainda essas deficiências, a sexta economia, é bom para Harvard se aproximar do Brasil.

(Pergunta em inglês)

Presidenta: Ter certeza que elas podem. Durante a minha campanha eleitoral, aproximou-se de mim, no aeroporto, uma senhora com uma criança, uma moça com uma criança. Era uma menina. E ela chegou, ela me via na televisão, então a menina chegou para mim e perguntou: “Eu queria saber se as meninas podem”. E eu perguntei para ela: “Podem o quê?”. Ela me disse: “Ser presidenta”. Eu falei: “Podem, podem”.

E, aí, eu percebi uma coisa: eu não sonhava em ser Presidenta. A minha geração... Eu sonhava em ser uma de duas coisas: ou bailarina, ou participar do Corpo de Bombeiros, apagar incêndio. Hoje as meninas podem sonhar com uma terceira opção: ser presidentas do Brasil. Podem também sonhar em ser presidentas de Harvard.

 

__________: Boa noite, Presidenta. Muito bem-vinda a Harvard, mais especificamente à Escola de Governo. Eu sou um dos brasileiros que estuda aqui, na Escola de Governo.

Dentre vários problemas do Brasil, uma das coisas que me preocupa é a nossa falta de conscientização política. Como a gente sabe, o deputado federal mais votado do Brasil é o Tiririca, que literalmente ganhou a eleição pedindo votos para aqueles que não sabem o que um deputado federal faz. Isso reflete a nossa falta de conscientização política, de um modo geral. Eu, particularmente, tenho um grande dilema que é se eu devo ou não entrar na política, me considerando uma pessoa bem capacitada e bem intencionada. E a minha pergunta é se eu devo ou não enfrentar esse mau estigma que existe no Brasil, de que todo político é corrupto. Então, eu acho que muitas pessoas bem capacitadas e bem qualificadas acabam decidindo entrar em outras carreiras profissionais por causa... para não enfrentar esse estigma.

Então, a minha pergunta é: o que a senhora tem a dizer para esse tipo de brasileiro que, muitas vezes, foge da política por causa desse mau estigma e acaba criando um cenário, uma legislação... um grupo de deputados do Brasil como o que a gente vê hoje, com notícias recorrentes de corrupção e tudo o mais.

Presidenta: Olha, eu acredito que a gente tem de tratar a corrupção e combater a corrupção. Isso não pode permitir uma visão, que eu acredito que é uma visão perigosa de que, se você não participar da política, você não sofre as consequências de qualquer ato corrupto, que, aliás, é bom que se diga, que no Brasil há a prática de ver só o político corrupto, mas não vê quem é o corruptor. E o corruptor, infelizmente também, está no setor privado.

Essa relação complexa que ela tem de ser tratada de forma objetiva. Acho que a iniciativa do presidente Obama do Governo Aberto... nós acabamos de aprovar uma Lei de Acesso à Informação, em que o Estado brasileiro coloca, abertamente, todas as suas informações. Além disso, toda a... talvez seja um dos poucos países que tenha um Portal da Transparência e que todas as transações do governo apareçam imediatamente num Portal da Transparência.

O Brasil está fazendo um grande esforço, lutando contra a corrupção. Eu posso te assegurar que o meu governo está fazendo isso e fará isso sem contemplação. Acho que a democracia é que nem o sol: é o melhor antídoto contra práticas de corrupção. Quanto mais pessoas bem-intencionadas como você participarem, menos haverá espaço para políticos que não utilizam métodos corretos, que fazem malfeitos.

Este é um processo que deve levar, não à omissão, mas, sim, à participação. Eu tenho certeza disso. Acho que a grande parte das pessoas – e não dá para falar “os políticos são corruptos” –, a grande parte das pessoas, elas precisam de instituições virtuosas. E aí é que nem dizia Montesquieu: “os homens, os homens não são virtuosos, as instituições têm de ser virtuosas”.

Nós também temos de garantir que haja um controle institucional dos processos, das práticas, que impeça, mesmo que possa ter uma pessoa querendo fazer um malfeito, que dificulte a vida dela. E aí eu concordo com essa iniciativa do presidente Obama, da qual eu sou co-presidente, que é o Governo Aberto, transparência, um grande esforço no sentido de lutar, sistematicamente, contra a corrupção. Daí você precisa de monitorar todos os atos, deixá-los todos abertos, deixar a sociedade vê-los e, ao mesmo tempo, tomar providências, doa a quem doer.

Agora, participa, viu? Participa! Estou te pedindo, participa.

(Pergunta em inglês)

Presidenta: Olha... Primeiro, eu quero dizer uma coisa para vocês. Eu tenho grande respeito pelo Chávez e não me arrogo o direito de fazer recomendação para país nenhum, acho isso muito perigoso, como eu não gostaria que fizessem comentários sobre o meu país. Agora, espero que ele melhore da saúde. Eu já lutei contra um câncer e espero que ele supere o dele.

Pergunta: Presidente Dilma, o meu nome é Dário Galvão. A minha pergunta é: o governo brasileiro, ele está patrocinando para os jovens virem estudar aqui, e qual é a possibilidade para os jovens que já moram aqui, que são imigrantes legais, que não podem estudar, a possibilidade de o governo brasileiro liberar algumas vagas para jovens imigrantes que moram neste país aqui, que não podem ir para a faculdade?

