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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante o I Congresso Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores-MPA - São Bernardo do Campo/SP

por Portal Planalto publicado 14/10/2015 22h20, última modificação 14/10/2015 22h21

São Bernardo do Campo-SP, 14 de outubro de 2015

 

 

Boa tarde, boa noite para todo mundo.

Eu queria primeiro dizer que estou muito feliz de estar aqui entre vocês. Queria dizer que eu fiquei emocionada com as crianças, sabe por quê? Porque criança é o principio e o fim de tudo. É o principio porque é o futuro. E é o fim porque o objetivo de cada um de nós é construir um futuro para nós, mas, sobretudo, para eles. Por  isso, a mística aqui é muito simbólica, é muito simbólica do movimento de vocês. Um movimento que tem um forte conteúdo de vida, um forte conteúdo de quem ganha sua riqueza com as suas próprias mãos, a partir da natureza - e respeitando a natureza.

Por isso, eu quero cumprimentar o Anderson Amaro dos Santos, da direção nacional do MPA. Por intermédio do Anderson eu saúdo todos os participantes do Primeiro Congresso Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores e de todos os camponeses e camponesas que estão espalhados por esse nosso imenso e generoso Brasil.

Quero cumprimentar os ministros de Estado: o Miguel Rossetto, do Trabalho e da Previdência; o ministro Patrus Ananias, que é do Desenvolvimento Agrário.

Quero cumprimentar um querido companheiro nosso, o ministro... ex-ministro da Previdência, atual prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho,

O vice-prefeito aqui, também, de São Bernardo, Frank Aguiar,

Queria cumprimentar a Deolinda Carrizo, representante do Movimento Internacional Campesina Indígena da Argentina, nosso país-irmão.

Queria cumprimentar, do MPA da Região Norte, a Joselina de Oliveira; da FUP, o José Maria Rangel; do MST, o João Pedro Stédile; da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, o Paulo Caires.

Queria cumprimentar uma pessoa com quem eu tive uma convivência muito próxima, no Rio Grande do Sul, quando nós fizemos o reassentamento das pessoas atingidas pela Barragem de Dona Francisca, que é o Frei Sérgio.

Quero cumprimentar os jornalistas, os fotógrafos e os cinegrafistas.

 

Bom, eu queria dizer uma coisa para vocês: os governos eles se diferenciam, os governos são uns diferentes dos outros. E o critério para a gente saber quem é quem é um metro, uma medida simples. Os governos se diferenciam, e se você olhar as escolhas políticas que os governos fazem, vocês vão saber se esses governos estão mais do lado do povo ou mais do lado daqueles que sempre tiveram tudo. Ou daqueles que são a maioria e que não eram os que tinham acesso à riqueza que deviam ter.

Quero dizer que meu governo dá prioridade às mulheres e aos homens, trabalhadores e trabalhadoras, das cidades e dos campos, os ribeirinhos, os quilombolas, os indígenas. Mas eu quero dizer que, sobretudo, o meu País, nos últimos 13 anos, deu prioridade aos homens e às mulheres que fazem brotar da terra, com seu suor, os alimentos que podem e que garantem, e que vão garantir, a nossa segurança e a nossa soberania alimentar. Essa prioridade explica porque eu estou aqui hoje, com vocês. É ela que explica. Para mim é uma satisfação participar desse Primeiro Congresso do Movimento dos Pequenos Agricultores, camponeses e camponesas.

Vocês, hoje, estão num processo neste congresso. Vocês discutiram, até aqui, e vão continuar discutindo e formulando. Me deram as sugestões, as propostas, as plataformas de lutas que serão a base do nosso diálogo nos próximos anos. É em cima dessa base, que o nosso querido líder me entregou, que eu vou discutir com vocês. O Anderson me deu o papel e eu passarei, junto com o Patrus, a discutir o que está ali de proposta com vocês.

E eu quero dizer que muitos aqui, os mais velhos, muitos aqui, os mais velhos, têm mais idade e experiência e vão se lembrar de como era antes que o presidente Lula chegasse ao governo. Vocês devem lembrar como era difícil conseguir apoio para a produção. Como era fácil ficar endividado e ninguém ligar. Como era fácil perder a terra, como era difícil que percebessem a importância da agricultura, da pequena agricultura, do pequeno camponês e camponesa para o Brasil.

