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Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante a cerimônia alusiva ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

por Portal do Planalto publicado 29/01/2012 12h30, última modificação 04/07/2014 20h09
Presidenta Dilma discursa durante a cerimônia alusiva ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto


Salvador-BA, 29 de janeiro de 2012


Boa tarde a todos.
Eu queria iniciar cumprimentando o governador da Bahia, meu amigo, companheiro Jaques Wagner, cumprimentando a minha amiga Fátima Mendonça e dirigindo um cumprimento muito especial para a dona Paulina.
Cumprimentar também o vice-governador, Otto Alencar.
E dizer que para mim é uma honra estar aqui, neste momento, hoje.
Agradeço as palavras do amigo, também, Cláudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil.
Queria cumprimentar os senhores embaixadores de Israel, Rafael Eldad, e Yves Saint-Geours, da França.
O senhor presidente da Sociedade Israelita da Bahia, Maurício Kertzman,
Os ministros e ministras de Estado que me acompanham hoje: Maria do Rosário, dos Direitos Humanos; Luiza Bairros, de Política da Promoção da Igualdade Racial; José Elito, do Gabinete de Segurança Institucional; e Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Relações Exteriores.
Queria cumprimentar também o presidente da Assembleia Legislativa aqui da Bahia, deputado Marcelo Nilo,
A desembargadora, presidente do Tribunal de Justiça, Telma Britto,
O Arcebispo Emérito, dom Geraldo Magela,
Os senadores Lídice da Mata, Walter Pinheiro e João Durval.
Queria cumprimentar os deputados federais e as deputadas federais aqui presentes.
O prefeito em exercício de Salvador, Edvaldo Brito,
O senhor Jack Terpins, presidente do Congresso Judaico Latino-americano,
O rabino Ariel – também não vou falar, é impossível... Bom, vou tentar: Oliszewski, por intermédio de quem cumprimento todos os rabinos e representantes de entidades israelitas estaduais e municipais aqui presentes.
Dirijo também uma saudação especial para o professor Luiz Edmundo Souza, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, pela excelente fala que nos proporcionou nesta noite.
Cumprimentar, também, o senhor Henry Nekrycz, escritor e sobrevivente de campo de concentração,
Senhoras e senhores jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas,
Senhoras e senhores,

