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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de outorga do título de Doutora "Honoris Causa" pela Universidade de Delhi

por Portal do Planalto publicado 28/03/2012 10h59, última modificação 04/07/2014 20h10
Presidenta Dilma agradece à Universidade de Délhi e deseja que os próximos anos reservem para Brasil e Índia um futuro de desenvolvimento, paz e liberdade

Nova Delhi-Índia, 28 de março de 2012


Senhor Hamid Ansari, vice-presidente da República da Índia e reitor da Universidade de Delhi,

Professor Dinesh Singh, vice-reitor da Universidade de Delhi,

Professor Vivek Suneja, pró-reitor da Universidade de Delhi,

Professor Umesh Rai, diretor do Campus Sul da Universidade de Delhi,

Professor Sudhish Pachauri, diretor das faculdades da Universidade de Delhi,

Senhora Janaki Kathpalia, tesoureira da Universidade de Delhi,

Senhor Rajesh Kumar Sinha, secretário da Universidade de Delhi,

Senhoras e senhores ministros de Estado que me acompanham nesta viagem: Antonio Patriota, das Relações Exteriores; Aloizio Mercadante, da Educação; Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Marco Antonio Raupp, da Ciência, Tecnologia e Inovação; Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação Social; Gastão Vieira, do Turismo.

Senhores governadores Ricardo Coutinho, do estado da Paraíba, e Marcelo Déda Chagas, do estado de Sergipe.

Senhoras e senhores integrantes do Conselho Executivo da Universidade de Delhi, que me conferiram este título.

Senhoras e senhores membros do corpo acadêmico da Universidade de Delhi,

Senhoras e senhores,

Quero inicialmente manifestar minha gratidão à Universidade de Delhi pelo título de Doutor Honoris Causa, que hoje me atribui. Entendo que essa honraria transcende minha pessoa. Vejo-a como uma homenagem ao meu país e ao meu povo.

A despeito dos milhares de quilômetros que nos separam, são muitos os pontos de contato nas histórias da Índia e do Brasil.

Aqui aportaram os navegadores portugueses em suas viagens marítimas no século XVI. Esses mesmos navegadores chegaram às nossas costas, anos antes, “em busca das Índias”.

No século XX, além do fascínio que sobre nós exercia a cultura milenar deste país, acompanhamos com emoção o grande movimento de emancipação que os hindus levaram a cabo contra o jugo colonial e contra as desigualdades sociais.

Não vamos jamais esquecer o exemplo do grande Mahatma Gandhi, que soube aliar seu pensamento de profunda visão humanista a uma ação firme na defesa da causa da independência nacional, da justiça e da paz. Sua liderança serena e esclarecida é uma lição que a Índia deu ao mundo em um momento crucial de sua história.

Como esquecer, igualmente, a figura de Nehru, o construtor da Índia moderna, responsável por sua coesão e pela projeção internacional que seu país ganhou em momentos difíceis pelos quais passou a humanidade.

Países de industrialização tardia, tivemos e temos hoje desafios comuns. Levar adiante projetos nacionais de desenvolvimento capazes de lograr altas taxas de crescimento, mas, ao mesmo tempo, de eliminar a pobreza e, sobretudo, reduzir a desigualdade social em um marco de expansão e de aprofundamento da democracia.

Os brasileiros, como de resto todo o continente latino-americano, admiram a capacidade da Índia de combinar valores milenares com avanços notáveis em matéria de ciência, tecnologia e inovação, que se refletem na qualidade de suas instituições universitárias. Esse caminho fez da Índia uma nação destinada a consolidar-se como um polo de progresso e a contribuir cada vez mais para a construção de uma sociedade internacional próspera e justa.

Índia e Brasil compartilham o desafio de assegurar uma melhora expressiva de condições de vida a nossos concidadãos, particularmente aos que ainda vivem em situação de pobreza extrema. E temos, ambos os países, avançados muito na direção da melhoria dessas condições de vida.

Compartilhamos também o mesmo compromisso de construção de um sistema internacional mais democrático, enraizado no direito internacional e voltado para construção da paz, através da cooperação e do diálogo.

Senhor Reitor, Senhoras e Senhores,

A despeito desses pontos em comum, é recente a aproximação entre os governos, empresas, sociedades civis e intelectuais de nossos países.

Em 2006, estabelecemos uma parceria estratégica, ainda no governo do ex-presidente Lula, contemplando áreas como comércio bilateral, investimentos, defesa, ciência, tecnologia, cultura, energia e agricultura.

De 2003 a 2011, multiplicou-se por nove o comércio entre Brasil e Índia.

Há presença crescente de investimentos indianos no Brasil, em setores de grande relevância para nossa economia, como o da tecnologia da informação, o farmacêutico, o químico, petroquímico, o de engenharia, e o de petróleo e gás.

Hoje, nosso desafio é fazer com que essas afinidades se traduzam em realizações concretas e em maior proximidade e em novas conquistas para os nossos povos.

Nossas democracias revelam a capacidade de encaminhar, com ampla liberdade, os problemas cuja solução são urgentes para nossos povos.

Encontramos aqui o sentido pleno da feliz expressão de Amartya Sen: o desenvolvimento como liberdade.

Sem perder de vista os problemas que ainda persistem no Brasil, conseguimos lograr grandes avanços nestes 10 últimos anos em matéria de crescimento com inclusão social, redução das desigualdades e abertura de oportunidades. Quarenta milhões de homens e mulheres no Brasil foram incorporados à produção. Os dados da Índia também são bastantes significativos, no sentido da melhoria das condições de vida das camadas mais pobres.

