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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante o evento Dialoga Paraíba - João Pessoa/PB

por Portal Planalto publicado 04/09/2015 22h10, última modificação 04/09/2015 22h12

João Pessoa-PB, 04 de setembro de 2015

 

 

De coração para corações, muito obrigada.

Eu queria começar cumprimentando a cada uma das pessoas, dos cidadãos brasileiros aqui presentes. Brasileiros, nordestinos, paraibanos.

Queria também cumprimentar e agradecer ao nosso querido governador, Ricardo Coutinho.

Queria também cumprimentar e agradecer ao nosso prefeito Cartaxo.

Cumprimentar e agradecer aos deputados aqui presentes e aos senadores que estiveram aqui presentes e tiveram que sair.

Cumprimentar cada um aqui dos representantes dos movimentos sociais.

 

Nós estamos em uma atividade excepcional. Nós estamos na atividade que aproxima as pessoas. Só tem um jeito de as pessoas se aproximarem: é olharem um no olho do outro. Diálogo é isso; diálogo é a capacidade que nós temos de olhar uns nos olhos dos outros e perceber que nós somos companheiros, que nós podemos achar uma coisa, o outro achar outra. Mas que o diálogo nos aproxima, mesmo que tenhamos diferenças. É essa a arte do diálogo; é isso que, ao longo da história, aproximou as pessoas, criou os países, criou as comunidades, criou as nações. E nós estamos muito perto da data de aniversário da nossa nação, que é segunda-feira, Sete de Setembro.

Esse diálogo é um diálogo, então, que cria entre nós, cria essa proximidade de quem, juntos, podem muito; e separados, não podemos tanto. Eu tenho certeza de uma coisa: eu tenho certeza que o Dialoga Brasil, o Dialoga Paraíba, como todos os outros “Dialogas”, que nós já começamos com Brasília, com a Bahia, com Pernambuco e com o Ceará, eles todos trazem uma mensagem para nós. A mensagem é a seguinte: nós temos que seguir em frente, superando nossos problemas, porque nós também temos problemas; superando e avançando. Avançando em quê? Eu acho que a principal característica do governo, em que pese as nossas eventuais falhas, mas a grande conquista do governo foi olhar para o povo desse país e perceber que, na nossa grande diversidade, nós somos diferentes um dos outros, mas nós todos temos direito às mesmas oportunidades. É isso que distingue o meu governo e que distinguiu o do governo do presidente Lula. Nós consideramos que o Brasil precisava, também, olhar para as diferentes regiões e perceber que o povo de cada uma das regiões também tinha direito às mesmas oportunidades: é a oportunidade social e oportunidade e o direito das regiões. Por isso, eu tenho certeza de uma coisa: tenho certeza que nós trabalhamos muito para reverter toda a história de desigualdade que, desde a escravidão, desde a colonização, pesa sobre uma parte dos brasileiros e pesa sobre as regiões desse país. Nordeste e o povo brasileiro precisam de igualdade de oportunidades. E, dentro do povo brasileiro, as mulheres também precisam de igualdade de oportunidades. E hoje eu ganhei uma camiseta que dizia: “Morena não, negra!”. E esse país também precisa encarar de frente a questão da igualdade racial. Precisa fazer isso porque é isso que nos distingue. E aí eu queria fazer uma pequena reflexão com vocês. Todos vocês viram aquele menininho sírio, de três anos, morto. Morto porque não foi acolhido; morto porque foi abandonado; morto porque os países criaram barreiras para a entrada desse menino.

O Brasil é um país com uma história, uma história especial. Nós somos um país composto de pessoas que vieram de todas as partes do mundo, além dos povos tradicionais indígenas que aqui estavam. Vieram os negros de vários países da África. Aliás, nós somos o maior país negro fora da África e temos que ter orgulho disso. Vieram europeus de tudo quando é lugar. Vieram pessoas, também, da Ásia: japoneses, chineses, e de todas as procedências. E vieram, também, pessoas do Oriente Médio, árabes, turcos, enfim, o Brasil foi feito de muitas nacionalidades diferentes, muitas, etnias. E se tem uma riqueza que perpassa esse país, que começa lá com a cultura, é essa diversidade, que é uma diversidade também - e fundamentalmente -, não só de etnias, mas de culturas. Essa contribuição imensa, essa riqueza imensa que as pessoas que formaram este país trouxeram de vários lugares. Essa é a nossa nacionalidade, e é dela que nós temos de ter imenso orgulho. E tem uma característica desse povo, uma característica que hoje eu quero destacar: é a capacidade de resistência desse povo, a capacidade de superação que cada… a gente encontra em cada brasileiro, cada brasileira e que é algo que nos distingue.

