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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na 40ª Reunião Ordinária do Pleno do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - CDES

por Portal do Planalto publicado 27/02/2013 16h49, última modificação 04/07/2014 20h16

 

Palácio do Planalto, 27 de fevereiro de 2013

 

Boa tarde a todos conselheiros e conselheiras.

Eu queria cumprimentar o ministro Wellington Moreira Franco, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que coordena em nome do governo, a relação com o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Cumprimentar o Nelson Barbosa, o ministro interino da Fazenda; a ministra Tereza Campello; o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Em nome deles cumprimento aqui todos os ministros presentes.

Queria cumprimentar os conselheiros que fizeram uso da palavra Paulo Godoy, presidente da Abdib; Jacy Afonso de Melo, secretário de organização da CUT; Luiz Aubert Neto, presidente da Abimaq; Germano Rigotto, presidente do Instituto Reformar e ex-governador do estado do Rio Grande do Sul.

Queria cumprimentar as senhoras conselheiras e os senhores conselheiros.

Cumprimentar as senhoras jornalistas, os senhores jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.

Senhoras e senhores,

Essa é a primeira reunião de um ano muito especial para esse Conselho. A gente não sabe quando a humanidade começou a ter como referência, décadas. Mas, seguramente, esse Conselho, ao fazer 10 anos, mostra um compromisso imenso, eu acho, dos senhores com o país, e isso, para qualquer sociedade, para qualquer nação é algo fundamental.

Um país que não tem sociedade civil, que não tem empresários organizados, trabalhadores, representantes dos estudantes, representantes da sociedade civil, intelectuais, jornalistas, ele não tem o tecido social para sustentar a mudança e estar atualizado e atento às necessidade da nação e às necessidades de seu povo.

Eu acredito que as análises ao longo desse 10 anos, elaboradas por esse Conselho e, ao mesmo tempo, as recomendações, elas tiveram um papel importante em tudo que nós construímos até agora. Não quero compartilhar com os senhores os nossos erros. Quero compartilhar com os senhores os nossos acertos. E uma característica desse fórum que eu acho importante é o fato dele ser plural, dele ter essa capacidade de mostrar diferentes opiniões, diferentes posições, buscar um consenso, mas ao mesmo tempo ser capaz de externá-las.

E o tema deste fórum, o tema do Conselho do 40º Pleno do Conselho, num mundo que as instituições tendem a ter uma taxa alta de mortalidade, é muito significativo dar suas contribuições. O tema é um investimento produtivo no Brasil. Acho que mais do que nunca, nós temos de olhar esta questão.

Eu sempre acredito que o longo prazo, ele é importante que a gente delineie ele – porque é o que nós podemos fazer como seres humanos, é delinear ao longo prazo – ele é muito importante que isso ocorra, porque isso ilumina o presente, onde nós queremos chegar.

Por isso, eu acredito que começar aqui a minha fala no Conselho passa necessariamente por aonde eu acho que nós queremos chegar. Eu acho que  nós queremos chegar a ser uma nação desenvolvida. E eu disse: Nação desenvolvida. Nós queremos ser um país de classe média, e para sermos um país de classe média nós temos uma trajetória a cumprir. Nós queremos que a taxa de investimento seja 25%. Mas nós queremos isso porque nós queremos uma renda per capita muito mais significativa e elevada do que a atual. É por isso que nós queremos uma taxa elevada de investimento. É porque nós queremos este país com uma característica única. Que é o fato de sermos um país continental, democrático, sem conflitos étnicos, mas também um país com uma população significativa. Nós queremos, inclusive, que essa população cresça e que ela dê respaldo ao que nós pretendemos.

Por isso, no curto prazo nós temos essa imensa tarefa que é acelerar o ritmo do crescimento e estimular as inversões nas áreas transformadoras. Áreas transformadoras do quê? Áreas que possam transformar a competitividade do nosso país, para conseguir que tenhamos capacidade de aumentar essa renda per capita. É para isso que nós queremos aumentar a competitividade e aumentar investimentos.

