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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de abertura do Foro Empresarial Brasil-Peru - Lima/Peru

por Rose Mary Rosendo publicado 11/11/2013 00h01, última modificação 04/07/2014 20h20

 

 Lima-Peru, 11 de novembro de 2013

 

Boa tarde a todos.

Excelentíssimo senhor presidente da República do Peru, Ollanta Humala,

Excelentíssimo senhor presidente da Câmara Binacional de Comércio Peru-Brasil, senhor Miguel Vega Avelar,

Excelentíssimo senhor vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria Brasileira, senhor Paulo Tigre,

Senhores ministros de Estado que me acompanham: embaixador Luiz Alberto Figueiredo, das Relações Exteriores; Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; Helena Chagas, ministra da Secretaria de Comunicação Social.

Senhoras e senhores empresários brasileiros, peruanos, e participantes deste fórum empresarial “Dez Anos de Aliança Estratégica Peru-Brasil 2003-2013”,

Senhoras e senhores jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas,

Senhoras e senhores,

 

É com grande satisfação que participo da abertura deste evento, que demonstra, mais uma vez, o interesse que a parceria estratégica Brasil-Peru desperta nas empresas privadas de ambos os nossos países.

Quero cumprimentar o Conselho Empresarial Brasil-Peru e a Câmara Binacional de Comércio e Integração Peru-Brasil, organizadores deste Fórum, assim como o Grupo Brasil, e ressaltar o importante papel que desempenham na consolidação dessa parceria. Aproveito a ocasião para fazer uma homenagem ao empresário Mario Brescia, falecido este ano, que fundou e co-presidiu o Conselho Empresarial Brasil-Peru.

Senhoras e senhores empresários,

Este ano nós celebramos o décimo aniversário de uma parceria que deu certo. Em agosto de 2003, o presidente Lula esteve em Lima para assinar o acordo de Aliança Estratégica entre o Peru e o Brasil. Naquela ocasião, também foram iniciadas as negociações do acordo de complementação econômica Peru-Mercosul e foram anunciadas as obras de construção da Rodovia Interoceânica-Sul.

Nesses dez anos, as relações entre o Peru e o Brasil registraram avanços notáveis. Registrar os avanços notáveis não significa que nós temos que nos conformar com o que conquistamos até agora, mas, pelo contrário, devemos perceber que o desafio é sempre melhorar o patamar que nós já conquistamos.

Sabemos que o comércio bilateral cresceu quase seis vezes, passando de US$ 650 milhões para US$ 3,7 bilhões. Só nos primeiros nove meses deste ano, o fluxo comercial bilateral cresceu 7% e as exportações do Peru para o Brasil, 50%, o que contribuiu para reduzir o déficit peruano e equilibrar o comércio bilateral. O Brasil é hoje o terceiro principal fornecedor de produtos importados ao Peru e o oitavo principal comprador.

A pauta comercial bilateral diversificou-se, agregando aos bens tradicionais como cobre, zinco e petróleo, produtos novos e de maior valor agregado, como máquinas elétricas, mecânicas, têxteis, vestuário e automóveis. Esperamos poder em breve somar a essa pauta novos produtos, como barcos e aviões. Essa evolução é, em grande medida, o resultado da progressiva eliminação das barreiras tarifárias e não-tarifárias entre nossos países.

O acordo Mercosul-Peru conferiu aos produtos peruanos, a partir de 2012, acesso ao mercado brasileiro sem impostos. Seria importante que o mesmo ocorresse, o mais rápido possível, com o Brasil, antecipando, portanto, o livre acesso dos produtos brasileiros.

O fluxo de investimentos entre os dois países vem aumentando sensivelmente. Empresas brasileiras quadruplicaram seus investimentos no Peru na última década, somando um estoque de quase US$ 2 bilhões. Empresas peruanas têm apostado no Brasil, realizando importantes investimentos em setores como o bancário, bebidas e alimentos. Hoje, mais de 50 empresas brasileiras atuam no Peru, em setores que vão da construção civil à mineração, da logística aos cosméticos, gerando cerca de 30 mil empregos diretos.

O setor de energia é, hoje, um dos mais promissores e estratégicos. O crescimento contínuo da economia peruana nos últimos anos aumentou a necessidade de geração de eletricidade, criando oportunidades para novos investimentos. O Brasil tem todo o interesse de contribuir nesse esforço, assim como olha com muita expectativa a possibilidade de também, no caso do Brasil, o Peru contribuir para o nosso esforço de expansão no setor elétrico.

