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Palestra proferida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, aos participantes do Exame Fórum 2011

por Portal do Planalto publicado 30/09/2011 17h09, última modificação 04/07/2014 20h07
Com a participação de, aproximadamente, 400 empresários e executivos, o encontro oferece a oportunidade de troca de perspectivas entre os setores público e privado

 

São Paulo-SP, 30 de setembro de 2011

 

Eu queria, primeiro, cumprimentar aqui todos os presentes, dizer que eu estou muito feliz de estar aqui hoje, conversando com vocês.

E vou cumprimentar e agradecer o convite do Giancarlo Civita, vice-presidente do Conselho da Abrilpar. Desejar o mais rápido retorno do Roberto Civita para o nosso país.

Cumprimentar também o Fábio Barbosa, presidente executivo do Grupo Abril, com quem eu tive o prazer de compartilhar o Conselho da Petrobras, nos últimos oito anos,

Cumprimentar também o ministro da Educação, Fernando Haddad; o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel; a ministra Helena Chagas,

Queria cumprimentar também um querido amigo e companheiro, Luiz Fernando Furlan, que também compartilhou comigo o governo do presidente Lula e de quem eu me julgo amiga,

Queria cumprimentar a todos os presentes na minha mesa: O nosso grande empresário Jorge Gerdau, que hoje contribui para construir a maior competitividade e eficiência do sistema governamental. E agradecer os esforços, a dedicação e, sobretudo, o espírito público da pessoa que se aproximou de nós de uma forma absolutamente generosa e tem contribuído para que o nosso país avance, principalmente o setor público.

Cumprimento também o Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, que tem sido sistematicamente parceiro do governo nas boas causas. Agradeço todo o empenho do Bradesco em contribuir para esse programa de aumento da competitividade e de oportunidades para milhares de brasileiros, o programa Brasil sem Fronteiras.

Cumprimento também o Edson Bueno, da Amil, que, nos últimos tempos também tem sido, a partir do momento que eu tenho conhecido... travado conhecimento com ele, tem sido também um grande parceiro do meu governo.

Queria cumprimentar também a professora Maria Helena Guimarães de Castro, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, da Unicamp. E agradecer à Maria Helena Guimarães de Castro, o fato de que eu, ela e a ministra Helena somos as três mulheres da nossa mesa. Nós estamos aumentando, um dia a gente chega lá.

Queria agradecer também a presença das senhoras e senhores representantes dos setores empresarial e financeiro.

Cumprimentar as senhoras e os senhores da imprensa aqui presentes – jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos,

Queria cumprimentar todos os participantes do Exame Fórum 2011.

Neste momento, eu parabenizo a Revista Exame pela sua milésima edição. É muito importante para o nosso país que uma publicação financeira chegue às bancas no mês de setembro e tenha esse número para comemorar – a milésima edição. Essa é uma marca que somente publicações importantes têm. Por isso, meus parabéns (falha no áudio) Jean Carlos, (falha no áudio) Exame, por reunir nessa feliz iniciativa, lideranças representativas do empresariado brasileiro para dialogar sobre o presente e o futuro do Brasil.

Eu guardo muito boas lembranças quando eu estive aqui no ano passado para debater o tema: “Brasil, a construção da 5ª maior economia do mundo”. Acredito que nós todos temos o compromisso, sistematicamente, de fazer reflexões sobre a nossa economia, sobre o nosso futuro, sobre os nossos caminhos.

Naquela ocasião, eu disse que nós precisávamos mobilizar corações e mentes de toda a cidadania brasileira para construir mais do que um projeto econômico ou político, mas um projeto de nação. Eu disse também que as prioridades para o Brasil deveriam ser o investimento (falha no áudio) a manutenção de algo que se constitui (falha no áudio) forças do nosso país, que é a mobilidade social. E a continuidade do crescimento sustentado, baseado em (falha no áudio) entre nós que foi o nos aconteceu nas décadas de 1980 e 1990, de algo que se chamou, por várias (falha no áudio) de décadas perdidas.