E aí, eu queria começar contando para vocês uma história. A história é a seguinte: existe uma Olimpíada, que não é uma olimpíada esportiva, que é uma Olimpíada do Conhecimento. Nessa olimpíada, é organizada internacionalmente, e participa gente que é peso pesado na área de produção de conhecimento técnico. Chama-se WorldSkills. Essa olimpíada congrega sul-coreanos, congrega alemães, congrega japoneses, congrega franceses, suíços; congrega os países com o maiores desenvolvimento tecnológico e técnico do mundo. A gente concorria: ganhava um quinto, um sexto lugar. Agora nós concorremos e esse ano, nós ganhamos o primeiro lugar.

Mas não é essa toda a história. A história é melhor que isso. Nós ganhamos o  primeiro lugar, tanto em medalhas, quanto o primeiro lugar individual internacional, como várias medalhas de ouro. Quem eram os jovens, os meninos, as meninas, os homens e as mulheres que participaram disso? Eram 84% oriundos do Pronatec, ou tinham feito Pronatec ou estavam fazendo Pronatec. E o menino que ganhou a medalha de ouro - um deles, porque foram várias medalhas de ouro -, a família dele tinha recebido e ainda recebia Bolsa Família.

O outro menino, o que ganhou a maior medalha, era filho de um entregador de gás. Não teria condições de ter parado e feito curso técnico se não tivesse o Pronatec. Então, o que eu quero dizer a vocês é o seguinte: foi com esforço pessoal de cada um dos brasileiros e das brasileiras que participaram do Pronatec que eles ganharam as medalhas. É mérito de cada um deles. Qual é a participação do governo nisso? O governo deu a oportunidade. É isso que governo comprometido com seu povo faz: assegura oportunidade.

É isso que governos como o do presidente Lula, o meu governo, o governo do Ricardo Coutinho, do Cartaxo, têm obrigação de fazer: garantir a oportunidade e que ela seja uma oportunidade consistente para todos, independentemente de onde a pessoa venha, independentemente do seu parentesco, ele tem aquela oportunidade porque é um cidadão deste país e desta Nação. É isso que estou contando para vocês. Eu estou contando um exemplo que me comoveu profundamente e que mostra que os preconceitos com o Bolsa Família não têm o menor fundamento. Mostram que as pessoas neste país têm imensa capacidade de superação. E é isso que eu queria dizer para vocês hoje. Porque este país escuta tanto, mas tanto, as coisas negativas, o pessimismo -  vai acabar, vai acontecer uma catástrofe - que as pessoas vão perdendo a força, a autoestima, a esperança. Mas não é verdade, o povo não perde isso.

E é isso que, quando fizeram… eu não sei se vocês lembram que fizeram uma propaganda que dizia o seguinte: “A melhor coisa do Brasil é o brasileiro”. Eu acho que o fundamento disso que eu estou dizendo é esse: a melhor coisa deste país é o povo deste país. E é para ele... Por mais que nós tenhamos petróleo, por mais que nós tenhamos minério, por mais que nós tenhamos indústria, o que importa neste país é que nós temos que ter um povo com condições de vida dignas e com oportunidades. É isso que nós temos que ter. Quero dizer para vocês que é esse o meu compromisso aqui, no Dialoga: é dialogar, ampliar as oportunidades que todos os brasileiros e as brasileiras têm que ter.

E aí, eu conto uma outra história para vocês, que eu aprendi lá, com o nosso Juca Ferreira. Organizando, ainda na época do presidente, uma Conferência da Cultura, tinham várias pessoas. E tinha um ribeirinho que veio lá das margens do Amazonas, pelo menos é disso que eu lembro, ele vinha lá do Amazonas, ele era um ribeirinho. E aí perguntaram para ele: “Ô, seu João, o que é uma conferência, para que serve uma conferência?” E ele, na sua sabedoria de ribeirinho, do povo deste país, respondeu: “Serve para conferir se tudo está nos conformes”.

Como no Dialoga, eu vou falar para vocês: para que serve o Dialoga? Serve para conferir se tudo está nos conformes. Por quê? Três coisas podem acontecer. Primeira coisa, a gente tem que contar o que está fazendo para vocês conferirem, senão vocês não podem conferir. Segundo, aí vocês conferem, aí vocês podem sugerir, falar: “Não, está errado isso aí, isso aí não vai… seria melhor fazendo assim, presta atenção naquilo, faça como o… que, infelizmente não era da sua área, sugeriu: subsidie e leve banda larga para todo mundo”. Serve, então, para sugerir. E serve, também, para modificar: “Esse programa não está bom, tem de ser modificado”.

