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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de abertura do 86º Encontro Nacional da Indústria da Construção (Enic) - Goiânia/GO

por Portal Planalto publicado 22/05/2014 01h32, última modificação 04/07/2014 20h22

Goiânia-GO, 21 de maio de 2014

 

 

            Gostaria de cumprimentar a todos os empresários e empresárias presentes.

            Cumprimentar o governador de Goiás, Marconi Perillo, que tem sido, de fato, um parceiro nessa jornada que iniciamos com a eleição, em 2010, a partir de 2011.

            Cumprimento o Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. O Paulo foi, sem sombra de dúvida, um grande parceiro que nós tivemos, ao longo do governo, no governo do presidente Lula e no meu governo. Por isso, que tenho muita satisfação de estar aqui presente, quando da despedida do Paulo Simão. Acho que ele deu, como dirigente de uma entidade como a Câmara, uma grande contribuição ao país. E eu fiz um grande esforço, também, para estar aqui, tanto pela importância da construção civil, mas, também, pelo fato de que você foi um parceiro, ao longo desses anos.

            Queria cumprimentar o Carlos Alberto de Moura Júnior, presidente do Sinduscon-GO,

            Cumprimentar o senhor Ilézio Inácio Ferreira, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás,

            Queria cumprimentar o ex-ministro-chefe da Casa Civil e ex-presidente da CBIC, um amigo do Rio Grande do Sul, Luís Roberto Andrade Ponte,

            Cumprimentar o senhor Gilberto Occhi, ministro das Cidades,

            Queria cumprimentar o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, ex-ministro das Cidades,

            Queria cumprimentar o deputado Eduardo Sciarra,

            Cumprimentar o vice-governador de Goiás, José Eliton,

            Cumprimentar um outro parceiro importante do governo, aqui no estado de Goiás, que é o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia.

            Cumprimentar a secretária nacional de Habitação, a Inês Magalhães,

            Cumprimentar o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda,

            Cumprimentar o senhor Pedro Alves de Oliveira, presidente da Federação das Indústrias de Goiás,

            Cumprimentar o senhor Gustavo Mazzi, vice-presidente da Federação Interamericana da Indústria da Construção,

            Cumprimentar o senhor José Augusto Florenzano, presidente do Fórum Seconci Brasil,

            Cumprimentar a senhora Maria Helena Mauad, presidente do Fórum de Ação Social e Cidadania da CBIC.

            Cumprimentar, mais uma vez, os senhores e as senhoras empresários da construção civil.

            Cumprimentar os senhores e as senhoras jornalistas, os fotógrafos e os cinegrafistas.

 

            Primeiro, eu queria cumprimentar também o 86º Encontro Nacional da Indústria da Construção Civil pela escolha da agenda e das discussões neste encontro, porque ela evidencia os compromissos de um segmento empresarial importante, como é o caso da construção civil, com o desenvolvimento e os destinos do Brasil. Eu estou me referindo aos pontos apresentados, que incluem o zelo rigoroso com os fundamentos econômicos, com fundamentos econômicos sólidos, a ampliação do investimento público, a ampliação do investimento privado e das parcerias público-privadas, a realização das necessárias obras de infraestrutura e, sobretudo, a ampliação do acesso da população brasileira à casa própria. O acesso também dos brasileiros e das brasileiras à qualificação profissional e à inovação tecnológica. Enfim, o acesso à educação. Esta é agenda de todos que batalham pelo Brasil, por um Brasil mais desenvolvido, e é ela, essa agenda que tem nos feito avançar.

No roteiro estabelecido pelos organizadores deste ENIC, o tema da habitação de interesse social é formulado da seguinte maneira, com a seguinte pergunta: como garantir a continuidade dos programas existentes? Para o meu governo é muito simples, nós vamos garantir a continuidade do Minha Casa, Minha Vida, um programa que foi executado com absoluta prioridade, que eu tenho a honra de ter participado do nascimento e que, agora, nós todos acumulamos, juntamente com os senhores, uma grande experiência. Além de capacidade de realização e a decisão cada vez mais fortalecida na clareza da nossa vontade política de construir o Minha Casa, Minha Vida 3.