Eu acredito que, de certo ponto de vista, eles têm toda razão, mas as décadas não foram perdidas porque eu acho que criou, em cada um de nós, o compromisso disto... de não deixar jamais aquilo se repetir, de aprender com um certo desregramento na condução da política econômica, de aprender com uma concentração de renda muito severa e, sobretudo, de aprender quais caminhos nós não íamos trilhar mais.

Por isso, eu considero que é muito importante que nós, sistematicamente, façamos o debate sobre qual é o nosso projeto de nação, e eu tenho certeza que só existe um projeto de nação capaz de mobilizar o país: aquele construído por cada um de nós, e que cada um... no qual cada um de nós se acredite representado.

Eu disse também, naquele momento, que eu pensava que todos esses compromissos eram muito importantes de serem encaminhados em conjunto. Hoje, depois que eu assumi o governo, eu torno a reiterar para vocês que eu tenho certeza de que nós temos de reforçar esses compromissos com a Educação e a inovação tecnológica, com o fim da pobreza extrema, com a garantia de mobilidade social para este país e com a continuidade do crescimento sustentado e macroeconomicamente equilibrado.

Nós sabemos que encarar esses desafios não é tarefa apenas dos governos. Nós sabemos que a sociedade brasileira, na sua diversidade, na sua complexidade, tem de ter uma presença muito efetiva para que nós possamos trilhar esses caminhos. E, por isso, hoje aqui eu considero que estamos em um momento especial, neste debate democrático, aberto e qualificado.

O tema proposto para o fórum é “A Construção de um Brasil Competitivo”, e identificar e propor as prioridades para tornar nosso Brasil cada vez mais competitivo é uma tarefa estratégica.

Por isso, eu gostaria de levantar, pontualmente, algumas questões com os senhores, para que nós possamos encaminhar uma discussão coletiva. Primeiro, eu queria avaliar a importância, para nós do governo, e, acreditamos nós, que também para a sociedade, quando, em vez de programas pontuais, nós propusemos que devíamos olhar para um horizonte de planejamento e definir um Programa de Aceleração do Crescimento baseado no aumento da competitividade, mas, sobretudo também, encarando as graves falhas em investimentos em infraestrutura que o país tinha.

O Programa de Aceleração do Crescimento, ele foi isso. Talvez, durante mais de 20 anos, o Brasil nunca tenha feito um programa que foi sistematicamente avaliado, de quatro em quatro meses, nos últimos cinco anos. As ações do Programa de Aceleração, a partir de 2007, tiveram muitos obstáculos. Nós tínhamos muitos obstáculos porque nós tínhamos parado de investir no Brasil. Mas nós conseguimos superar muitos, e duplicamos os investimentos públicos em infraestrutura, passando de 1,61% do PIB, em 2006, para 3,27%, em 2010. E temos clareza de que precisamos fazer muito mais que isso. E por isso, a nossa previsão é que o Programa de Aceleração do Crescimento 2 vai fazer um investimento da ordem de quase 1 trilhão – 955 bilhões – três quartos dos quais nós devemos fazer – ou dar início – até 2014.

O governo federal, ele está passando por um processo em que é fundamental a busca de eficiência. Nós sabemos, perfeitamente, que nenhum país do mundo deu um salto sem que ele modernizasse as suas estruturas de decisão, que ele modernizasse suas estruturas de investimento e que ele tivesse clareza de como a sua ação se ajustaria na outra metade ou nos outros dois terços, que é o investimento privado.

Daí porque essa busca de eficiência, ela faz parte intrínseca dos programas. Nós sabemos que, como fruto de vários anos sem investimento, houve muitos problemas na máquina pública brasileira. Mas sabemos, também, que nós temos de buscar essa parceria público-privada, porque é a forma de eficientizar, e tornar mais barato o custo dos investimentos. Porque também nós sabemos que a infraestrutura, ela exige uma taxa de retorno que tem de ser uma taxa de retorno e risco. Se nós nos dispusermos a pagar muito pela infraestrutura, o que nós faremos é onerar todos os outros setores econômicos, todos os outros.