Eu acredito que esse desafio é um desafio do governo, dos empresários, da agricultura, dos serviços, do setor de educação brasileiro e do setor de ciência e tecnologia. E ele precisa de vontade política, de diálogo franco e precisa de parceria. Nós temos de romper com algo que é muito característico do nosso país, é muito característico do nosso país e que eu acho que é uma contradição falsa. A contradição entre o público e o privado. É óbvio que os segmentos privados e os segmentos da sociedade – não estou falando só o empresário – têm interesses próprios e eles são importantes, eles movem as suas áreas específicas. Mas é obvio, também, que todos são capazes de perceber como um interesse público beneficia um interesse maior, beneficia a cada um.

Então, eu acho que tem de acabar a contradição no Brasil de que ou se faz algo público ou se faz algo privado. Eu acho que esse Conselho expressa isso. Por isso, eu uso da palavra para dizer que eu acho que nós temos todas as condições para perceber que há no Brasil uma grande maturidade no sentido de que é necessário a ação público-privada. E eu não estou falando em PPP, estou falando em todas as atividades, mesmo aquelas em que não fique claro como numa PPP que tem uma parceria público-privada.

Desde o início do meu governo, e de forma mais intensa no último ano, nós tomamos todas as medidas que nós achávamos adequadas. Algumas tinham o caráter de urgência do curto prazo. Mas nenhuma delas deixou de considerar que o país precisa mudar, e mudar em direção a ter uma maior competitividade.

Nós sabemos que o mundo desta década é diferente do mundo da década passada. Nós sabemos disso. Todos nós estamos vendo isso em todos os jornais. Nós sabemos que houve uma crise do Lehman Brothers, em setembro de 2008, que ela se aprofundou, que essa crise, que foi aguda naquele momento, se cronificou ao chegar na Europa, que na Europa houve um risco imenso no ano passado de uma crise aguda, novamente. Essa parte foi superada. Eu acredito que os tremores da crise, na maioria dos países, este ano, são muito mais suaves. Acho que tem um cenário bastante favorável com, primeiro, com o fato da China ter feito o que se chama uma aterrissagem suave. Esperava-se que sua taxa de crescimento caísse abaixo de 7,5%, ela está se sustentando num nível maior, em torno de 8,5%. Tudo indica que vai retomar, é óbvio, fazendo seus ajustes – porque todos estão fazendo seus ajustes. E sabemos das ameaças. Em todo o mundo a indústria está procurando mercados. Em todo o mundo. A queda do PIB dos países desenvolvidos - principalmente daqueles produtores de manufatura, máquinas e equipamentos - é muito forte. Os dados da Alemanha comprovam isso. Os dados, a política, o quantitative easing japonês mostra que houve uma necessidade dada do Japão de tomar alguma medida para ver se a sua economia despertava.

Nesse contexto, eu acredito que nós viemos tendo uma posição bastante - eu diria assim - ofensiva em relação à situação do Brasil. Ofensiva por quê? Porque nós percebemos, o governo percebeu, os senhores perceberam que era necessário tomar medidas em direção à competição, em direção ao aumento da eficiência, em direção à resolução de gargalos. Resolvemos todos? Não. Mas seguramente as medidas que tomamos, elas se dirigem, elas dialogam, todas elas, com problemas que o Brasil realmente tem. E isso, eu queria registrar mantendo, o que é um absurdo é dizer que nós não mantemos todos os nossos compromissos com os pilares da estabilidade.

Nós mantemos a inflação sob controle, e achamos que a inflação é um valor em si, na medida que ela garante, não só os ganhos do salário, elas garantem também o controle da inflação, garante também a capacidade de previsão do governo, dos empresários e os ganhos dos empresários e dos trabalhadores. Nós mantemos a política de câmbio flexível, mantemos uma política de robustez fiscal.

Quando no Brasil, no passado, a gente teria uma relação dívida-PIB de 35%? Quando? Quando, no passado, nós teríamos essa situação que temos, também de robustez, na área externa, com as nossas reservas? E o Brasil tem caminhado no sentido de atacar esse problema, porque esse problema é crucial, porque ele não é crucial só porque a gente tem que garantir a competição daquela indústria. Porque as coisas ficam fortes quando o interesse de cada um coincide com o interesse de todos. Para que nós sejamos um país que responda às modificações sociais que a ministra Tereza Campello mostrou, nós temos de aumentar a nossa competitividade. Nós não vamos ser um país de classe média achando que a população, que esses 100 milhões de brasileiros que hoje compõem essa classe, vão assistir calmos e tranquilos a diminuição da nossa produtividade, as nossas taxas de juros, o nosso custo de infraestrutura. É uma exigência do país. É uma exigência da democracia, da economia, da sociedade. Por isso é algo que tem absoluta consistência com o que nós temos de fazer e de enfrentar.