O programa Minha Casa, Minha Vida 3, para nós, ele não pode nem ser interrompido, nem amesquinhado, porque são duas formas de interrompê-lo, modificando a sua natureza. Qual é a natureza do Minha Casa, Minha Vida? A natureza do Minha Casa, Minha Vida, primeiro, é a ruptura com o preconceito, um preconceito extremamente usual, se vocês lembram do Brasil de antes. Naquele Brasil de antes, o subsídio era visto como uma distorção indefensável para o mercado, e nós só fizemos o Minha Casa, Minha Vida, primeiro pelo que eu vou dizer, pelo fato de termos percebido, com clareza meridiana, que a equação entre o valor do imóvel e o salário da população brasileira, que sofria com o déficit habitacional, não fechava essa equação, a não ser que o Estado brasileiro aportasse recursos oriundos da arrecadação dos tributos para fechar a equação.

Eu acho que essa é a primeira constatação e a primeira decisão ousada que nós tomamos. A segunda é perceber que esse programa tinha de ser feito, não através do repasse em cadeia – a União repassa para os estados, que repassam para os municípios –, mas através de uma relação direta, pela Caixa, com o setor da indústria da construção civil.

Essa é a segunda característica desse programa, e eu quero dizer aos senhores que eu fiz pelo menos umas quantas reuniões para provar que tinha de ser assim e que o dinheiro não ia ficar passeando de um ente federado para outro ente federado até chegar na construtora e, da construtora, chegar ao direito do proprietário de contratar aquele imóvel.

Na primeira parte da equação, ficou claro também que na faixa que nós chamamos de faixa um, não seria possível uma prestação que excedesse 5% da renda. Esse é o programa em que o governo federal gasta os maiores valores de subsídio. Todos aqueles que pretenderem fazer arranjos ou tomarem decisões impopulares, vocês podem ter a certeza que alguma delas será cortar uma parte dos subsídios do Minha Casa, Minha Vida. Eu tenho o compromisso com esse subsídio, porque eu acredito que foi isso que permite que esse programa rode tão bem, porque ele roda muito bem. Nós vamos chegar, eu lembro – e aí o Paulo lembra também – que a primeira vez que eu cheguei para discutir números, nós entramos na reunião e, no início, o pessoal me propôs 200 mil casas. Aí, nós chegamos a 500 mil, porque o pessoal tinha medo, não sabia, não tinha a experiência de fazer esse volume de imóveis. Eu me lembro que eu levei ao presidente Lula 500 mil e ele falou: “Não, não. É 1 milhão”. Voltei e disse para o Paulo: “Não tem acordo, ou faz 1 milhão ou não sai o programa do chão”. E nós fomos todos e fizemos 1 milhão. Quero dizer que nem nós mesmos tínhamos certeza se faríamos 1 milhão. Mas, por que eu estou aqui? Porque eu agradeço que se teve alguém, entre todas as outras entidades, inclusive empresas, que foi parceiro desde o primeiro minuto e falou: “Nós vamos fazer um milhão”, foi você, Paulo. Então, eu te agradeço por isso.

No final, nós já estávamos mais experientes e percebemos que podíamos começar dizendo que íamos fazer, na próxima etapa, no Minha Casa, Minha Vida 2, íamos fazer 2 milhões. Nós tínhamos uma reserva técnica de 400 mil. Então, depois de decidirmos dois milhões, passamos para 2,4 milhões e chegamos a 2,750 milhões no Minha Casa, Minha Vida 2. E aí, com a segurança de quem tinha visto o esforço da Caixa, o esforço dos empresários para contratar um milhão. Agora, eu tenho absoluta certeza, absoluta certeza que nós contrataremos, até o final de 2014, 2,750 milhões. Isso significa que nós vamos entregar os 3,750 milhões, 1 milhão que nós decidimos na metade de 2009, mas começamos a contratar mesmo no ano de 2010. Esse 1 milhão, mais os 2,750 milhões do meu governo, nós iremos contratar os 3 milhões e 750 mil, mas, deles, 1 milhão e 691 mil moradias já foram entregues.