Quanta coisa a  gente pensa, para: quanta coisa mudou daquela época para hoje. Quanta coisa nós conquistamos juntos nos últimos 13 anos. Nós estabelecemos, entre nós, uma forma que é a mais importante: é o diálogo. Nós estabelecemos entre nós o diálogo e construímos juntos, respeitando as diferenças, inclusive, políticas novas e consistentes para a agricultura familiar, para a pequena agricultura, para os camponeses e camponesas desse nosso Brasil. Tomamos medidas de apoio à comercialização. Eu vou falar do PAA, vou falar do Pnae. Tomamos medidas de garantia de preço, garantindo o preço mínimo. Avançamos na reforma agrária, criamos as leis que preveem os quilombos e demarcamos terras indígenas.

Tem uma coisa que, se o Brasil se orgulha, e nós nos orgulhamos, de ter o ano passado saído do mapa da fome, nós devemos a vocês. Nós devemos a vocês. O Brasil não saiu do mapa da fome porque lá em Brasília alguém ligou um botão. O Brasil saiu do mapa da fome porque nós, juntos, fizemos uma política que visava melhorar as condições de vida e de produção no campo do nosso País.

Eu me lembro, eu me lembro, em 2003, a quantidade de pessoas que só iluminavam as suas moradias no campo deste País com candeeiro ou vela, ou então vivia no escuro. Uma das coisas que eu me orgulho de ter feito foi o Programa Luz para Todos, lá no início do governo Lula. Eram, companheiras e companheiros, 12 milhões, na primeira conta dava 12 milhões de pessoas que viviam no escuro no nosso País. Ora, não tem produção sem luz elétrica, não tem. Não tem como resfriar o leite, não tem agroindústria, para início de conversa, não tem agroindústria. Então, eu me orgulho do Programa Luz para Todos.

Mas eu quero dizer outra coisa. Hoje, nós propomos, e podemos fazer, nós temos condições porque, de lá pra cá, nós viemos acumulando conquistas. Nós temos como assumir um compromisso de garantir o que vocês chamam, acertadamente, de “comida de verdade”. O que é comida de verdade? É comida boa, é comida saudável, na mesa do povo deste País. Nós podemos assumir esse compromisso. Nós podemos assumir o compromisso, porque nós criamos as condições que vão permitir que isso se transforme numa realidade, aquela realidade concreta.

E aí eu quero dizer para vocês uma coisa: o fortalecimento da pequena agricultura no nosso País, o fortalecimento da agricultura familiar, o fortalecimento da agricultura de camponeses e camponesas no nosso País não tem retorno. Não tem retrocesso, não tem volta atrás, só tem um único caminho: avançar, avançar e avançar. E isso explica porque, nesse ano de 2015, que talvez seja um dos anos de maior dificuldade em nosso País, nós juntos, o ministro Patrus e sua equipe, fizemos o Plano Safra da Agricultura Familiar. O Plano Safra da Agricultura Familiar ele é o maior plano safra de todos os planos feitos até hoje. E ele é maior em 20% em relação ao plano do ano passado.

Por que nós fizemos isso? Porque nós sabemos que, se a gente tem de apertar o cinto, não é aí que o cinto vai ser apertado, não é aí. Que nós vamos ter de apertar o cinto, nós sabemos - e já começamos a apertar. Mas não será no Plano Safra da Agricultura Familiar. E não foi e não será. Todas as linhas de crédito desse plano têm taxa de juros menores que a inflação, todas, que são as chamadas “taxas de juros negativas”. Além dos juros, e isso é uma coisa importante, os juros também refletem o reconhecimento da realidade. Quem tem mais subsídio é quem é menor, quem é mais frágil. quem é mais frágil, precisa mais. Por isso, as taxas de juros são variadas.

Mas não é com dinheiro só que nós fortalecemos a agricultura familiar. Com dinheiro também, porque dinheiro é muito importante para o  agricultor, o camponês e a camponesa poderem produzir. Mas eu tenho orgulho de alguns programas que nós fizemos. Eu falei já no Programa de Aquisição de Alimentos .E falei também no Programa Nacional de Alimentação Escolar. No caso do Programa de Aquisição de Alimentos, nós demos passos à frente. Agora nós compramos sementes. É importante comprar sementes, sementes crioulas. Com a compra de sementes, você consegue criar um círculo virtuoso da agroecologia. Porque o que garante que é ecologicamente sustentável, adequado, é a semente. E aí, ao comprar a semente, nós estamos difundindo também as sementes por outros produtores, por outros agricultores, para outros camponeses. E ampliamos o PAA. Como que nós ampliamos o PAA? Agora as Forças Armadas do nosso País, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, têm de comprar 30% dos alimentos que lá consomem da pequena agricultura, dos camponeses e camponesas da agricultura familiar.