Nenhuma das medidas que nós tomamos, nós tomamos por alguma pretensão de achar que o Estado tudo resolve. Nenhuma delas. Todas as medidas que nós tomamos era pela percepção de que o Brasil precisava, já, já, alterar o que nós vimos fazendo, porque, não é por algo negativo, é por algo muito positivo, é porque nós evoluímos. Quando você evolui, é exigido de você dar um outro passo, um  passo qualitativo, ou seja, porque teve um processo de construção do mercado interno, expansão do Brasil, solidez fiscal e o fato de que nós nos afirmamos no mundo é que nós temos de dar esse novo passo em busca de maior competitividade. E isso os empresários também defendem, os trabalhadores também. Os empresários têm tido uma participação efetiva. A CNI, por exemplo, na questão da inovação do meio.

Ao mesmo tempo, algumas questões se impõem ao país: nós temos de ter, não temos mais porque, porque ficamos um pouco mais robustos, somos mais estáveis, não temos, não temos uma situação fiscal deteriorada. Pelo contrário, podemos com isso ir tomando medidas, como foi a da caderneta de poupança, reduzir os juros. Foram criadas as condições para isso, foram criadas as condições para que nós reduzíssemos impostos. Alguns tiveram de ser pontuais, sim, porque os setores precisavam. Outros têm de ser horizontais, porque serão transformações que vão ocorrer e mudar a nossa estrutura tributária. Eu concordo, nós temos não só irracionalidades na nossa estrutura tributária, nós temos deficiências na nossa estrutura tributária. Mudamos a questão da tributação, buscando desonerar as folhas de pagamentos porque, não se iludam, os países vão sair dessa crise com custo do trabalho menor. Nós, em pleno emprego, temos de buscar a desoneração do trabalho, da diminuição da incidência de impostos.

Uma questão fundamental que foi criada uma discussão bastante, eu diria assim, complexa, foi a questão da energia. A questão da energia, justiça seja feita, foi levantada na FIESP, e bem levantada. O Brasil não pode continuar tendo um custo de energia tão alto. Como não se acaba com isso do dia pra noite e nós temos uma vantagem que são hidrelétricas, nós temos condição de reduzir o custo de energia sem romper um único contrato. Por que temos de fazê-lo? Porque esse é um instrumento estratégico para o país. Custo de energia alto é algo negativo.

Agora, é importante perceber que nós fazemos isso garantindo a segurança energética desse país. Esse país tem segurança energética. Hoje, nós temos, antes da entrega dos 10 mil MW que entram esse ano, nós temos 14 mil MW de térmicas. Nunca tivemos isso na vida. Despachar térmica é parte do ofício, até porque nós, todos nós aqui, defendemos que nós não podemos construir reservatórios imensos. Para não construir reservatórios imensos, nós vamos ter de usar térmicas. Isso está previsto, o sistema é hidrotérmico. O que não é admissível para o país é que se crie instabilidade onde não há instabilidade. Exemplo: não é admissível que se diga que vai haver racionamento quando não vai haver racionamento. As mesmas vozes que disseram em dezembro e janeiro que ia haver racionamento se calam. E a consequência é nenhuma, o que eu acho que é irresponsabilidade. O que afeta a vida das empresas, a vida das pessoas, nós temos de ter cuidado, porque se coloca uma expectativa negativa gratuita para o país.

Mas continuando... Além disso, nós somos um país que somos obrigados a olhar para duas coisas simultaneamente: o que há de mais terrível e atrasado numa sociedade, que é a miséria ou a pobreza extrema, e o que há de mais avançado numa sociedade, que é ciência, tecnologia e inovação. E é simultâneo, não dá para falar “primeiro eu faço isso e depois eu faço aquilo”, temos de dar conta das duas coisas simultaneamente.