Presidenta: Olha, eu quero ser muito sincera com você. Nós temos, nós temos 190 milhões de pessoas no Brasil que eu tenho de dar conta delas. Nós não podemos dar conta de tudo imediatamente.

Eu te asseguro que eu gostaria muito que os que imigraram tivessem oportunidades. Agora, a prioridade que eu tenho de encarar é a prioridade dos que estão no Brasil, eu tenho de dar conta deles. As pessoas que moram aqui têm acesso a outras oportunidades que as pessoas que moram no Brasil não têm. Então, eu tenho primeiro de atendê-las.

E eu quero te dizer que, talvez ao longo do meu governo, eu não tenha como atender os imigrantes. Eu tenho como protegê-los, tenho como colocar todo o consulado garantindo condições, melhorando as condições, fazendo conversas com os governos, no sentido de melhorar as condições. Mas eu não tenho como dar para todos os emigrados as mesmas condições que eu tenho de dar no Brasil, não tenho como fazer isso.

(Pergunta em inglês)

Presidenta: O Chávez hoje está feliz.

(Pergunta em inglês)

Presidenta: Olha, eu sempre defendo os direitos humanos. Agora, não vou te responder uma pergunta que eu não sei todas as circunstâncias. Eu não posso ficar te respondendo se eu não sei de quem se trata, não sei quem é, não sei como é que é.

Eu te digo o seguinte: acho que do ponto de vista do Brasil, sempre que nós podemos e temos oportunidade, nós manifestamos o interesse do país em respeito aos direitos humanos. Agora, eu sei também uma coisa: o Brasil tem grande desrespeito aos direitos humanos. Eu sei o que acontece, não tenho como impedir, em todas as delegacias do Brasil, de haver tortura.

Sei o que acontece em Guantánamo, sei o que acontece em prisões, por exemplo, essa que você está falando. Não conheço bem, mas, se está preso, é uma pessoa que está em condições mais desprotegidas.

Eu considero que direitos humanos não podem ser objeto de luta política e não farei luta política com direitos humanos. Por que? Porque eu não considero que existe só um país ou um grupo de países que violam os direitos humanos, e por isso, como eu sei que vários países violam os direitos humanos, eu gostaria de discutir sempre essa questão multilateralmente, porque eu sei que se usa os direitos humanos para se fazer política pelo mundo afora.

(Pergunta em inglês)

Presidenta: A Copa do Mundo é o Brasil. Agora, a Argentina é um dos maiores parceiros do Brasil. O Brasil tem uma relação toda especial com a Argentina. Dos países da América Latina é o nosso vizinho e o país com desenvolvimento mais próximo do nosso. Nós estamos defendendo, não só com a Argentina, mas com o Uruguai, com o Chile, com todos os países do continente, uma aproximação que leve à maior cooperação, à integração de cadeias produtivas e à melhoria, cada vez maior, dos investimentos respectivos entre os países, principalmente na área de infraestrutura.

É importante dizer que aquela região do mundo, ela, quase toda, passou por um processo de crescimento com distribuição de renda. Houve uma melhoria significativa do que era o início da década para hoje. E eu considero que o Brasil tem um papel importante na América Latina. Nós não queremos ter uma relação em que nós subordinaríamos países. Nós queremos ter uma relação de parceiros e iguais, dentro da América Latina. Eu acho que isso é importante e está se manifestando em várias instituições: na Unasul, que congrega todos os países da América do Sul; na Celac, que congrega todos países da América do Sul e do Caribe e no próprio Mercosul. Nós temos de ter, inclusive, uma capacidade de melhorarmos nossas consultas, porque, geralmente, quando tem efeitos de instabilidade internacional sobre nossas economias, quando nós reagimos juntos sempre é melhor. Tomamos decisões em conjunto sobre políticas comuns, por exemplo, do que fazer em relação a oscilações financeiras, a problemas cambiais.

E, sobretudo, hoje, temos uma visão de mercado regional e não de mercado de cada país, tanto é que nós sempre discutimos conteúdo regional da produção. E acredito que a América Latina, ela ainda vai dar muito orgulho para o mundo, porque há, depois de décadas e décadas de problemas muito sérios. No caso da Argentina e no caso do Brasil, vivemos crises e empobrecimento de nossas populações em momentos assustadores, vimos parte das nossas economias serem... deteriorarem. E agora acho que nós estamos numa situação muito melhor, mantemos taxas de crescimento elevadas. A crise está nos afetando, a todos nós, em maior ou menor medida. Não temos ainda decréscimo muito expressivo no crescimento, mas a crise está nos afetando.

Nesse final de semana, nos dias 14 e 15, nós vamos nos reunir, a Cúpula das Américas, que inclui, além de todos os países da América do Sul e do Caribe, os países do Hemisfério Norte – Estados Unidos, Canadá e México. E eu acredito que essa Cúpula, ela terá um papel fundamental em dar respostas concretas para esse momento que todos nós vivemos.

Agora, lembrem bem: é o Brasil que vai ganhar.

 

Ouça a íntegra da palestra (56min53s) da Presidenta Dilma