Assim também os hospitais. Assim também os hospitais, os presídios, assim também os ministérios, assim também todos os órgãos públicos do governo federal. Por isso, o que a gente fez? Aumentou o mercado da agricultura familiar dos camponeses e camponesas. Também eu queria aproveitar a presença do prefeito do Luis Marinho, nós temos feito imenso esforço, prefeito, para que os prefeitos ajam como o senhor, que ultrapassa a lei. Ele compra 100% das compras da prefeitura de São Bernardo, 100% é da agricultura familiar, mais do que cumpre a lei.

Nós também temos certeza que queremos, o Brasil quer produzir mais e com mais qualidade. Por isso, nós lançamos há dois anos o Plano Nacional de Agroecologia. Porque nós sabemos que é importantíssimo para nosso País, para nós, para nossa população, para nossa segurança, e soberania alimentar, produzir com base na agroecologia. As metas que nós construímos juntos no primeiro plano de agroecologia, agora que nós acompanhamos e que, eu quero destacar, por exemplo, o programa Ecoforte, que tem 30 redes de agroecologia, nós vamos aumentar essas metas. Nós vamos neste segundo plano, que eu tenho certeza, contará como suporte a coluna vertebral e o cérebro de vocês, nós iremos garantir que o nosso País terá compromisso com comida boa e saudável.

Eu quero hoje aqui destacar, sublinhar, reafirmar dois compromissos: o primeiro compromisso é com assistência técnica. Nós não achamos que produzir alimentos pelos pequenos, nós não achamos que produzir alimentos pelos camponeses e as camponesas pode ser feito sem que a gente tenha as melhores práticas. Sem que a gente espalhe as melhores práticas, daí a importância da assistência técnica. Daí a importância de ter acesso a assistência técnica através da Anater. Os grandes têm as suas assistências técnicas, que eles contratam de quem eles entendem. A Anater tem por objetivo, também, dar assistência técnica aos camponeses e camponesas desse nosso País.

A segunda questão é o nosso compromisso com a reforma agrária. Em 2015 nós assentarmos 13 mil famílias. E novos decretos nós faremos até o final do ano. Eu sei que vocês, e vocês me entregaram, têm demandas por novas políticas que atendam a agricultura camponesa. Eu sei, que apesar das conquistas, e por causa delas, a gente tem de seguir em frente e buscar mais conquistas. É assim que a gente avança. Eu sei também, que é importante que a gente perceba, que tem um caminho que nós vamos ter de trilhar para construir o Brasil que produz alimentos de qualidade, é agroecologia. É agroindústria. E agroindústria, quando a gente fala dos pequenos, é uma agroindústria que atenda a todos, que seja capaz de transformar a produção, agregando valor. Então agroecologia e agroindústria.

E quero falar para vocês que eu acredito também no cooperativismo. Eu acredito no cooperativismo porque eu acho que o que distingue, o que distingue uma das melhores características do ser humano, o que nos distingue e nos dá qualidade é a capacidade que nós temos de cooperar uns com outros. Não é explorar, é cooperar a palavra. Cooperar uns com os outros.

Então, eu acredito que o futuro está baseado em três bases: uma, a base da agroecologia. Cada vez mais nós teremos pessoas procurando o que as pessoas importam, o que as pessoas acham, importa. Cada vez mais as pessoas vão procurar alimentos saudáveis. Dois, nós temos de olhar para a capacidade de cada um aumentar a sua renda, cada camponês e cada camponesa, fazendo produtos lácteos de qualidade, fazendo embutidos na pequena propriedade, de qualidade. Enfim, sendo capazes, com o esforço, gerar renda  e verticalizar um pouco a sua produção. Além disso, eu considero que cooperativismo é essencial. Apesar do que muitos pensam, tem várias formas de cooperativar. E eu acredito que a forma horizontal democrática, baseada na igualdade entre os produtores, ela é a mais adequada.