E aí, é muito importante perceber o que é que nós fazemos complementando a questão, a gente fala “é um modelo de desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda”. Perfeitamente. Então do que se trata “de distribuição de renda e inclusão social”? Bom, se trata de nós termos de eliminar a miséria extrema. A gente elimina com renda, de forma imediata e, depois, tem dois caminhos. Esses dois caminhos são inexoráveis. Um, para os adultos, é trabalho, emprego, trabalho, emprego, formação profissional, que nós precisamos para aumentar a produtividade do trabalho. Mas também precisamos para garantir a estabilidade dessa superação da extrema miséria. O outro caminho, que é o das crianças e do jovens, é educação. Nosso país precisa de educação. Aqui, eu agradeço imensamente à CNI e às federações a parceria no Pronatec. Acho que um grande passo que nós demos em comum nessa parceria entre o setor público e o setor privado é a questão do Pronatec. É esse desafio de garantir formação técnico-profissional. Só o governo não conseguiria, porque não tem as estruturas. Só a CNI ficaria muito pesado, só a estrutura do Senai, não posso falar só da CNI, tenho de falar do pessoal da agricultura, porque o Senar tem feito também um trabalho fantástico nessa área.

Isso significa que esse caminho, que é o dos jovens e das crianças, tem que ser trilhado, no caso do Brasil, como creche, nós temos que ter creche. Toda a neurociência mostra que as crianças precisam, podem, devem, elas são o futuro, elas podem e devem ser estimuladas justamente no início da vida. A creche é a forma de a gente equilibrar, não é só para as mulheres – nós, mulheres, precisamos disso, tudo bem – mas não é só por causa de a gente ter onde deixar os filhos, é para os filhos terem onde serem deixados. È para os filhos terem condições efetivas de serem estimulados. Ali começa a desigualdade. Uma criança de classe média no Brasil, ou uma criança – qualquer um de nós que tem filhos ou netos sabe perfeitamente bem a quantidade de historinha, de brinquedo e de conversa que nós dirigimos para uma criança. Nós temos que ter esse cuidado com as crianças também, que são essas crianças da extrema pobreza.

Nós temos de ter também alfabetização na idade certa no Brasil em geral. E aí entra uma questão, eu vou aproveitar e falar aqui, mas eu trato dela depois. O Brasil tem uma questão seriíssima, que é a questão das desigualdades regionais. Nós temos de enfrentar a questão das desigualdades regionais, e esse é um problema que afeta... fiquei muito contente ontem, recebi da CNI um estudo sobre o Nordeste, já tinham me apresentado o do Sul. O estudo das desigualdades regionais passa pela infraestrutura e passa pela questão da educação. Por que? Porque alfabetizar na idade certa, por exemplo, é algo crucial, é algo crucial não só para as crianças, é algo crucial para os governos. O custo de alfabetizar alguém depois é altíssimo, e dificílimo. Agora, se a gente alfabetizar na idade certa, a questão muda. Então, creche, alfabetizar na idade certa e escola em tempo integral são fundamentais. Por isso nós enviamos para o Congresso uma medida provisória propondo o uso dos royalties na educação. Por que? Aí não basta só investir em prédio, não basta só investir em prédio. Nós temos de pagar professor, nós temos de transformar a atividade de ensino numa atividade de alto status no Brasil.

Ninguém, ninguém deu qualificação para a educação sem isso. Ninguém deu, no mundo. Nós temos de fazer isso. E, eu acredito que mexer na questão da competitividade é mexer também na formação e construção de laboratórios, quanto mais construirmos, melhor. Por isso que nós fizemos também o Ciência Sem Fronteiras, em estabelecer uma política unificada de ciência e tecnologia. Nós estamos fazendo no governo, um grande esforço como ministro Raupp, no sentido de unificar toda  política, o gasto governamental de ciência e tecnologia, da racionalidade, direção e foco para ele. Porque esta é uma condição fundamental para os passos do país. Uma parte é dinheiro que o governo brasileiro colocará em ciência, tecnologia e inovação. Agora, outra parte é a presença dos senhores ajudando-nos nesta atividade.

Queria dizer também, que eu acredito que nós devemos ter uma racionalidade nos tributos. Esse ano, nós buscaremos isso: racionalidade nos tributos. É óbvio que nós não temos todo o dinheiro do mundo para fazer desoneração, mas, o ano passado, nós fizermos desonerações significativas. O governo vem tendo esse compromisso. O que nós não conseguimos é fazer tudo de uma vez só. Não é razoável, provoca desequilíbrio.