Se nós não tivermos essa capacidade de interação público-privada, nós também tornaremos ineficientes um conjunto de investimentos. Por isso, nós temos nos esforçado muito por acompanhar sistematicamente os investimentos do PAC, sistematicamente buscando os melhores preços através das licitações, sistematicamente procurando garantir maior concorrência nessas licitações, e procurando enfrentar todos os problemas que implicam o mau uso dos recursos públicos.

Nós sabemos também que a insuficiência de infraestrutura é um dos maiores custos que o Brasil carrega, o que diminui sua competitividade em relação ao mundo. Por isso, eu quero lembrar a todos aqui presentes que, quando nós propomos a parceria público-privada, nós fazemos porque nós acreditamos que essa forma é a mais correta, porque é a mais produtiva, a mais barata, pela qual nós enfrentamos esse problema, que não é um problema que o Brasil vai superar só em 10 anos. Porque nós ficamos mais de 20 anos sem investir na nossa infraestrutura, ou melhor, até investimos um pouco, mas muito aquém do tamanho que o Brasil precisa e dos investimentos necessários.

Por isso, nós temos certeza de que, se o Estado tem papel decisivo no desenvolvimento do Brasil nessa área, o setor privado deve ser parte responsável pela modernização e ampliação da infraestrutura do nosso país, e assim tem sido.

Alguns grandes problemas nós conseguimos solucionar de uma forma muito satisfatória, e me refiro aqui aos grandes investimentos na área de geração de energia, na área de petróleo, e temos de enfrentar outros. Nós temos de enfrentar investimentos, por exemplo, na área de aeroportos e assegurar não só aeroportos para a Copa ou para as Olimpíadas. É importante assegurar aeroportos para a Copa e para as Olimpíadas, mas não é, sobretudo para isso, que o governo federal, o setor privado têm de fazer aeroportos. Nós temos de fazer aeroportos para nós mesmos, e para nós, no nosso cotidiano, na nossa atividade sistemática. E temos de fazer isso com horizonte, porque você não pensa estruturas complexas como a logística brasileira sem olhar o futuro. Hoje nós estamos fazendo, em três aeroportos, um planejamento para 2041. É no horizonte de 2041 que nós iremos fazer algumas das concessões de aeroportos. Outras, até 2031, mas temos de pensar a estrutura aeroportuária para o Brasil num horizonte de mais longo prazo.

Além disso, nós temos alguns desafios, nessa área, fundamentais. Nós seremos um dos países grandes produtores de petróleo do pré-sal, e trabalhar o pré-sal significa assegurar algumas coisas que são extremamente desafiantes e desafiadoras. Exemplo: garantir um conteúdo nacional para a nossa indústria. E não é um nacionalismo ultrapassado que nos faz pensar que é importante isso. É o fato de que a história demonstra que, se tem um setor perverso no que se trata do abandono do fornecimento de equipamentos, esse setor é o petróleo. O petróleo tem o poder imenso de deixar os países produzindo só o óleo bruto, não refinando, não fornecendo equipamentos para a sua indústria e empobrecendo o país e seu povo.

Nós, que temos essa bênção de possuir este país rico, e de termos encontrado, no pré-sal, o nosso petróleo, nós temos de ter um compromisso com a garantia de que a nossa indústria se transformará numa indústria naval com componente nacional significativo. Lembro a vocês que nós estamos puxando essa indústria pelos cabelos, como um escritor falou sobre outras coisas, mas nós puxamos, praticamente, a indústria naval pelos cabelos, porque ela tinha desaparecido em 2003. Quando nós chegamos no governo, eu fui encarregada pelo presidente Lula de criar as condições da indústria naval e não tinha indústria naval no Brasil.

E hoje nós estamos lutando para instaurar essa indústria naval, porque ela é crucial, porque este país não pode ser um país produtor só de matérias-primas, ele tem que ser um país industrial. Nós não podemos cair no conto do vigário, no sentido português da palavra, que transforma países em economias desequilibradas ou só terciárias ou só primárias, e sem indústria e sem a busca de tecnologias as mais avançadas.