Minhas queridas companheiras, meus queridos companheiros,

O Brasil está, sem sombra de dúvida, passando por um momento de dificuldades na sua economia. Não vou esconder esse fato. Nós, nos últimos 6 anos, depois que começou a crise internacional, a crise que foi gerada nos países desenvolvidos, pelo setor financeiro, nós resistimos bravamente. Enquanto eles desempregavam e reduziam salários, nós resistimos numa política que gerava emprego e gerava renda. Essa crise dura até agora. E ela, a partir do ano passado, atingiu, de forma mais profunda, os chamados países emergentes, como o Brasil, a China e outros. E nós tivemos de apertar um pouco o nosso cinto, de olhar para o nosso orçamento.

Apesar da redução nas despesas, e nós fizemos a redução nas despesas - exemplo disso, símbolo disso é a redução que nós fizemos: cortamos oito ministérios, cortamos 30 secretarias, reduzimos 3 mil cargos em comissão, diminuímos em 10% o nosso salário e dos ministros. Em que pese tudo isso, nós preservamos, fizemos tudo isso, mas como se faz numa casa, ninguém que está apertando o cinto deixa os seus filhos desguarnecidos ou abandonados. Você aperta o cinto para proteger a sua família. A mesma coisa faz um governo comprometido com o povo. Nós preservamos aquilo que nós consideramos ser o centro, a alma, o espírito do governo. Por exemplo, as políticas para a agricultura familiar, mas não só as políticas para a agricultura familiar.

Alguns dizem por aí que o governo está parado, que o governo deixou de fazer política social, deixou abandonados os programas sociais. É mentira. Por que é mentira? Porque nesse ano de 2015, nesse ano de esforço, nesse ano de dificuldades, eu vou dizer para vocês algumas coisas que nós estamos fazendo. Nós estamos criando quase 1 milhão de novas vagas para os jovens deste País, principalmente os jovens que vêm de família de menor renda, a ter acesso à universidade. Precisamente 906 mil novas vagas. Não estou falando do que vem de antes, estou falando do que foi criado esse ano. Criado pela universidade pública que, aliás, nós ampliamos. Criado pelo ProUni, pelo qual nós garantimos acesso àquelas pessoas que jamais teriam acesso à universidade privada, nós garantimos acesso com bolsa; através do Fies também, que nós financiamos as matriculas e o pagamento das anuidades. Nós vamos criar este ano, ao chegar ao fim dele, 1,3 milhão de vagas no Pronatec. O Pronatec não parou, mantivemos a política de valorização do salário mínimo até 2019, quando vários deles diziam que era política de salário mínimo a responsável pela inflação, outra mentira. Não foi a política do salário mínimo a responsável pela inflação. A inflação foi produzida porque nós tivemos - e ainda estamos com ela - uma das maiores secas dos últimos 100 anos no Brasil. O Nordeste ainda vive ela, vive essa seca. O Sudeste, graças a Deus está saindo. E o Sul está saindo. E isso significa que nós vamos ter, o ano que vem, taxas de crescimento da inflação bem menores.

Além disso, a política de valorização do salário-mínimo ela foi muito benéfica e está sendo para o nosso País. Ela garantiu o poder de compra dos salários, coisa que não se garantia nesse País. Criamos também a política de proteção ao emprego diante dessa crise. Uma coisa importante, esse ano de dificuldades, nós vamos entregar 360 mil moradias do Minha Casa Minha Vida.

Em 2013 tinham mais de 700 municípios nesse País, nesse grande País, que não tinha um único médico, um único médico. Além disso, se vocês me perguntarem, no interior na zona rural, médico não era visto nos municípios com grandes áreas rurais. A população indígena não tinha acesso a médico. Os departamentos de saúde indígenas não tinham médicos.

Quando nós fizemos um acordo com governo de Cuba e trouxemos médicos cubanos para o Brasil, fizemos porque o Brasil não tinha médicos suficientes para atender sua população. E hoje, agora esse ano, nós expandimos o número de médicos no nosso País para 18 mil médicos atendendo 63 milhões de pessoas que, até então, não tinham médico. Continuamos pagando o Bolsa Famílias direitinho e em dia. São 14 milhões que recebem o Bolsa Família.