Queria dizer para vocês que nós fizermos um imenso esforço na área de infraestrutura e queremos que esse esforço tenha um resultado. Estamos fazendo uma apresentação internacional em alguns grandes centros. Qual é o objetivo dessa apresentação? Nós acreditamos que o Brasil precisa, o modelo de rodovias é um modelo simples, já testado. Nós somos um país que precisa de ferrovias. Nós somos... nós precisamos de ferrovias, é impossível continuar transportando minério, é impossível continuar transportando grãos só por estrada. Nós temos de ter rodovias e temos de ter hidrovias. O modelo de ferrovias é ele... ele vai estar, agora, sendo objeto de avaliação dos investidores nossos, privados-nacionais, privados-internacionais, e queremos que essa seja uma solução enormemente bem-sucedida, porque estamos fazendo dez mil quilômetros. Dez mil quilômetros, para quem tem o que nós temos, é muito, mas, para o que nós precisamos, é pouco.

Esta é a primeira etapa de um programa de ferrovias. Nós teremos de fazer uma segunda etapa. O governo está consciente disso, está consciente de que o volume de investimentos necessários é vultoso e que, por isso, é muito importante que esses investimentos sejam investimentos bem feitos, com estabilidade jurídica clara, remunerados devidamente, com financiamento de longo prazo. Não há financiamento... aliás, não há construção nem investimento de longo prazo – investimento, por exemplo, em hidrelétrica, investimento em ferrovia, investimento em qualquer infraestrutura – que não tenha uma correspondência no financiamento de longo prazo.

Eu sei, porque eu vivo essa briga há dez anos. Eu entrei no governo, o máximo que se financiava no Brasil – você se lembra, né, Godoy, que o máximo que se... vários aqui se lembram –, o máximo de tempo que se financiava, no Brasil, era sete anos. O longo prazo nosso era de sete anos, o que era difícil de fazer um financiamento de sete anos numa hidrelétrica de grande porte. Nós já temos uma estrutura de financiamento. Nós vamos ter de buscar novas formas, não só ação, mas nós vamos ter de entrar em debentures, FIDCs, mas nós temos de ter essa estrutura. Nós vamos ter de ter seguro, garantia. Nós teremos de ter esses instrumentos. O governo está absolutamente atento a isso. E temos de ter taxas compatíveis com um financiamento de 35 anos.

Eu queria me deter aqui em portos. O Brasil tem de abrir os portos. Nós temos um imenso custo desnecessário em portos. Abrir os portos não significa tirar um, um ou meio ou um milímetro de direito do trabalhador portuário. Pelo contrário, nós mantivemos intacta a forma pela qual esses direitos foram garantidos. Agora, implica necessariamente em abrir a concorrência. Implica necessariamente porque um dos nossos custos, chamado Custo Brasil, lá fora, é portos. Daí porque nós também fizemos esse modelo.

A outra questão que nós fizemos foram aeroportos. Além da participação público-privada nos aeroportos, eu acho que é imprescindível que o país tenha uma estrutura regional de aeroportos e que crie uma aviação regional. Nós somos um país continental, esse país continental tem de ter essa estrutura. Daí porque nós estamos com essa política de construir 280 aeroportos. Eu não digo construir porque alguns é ampliar, outros é de fato construir, outros de fato é modificar completamente o aeroporto e dar condições para operação da aviação comercial. E vai ter também aeroporto para aviação, a chamada aviação geral. Eu acredito firmemente que na área de energia nós vamos dar um grande salto esse ano. São três os leilões que estão previstos: para maio, o leilão de concessão, para novembro, o primeiro leilão de partilha, e para dezembro, o leilão do chamado gás não-convencional, o shale gas ou tight gas.