Por isso, nós temos trabalhado nessa direção. Que a gente tem dificuldades, óbvio que nós temos dificuldades. Agora, pelo menos há uma característica que eu acho, do Brasil, que nós todos amadurecemos. Todos nós sabemos o que nós não podemos fazer outra vez, o que nós não iremos permitir que aconteça outra vez, porque nós tivemos décadas perdidas de crescimento.

Temos trabalhado também na questão tributária. No âmbito do Plano Brasil Maior, nós percebemos que é importante, para os setores econômicos do Brasil, uma redução do nível de tributação. E, aí, prorrogamos, no Plano Brasil Maior, até dezembro de 2012, a desoneração de IPI para bens de capital, material de construção, caminhões e veículos comerciais leves, como exemplos.

Eu acho importantíssimo, também, a devolução dos créditos de PIS/Cofins da exportação, sobre exportação de bens de capital ocorrer de forma automática. É um avanço do Brasil, no sentido de que o imposto não pode ser usado para outra coisa senão produzir o efeito econômico. E tornar lenta a sua devolução eu não acho que é um método eficiente de tributar.

Nós iniciamos algo que no Brasil não era feito há muito tempo: a desoneração da folha de pagamento. Nós desoneramos, começamos a desoneração da folha de pagamentos e fizemos de uma forma muito responsável. Nós fizemos com cautela, começamos aos poucos. Consideramos que para alguns setores isso vai ser muito importante, para outros setores pode não ser essa a forma melhor de desoneração. Também considero importante nesta conjuntura, porque temos de ter clareza de que nem sempre nós vamos agir da mesma forma em todas as conjunturas, mas, nesta conjuntura, é fundamental o Reintegro, porque ele vai devolver até 3% do valor exportado dos produtos manufaturados.

Um Programa que eu considero muito importante, tanto do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista do (incompreensível) social brasileiro, é o Supersimples, que nós aprimoramos. As faixas de enquadramento, por exemplo, foram reajustadas em 50% e o limite superior do faturamento passou para R$ 3,6 milhões. E, agora, com o estímulo à exportação, há um limite adicional de faturamento de mais  3,6 milhões, totalizando 7,2 milhões. No caso do microempreendedor individual, a receita bruta para enquadramento cresceu para R$ 60 mil por ano, aliada à contribuição ao INSS de 11 para 5% do salário mínimo.

Estamos atuando também no financiamento à atividade produtiva. Sabemos que o acesso a crédito em condições adequadas de custo é determinante, não só para a competitividade das empresas, mas também para a sua própria sobrevivência, sobretudo, em momentos de incerteza econômica.

Por isso, lançamos o crescer. Eu vou dar alguns exemplos do microcrédito produtivo orientado. Está em curso no BNDES, de outro lado, o Programa de Sustentação do Investimento com mais R$ 75 bilhões para financiar a produção e a aquisição de bens de capital.

Instituímos e agilizamos o financiamento que garantia as exportações e implantamos o Revitaliza II garantindo o financiamento ao investimento, associado ao capital de giro.

Eu não poderia deixar de mencionar aqui a redução, feita pelo Banco Central, da Selic. Graças aos nossos compromissos com a robustez fiscal, inclusive porque aumentamos nossa meta de superávit fiscal, em 2011, em R$ 10 bilhões. Estamos abrindo espaço para que o Banco Central, diante da crise e, inclusive, da ameaça de deflação e depressão em algumas economias desenvolvidas, possa iniciar um ciclo cauteloso e responsável de redução da taxa básica de juros. É importante, e é muito importante, diante do que nós vemos ocorrer no resto do mundo. E isso significa que o Brasil não pode, desta vez, errar na avaliação do que vai acontecer aqui como repercussão do que está acontecendo lá fora. Não é admissível que se, de fato, se configura uma recessão e um processo deflacionário no resto do mundo, nós aqui estejamos sem levar isso em conta.

Por isso é que eu acredito que, com muita cautela, mas com muita determinação, as políticas macroeconômicas do Brasil têm de avançar no sentido de utilizar todos os instrumentos para nos proteger.