Esse é um programa que já mostrou resultados, e como eu vou em todas as partes do país, olhando, eu quero testemunhar para vocês uma outra coisa. Nós mudamos o padrão construtivo nesse processo, nós fomos, progressivamente, melhorando. Nós hoje temos piso de cerâmica, cerâmica na metade da cozinha e do banheiro, nós temos nas casas o aquecimento solar, principalmente nas áreas de grande insolação, nós temos equipamentos especiais e específicos para as pessoas com deficiência, como vocês sabem porque são vocês que fazem. Mas eu acho importante dizer que nós evoluímos e que nós aprendemos. Aqui eu estou falando para um grupo de empresários e empresárias que hoje têm, além do fato de apostarem no Minha Casa Minha Vida, têm um valor inenarrável, sabe qual é? A experiência, aquela certeza de que nós somos capazes de fazer, que faz toda a diferença do mundo.

Nós estamos em processo, nós já contratamos, e está em processo de construção, mais 1 milhão e 698 mil moradias neste exato instante, e até o final do ano faltam 361 mil moradias. É só o governo piscar o olho, sai mais de 361 mil moradias, é só piscar o olho, e nós temos um limite orçamentário que nós temos de cumprir, então é por isso que será, no meu período, 2 milhões e 750 mil.

Bom, eu acredito que essa contribuição que nós todos aqui, essa parceria bastante virtuosa, porque este programa foi escrito, discutindo item a item dele com a construção civil, com a CBIC e com as outras grandes empresas. E eu acredito que o Minha Casa Minha Vida 3 também já faz parte desse processo, porque vocês já foram, me expuseram as propostas de vocês, e nós pretendemos que até... mais precisamente – eu vou falar precisamente – até o dia 29 de maio agora nós lancemos o Minha Casa, Minha Vida 3. E a ponderação, quando perguntarem por que nós estamos lançando agora, é porque é fundamental para que os empresários tenham cálculo econômico para fazer as suas previsões do que podem e o que vão, e o que é possível investir nesse horizonte que se estende pelos próximos quatro anos.

Eu acredito que o Minha Casa, Minha Vida é, de fato, um grande programa. Acredito e tenho visto a expressão das pessoas ao terem acesso à casa própria. E acho que nós temos de levar em consideração um fator muito importante: é fato que o Brasil elevou para as classes médias 48 milhões de brasileiros e brasileiras. É fato que nós tiramos da pobreza 36 milhões de pessoas. É fato também que essas pessoas, elas não eram só excluídas da renda, elas eram excluídas da riqueza. Ora, qual é a maior riqueza, qual é o maior capital de alguém? Em média, no mundo, 60% da riqueza se compõe dos equipamentos de construção civil, em especial as residências. Para as pessoas, a riqueza se expressa fundamentalmente na sua casa própria.

Então, nós estamos criando também um segmento de pessoas que eram excluídas da renda e que agora têm acesso à riqueza, que elas têm o patrimônio delas. Quando nós entregamos as casas do Minha Casa, Minha Vida, nós falamos da importância de construir um condomínio e preservar a qualidade dos apartamentos ou das casas. Porque isso será importante para o Brasil. Será uma parte da população que, antes, não tinha renda, agora tem riqueza e renda. E isso será importante para todos nós, para o futuro, inclusive, desse processo.

Eu tenho certeza que nós vamos ter de equacionar no Minha Casa, Minha Vida 3 muitas questões e que nós vamos depurar o programa, nós vamos melhorar o programa. Agora, eu tenho certeza também que um dos maiores desafios do programa é a busca de terrenos. A busca de terrenos tanto para conjuntos habitacionais, principalmente nas grandes cidades. Por isso, governador, é muito importante a participação do governo do estado, das prefeituras nessa questão, porque ela não é só uma questão de custo ou não. É uma questão de impedimento de construção.