Além disso, nós vamos manter as licitações de energia elétrica. Além disso, nós vamos dar esse ano... e aí, Pedro Parente, dar uma importância estratégica à questão do etanol. O setor teve várias dificuldades, vem tendo e o governo fará isso. Acredito que, além disso, nós temos muitas outras coisas a resolver. Nós temos de buscar sempre essa articulação público-privado em todas as áreas em que estivermos. Isto não prejudica o público, o público tem o seu espaço, nem prejudica o privado que tem o seu e as suas regras. Mas, a interação permite que nós resolvamos cada problema bastante difícil. Não foi assim quando nós criamos o Prouni? Foi assim. O que é o Prouni? O Prouni é uma relação entre, e hoje o Prouni está com um milhão e cem mil alunos que cursaram uma universidade, uma faculdade pública. Foi assim que nós fizemos o ProUni. O governo cedia uma parte do tributo e o empresário dava uma parte da oportunidade do estudo. Esta é uma solução criativa na área da educação, que é dever do Estado. É uma forma de o Estado cumprir seu dever. Como? Investindo através deste método. Nós temos de encontrar sempre a capacidade de construir isso e de ofertar melhores serviços para a população, porque vocês não tenham dúvida, a mãe que colocou lá o filho na creche vai querer que ele estude numa escola de tempo integral. A mãe que botou uma criança para entrar no ProUni, vai querer que ele tenha acesso ao Ciência sem Fronteiras. A mãe que teve acesso – a mãe ou o pai que teve acesso – a... pela primeira vez no século XXI, a energia elétrica, que é do século XX, vai querer o acesso que é um acesso do século XXI, que é banda larga.

Por isso, eu quero dizer que o governo considera agora a questão da banda larga, uma questão fundamental na área de infraestrutura. Nós, além de acharmos que a infraestrutura tradicional, ela é importante, que a energia é fundamental, consideramos que a banda larga é estratégica para este país. Não haverá... nós não daremos os passos para uma economia do conhecimento sem educação, sem ciência e tecnologia, e também sem toda a estrutura que a banda larga permite, tanto para as empresas como para os usuários.

Nós, que queremos uma sociedade de classe média, queremos um país de classe média, nós que vamos buscar isso como uma forma de garantir que todo cidadão seja um consumidor com direitos, somos aqueles que fizeram o Minha Casa, Minha Vida também escutando os empresários, não foi? Foi com você, [Paulo] Safady, que eu... nós tivemos várias reuniões para formatar uma coisa do plano... do Minha Casa, Minha Vida que é essencial: a faixa 1 de renda tem de ter subsídio. Não tem – como diriam no Rio Grande do Sul, né? –, não tem gregrê para dizer Gregório. Ou tem subsídio ou você não consegue fazer dar acesso à população.

Tudo isso significa que, eu acredito firmemente, os nossos desafios serão crescentemente outros. Nós estamos mudando de patamar. Não porque queiramos. A sociedade nos imporá patamares diferenciados. Ela impõe também um cuidado extremo com a questão do uso do dinheiro público. Esse é um país que não tem condições mais de não levar em conta a mais estrita ética, a maior transparência e maior controle dos gastos públicos. Critérios de gestão meritocráticos para o governo, critérios de gestão técnicos nas áreas técnicas. Isso não significa a despolitização no sentido maior da palavra política. Porque eu concordo, acredito que foi o governador de Sergipe que disse outro dia, não há... sem vontade política, ninguém faz. O Bolsa Família, o Brasil sem Miséria e não faz também Brasil Carinhoso. Tem de ter um certo... eu não diria certo não... tem de ter um grande compromisso com os pobres desse país. Um grande.

Não podemos achar que critérios técnicos iluminem um programa dessa ordem. Não ilumina. Nós tivemos, óbvio, de fazer todo uma engenharia, uma tecnologia social. Criamos um cadastro, porque não existia cadastro. É conversa que tinha cadastro. Nós levamos um tempão para fazer. E para limpar o cadastro, e para ver se não tinha gente em duplicidade? E até hoje fazemos isso.

Depois nós criamos um cartão. O cartão é estratégico, sabe por que? Porque o cartão tira o intermediário. Ninguém pode chegar para a pessoa que recebe e dizer eu dei. O cartão é dele, é dele como cidadão. Ele recebe diretamente no banco, sem intermediário. E aí tem uma coisa muito importante, que foi ter dado – me desculpem os homens – para as mães, para as mulheres. Por que? E não foi eu que disse, foi um homem que disse: se a gente dá para os homens, vai aumentar o consumo de cerveja. Como nós queremos aumentar a comida das crianças, dá para a mulher. Mãe não desleixa, mãe dá para o seu filho. Esse homem foi o presidente Lula. Por isso, eu acredito que é muito importante que nós tenhamos clareza desse momento em que nós estamos vivendo. Por quê? Porque são cidadãos consumidores. Esse país, agora, é um país que incorporou uma multidão de brasileiros. As demandas, eles vão querer saber porque e têm toda razão. Por que que meu Posto de Saúde não está legal? Por que que a minha escola não está me dando um serviço? Por que que é que meu telefone não funciona? Por que que meu cartão de crédito é caro? Por que...? Todos os porquês que um cidadão consumidor tem direito nesse país.