Senhoras e senhores empresários,

O aprofundamento das relações econômicas entre o Peru e o Brasil tem sido acompanhado, e estimulado, projetos estruturais de integração. A inauguração, em 2011, da Rodovia Interoceânica, que conecta portos peruanos no Pacífico à cidade de Assis Brasil, no Acre, encurtou distâncias entre nossos países e permitiu a aproximação de agentes econômicos e sociais dos dois lados da fronteira.

Cidades como Rio Branco e Porto Velho, que até recentemente se abasteciam só de mercadorias vindas do sul do Brasil, passaram também a importar produtos de Madre de Dios, Cuzco e Puño, regiões peruanas muito próximas e certamente o contrário também aconteceu. O vôo semanal entre Lima e Rio Branco, inaugurado em 2011, deu renovado impulso ao comércio e ao turismo fronteiriço. Seria importante que essas e outras conexões aéreas fossem retomadas.

Essa robusta parceria entre Peru e Brasil manifesta-se no plano regional no firme apoio que os dois países e os dois governos deram a iniciativas como a União de Nações Sul-Americanas, a Unasul. Na verdade, a presidência da Unasul, exercida pelo presidente Ollanta, teve um destaque nos últimos tempos, viabilizando um quadro de integração regional que é estratégico.

Há pouco, o vice-presidente da CNI falou da importância, nessa etapa do nosso desenvolvimento econômico e social, de uma questão que é crucial não só para a economia, mas também é crucial para a competitividade, que é a questão justamente de garantir que haja um aumento da produtividade nas nossas atividades industriais, agrícolas, de serviço, enfim, que nós nos coloquemos em condições de participar do processo de competição que envolve todos os países. Por competitividade, nós devemos sempre entender algumas coisas que são cruciais: a importância da educação na qualificação profissional de nossos trabalhadores; a importância da inovação nos processos produtivos e de serviços; a importância, também, de termos um processo de integração em que se configurem mercados dinâmicos e amplos. Por isso, eu acredito que, no quadro não só das relações bilaterais entre Brasil e Peru, mas também no quadro das relações dentro da região, nós temos o dever de olhar não só as relações comerciais, que são estratégicas e importantes, mas também a estruturação das nossas cadeias produtivas, dos nossos canais de integração de infraestrutura, como rodovias, ferrovias, portos e, sobretudo, hidrovias, nesta região que tem um dos maiores rios e sistemas de bacias do mundo.

Eu gostaria de dizer que quando nasceu a Unasul, ela estabeleceu, através da... por meio da Declaração de Cuzco, as bases e os objetivos para o aperfeiçoamento de um espaço sul-americano, um espaço integrado no plano político, no plano social, no plano econômico-comercial, e de infraestrutura. Eu queria agregar que, em tempos de diminuição do comércio internacional, de redução dos níveis de intercâmbio entre os países, nesse momento em que ainda se sentem as consequências da crise internacional, a integração é uma das soluções, mesmo porque eu acredito que, no momento em que as economias desenvolvidas se recuperarem, vão colocar para nós a questão do tamanho dos mercados, e nós, de fato, temos um potencial de mercado nesta região, o qual nós não podemos deixar de valorizar, porque ele se constitui um ativo dentro da questão da competitividade. Tamanho de mercado é ativo, tamanho de mercado significa a possibilidade da expansão organizada, da expansão estruturalmente efetiva das nossas atividades econômicas.

Mais do que celebrar, senhoras e senhores, o décimo aniversário dessa parceria, eu quero fazer um chamado às nossas lideranças empresariais para, nos próximos anos, tomar a frente dessa empreitada. Os avanços alcançados na última década devem-se, em grande parte, à decisão de nossos governos de optarem pela via da integração como parte dos nossos projetos nacionais de desenvolvimento. Nós não vivemos em uma época em que a característica seja as guerras comerciais, as barreiras protecionistas. Nós vivemos em uma época em que a inserção se dará por capacidade de competição e por estruturação do seu mercado. Assim sendo, nos próximos dez anos, nós podemos e nós devemos ir além.

O comércio bilateral, por exemplo, pode chegar a cifras bem maiores do que as atuais. Há espaço para avançarmos em temas como comércio, serviços e investimentos recíprocos, que incluam mecanismos inovadores de integração produtiva e financiamento de obras de infraestrutura. O Brasil gostaria de avançar nessa direção.