Por isso, companheiros e companheiras, nós estamos fazendo duas coisas que são necessárias: De um lado, dando uma economizada para passar esse momento em que, o governo arrecada menos. De outro, lutando feito leão, todo santo dia para manter programas sociais e os investimentos prioritários do governo. Esse governo não está parado coisíssima nenhuma. E nós temos nos esforçado, talvez mais ainda do que nos tempos normais, para garantir os nossos compromissos.

Queridos companheiros e queridas companheiras,

Eu queria aqui fazer uma reflexão com vocês, nós estamos vivendo um momento de dificuldades políticas, vou chamar de crise política séria. Neste exato momento, setores da oposição tentam uma variante de golpe, um golpe disfarçado. Um golpe que tem tudo de golpe: cara de golpe, pé de golpe, mão de golpe, mas que tenta passar como sendo uma manifestação oposicionista. Na verdade, o que eles querem? Querem um atalho, querem um atalho para o poder. Querem um atalho para chegar mais rápido em 2018. Nós não vamos permitir que eles golpeiem o mandato que nós conquistamos nas urnas, os 54 milhões de votos.

Eles usam argumentos dos mais artificiais. Eles jogam no chamado quanto pior melhor. O jogo do quanto pior melhor é assim: quanto melhor para eles, quanto pior para o povo brasileiro. Sempre jogaram esse jogo assim, a regra do jogo é uma regra viciada. Primeiro os interesses deles, depois muito depois os interesses do Brasil e do povo brasileiro.

Eu quero dizer para vocês que esse golpe não é contra mim, é contra o projeto que eu represento. Eu disse isso ontem, lá na CUT e vou repetir aqui: é contra o projeto que fez do Brasil, uma coisa que vocês ajudaram, e que eu disse no início, fez o Brasil sair do mapa da fome e superar a pobreza extrema. É contra o Brasil que complementa a renda daqueles que mais precisam. É contra um projeto de desenvolvimento que deu prioridade àquelas populações que antes não tinham voz nem vez. Um projeto que criou uma das classes médias maiores do mundo, um projeto que colocou as pessoas de pé, com auto-estima. É um discurso golpista, é um discurso contra as conquistas históricas dos trabalhadores ao longo de toda a vida deste País. Não se iludam, é contra a reforma agrária, sim. É contra as políticas de sustentação da agricultura familiar, porque acham que nós gastamos muito com subsídios. Aliás, aliás, as questões das chamadas “pedaladas” nada mais são do que uma crítica às formas pelas quais nós pagamos tanto o Minha Casa Minha Vida como o Bolsa Família.

Quero dizer que também é uma tentativa de golpe, também, contra algo fundamental, contra a soberania nacional, contra o Modelo de Partilha do Pré-sal, contra a política de conteúdo nacional. É contra, também, o mais longo período, o mais extenso período de distribuição de renda, de inclusão social e de redução das desigualdades que este País, desde o seu descobrimento, desde o seu descobrimento, desenvolveu. O mais longo programa de inclusão social. Como dizia o presidente Lula: “Nunca dantes na história deste País” se reduziu tanto a desigualdade e se distribuiu tanto a renda.

Mas eu, sobretudo, acho que a coisa que mais nos caracteriza, a coisa mais forte dos nossos governos foi que nós buscamos uma coisa que eu considero fundamental. Cada um de nós é diferente. Eu sou diferente do Anderson, do Rossetto, do Patrus. Sou diferente do Stédile, do Frei Sérgio, cada um de nós é diferente. Muito bem, nós somos diferentes. Até aí morreu o Neves, como dizem em Minas Gerais, até aí morreu Neves. Agora, o que distingue um governo é se ele tem consciência que “está bom, somos diferentes, mas as oportunidades têm de ser iguais”. As oportunidades não têm de ser diferentes. Não existe justificativa para uma criança, um brasileirinho e uma brasileirinha, ter acesso a uma educação pior só porque nasceu numa família mais pobre. Aí é papel do Estado brasileiro garantir que essa criança tenha acesso à educação da melhor qualidade possível. Eu acho que é isso que distingue os governos, é perceberem que nós temos de garantir igualdade de oportunidade. E é contra isso também que acham que nós erramos. Nós exageramos a mão, criamos igualdade de oportunidades demais. Por que que eu comecei dizendo que nós criamos 906 mil matrículas no ensino superior? Eu comecei dizendo isso porque a forma, a base, o fundamento da igualdade de oportunidades é educação de qualidade para todos. É ter uma educação da melhor qualidade para todos brasileiros. É ter também o acesso à saúde de melhor qualidade para todos os brasileiros.