Prezados empresários e empresárias,

Quando se fala em competitividade, a gente costuma relacionar imediatamente essa expressão às empresas. Nós não consideramos que o governo não tenha de dar a sua contribuição. Por isso, eu considero que a Câmara de Competitividade, a câmara que eu chamo de eficiência governamental, que está sendo dirigida pelo doutor Jorge Gerdau, ela é fundamental para dar a contribuição do governo a esse processo.

Nós temos consciência de que nenhum país do mundo deu os passos decisivos para se transformar em economia com crescimento, com estabilidade e com características de liderança sem que os seus estados e as suas estruturas estatais fossem reformadas, no sentido de maior competitividade, maior capacidade de apoio ao investimento, maior capacidade de ação e de defesa dessa economia. Se a gente olhar a história, nós vamos ver isso em várias oportunidades, desde o início da Revolução Industrial, lá na Inglaterra, passando pelas transformações nos Estados Unidos durante a depressão de [19]29. E agora, mais recentemente, vendo as alterações mesmo que nós possamos com os nossos olhos julgar algumas coisas incompletas da China, que adequou seu sistema financeiro de uma forma absolutamente clara aos requisitos de desenvolvimento daquele país.

A mesma coisa o Brasil tem de fazer, e nós estamos fazendo, queremos fazer e eu digo aos senhores que faremos, no caso da melhoria da governabilidade do Brasil, que a governabilidade do Brasil é a capacidade de eficiência da sua máquina. É a capacidade que ela tem de não desperdiçar recursos, de saber onde investir, de ter prontidão na prestação de serviços púbicos, porque tem uma decorrência do que aconteceu conosco.

Nós... é fato, nós elevamos 40 milhões de brasileiros à classe média. Tem uma consequência isso. Se até então, uma concentração de renda mais violenta, que os países em desenvolvimento tinham, era possível dividir o país em dois setores - um setor privado que presta serviço para os mais ricos; e um setor público que presta serviços de baixa qualidade para os mais pobres - daqui para frente, não vai poder não, porque, daqui para frente, nós teremos de prestar serviços da mesma qualidade para os brasileiros. Por isso, que nós temos de ter também um governo eficiente. Não é só por questões econômicas, é por questões sociopolíticas. É incompatível com a elevação de consumo, de renda, de educação, de segmentos deste país, uma baixa qualidade dos serviços públicos.

Por isso, eu agradeço muito... eu agradeço muito aos empresários que sobre ali, a liderança generosa do nosso querido Gerdau, dão essa contribuição para o governo. Vocês estão dando uma grande contribuição para o nosso país.

Essa forma cautelosa que o Banco Central - voltando à questão dos juros - está operando, nós esperamos que nós possamos iniciar um ciclo de redução da taxa básica. Obviamente, isso só será possível dadas as condições internas e externas. Nós não somos mais aqueles que fazem a política dizendo assim: “Não, tem que baixar”, vai baixar se for possível. E eu acredito que, quanto mais a deflação ameaçar a economia internacional produzindo queda nos preços, quanto mais a situação financeira ficar grave, dessa vez nós vamos aproveitar. Nós vamos aproveitar uma parte, porque nós iremos levar as condições monetárias do nosso país a um nível que a conjuntura internacional permitir.

Quando se fala em competitividade, eu quero dizer que a capacidade de competir, ela começa sempre, também, na área privada, na casa de cada um de nós, nas nossas famílias, sobretudo na qualificação educacional dos nossos jovens, no aprimoramento dos nossos trabalhadores, na preparação do brasileiro para o mercado de trabalho cada vez mais exigente e tecnologicamente sofisticado. É por isso que nós estamos investindo nessa questão estratégica, que é a Educação. Necessariamente, nós temos de investir também na Saúde, na moradia, na Cultura, na inclusão digital, no combate à pobreza. Porque falar em competitividade significa sempre falar em uma sociedade com mais oportunidade para todos.

Por isso, nossos investimentos em Educação começam pelas creches e pré-escolas. Nós vamos construir mais de 6.400 creches e pré-escolas em todo o Brasil. E nós queremos universalizar o ensino pré-escolar de 4 e 5 anos até 2016, até porque essa é uma exigência e um compromisso legal do país.

