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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões

por Portal do Planalto publicado 10/06/2013 20h45, última modificação 04/07/2014 20h17

 

Lisboa-Portugal, 10 de junho de 2013

 

Excelentíssimo senhor Aníbal Cavaco Silva, presidente de Portugal, e senhora Maria Cavaco Silva,

Excelentíssimo senhor Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, e senhora Laura Ferreira,

Escritor Mia Couto, agraciado com o Prêmio Camões, e família,

Doutora Maria da Assunção Esteves, presidenta da Assembleia da República,

Senhor Renan Calheiros, presidente do Senado Federal do Brasil, e senhora Verônica Calheiros,

Senhoras e senhores ministros de Estado do Brasil e de Portugal, que cumprimento por meio do secretário de Estado de Cultura, Jorge Barreto, e da ministra da Cultura, Marta Suplicy.

Professora Clara Rocha, presidente do júri do Prêmio Camões,

Senhoras e senhores representantes do meio cultural,

Senhoras e senhores jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas,

 

O convite para participar desta cerimônia de entrega do Prêmio Camões muito me honra e, de forma especial, enriquece a minha visita a Portugal. A obra de Camões e, em particular, Os Lusíadas, fala de perto ao Brasil, não apenas por sua importância como monumento do nosso idioma, como monumento fundador do nosso idioma. A história de meu país não se compreende sem a epopeia das navegações que é a matéria-prima da obra do bardo.

Mas hoje é também o encerramento do ano do Brasil em Portugal e do ano de Portugal no Brasil. Durante meses celebramos as mais altas expressões culturais de nossos países, em especial no campo literário. Realçou-se o papel da língua portuguesa como instrumento de cooperação de nossos países. Hoje é, portanto, um dia feliz para a nossa língua, a língua de Luís de Camões.

Reunimo-nos aqui para expressar nosso reconhecimento à vasta contribuição de Mia Couto à literatura de expressão portuguesa. Celebramos o conteúdo moçambicano de sua obra e suas reflexões profundas e sensíveis sobre a cultura e a história de seu país. Isto é a marca universal de um grande autor. Confirmamos o especial impacto de sua obra no âmbito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Seus poemas, contos, crônicas e romances exaltam a riqueza e a pluralidade de expressões que pode assumir a lusofonia. Em suas palavras, nossa língua nos dá, cito: “Raiz e lugar, mas também nos faz asa e viagem”.

Recusando qualquer ortodoxia linguística ou cultural, a obra de Mia Couto inova ao aportar à literatura portuguesa profunda sabedoria, o lirismo e a fluidez das culturas orais de seu país e do nosso, dos nossos países. Ele próprio, moçambicano, filho de imigrantes portugueses, vive num entrecruzamento de culturas e realidades distintas. Essa condição, de certa maneira, é comum a todos nós que compartilhamos a língua portuguesa, um idioma forjado, difundido e recriado permanentemente no encontro entre diferentes.

A diversidade que resulta desses encontros é nosso patrimônio maior e define quem cada um de nós somos. Nas palavras de Mia, “preciso ser um outro para ser eu mesmo”. Aos brasileiros, a obra de Mia Couto tem ajudado a descobrir muitas áfricas para além daquela guardada nos sonhos e na memória de nossos inegáveis laços históricos.

Seus livros convidam-nos a viajar pelo vasto interior de Moçambique, a imaginar o burburinho das ruas de Maputo, a nos comover com histórias tão singulares quanto universais. Estou certa de que a concessão deste prêmio contribuirá para a maior divulgação da obra de Mia Couto e da literatura moçambicana no meu país.

O Brasil vive hoje um grande reencontro consigo mesmo, o qual tem como desdobramento necessário o desejo de aproximação dos povos irmãos que, lamentavelmente, ainda conhecemos tão pouco. Expressão desse sentimento é o fato de mais de cem milhões de brasileiros declararem-se afrodescendentes.

Mas a contribuição de Mia Couto extrapola os limites de sua arte. Oferece-nos o sonho de um mundo de compreensão e entendimento entre os seres humanos e desses com os mistérios da natureza, da vida e da morte.

Mantenho o olhar sempre atento aos desafios inerentes a toda jovem nação no processo de construção de sua identidade e de seu futuro. Sabe que essa construção exige capacidade de refletir sobre nós mesmos e de elaborar nossas próprias narrativas. E lembra-nos da necessidade de ampliar o acesso ao livro e apoiar os jovens escritores lusófonos, os quais, tendo oportunidade de desenvolver seus talentos, produzirão outras obras merecedoras deste prêmio.

É, pois, com muita alegria que, neste dia de Portugal e de Camões, me uno a todos nós na homenagem a Mia Couto.

Meus parabéns, Mia Couto.

Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra (06min12s) do discurso da Presidenta Dilma