Aí, vocês me perguntam: “Mas vem cá presidente, nós conseguimos isso?” Eu quero dizer para vocês que não conseguimos ainda não. Nós temos de lutar para ter isso. Nós temos de lutar porque tem 500 anos que nesse País, quem tem, quem nasceu numa determinada família, tem determinado sobrenome, tem melhores condições do que aqueles que vieram de famílias mais pobres.

Outro dia, não sei se vocês lembram o que eles diziam: “Ah o Bolsa Família é ruim porque as pessoas ficam mal acostumadas. O Bolsa Família é ruim porque as pessoas não se esforçam”. Essa é uma visão elitista do Bolsa Família. E eu vou contar uma coisa para vocês. Tem Olimpíada que é esportiva. Tem um outro tipo de Olimpíada que é do conhecimento, vocês sabem como essa Olimpíada que é do conhecimento funciona? Quem vem, está melhor preparado, tem melhor conhecimento ganha a Olimpíada. O Brasil sempre participou duma Olimpíada do Conhecimento, a gente ficava em quarto lugar, quinto lugar, uma vez chegamos a terceiro. Este ano nós ganhamos o primeiro lugar. Aí eu quero contar uma coisa para vocês. Uma coisa que me chamou a atenção, que me emocionou e que eu fiquei muito orgulhosa. O primeiro lugar internacional, concorrendo com os seguintes países: Coreia do Sul, Japão, China, França, Suíça e Alemanha, foi o Brasil. Quem era que ganhou o primeiro lugar? Um rapaz que o pai e a mãe recebiam o Bolsa Família. Ele ganhou a medalha de ouro. É isso que é igualdade de oportunidade. Esse menino teve oportunidade, esse menino agarrou a oportunidade com as duas mãos e foi embora. Porque esse povo nosso é assim: tendo oportunidade, ele agarra com as duas mãos. Por isso que eu gosto do que vocês estão fazendo aqui, hoje. Vocês estão criando oportunidades. É isso que vocês estão fazendo.

Meus queridos companheiros,

Eu estou indo para o fim, podem ficar calmos. Não vou ficar aqui falando o resto da noite. Até porque eu tinha um compromisso, mas a gente fica aqui, se entusiasma, vendo vocês, não é?

Eu quero dizer uma coisa: é legítimo que façam a nós as mais duras criticas. Podem fazer,  isso é legítimo, faz parte da democracia. Mas é golpe e irresponsabilidade querer interromper o curso democrático natural do País. Nós estamos hoje trabalhando com toda energia para enfrentar a crise. E quero dizer para vocês que o Brasil  é forte suficiente para sair dela o mais rápido possível. O Brasil não vai retroceder. Com o empenho e a mobilização de cada um de vocês nós vamos  dar uma volta por cima na crise. E vamos dar também um basta no golpismo. Eu tenho certeza que a minha força vem de vocês. Vem da luta por um Brasil mais justo, mais igual. Uma luta por um Brasil realmente democrático.

Eu quero dizer para vocês que eu me defendo com muita serenidade. Até porque não cometi nenhum desvio de conduta. Jamais utilizei em meu proveito a atividade que eu exerci dignamente como presidente da República. Eu tenho certeza, e eu tenho certeza que eles tentaram, eles buscaram encontrar alguma coisa contra mim, mas nunca vão encontrar, porque jamais cometi um malfeito na minha vida política e pessoal. Eu desconheço, entre os que se movem contra meu mandato, quem tenha a força moral, reputação ilibada e biografa limpa suficiente para atacar minha honra, desconheço.

Finalmente eu queria dar aqui uma palavra final. Eu conto com cada um de vocês para que possamos avançar no nosso projeto de um Brasil democrático, com oportunidades para todos os brasileiros e as brasileiras, os brasileirinhos e as brasileirinhas que iniciaram essa cerimônia, com a mística que é inspiradora de todos nós.

Muito obrigada.

 

 Ouça a íntegra (47min10s) do discurso da Presidenta Dilma Rousseff