Você está aqui: Página Inicial > Mandatos de Dilma Rousseff (2011-2015 e 2015-2016) > Discursos > Discursos da Presidenta > Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de assinatura de decreto de adaptação das rádios AM para FM - Brasília/DF

Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de assinatura de decreto de adaptação das rádios AM para FM - Brasília/DF

por Rose Mary Rosendo publicado 07/11/2013 14h30, última modificação 04/07/2014 20h20

 

Brasília-DF, 07 de novembro de 2013


Bom dia a todos.

Queria cumprimentar o presidente do Senado Federal, senador Renan Calheiros.

Cumprimentar os ministros de Estado, cumprimentando o ministro Paulo Bernardo Silva, das Comunicações, e a ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil.

Cumprimentar os senadores José Pimentel, líder do governo no Congresso Nacional, senador Eunício Oliveira e o senador Walter Pinheiro.

Cumprimentar todos os deputados, cumprimentando o líder do governo na Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia.

Cumprimentar o presidente interino da Agência Nacional de Telecomunicações, senhor Jarbas José Valente.

Cumprimentar os senhores representantes das associações dos radiodifusores: Daniel Pimentel Slaviero, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão Abertos; João Carlos Saad, presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores (ABRA); Luiz Cláudio da Silva Costa, presidente da Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel).

Por meio dos quais quero cumprimentar todos os conselhos superiores das associações de rádio e televisão, empresários e profissionais do setor de radiodifusão: João Roberto Marinho, Nelson Sirotsky, Alexandre Jobim, Flávio Lara Resende, Márcio Novaes.

Queria cumprimentar todos os radialistas.

Queria cumprimentar também as senhoras e os senhores jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.

Senhoras e senhores,

Ao assinar esse decreto eu faço justiça a milhares de radialistas e às rádios AM espalhadas por esse nosso imenso território, transmitindo notícias, tocando música, prestando serviços à população.

Em muitas pequenas localidades do nosso país, na Amazônia, no interior do semi-árido, nos nossos Pampas ou no meio do Pantanal, são essas as rádios que são os instrumentos de conexão entre as pessoas que integram a nossa população. Entre essas pessoas e seu país. As rádios AM são um verdadeiro patrimônio do Brasil. Por isso é importante que o Estado crie condições para que continuem prestando seus serviços e se adaptem às mudanças na tecnologia e no mercado das comunicações.

A migração, que nós acabamos de autorizar, das faixas AM para a faixa FM, ela vai, sem dúvida, melhorar a qualidade da transmissão, com menos ruído, com menos interferência. As atuais rádios AM vão manter seus ouvintes e até poderão aumentar a audiência ganhando mais poder de negociação com os anunciantes.

Essa mudança de faixa vai também propiciar melhores condições técnicas para que as rádios façam, por meio de novos aplicativos, a transmissão de sua programação para celulares, tablets via internet. Ao cativar as novas gerações que estão acostumadas ao uso desses novos equipamentos, este fato ajudará a reafirmar o rádio como meio de comunicação universal que ultrapasse fronteiras etárias, geográficas e sociais.

Nós sabemos que quando assunto é rádio, é inevitável que pessoas, por exemplo, da minha geração, acabemos falando da nossa própria história e da história do rádio. Afinal, o rádio teve uma imensa proximidade com a vida dos ouvintes num período em que dominou as formas de comunicação, e, aliás, durante um período razoavelmente grande, e permitiu que os radialistas trouxessem para dentro de nossas casas todo um mundo diferenciado que era o Brasil naquele então. Como todas as pessoas da minha geração, eu tenho boas e vivas lembranças ligadas ao rádio. Estava falando com os radiodifusores há pouco que eu escutei rádio antes de ler e acredito que o fato da rádio levar a cada um de nós a imaginar tenha sido um dos responsáveis pela paixão pela leitura que eu adquiri. Vejam vocês que é algo interessante o rádio e o livro. Acredito que sempre há essa relação entre os diferentes meios de se apropriar, de cada um de nós se apropriar da cultura, se apropriar da história e se apropriar da vida do dia-a-dia da sua época. Acho que isso vale para todas as gerações, desde que a primeira transmissão do rádio foi realizada, como disse o Slaviero, há 91 anos atrás. Eu vivi minha infância na fase áurea da radionovela, também ainda gosto de novela, tem uma fonte neste fato de que eu me habituei a escutá-las na infância. Eu lembro da minha mãe e da minha tia escutando “O Direito de Nascer”, e, extremamente emocionadas com o destino do Albertinho Limonta. Eu lembro que no período das seis horas da tarde, em Belo Horizonte, a gente escutava a Rádio Nacional, e escutava Jerônimo e os Herói do Sertão e as aventuras de um detetive chamado Santo. O Jerônimo Herói do Sertão era interessante, um herói local, coisa rara no Brasil, mas era um herói local, ele e o moleque saci. Eu estava até perguntando, perguntei para várias pessoas, perguntei para o Renan Calheiros, perguntei para várias pessoas se alguém lembrava o nome da namorada do Jerônimo, ninguém lembrou. Espero que alguma alma caridosa aqui lembre, porque eu não consegui entrar na internet. Lá a gente acha o nome da namorada do Jerônimo.