Nós consideramos também muito importante o esforço na formação profissional dos nossos jovens e dos nossos trabalhadores. Agradeço a cooperação da CNI, da CNC. Agradeço a cooperação de todos aqueles que nos ajudam, empresários, a formatar e a aplicar o Pronatec, o Programa Nacional de Ensino Tecnológico [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego], que vai oferecer 8 milhões de vagas no ensino técnico profissionalizante e nos cursos de qualificação. O Pronatec é essa... é um programa que é a própria parceria entre o setor privado e o governo.

Nós estamos dando sequência à interiorização da rede de escolas técnicas e universidades, interiorização essa que começou com o governo do presidente Lula. Até 2014, nós vamos construir 208 escolas técnicas federais de nível médio e universitário. Nos próximos anos, serão criadas mais quatro novas universidades federais, além de 47 novos campi, 12 dos quais vinculados às novas universidades. Nós estamos interiorizando, sim, a Educação no Brasil. Não há como equilibrar o desenvolvimento regional sem isso.

Quero também falar de um programa que me orgulha muito, que tem a parceria dos senhores, que é o programa Ciência sem Fronteiras. O Brasil vai oferecer 75 mil bolsas de estudo, com recursos do Estado, do governo federal, para os melhores alunos universitários do nosso país, tanto para curso de graduação como curso de pós-graduação, e doutorado e pós-doutorado. E essas 75 mil bolsas, eu tenho certeza que vão ser completadas com mais 25 mil bolsas. Isso é fundamental para o país e é um passo decisivo para que nós tenhamos uma revolução nessa área.

É importante que nós, com atraso, possamos seguir a trilha de vários países que fizeram isso, no passado. Não há nenhum problema em ter acesso, garantir acesso às melhores universidades do mundo. E isso nós faremos garantindo, também, que esses estudantes, mesmo quando tenham um domínio ainda incompleto da língua, possam, nesses cursos, garantir esse domínio antes de cursar. São áreas importantes como todas as Engenharias, Matemáticas, Química e Ciências Médicas. Enfim, são áreas exatas e áreas humanas, no sentido da ciência. Nós achamos que é nessa área que o Brasil ainda deixa muito a desejar e, por isso, será esse o nosso grande investimento.

Eu queria, finalmente, dizer para vocês que nós temos toda a consciência de que o mundo vive um período de forte turbulência econômica e que, mais uma vez, a questão da crise e da oportunidade se coloca diante de nós. A crise por que passam os países desenvolvidos ameaça todo o mundo. Se mais não for pelo fato de que vai haver uma redução grande da demanda internacional por produtos, vai haver uma redução da renda internacional, vai haver problemas em vários segmentos. Inclusive, a relação financeira do setor real, ela está em um mundo muito desequilibrado.

Nós sabemos que a instabilidade monetária e financeira, ela tem um grande poder de contágio. Nós temos uma situação muito diferenciada, nós temos um setor financeiro sólido, nós temos uma estrutura e uma regulamentação adequada nessa área. Além disso, o Brasil possui reservas muito maiores do que tínhamos em 2008, quando fomos os primeiros a sair da crise de 2008 e os últimos a entrar. Temos US$ 350 bilhões, hoje, e 420 bilhões de depósitos compulsórios, o que torna o Brasil em uma situação muito diferente dos países desenvolvidos, que já esgotaram todo o seu arsenal orçamentário para combater a crise, despejando centenas e centenas de trilhões de dólares em vários segmentos e, hoje, cada vez mais, tem menos recursos fiscais para colocar e fazer face às suas dificuldades.

Mas nós não achamos que somos uma ilha isolada do mundo e, portanto, que a nós isso não vai, de alguma forma ou de outra, atingir. Nós estamos alerta, porque sabemos que a redução do ritmo de atividade internacional, o aumento do desemprego, a instabilidade monetária e financeira geralmente são acompanhadas por um acirramento do protecionismo internacional. E estamos bem atentos, adotando as medidas necessárias para nos proteger, seja de consequências financeiras, seja de consequências de um tipo de competição bastante desleal. Com coragem e com ousadia, nós vamos atuar de forma defensiva.