O que eu quero dizer com  isso? Eu quero dizer o seguinte: que o Dialoga, ele é um mecanismo pelo qual nós nos aproximamos, olhamos nos olhos uns dos outros e vamos aceitar, sim, vamos olhar, sim, vamos receber críticas, vamos receber sugestões e vamos responder. Eu gostaria muito de dizer uma coisa para vocês. Hoje aqui, na Paraíba, eu queria fazer uma reflexão sobre a questão da água.Eu acho que o acesso à água é tão importante em um país como o acesso à luz elétrica. Em alguns lugares em que a gente vive, se não tiver água, não tem desenvolvimento. A mesma coisa é a luz elétrica: se não tiver a luz elétrica também não tem desenvolvimento.

A luz elétrica, se você tiver um candeeiro, você sobrevive. Sem água, ninguém sobrevive, ninguém sobrevive. Daí porque eu considero que uma das questões mais importantes do país - Ô gente, não adianta levantar o papel porque eu não enxergo nada. Sou cega que nem uma coruja de noite; eu não sei se a coruja é cega ou não, mas eu não enxergo de longe. Depois você passa aí, alguém me dá e eu leio, tá? Tem que ter emprego no Brasil inteiro. Tem negro na Paraíba, tem negro, sim, na Paraíba, tem negro no Brasil inteiro.

O Censo desse país, gente, o Censo…Uma vez eu disse que isso era a maior manifestação de autoestima do povo brasileiro é que o Censo Brasileiro de 2010 reconheceu que 52% da população era de negros. Cinquenta e dois por cento, ou seja, a maioria da população. Se as pessoas se reconheceram como negras é porque elas valorizavam ser negras. Esse é o dado mais importante do Censo. É a gente ser capaz de se olhar no espelho e dizer: “eu sou negro”. Então, pode ter certeza, na Paraíba, no Brasil e em cada canto desse país, nós somos isso, graças a Deus, porque não teríamos essa alegria toda se não tivesse a contribuição dos nossos irmãos brasileiros oriundos da África.

Mas voltando ao que eu estava falando - ô, eu estou que nem o Juca, esqueci da água. Porque o Juca outro dia esqueceu onde ele estava. Já lembrei, água. Então, eu estou falando da questão da água. A questão da água é elemento fundamental para igualdade de oportunidades. Precisou um nordestino chegar ao governo; nordestino retirante, ele era retirante, o Lula. Ele saiu do Nordeste com a mãe dele e os irmãos sem nada, praticamente sem nada, e chegou onde chegou, então também é um exemplo.

Mas precisou, eu estava falando, que um nordestino fosse eleito para que a gente tivesse esse programa que se chama Transposição do Rio São Francisco, que vai trazer água através de dois eixos aqui para a Paraiba. É uma obra fundamental. É uma obra fundamental por quê? Porque ela vai ser capaz de assegurar, de forma bastante significativa, o acesso à agua, tanto para as pessoas matarem a sede, para os animais matarem a sede e, também, para ser possível a atividade produtiva aqui no estado, quando a seca bate. E nós sabemos que a seca está batendo forte há quatro anos. Há quatro anos nós vivemos um período de seca.

Eu quero dizer para vocês que nós temos um compromisso e um orgulho: é um compromisso e é um orgulho, que é entregar a obra da Transposição do São Francisco o mais rápido possível. E aí eu quero assumir, também, aqui, um compromisso: o mundo pode dar as voltar que der, nós não iremos, de maneira alguma, paralisar, suspender, a obra do São Francisco. Esse é o compromisso do meu governo com toda a região nordestina, do Semiárido, beneficiada pela integração do São Francisco. Mas, além disso, tem outra coisa: eu sei que vocês aqui passam por um grande sufoco em matéria de água. Tem cidades que já estão bastante, com bastante dificuldades para o abastecimento, como é o caso de Campina Grande. Uma outra coisa que nós faremos: nós tomaremos as medidas para, em parceria com o governador, em parceria com o povo daqui, nós tomarmos medidas emergenciais, uma vez que a transposição, ela ainda leva todo o ano que vem para ficar pronta

E isso eu estou dizendo porque eu tenho perfeita clareza que o Nordeste precisa de muito pouco para deslanchar. Precisa  ter as mesmas condições que os estados desenvolvidos deste país têm: infraestrutura, rodovia, portos, precisa de água e, sobretudo, precisa, também, de universidade, precisa de ensino técnico, precisa de garantia de acesso… É, no caso da educação, nós temos um grande desafio, sim. Este país só será… este país só será um país desenvolvido se a educação se voltar para o povo deste país. É para o povo deste país que nós fazemos Enem, que nós fazemos o que eles chamam de Sisu, que é uma seleção unificada,  Sisu é isso, gente. Porque a hora que ele fala Sisu eu tremo, porque eu acho que ninguém sabe o que é Sisu. Sisu é um nome muito esquisito; Sisu é isso: é seleção unificada; Sisu é isso.