Quando a gente olha para trás, a gente lembra também que o rádio levou ao Brasil as duas primeiras vitórias brasileiras no futebol, 58 e 62, foi através do rádio, principalmente, através do rádio, que nós escutamos e imaginamos os jogos que nos levaram à vitória. Eu tenho uma verdadeira admiração pelos sonoplastas, que são os responsáveis por muito da nossa capacidade de imaginar. E é interessante que a sonoplastia te permitia imaginar até cores, o que era interessante porque vinha através do som. O som abria um mundo que só a inexistência da imagem permitia que você recriasse por si mesmo. E aí eu não posso deixar de lembrar do programa Balança Mas Não Cai, e do Primo Rico, Primo Pobre... - aqui acabam de me informar que... o Anthony Garotinho disse que o nome da namorada do Jerônimo é Aninha, acho que era Aninha mesmo! – que são personagens que a gente lembra, vividos por grandes atores brasileiros.

É importante também lembrar que o Brasil ouvia o Repórter Esso. No caso da minha experiência, o meu pai escutava o Repórter Esso. A chamada testemunha ocular da história. E a gente sabe que os fatos só se transformavam em verdadeira realidade quando anunciados pelo Repórter Esso. No Brasil, o Repórter Esso teve esse imenso poder de dar realidade aos acontecimentos. Todos nós lamentamos, pelo menos eu testemunho que eu lamentei e acho que milhões lamentaram o fechamento da Rádio Mayrink Veiga em 1964, após o golpe militar.

Queria também dizer que nos duros anos de prisão as notícias e as músicas chegavam também através do rádio. Algumas vezes através do fato que nós, por causa do sinal AM, conseguíamos acessar rádios internacionais. Um rádio grande chamado Transglobe, com uma antena que a gente potencializava com bombril era um dos instrumentos de contato com o mundo. Se tudo isso é história, eu acredito que essa história demonstre a capacidade do rádio de aproximar um mundo de nós mesmo. E eu quero dizer que eu, de fato, me considero um pouco radialista porque eu faço um programa de rádio toda semana, o chamado “Café com a Presidenta”. Nessas ocasiões eu percebo através... por meio do rádio que o rádio ainda tem, e terá por muito tempo, esse poder de nos aproximar das pessoas e da população. Como dizia um teórico das Comunicações, o rádio é um meio quente, e ele permite essa quase conversa com as pessoas.

Por isso, eu acredito que ainda hoje o rádio seja uma das principais fontes de informação, uma das principais fontes de entretenimento, e isso se dá integrado ao dia-a-dia das pessoas, e muitas das pessoas utilizam o rádio junto com as suas atividades cotidianas de trabalho. A dona de casa com sua atividade do dia-a-dia. Muitas pessoas fazem do rádio um companheiro que divide com ela a solidão.

Por isso, hoje, quando a gente comemora - dia 7 de novembro, Dia do Radialista – eu acho que a assinatura desse decreto é um momento essencial para que a gente possa, de fato, dar as condições para a sobrevivência, e mais do que sobrevivência, para o crescimento, a expansão dessas milhares – para não dizer milhões - de pequenas rádios, de rádios médias e de grandes rádios que informam, alegram e de fato entretêm os milhões de brasileiros por esse país a fora.

Queria dizer que todos nós que formos criados ouvindo rádio e os que conseguiram ter acesso a outros meios de comunicação além do rádio, a televisão, internet, sabem a importância que a voz sempre tem nessas comunicações. E hoje também estavam comentando algo interessante, de como os bons comunicadores no rádio geralmente são bons comunicadores nos outros meios e nas outras mídias. O trabalho dos radialistas sempre irradiou um caráter afetuoso e companheiro, influenciou muitos locutores, influenciaram até nas expressões que nós usamos. Eu acredito que a Rádio Nacional e as outras rádios dos anos 50 permitiram já naquele momento que as músicas do Rio Grande do Sul fossem ouvidas no Nordeste, que Luiz Gonzaga fosse ouvido no Sudeste e no Sul, que nós construíssemos a nossa diversidade articulando as nossas diferenças, e não segregando as diferenças. Isso também que a televisão contribuiu para que tivéssemos uma unidade de linguagem nacional em que pese os nossos diferentes sotaques, é algo que teve início e sustentação com a rádio. Não é por acaso que o Dia do Radialista é um dia em que se comemora um dos maiores nomes do nosso rádio, e da nossa música, o mineiro Ary Barroso. Homem de rádio, fazia de tudo: narrava jogo de futebol, atuava em programa de humor, em novela, compositor talentoso, encantou o mundo com a nossa  música, e não é possível esquecer que ele e a Carmen Miranda transformaram certas músicas em quase hinos nacionais.

Hoje, como nos tempos de Ary Barroso, o trabalho duro, o talento e a criatividade continuam presentes nos trabalhos de nossos radialistas. São milhares de profissionais que todos os dias que fazem comentários, divulgam notícias, narram com emoção jogos de futebol e irradiam nossa música e descobrem até novos talentos.

A todos os radialistas nossa homenagem nossos agradecimentos. Graças a vocês o hábito de ouvir rádio continua arraigado no coração de brasileiros e brasileiras. Que o decreto que eu assinei hoje rejuvenesça e fortaleça nossas rádios, que rejuvenesça e fortaleça nossas rádios AM, celeiros de tantos radialistas memoráveis.

Parabéns aos radiodifusores, parabéns aos radialistas, parabéns a todas as rádios que têm um caminho e alternativa a partir desse decreto.

Muito obrigada a todos vocês.

 

Ouça a íntegra (17min50s) do discurso da Presidenta Dilma