O importante mercado de bens de consumo de massas que se constituiu nos últimos anos no Brasil propiciou a nossa força para contornar a crise internacional desencadeada a partir de 2008.

No início de meu governo, lancei o Programa Brasil sem Miséria, que aprofunda políticas sociais, beneficiando agora 16 milhões de brasileiros que ainda sofrem graves privações. Estamos trabalhando para ampliar o acesso à habitação, saúde e educação de melhor qualidade.

Senhor Reitor,

Encontrando-me nesta respeitada Universidade, não posso deixar de assinalar a ênfase que nosso governo atribui ao avanço em ciência, tecnologia e inovação.

Sabemos o quanto essas áreas tornam-se condição indispensável do desenvolvimento. Nenhum país pode, hoje, aspirar a um efetivo desenvolvimento se não for capaz de construir um sistema de inovação tecnológica, que deve necessariamente envolver governos, empresas e instituições de ensino e pesquisa, como é o caso da Universidade que me dá a honra de conceder o Prêmio Honoris Causa.

Índia e Brasil têm dado mostras de que entenderam esse imperativo e têm alcançado resultados destacados.

No Brasil, lançamos o programa Ciência sem Fronteiras, pelo qual estamos enviando 100 mil estudantes e pesquisadores para formação em centros de pesquisa de primeira linha.

Para nosso Governo é motivo de especial satisfação que a Índia – país conhecido pela excelência de seus cientistas e de seus inovadores tecnológicos – também se associe a nós nessa empreitada.

Agradeço a disposição, manifestada por esta Universidade, de trabalhar conosco para receber estudantes e pesquisadores brasileiros. Esperamos em breve a chegada de professores e pesquisadores indianos em nosso país.

Senhoras e Senhores,

Tenho a certeza de que o Brasil e a Índia serão chamados, cada vez mais, a desempenhar um papel central no encaminhamento das principais questões da agenda internacional.

O crescente peso de nossas economias reforça nossa credibilidade e acentua o potencial de nossa cooperação bilateral e inserção internacional.

Temos nossa palavra a dizer no enfrentamento da grave crise econômico-financeira que ainda provoca preocupação pelo impacto que tem sobre as perspectivas de crescimento global.

Essa crise teve sua origem no mundo desenvolvido. Ela não será superada por meio de meras medidas de austeridade, consolidação fiscal ou desvalorização da força do trabalho. Muito menos por meio de políticas expansionistas que ensejam uma guerra cambial e introduzem no mundo novas e perversas formas de protecionismo.

Brasil e Índia têm palavra a dar na agenda do desenvolvimento sustentável, em todos seus aspectos: econômicos, sociais e ambientais. A Conferência do Rio+20, bem como a Conferência da Biodiversidade, uma no Rio e outra em Hyderabad, reunirá os líderes mundiais em junho e outubro próximos, e serão momentos marcantes para fazer frentes a esses desafios.

Brasil e Índia, também, têm contribuição de relevo a oferecer no fortalecimento da cooperação internacional no contexto da multipolaridade. Privilegiamos o diálogo, a diplomacia e rejeitamos ações unilaterais e as doutrinas que enfatizam o uso da força.

Atuamos conjuntamente pela reforma das instituições de governança global, inclusive o Conselho de Segurança. A necessidade da presença permanente de Brasil e Índia nos organismos e fóruns que deliberam sobre a paz e a segurança global é hoje um consenso entre aqueles que prezam o multilateralismo.

É difícil imaginar algum debate internacional, alguma instância de discussão, em que a opinião da Índia e do Brasil não seja valorizada e, mesmo, demandadas.

Nossa participação ativa nos grandes debates internacionais contribui para tornar a governança global mais democrática, legítima e eficaz.

Senhor Reitor,

Senhoras e senhores,

Professores e professoras da Universidade de Nova Délhi,

Eu estou aqui em Nova Délhi para uma visita de Estado à Índia, que se realiza no mesmo momento em que se reunirá a Cúpula dos BRICS.

Na reunião dos BRICS, teremos a oportunidade de discutir questões centradas no tema de uma parceria para a estabilidade, a segurança e o crescimento, tema no qual se evidencia o entrecruzamento das diferentes agendas setoriais do debate internacional.

Em seguida, terei a honra de encontrar-me com a Presidenta Pratibha Patil e com o Primeiro-Ministro Manmohan Singh, para passar em revista a nossa vasta agenda bilateral e aprofundar nosso diálogo sobre as principais questões econômicas e políticas.

Estou segura que esses encontros darão mais densidade à relação e a todas as ações que ligam nossos países.

Quero concluir recordando as palavras do grande poeta Tagore, autor que tão bem reflete o alcance universal da cultura indiana:

“Deixe meu país despertar num paraíso de liberdade, onde a mente é destemida e a cabeça se mantém erguida, onde o conhecimento é livre, onde o mundo não foi fragmentado por paredes estreitas, onde as palavras emanam das profundezas da verdade.”

É nesse espírito que Índia e Brasil despertam para sua nova missão.

Renovo meu agradecimento a esta grande universidade e minha esperança de que os próximos anos reservem para nossos países um futuro de desenvolvimento, paz e liberdade.

Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra do discurso (15min32s) da Presidenta Dilma