Eu gostaria de dizer para vocês mais uma coisa que eu acredito que é muito importante nessa área e que eu acredito que nós também alteramos a situação. O pessoal da CBIC, o Paulo Safady, não me procurava pura e simplesmente para discutir o Minha Casa, Minha Vida, mas me levava também um problema que naquela época era um problema fortíssimo, o problema da formação da mão de obra para a construção civil.

Nesse processo, eu acredito que outro programa foi muito importante para o setor, que é o programa, o Pronatec, que nós lançamos em 2011, e é uma parceria que eu considero vitoriosa com o setor privado por meio do Sistema S – Senai, Senac, Senat e Senar. Nós, com as melhores escolas técnicas do Brasil, criamos segmentos na formação técnica entre eles. Criamos a capacitação ou qualificação profissional, um ensino técnico de nível médio, e também criamos um curso de tecnólogo que está fora do Pronatec, mas faz parte dele quando você olha o sistema todo. A importância do Pronatec, e a importância do Pronatec para o nosso futuro, está em que nós tivemos uma meta ousada, como essa do Minha Casa, Minha Vida, e colocamos na nossa meta… nossa quem? Do sistema S e dos Institutos Federais de Educação Tecnológica e de Inovação do governo federal, que voltou a investir em escolas técnicas, rompendo com a proibição que existia desde a metade dos anos 90.

Voltamos a investir e, quando voltamos a investir, interiorizamos todos os institutos federais de educação. Isso dá base para a gente ter conseguido fazer hoje – dados de hoje –, nós termos conseguido 7 milhões e 200 mil matrículas até agora. Devemos isso ao fato de que essa parceria buscou resolver um dos problemas centrais dessa nova etapa que passa o crescimento do Brasil. Nós precisamos aumentar a produtividade do país. Para aumentar a produtividade do país, é fundamental ensino técnico de qualidade. E aí fizemos investimentos, alguns financiados, outros com o Orçamento Geral da União. No Pronatec, nós colocamos R$ 14 bilhões. Ele é possível porque tem esse volume de recursos, e você garante que, ao mesmo tempo, nós tenhamos fortalecido muito a estrutura do Senai, criando em torno de 60 Institutos Senai de Tecnologia e 23 de Institutos Senai de Inovação. Por que eu falo isso? Porque um dos Institutos Senai de Tecnologia tem a ver com os novos materiais, o uso de novos equipamentos na área da construção civil, quais são as revoluções de materiais e processos que existem no mundo hoje, e um dos institutos é um instituto que pretende ser inaugurado até o final deste ano, conforme me foi assegurado pelo Senai, e ele versa sobre construção civil, materiais de construção, se eu não me engano, ele é em Brasília. Sinto – viu, governador? – mas é em Brasília.

Eu queria dizer que isso se combina com os nossos 208 campi que nós inauguramos no meu período de governo. Para mim, um dos elementos essenciais para garantir o futuro do país passa pela educação. Educação da creche à pós-graduação. Isso significa duas coisas, que cada vez mais a educação cumpre dois papeis, no Brasil: um, ela estabiliza e torna perene a redução de desigualdade brutal que o Brasil teve nesses últimos 10 anos, 12 anos. É, talvez, segundo o Ipea, a maior redução de desigualdade concentrada numa década. Semelhante a essa, a única que se tem notícia nessa proporção é a redução da desigualdade na Espanha, no pós-Franco.