E nós, e vocês empresários, vocês trabalhadores, nós governos estaduais, federais e municipais vamos ter de dar conta disso. Além de todas as complexidades, que é encaminhar um país desigual do ponto de vista social e do ponto de vista da renda, para diminuir essa igualdade e, ao mesmo tempo, ampliar o desenvolvimento do país como um todo. Esse eu tenho certeza que é o nosso desafio. E eu confio que nós vamos enfrentar esse desafio se contarmos com cada um dos aqui presentes e dos outros 190 milhões que estão lá fora. Mas, aqui, está uma liderança, a liderança do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Eu quero dizer para vocês que eu acho muito importante esse fórum como fórum de crítica, sugestão e proposta para nós e para o Brasil. Nós temos essa missão em comum, e todos nós vamos passar, mas tenho certeza que vocês vão ajudar a gente a dar mais um passo na construção desse Brasil que nós queremos, todos aqui presentes. Um Brasil rico, socialmente mais igual em termos de oportunidade – as pessoas são diferentes, as oportunidade têm de ser muito similares – mas, sobretudo, um país que trabalha na sociedade do conhecimento, um país que hoje é reconhecido internacionalmente.

Para finalizar eu queria falar uma coisa para vocês: eu voltei da África, eu estive numa reunião que tinha 57 ou 58 países africanos, eu não tenho muita certeza qual é o número, tinha 54 entre presidentes e primeiro-ministros, e visitei a Nigéria. E quero dizer para os senhores que há uma oportunidade fundamental nos países africanos e uma expectativa muito forte em relação ao Brasil. E e aí eu falo do governo e dos senhores, dos empresários. Por quê? Porque a visão é que nós somos um país que, até pouco tempo, era... tinha problemas iguais aos deles e era igual a eles, e que está em outro patamar e que deu certo. E, portanto, as oportunidades de investimento e de participação são muito altas.

Vocês contem com o governo brasileiro para... nós iremos, de fato, ter uma política muito clara no governo em relação à África. A África, ela também tem, em relação a nós, toda uma ligação. Agora, nunca podemos esquecer o dado do Fundo Monetário: dos dez países que mais crescerão até 2022, ou seja, no ano dos nossos 200 anos, sete são africanos. Então, nós temos de ter consciência disso. Não tem por que, nós, que somos vistos... vários de vocês já estão lá. As empresas brasileiras – e aqui eu queria até fazer esse reconhecimento, de público –, elas têm uma ótima avaliação. Elas não são... elas... ninguém chega lá olhando de cima, todas as pessoas participam não só das suas atividades, mas nós temos esse hábito da mitigação ambiental e social, então lá o pessoal faz a mitigação ambiental e social, e mostra muito isso, a questão da cooperação Sul-Sul, que é uma cooperação baseada não na... quando você consegue... faz um investimento, você tem uma agenda oculta e você exige alguma coisa. A cooperação que todos eles consideram que é a melhor cooperação é a cooperação Sul-Sul porque é aquela cooperação em que os dois lados ganham e se discute de forma aberta.

Acredito, viu Luiza, na área de varejo, na área de fornecimento de bens. Um país com 160 milhões de habitantes e a renda do petróleo demanda tudo. Nós, quero dizer aos senhores, nós temos um déficit de US$ 7 bilhões, US$ 7 bilhões. Nós temos todas as oportunidades de atender a demanda, resolver o problema do nosso déficit lá e, ao mesmo tempo, ajudar o país a se desenvolver e a população a melhorar de vida. Conto com os senhores na política externa do Brasil também. Em algum momento eu gostaria muito que este fórum se dirigisse à questão da política externa do Brasil, principalmente na área de investimentos e comércio.

Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra do discurso (47min53s) da Presidenta Dilma