É para isso que nós fazemos o ProUni, porque os empresários da educação têm que pagar imposto, aí o que a gente faz? “Está bom, então você não paga imposto em dinheiro, você vai pagar imposto oferecendo vaga nas escolas superiores privadas”. Porque, se não fosse isso, não entrava um pobre em uma universidade privada, um único pobre. Por isso também, reconhecendo a importância dos negros e daqueles que cursaram o ensino público, nós criamos as cotas. As cotas que coloriram os bancos universitários deste país, fazendo com que a cor das pessoas nos bancos universitários fosse igual à cor do país, e não todo mundo branco.

Então, eu quero dizer uma outra coisa para vocês, que eu acho muito importante, daquilo que os ministros falaram. Uma, é uma questão para as mulheres: nós somos um governo que tem imensa honra de fazer uma firme luta, sempre apoiando a mulher vítima de violência, lutando contra a violência que recai sobre a mulher por ela ser mulher, apoiando a Lei Maria da Penha, fazendo a Lei do Feminicídio e criando a Casa da Mulher Brasileira. A Tereza Campello falou uma coisa muito importante sobre as mulheres: é uma coisa social mas também é algo que afeta a mulher. Ela disse que por conta das cisternas - e aí eu volto na água -, por conta da  política de cisternas que nós fizemos em parceria com os estados, com o governador, com a ASA que é uma ONG - a ASA está aí? -, por conta dessa parceria nós conseguimos fazer não só que as populações tivessem acesso através da cisterna, na zona rural, à água e não é fácil, vocês vão convir comigo. Fazer 1,1 milhão não é fácil. Então, agradeço muito a todos os que cooperaram, e sempre eu me refiro à ASA, por uma questão de justiça, e aí tem uma coisa que a Tereza falou que eu me lembrei. O pessoal que é da minha idade talvez lembre também. Tinha uma música no Brasil que falava: “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria, sobe o morro e não se cansa, e pela mão leva a criança. Lá vai Maria”. É a libertação, também, da mulher da lata d’água na cabeça. E a água é isso; a água produz isso. Ela liberta, também, as pessoas de situações de desigualdade que de outra forma permaneceriam.

E quero dizer uma outra coisa, por último, para vocês. Esse pais além de ter força suficiente para enfrentar as dificuldades; esse país, além de ter recursos para enfrentar as dificuldades; além desse país ter a cabeça erguida para enfrentar as dificuldades, esse país é uma grande democracia que nós conquistamos com a  luta de cada um de nós ao longo desses últimos 30 anos. E tenho certeza que hoje nós temos ainda mais força, mais determinação do que tínhamos quando iniciamos a luta. Porque agora nós vivemos em uma democracia. Garantir a democracia na democracia é algo que depende de cada um de nós. Do ponto de vista do meu governo, o direito democrático das pessoas se manifestarem mesmo quando se manifestam de forma contrária ao governo, é um direito sagrado. Mas essa manifestação não pode levar nem à violência, nem à intolerância. Os países que se deixaram dividir pela intolerância sempre voltaram para trás. Nós somos um país que não só é tolerante pela própria natureza, tolerante pela forma como nós convivemos com as nossas diferenças, mas também porque nós sabemos que o preço da intolerância é a divisão, é transformar o outro em um inimigo e não em uma pessoa que simplesmente, naquele momento, você discorda.

Emtão eu quero dizer para vocês: a grande conquista do país, a grande conquista democrática do país, foi sermos capazes de conviver com as reivindicações, porque na minha época reivindicar era subversivo; na minha época fazer greve dava cadeia; na minha época se manifestar de forma clara contrária ao governo também  dava cadeia, quando não dava coisa pior. Por isso, essa conquista é uma conquista que nós preservaremos a todo custo: a conquista democrática, com imprensa livre, com manifestação de opinião, é algo que interessa ao povo desse país, e a estabilidade desse país significa respeito às instituições, respeito ao voto popular porque o voto popular é a base da democracia.

Finalmente, eu quero dizer uma coisa: eu agradeço a vocês, agradeço ao calor com que vocês nos recebem. Agradeço a vocês por participarem e gostaria muito que vocês continuassem debatendo, dialogando conosco através dessa que é uma das mais modernas formas de participação, que é a internet. A internet permite que a gente se encontre, converse, mesmo quando não estamos no olho no olho, mas permite que a gente saiba o que vocês estão pensando, o que vocês acham de nós, o que vocês querem que nós mudemos. Por isso, meu apelo final: “Dialoga Paraíba, Dialoga!”.

 

 Ouça a íntegra (33min15s) do discurso da Presidenta Dilma Rousseff