É muito importante que a gente perceba que reduzir a desigualdade de renda é pré-condição para você garantir a perenidade, mas que a perenidade da redução, ela só se viabiliza com educação. E aí, o Pronatec é um dos elementos. Os outros são creches, educação, alfabetização na idade certa, educação em dois turnos. É criar um caminho de acesso cada vez mais amplo para o ensino superior e garantir acesso tanto ao ensino superior público federal quanto às universidades privadas através do ProUni, do sistema de financiamento FIES, e, sobretudo, também assegurar uma outra parte, que é o fato de que a educação te leva para a economia do conhecimento. Economia do conhecimento é a junção dos centros acadêmicos, dos institutos federais com as empresas. Isso é economia do conhecimento. Não está só no conceber, está no fazer, e esse é um processo que só a educação nos garante. E eu quero dizer que por isso a aprovação da lei dos royalties é uma das chaves do futuro para essa educação de qualidade. Tirar 75% dos royalties do petróleo e tirar 50% do excedente em óleo do Fundo Social permitirá à educação brasileira fazer frente à imensa demanda, porque nós temos um passivo acumulado nessa área, um passivo acumulado que nós temos de dar conta dele e, ao mesmo tempo, avançar em direção ao futuro.

Tenho certeza que nós mexemos com isso em duas questões. Uma, de desenvolvimento da nossa nação. E outra, como sendo um elemento de produtividade macroeconômica fundamental. Esse efeito do Pronatec nós vamos sentir, socialmente, daqui a uns anos, mas esse é um efeito cumulativo, que as pessoas carregam com elas, e nós queremos, nesse processo, instituir o que nós chamamos de itinerário de formação profissional, que é o seguinte, dando um exemplo da área de construção civil. Ele entra e faz o curso de qualificação profissional como instalador elétrico predial. Na sequência, será dado um nível um pouco mais avançado de eletricista. Na sequência, ele pode passar por uma etapa pré de ensino técnico de nível equivalente a um nível médio. Isso por quê? Porque nós sabemos que vamos mudar toda a estrutura da educação daqui a um tempo, mas nós não podemos esperar, temos de atuar já e agora, para que o Brasil consiga modificar essa situação.

Eu repito, eu falo isso porque há uma diferença imensa quando isso atinge a indústria da construção civil: se torna algo massivo, muda a qualificação profissional. Eu tenho muito pouco medo do que farão as pessoas quando acabar, esgotar o processo do Minha Casa, Minha Vida 2. Ora, farão o Minha Casa, Minha Vida 3, mas, mais do que isso, todas as obras que estão em andamento e que significaram o nosso esforço para outra questão da produtividade, que foi fundamentalmente esse processo de investimento em infraestrutura.

Nós temos hoje um modelo em três partes. Nós temos todo o processo de concessões feitos em rodovias e feitos em aeroportos – eu estou falando só dos já feitos – e, no caso dos portos, o equivalente a isso, que são as concessões nos portos, nos chamados portos públicos que, na verdade, são os portos regulados. E temos também iniciativas privadas, os terminais de uso privativo. E, no caso das concessões, os aeroportos e as rodovias hoje não têm mais grandes desafios, porque está meio padronizado já o processo de concessão. O que se tem de localizar é qual é que é a rodovia que é atraída para o investimento privado por concessão, e qual é aquela que vai ter de ser feita por investimento público, mas com contratação de privado na execução. E uma terceira possibilidade é que se faz investimento público e, depois, concede a gestão.

Amanhã, algo que para mim é muito importante, porque também é outro que eu vi nascer, a Norte-Sul. Nós vamos inaugurar um trecho da Norte-Sul, que é o trecho de Palmas a Anápolis. E há outros 1500 km construção, que são aqueles que vão de Anápolis até Estrela d’Oeste, em São Paulo. Eu tenho certeza e sei que essa obra de ferrovia, ela tem muita similaridade com o Minha Casa Minha Vida 1. Por quê? Porque no Minha Casa Minha Vida 1 nós não tínhamos uma base acumulada, uma massa crítica de conhecimentos para fazer o Minha Casa [Minha Vida] numa proporção maior. A Norte-Sul funcionou um pouco como isso, a Norte-Sul foi a primeira retomada de ferrovia depois de não sei quantos anos. Um trecho muito pequeno dela tinha sido feito, e agora nós chegamos de Açailândia a Anápolis, e, certamente, vamos chegar até Estrela d’Oeste, e há outro trecho previsto, é de Estrela d’Oeste... tem duas ramificações possíveis descendo para o sul do país e aí teremos toda a coluna dorsal do sistema ferroviário.