Por isso, estamos construindo políticas que garantam a competitividade dos nossos produtos contra tanto políticas cambiais irreais quanto como... com medidas protecionistas muito escancaradas.

Daí porque tivemos o cuidado de que nós pudéssemos utilizar a competitividade como um instrumento de desenvolvimento e não voltar às velhas práticas de proteção pela proteção. Nós queremos competir, e nós queremos garantir que a nossa competitividade real não seja manchada por competitividades formais, aliás, por mecanismos informais de redução da nossa competitividade, sejam cambiais, financeiros e de qualquer tipo.

Por isso, nós não vamos, para defender a nossa competitividade, nem achatar salários, nem precarizar o mercado de trabalho ou manipular a taxa de câmbio, mas nós vamos utilizar instrumentos adequados, como: nós vamos dar peso à geração e agregação de valor, dentro do Brasil, e à inovação, dentro do Brasil.

Daí o sentido da nossa política, por exemplo, de IPI dos automóveis. Esse modelo que nós adotamos, ele sempre vai se sustentar bastante na expansão do nosso mercado interno, na ampliação da parte do Brasil que é classe média. Por isso, o combate à pobreza, retirar da pobreza os 16 bilhões [milhões] que, pelos últimos dados, integram a parcela do Brasil extremamente pobre, é algo muito importante para nós.

Sabemos que vamos enfrentar muitos desafios, mas nós podemos garantir a vocês que nós temos os instrumentos para zelar pela estabilidade; temos as políticas para assegurar a ampliação do mercado interno brasileiro, tirando da pobreza milhões de brasileiros; temos os instrumentos para garantir que nós teremos um Brasil competitivo; temos, também, a certeza de que a melhor coisa que pode nos acontecer é o bom funcionamento, o funcionamento correto da nossa economia.

Nós somos fortes – eu quero reiterar isso – para enfrentar os efeitos da crise. Mas, como eu já disse, também, muitas vezes, nós não vamos temer o vale-tudo do processo de competição internacional, nascido no fato de que os mercados financeiros estão completamente fora de controle em vários países, e por isso espalha prejuízos e angústia para a maioria das nações. Sabemos que não somos uma ilha e que temos todos os elementos para, desta vez, ter um país não inatingível, mas em que nós todos construirmos as muralhas necessárias para que os efeitos dessa crise nos atinjam menos.

Eu gostaria de reiterar para vocês que para mim resta dizer que tudo isso não é tarefa apenas do governo. Os setores produtivos, os formadores de opinião, os movimentos sociais organizados, a sociedade civil... todos vão ter um processo imprescindível nessa situação. Não podemos fechar os olhos e achar que a crise, porque nós não temos uma crise aqui, ela não existe lá fora. Temos de estar atentos para tomar as medidas em tempo hábil. Eu não vejo espaço para omissão nessas circunstâncias e, felizmente, pelo que eu posso perceber, até agora são muito, muito, muito localizadas e muito minoritárias as vozes que se levantam quando a gente toma medidas de defesa da economia, da estabilidade, do Emprego, do setor produtivo.

Tenho certeza de que vou poder contar com o engajamento dos empresários e dos trabalhadores na defesa do emprego, do mercado interno e da nossa capacidade de competição internacional. Nós precisamos continuar exportando e produzindo, nós precisamos continuar desenvolvendo o país. E vamos sempre lembrar que crise e oportunidade sempre, no mundo da história internacional, vieram juntos e casados. Essa, eu acho, que é a nossa hora de oportunidade. Não oportunidade para aproveitar do sofrimento de ninguém, mas para construir e nos fazer ocupar o lugar que merecemos.

De minha parte, posso assegurar a todos, que vocês encontrarão o meu governo fazendo o maior esforço para fazer o que for melhor para o Brasil e para que o Brasil seja um dos países, de fato, que nesse século será o país do futuro e do presente.

Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra do discurso (45min10s) da Presidenta Dilma

Assunto(s): Governo federal