Quero aqui lançar o desafio aos senhores empresários no sentido de colocarmos para nós uma meta, a meta de US$ 10 bilhões no comércio Brasil-Peru nos próximos cinco anos. Uma meta é para ser um objetivo que se procura alcançar. Quando se alcança, a gente muda a meta. Nesse sentido, eu gostaria também de dizer que hoje uma das questões que mais preocupa o Brasil é a questão da infraestrutura. Nós temos tido vários projetos nessa área. Também convidamos os senhores e aqueles que desejarem – os empresários que desejarem participar – são muito bem-vindos. Temos projetos tanto na área de rodovia, ferrovia, ampliação de hidrovia, portos, aeroportos, e também na área de energia e de petróleo.

Sobretudo, gostaria de destacar que eixos de integração são possíveis se os nossos empresários brasileiros e os nossos empresários peruanos forem capazes de trocar informações, porque o que nós estamos vendo é a criação de oportunidades as mais diferenciadas, as mais diversificadas. Muitas delas não passam diretamente por aquela infraestrutura, mas podem ser indiretas. Exemplo: nas hidrovias, as barcaças que transportam grandes quantidades de alimentos e cereais, e mesmo, em alguns casos, minério. No caso da indústria de petróleo, a sua demanda. Enfim, nós teremos que ser que nem mineradores. Nós teremos que procurar aquilo que permite que as nossas cadeias se interconectem. Que nós tenhamos a capacidade não só de trocar bens e serviços, mas também de estabelecer uma coerente integração produtiva.

Nós queremos, por exemplo, viabilizar o eixo multimodal do Amazonas. Queremos e, juntamente com o presidente Humala, definimos a importância de grupos de trabalho. É importantíssimo que sejamos capazes – e hoje eu acredito que a imagem que o presidente Ollanta levantou na nossa reunião, ela é uma imagem muito forte, porque eu acho que ela retrata muito da história da América Latina. Nós vivíamos de costas uns para os outros. O Peru olhava o Pacífico e nós olhávamos o Atlântico. O presidente Humala fez essa imagem com muita competência, e ela mostra a necessidade de nós nos unirmos, olharmos, sim, para os dois oceanos, porque são estratégicos nesse processo, mas olharmos também pelo tamanho e para a capacidade da nossa região.

Eu queria dizer que o Brasil, ao longo da sua história, foi ensinado a voltar seus olhos só em uma direção, na direção dos países desenvolvidos. Nós olhávamos para a Europa, olhávamos para os Estados Unidos. Não olhávamos para a América Latina nem para a África. Hoje, nós não só olhamos, como priorizamos a América Latina. E, obviamente, também, até pela raiz que o Brasil tem – 50% da nossa população, no último censo demográfico se declarou afrodescendente, e nós temos imenso orgulho dessa afrodescendência – nos faz também olhar para a África.

Assim sendo, o que eu queria dizer é que temos também de mudar a nossa perspectiva, temos que perceber o tamanho e a importância que para o Brasil tem o Peru e que o Peru... e que para o Peru tem o Brasil. Nós temos que nos olhar não só com respeito, mas com admiração e procurando aqueles mecanismos que permitem que as nossas economias dêem um salto.

Acredito também que é de alta importância perceber uma contradição que nós superamos. Para o meu país era dito sempre que havia contradição entre crescer e incluir, que era incompatível a distribuição de renda com o crescimento. Primeiro a gente teria que crescer e depois a gente ia distribuir renda. O que nós percebemos é que crescer com distribuição de renda não só é possível, mas é essencial, porque se trata do ponto de vista da consequência econômica da inclusão social de criar o mercado de consumo de massas.

O Brasil tem vários patrimônios. O Brasil tem água doce, o Brasil, como o Peru, tem uma biodiversidade fantástica, tem também petróleo, minério, uma agricultura, mas uma das principais riquezas e patrimônio do país é seu mercado interno. É perceber que isso também é um valor na América Latina, por isso eu saúdo toda a política social que é desenvolvida pelo presidente Ollanta Humala, porque essa política de inclusão tem um condão, que é transformar esse mercado, cada vez mais, em um mercado de produtos, que são aqueles que são do interesse generalizado no mundo desenvolvido e nosso mundo também será. Nós nos transformamos em grandes consumidores de automóveis, nós nos transformamos em grandes consumidores de geladeiras, de fogão, nós nos transformamos em grandes consumidores de telefones celulares, de tablets e nós temos que perceber que este fato é um fato que anima as nossas economias e que dá a elas grande capacidade e fôlego.