Mas não é isso que nós vamos ter de fazer só. Apesar de hoje nós termos 3000 km de rodovia duplicados e recuperados, com essa nova licitação contratamos mais 4800 km, vamos agora novamente licitar mais uma, que é a BR-153, nós sabemos que nessa área o nível de conhecimento hoje, de retomada dos investimentos é total. Sabemos quais são os métodos que viabilizam a rapidez. É importante dizer que o Brasil, tinha – hoje muito menor -, tinha um déficit de projeto. Todos vocês sabem aqui que tinha um imenso déficit de projeto, e quando o projeto existia, ele, na verdade, era bem sofrível. Ele não tinha, vamos dizer, os requisitos que impediam essa série de processos no Tribunal de Contas. “Para por isso, para porque o preço é mais...” está mais alto do que o Tribunal supunha, depois passa o tempo ele descobre que se você for licitar o preço vai sair mais alto, e assim sucessivamente.

Mas tudo isso eu acho que tem melhorado, não tanto como deve melhorar no Brasil ainda. Acho que o RDC foi um sistema de melhora, mas acredito que aí os senhores têm um papel a desempenhar também na questão da redução da burocracia e de processos, eu diria assim, mais ligeiros, de fiscalização. Não menos profundos, mas rápidos. Não há justificativa para a gente correr com a obra e ninguém correr com a fiscalização. É uma situação absolutamente surreal.

Eu tenho certeza que nós temos hoje um patamar muito mais avançado, do qual vamos sair. A licitação dos aeroportos também mostrou, era um terreno que ninguém conhecia, mostrou um razoável sucesso. É bom ver o Aeroporto de Guarulhos, o de Brasília, que são os dois primeiros dos grandes que foram concedidos. Mas eu acho que o mais importante, também queria dizer isso, tem 270 aeroportos para serem feitos agora. O processo de estudo foi concluído, foi feito pelo Banco do Brasil com construtoras privadas, e nós vamos ter uma estrutura de aeroportos regionais neste país, vamos iniciar com 270.

Todo esse processo, ele não é com baixos recursos, é com recursos muito volumosos. Agora, além dele, é importante saber que uma das áreas de grande investimento no Brasil, hoje, é mobilidade urbana. Nunca o governo federal teve uma carteira de até 143 bilhões, dos quais 127 bilhões selecionados. Nunca, em nenhum momento do governo federal, primeiro porque não participava de mobilidade urbana, mobilidade urbana era coisa do governo estadual e das prefeituras. Esse salto para 143 bilhões, ele representa um foco nas cidades, nas capitais e nas cidades médias, não só capitais, nas cidades médias. E o que é importante nele? É que nós entramos na idade do trilho. O Brasil não investia em metrô. Hoje, nove cidades têm processos de construção de metrô em andamento, nove cidades brasileiras têm isso. Outras tantas, como é o caso aqui, têm VLTs, e eu citei os dois porque nós temos de entrar no trilho. Entrar no trilho numa grande cidade significa que você vai segregar o trecho pelo qual transita o transporte público para ele ser de qualidade, rápido e seguro.

Então, além disso, em saneamento nós estamos hoje com a nossa carteira de 33 bilhões e 800 milhões de reais. Eu sou da época, Paulo Safady, que um dia, eu era ministra-chefe da Casa Civil, devia ter uns quatro meses, entra um alto funcionário da Fazenda e me diz o seguinte – nós ainda não tínhamos pago o Fundo Monetário –, e disse para mim o seguinte: “Vitória, vitória! Consegui mais 500 milhões de reais para investir em saneamento no Brasil.” Ora, 500 milhões de reais é uma obra média de saneamento no Brasil. Sem a carteira dos 33,8 bi... não, dos 34,800, sem ela os estados e as prefeituras não conseguem investir em saneamento. Aí a parceira ou é uma parceria republicana bem feita... a União entra com uma parte, a prefeitura entra com outra, o governador entra com outra e a iniciativa privada pode entrar com outra quando for PPP, mas é assim que é possível investir em saneamento no Brasil, ou então não haverá investimento.

E aí eu quero entrar num parágrafo que se chama: sem subsídio não há investimento em infraestrutura. Querem sabe por quê? Porque para ficar de pé um projeto na mobilidade urbana, precisa do seguinte: ser 30 anos para pagar, 5 anos de carência e taxa de juros de 5%. É essa condição que viabiliza o metrô. Ou é isso, ou seja, uma estrutura de financiamento, mais uma parte de Orçamento-Geral da União a fundo perdido – é assim o modelo –, mais a contrapartida do estado e da prefeitura. Junta tudo isso e dá um financiamento sustentável de metrô. Junta tudo isso e dá um financiamento passível dos governos estaduais sustentarem o processo. Caso contrário, você inviabiliza o investimento, porque a estrutura de financiamento não é adequada a projeto de infraestrutura de longo prazo.

Então, quando vocês escutarem falar que o Brasil não pode subsidiar, eu quero dizer para vocês o que está fora da pauta: o Plano Agrícola e Pecuário. O Plano Agrícola e Pecuário, dos 156 bilhões, 132 são com juros até 6,5%. O plano agrícola, aliás, o Plano da Agricultura Familiar, Plano Safra da Agricultura Familiar, o Programa de Sustentação de Investimento, compra de máquinas e equipamentos pelo Brasil afora, inclusive na área construção civil. Não tem retroescavadeira, motoniveladora, pá-carregadeira, caminhão-caçamba e caminhão-pipa, não tem nenhuma política sustentável de financiamento de longo prazo, não existe. Aí não é só metrô, sistemas hídricos, garantia de segurança hídrica no Nordeste do país, também não tem. Nós estamos fazendo talvez um dos maiores esforços feitos em qualquer país do mundo, no que se refere a abastecimento de água na região do Nordeste brasileiro. E não é só a transposição do São Francisco, não, para cada 1 real da transposição do São Francisco, nós gastamos três reais, portanto, dando quatro, três reais nós gastamos em obras específicas, tipo canal do sertão alagoano, outro, eixão das águas e cinturão das águas. Nenhuma dessas obras custa R$ 500 milhões, elas estão acima de 2,5 bilhões, quando implica na rede de distribuição também.

Então, eu quero dizer para vocês que, de fato, nós não temos o crescimento que tivemos até 2010. Qualquer tentativa de achar que isso só depende de nós é uma temeridade. Por quê? Porque eles vêm de uma crise desde 2008. Nós não entramos na crise imediatamente, nós sofremos os efeitos dela, esses efeitos foram transmitidos pelo sistema de crédito, foram transmitidos, sobretudo, pelo comércio internacional e pelos financiamentos internacionais, houve uma baita restrição no mundo inteiro.

Por exemplo, nós todos achamos que os Estados Unidos estão em franca recuperação, qualquer um de nós aqui jura que está em franca recuperação. Pois bem, vocês sabem a taxa de crescimento da economia americana no último trimestre? É 0,025%, eles anualizam, dá 0,1% É essa a taxa de crescimento nesse último trimestre. Eu não estou dizendo que a economia americana não vai se recuperar, até porque é pelo que eu mais torço, e será muito importante para nós e para o mundo. Mas a economia americana não tem uma recuperação, vamos dizer, numa curva inclinada e crescente, ela tem uma recuperação mais lenta do que se imaginava. O mesmo ocorre com a europeia. Tanto é assim que se a gente pegar o investimento, no Brasil ele cresceu 6,3%. Quando a gente pega todos os países do G20, nós só fomos superados pela China, ficamos na frente de todos os países do G20, inclusive Estados Unidos, Japão, Alemanha, Austrália, e a própria União Europeia. Não há uma situação no mundo que não nos afete, não há, não é possível, mas nós sabemos que somos afetados e temos de tomar medida para diminuir que isso nos atinja de forma a comprometer aquilo que é mais importante: a comprometer as nossas conquistas.