Finalmente, eu queria dizer que é essencial que nós sejamos capazes de operar em várias atividades. Entre elas, eu gostaria muito de destacar a cooperação na área da educação. Acho que um dos fatos que vai mudar a característica da cooperação entre os países é a área de ciência, tecnologia e inovação. Esta área de ciência, tecnologia e inovação nós elegemos como uma das questões centrais do país. Por isso criamos um programa chamado Programa Ciência Sem Fronteiras, reconhecendo que há diferenças entre a formação que nos é dada e a formação que é dada em outros lugares do mundo, buscando distribuir essa formação, e mais, procurando também centrar o incentivo a 100 mil bolsas, que nós estamos dando, nas áreas de exatas. Nós queremos engenheiros, nós queremos matemáticos, físicos, químicos, biólogos. Queremos também todos aqueles formados nas áreas de ciência médica, da ciência de computação. Não que as humanidades não sejam importantes, mas para o salto que o meu país precisa, nós temos que focar nessa área. O Brasil, pela primeira vez – eu acho que em toda a sua vida – formou, esse ano, mais engenheiros que advogados, nada contra os advogados, eu sempre digo isso, até porque eu não posso falar de advogados porque a minha filha é advogada, meu genro é advogado, e se eu não ficar muito esperta, meu neto será advogado.

Mas eu quero dizer que, para o Brasil – não importa minha família -, para o Brasil, é algo crucial ter engenheiros. Por que é que nós não tivemos engenheiros? Porque desde a crise da dívida em 1982, o padrão de investimento do Brasil deixava a desejar. Nós voltamos a investir com o governo Lula em 2007, através de um programa de infraestrutura chamado Programa de Aceleração do Crescimento. Para vocês terem uma pequena ideia, eu era ministra-chefe da Casa Civil em 2005, do presidente Lula, e a gente ainda dependia do Fundo Monetário [FMI], e um funcionário da Secretaria de Finanças, desculpa, do Ministério de Finanças brasileiro, me deu uma notícia que ele considerava muito boa. Que nós tínhamos tido autorização do Fundo Monetário para investir R$ 500 milhões, R$ 500 milhões é uns US$ 250 milhões.

Hoje nós investimos R$ 500 milhões em um pequeno município do Brasil fazendo saneamento, ou seja, tratando de água e de esgoto. Hoje o investimento, só em mobilidade urbana no Brasil, é R$ 140 bilhões. Este é um processo que levou anos pra se consolidar. Nós não tínhamos projeto, era muito difícil fazer as obras, nós não tínhamos engenheiros, não tínhamos consultores. Este é um processo que agora está sendo superado e cada vez será mais rápido.

Uma das coisas mais importantes que nós aprendemos é a participação do setor privado nesses investimentos. Não é só por uma questão de dinheiro, de recursos, mas também é por uma questão de gestão, de melhoria na gestão. Então, o Brasil hoje é capaz e fará um conjunto de obras de infraestrutura que é essencial para a integração.  Eu tenho certeza que uma das economias que nós olhamos aqui na América Latina e que vemos com grande admiração e com grande otimismo, pelo seu dinamismo, é a economia peruana. Então eu queria dizer para o presidente Ollanta Humala que o Brasil está disposto a desenvolver essa parceria. Consideramos essa parceria uma parceria estratégica, e, sobretudo, acho que nós, Brasil e Peru, temos um papel essencial a desempenhar no futuro da América do Sul, como um pólo aparente e uma referência de cooperação e convivência pacífica.

Quero dizer aos senhores empresários que essa é uma ação que não pode ser só de governo, não poder ser só de empresários, tem que envolver também a população, tem que envolver o turismo entre os nossos países, a cultura entre os nossos países, a educação, a troca de alunos, e aí fico muito feliz com o Programa Beca 18 do presidente Humala, que vai levar estudantes peruanos para o Brasil. Fico muito feliz porque considero que nós só seremos, de fato, uma região integrada se os nossos habitantes, se as pessoas que aqui vivem, forem capazes de ir e vir entre os nossos países. E aí, presidente, eu fico também – quero dizer uma coisa aqui -, o interesse que o Peru desperta hoje na população brasileira é extremamente alto, não só pela sua beleza em termos do legado colonial, mas por áreas do Peru que são fantásticas, como Macchu Picchu e toda a questão de Nazca, e várias outras. Aqui a gente abre uma porta, ou entra em um edifício, e fica encantado pelo que tem. Eu estive nessa construção que eu acho que é 1700, é barroco colonial ou mais, ou pré-colonial, pré-barroco ainda, que é a torre Tagle, e fiquei, de fato, estarrecida com a beleza do local. E quero fazer um cumprimento especial: à conservação desses prédios históricos. A conservação desses prédios é, de fato, uma homenagem à nossa história.

Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra (28min01s) do discurso da Presidenta Dilma