Então, vejam bem, enquanto eles enfrentaram a crise desempregando, demitindo, reduzindo renda a ponto do livro que faz mais sucesso hoje, em todos os meios, ser o do Picked, que mostra uma realidade terrível, que é o aumento da desigualdade nos países mais ricos do mundo, aumento da desigualdade nos Estados Unidos, aumento da desigualdade em toda a União Europeia, aumento da desigualdade no Japão. Perfeitamente, nós enfrentamos a crise de desempregar. E todas as profecias cavernosas que fizeram, como aquela que vocês lembram bem, chamava “tempestade perfeita”, não se realizaram. Não só não se realizaram, como hoje nós vivemos, justamente por esse fato do 0,025%, uma situação em que o dólar tem tido uma desvalorização frente ao real. E mais que isso, se você comparar todas as taxas de inflação dos períodos que me antecederam, incluindo o governo do presidente Lula, nós temos a menor taxa média de todos os períodos, dos 3 anos iniciais do governo, a menor taxa média. Nossa inflação, ela sempre ficou no intervalo da meta. Nós, de fato, tivemos dois choques, dois grandes choques de alimentos, provocados por situações que não estão sob o controle nem nosso, nem de país nenhum, que é a seca. Nós deixamos que a seca, pelo nosso método de cálculo da inflação, a seca entra no centro da inflação, nós computamos variação de alimentos por choque externo. Os Estados Unidos não contemplam variação de alimentos por choques externos, porque a metodologia deles é outra, então eles tiram. Nós tivemos efeitos da seca nos Estados Unidos também no final do ano passado, na virada.

            Então o que eu quero dizer para vocês é o seguinte, na teoria do copo meio cheio ou meio vazio, é muito importante que não prevaleça a visão do copo meio vazio. É muito importante que se veja todas as conquistas deste país por um motivo muito simples: elas serão a base da próxima retomada do próximo crescimento. É o que nós conseguimos até agora que será essa retomada. E aí, vejam bem, na questão fiscal no Brasil, nunca a participação do PIB, a participação, por exemplo, do custeio em relação ao PIB, nunca o percentual foi tão baixo. Na participação de pessoal sobre o PIB, também nunca o percentual foi tão baixo. São as duas principais despesas no Orçamento da União.

Nós temos de progredir e temos de perceber que o Brasil tem hoje um potencial que ele preservou. Não acho que é artificial a situação do emprego no país. Acho que a situação do emprego no Brasil reflete o que vem acontecendo no país. E o que vem acontecendo? Vem acontecendo que nós conseguimos superar a pior fase da crise da economia internacional sem desempregar, sem reduzir a renda real e mantendo uma situação de estabilidade no que se refere a todas as nossas conquistas macroeconômicas, até por que poucos países do mundo – eu acho que nós somos o quinto em reservas – têm 378 bilhões de dólares para enfrentar qualquer flutuação ou qualquer oscilação do mercado internacional, como nós demonstramos e fizemos nos últimos tempos.

E acredito que o único problema que nós enfrentamos é não deixar que certas profecias se tornem autorrealizáveis, ou seja, não é possível nos impregnar de pessimismo. Este país é grande o suficiente, caminha hoje pelos seus próprios pés, tem estabilidade e tem uma estrutura que tem de buscar ser cada vez mais competitiva. De um lado, infraestrutura, de outro, inovação, e, de outro – nós não temos dois caminhos ou três caminhos –, de outro, educação, educação e mais educação.

Eu quero encerrar agradecendo a atenção dos senhores.

 

 Ouça a íntegra (49min33s) do discurso da Presidenta Dilma Rousseff