Eu me sinto extremamente honrada de participar, pela segunda vez, na condição de presidenta da República, desta cerimônia em memória das vítimas de um dos episódios mais violentos, mais trágicos, mais horripilantes da história da humanidade, especificamente da história do século XX, o Holocausto.
Eu parabenizo a Confederação Israelita do Brasil pela escolha da Bahia, especialmente de Salvador, berço do Brasil, para esta homenagem. Esta cidade, ela possui a maior população de afrodescendentes fora da África, foi palco de lutas históricas, tanto pela independência do meu país, do nosso país, quanto pela abolição da escravatura. Sua história política e cultural está ligada intimamente à revolta contra a dor e o sofrimento a que os povos africanos foram submetidos em solo brasileiro.
Mas Salvador também tem um lado muito forte, muito positivo, que é o fato de ser símbolo de uma comunidade que por cultura, por características de sua formação, rejeita a discriminação e tem uma imensa capacidade de acolher e de respeitar algo fundamental, que é a diversidade.
Celebrar aqui... Porque é uma celebração que se faz às vítimas do Holocausto quando nós resgatamos a memória delas. Nós afirmamos, como acabou o nosso governador dizendo: Holocausto nunca mais, nós estamos, aqui, nos manifestando sobre algo que de fato é uma nódoa na história da Humanidade. Mas, também, lembrar é, de uma certa forma, construir os mecanismos que para que jamais aconteça novamente.
E, aí, eu acho que tem dois ensinamentos que nós temos de tirar do horror: primeiro, é o próprio horror. Acho que ali, no Holocausto, e toda a política nazista em relação aos que divergiam, aos que eles consideravam diferentes, era uma política de violência extrema, não havia qualquer espaço de convívio, nem para a oposição, nem para o que eles consideravam diferentes.
E, aí, vem uma segunda questão, que é imensamente grave, na questão do Holocausto: é a teoria de que uma parte da humanidade era melhor que a outra. Sem sombra de dúvida, na escravatura nós tivemos a mesma manifestação. Em todas as guerras étnicas se tem esta mesma expressão. Mas no Holocausto foi feita uma tentativa, e o absurdo da tentativa é que ela foi tornada uma pseudociência de que uns eram mais humanos do que outros. Isso nós não podemos aceitar, porque esse é o princípio que assegura a base de todas as guerras de extermínio, de todos os genocídios e, também, da xenofobia que aparece em certas ocasiões, em momentos críticos da história da Humanidade.
Portanto, relembrar e fazer isto aqui, na Bahia, é, mais do que nunca, sermos capazes de, ao mesmo tempo em que homenageamos as vítimas do Holocausto em uma cidade que é expressão viva da diversidade cultural, religiosa, da diversidade étnica, é também um momento importante para que a gente reafirme o nosso compromisso de jamais nos silenciar diante de qualquer discriminação, de nunca nos omitir frente a crimes como aqueles praticados contra os judeus. Mas é também o momento para nós homenagearmos todos aqueles que foram capazes, mesmo tendo sido de uma certa forma, em alguns momentos, diante de algumas lutas, derrotados, mas que tiveram a cabeça erguida e foram capazes de lutar contra o racismo, a discriminação seja por raça, seja por opção sexual, seja por opção religiosa.
O Brasil é fiador e signatário de todos os tratados internacionais de combate ao racismo e à discriminação. Mas, sobretudo, nós temos de perceber... Eu considero muito acertada a fala do professor, quando ele diz que não é só uma manifestação contrária a um acontecimento que ocorreu há 72 anos, mas, sobretudo, é uma manifestação contra todos os preconceitos e discriminações no mundo atual.
Nós temos orgulho de viver numa sociedade que tem padrões de convivência mais harmoniosa. Mas nós sabemos que a nossa sociedade também ainda discrimina, discrimina o negro, discrimina o homossexual, discrimina o diferente. Nós temos de fazer esse reconhecimento para poder termos consciência e combater. Eu não estou aqui para fazer um elogio do Brasil como uma terra de perfeita harmonia. Nós somos ainda uma sociedade imperfeita que trilha o caminho da democracia e, nesse sentido, nos permite a todos sermos responsáveis por construir, honrando, hoje, as vítimas do Holocausto, por construir um mundo melhor onde as crianças não sejam discriminadas, que as pessoas não sejam diferenciadas por sua cor, opção política, opção religiosa.
Ao fazer isso, eu acho que nós estamos caminhando no sentido de tornar presente e de jamais esquecer que aquilo aconteceu, jamais esquecer que houve uma política de extermínio na Segunda Guerra Mundial, que tentava eliminar aqueles que eram julgados fracos, que eram julgados incapazes. Basta andar pelos campos de concentração na Europa, projetados e construídos pelos nazistas para aniquilar a vida, que mostra ele... andando ali, salta aos nossos olhos, aparece claramente que o objetivo mais cruel era sufocar toda a dignidade humana e apagar qualquer vestígio de consciência. Sempre que se tenta destruir a dignidade humana ou mudar a consciência através de métodos desse tipo, nós estamos fazendo políticas de extermínio. Lamentavelmente elas ainda ocorrem no mundo. Lamentamos todas as vítimas de extermínio que neste dia, agora, nesse momento e nesse minuto são objeto, são vítimas da mesma política desumana e de desqualificação da pessoa humana, praticadas pelos nazistas.
Para todos nós sempre é um momento muito forte quando se olha as fotos dos prisioneiros e sobreviventes desses campos de extermínio. Eu acho que não só pelos corpos torturados, mas, sobretudo, pelos olhares torturados. E ao constatar a condição humana de cada um de nós nesses olhares, nós percebemos que essa condição foi questionada. E é isso que tem de eminentemente forte nesta celebração, hoje. Nós trazemos ao momento presente esta situação.
Sem dúvida nenhuma, o Holocausto, que alguns negam, servirá sempre de paradigma contra a intolerância e contra esta violência bestial. Nós não podemos apagar da nossa memória atos repulsivos, nem podemos achar que eles são privilégio de algum povo. Infelizmente, nós vemos que na humanidade há várias manifestações nesse sentido. Mas as sociedades democráticas, elas têm um poder: elas têm o poder de deixar e colocar a nu essas tentativas. Por isso, eu tenho certeza que, aqui, nós fazemos esta cerimônia para lembrar sempre e para que jamais se repita.
Minhas amigas e meus amigos,
A comunidade judaica, ela tem grande importância na formação social e cultural brasileira. O Brasil é fruto, em parte, da diáspora, sistemática diáspora que acontecia na Europa. Uma parte dos portugueses que vieram para o Brasil eram cristãos novos, aquelas pessoas que eram obrigadas a renunciar à sua crença para não serem exterminadas. Outra parte foi composta também pela vinda de judeus, fugindo do horror da Europa. As primeiras colônias vieram para o Nordeste, nesse movimento mais recente, e a sua contribuição tem sido fundamental.
Eu acredito que a comunidade judaica na Bahia, ela tem a mesma característica de todas as comunidades judaicas. E foi externado aqui, pelo rabino, que a única coisa que se podia levar, depois do confisco, era o saber e era a cultura, e era a educação.
Daí porque eu me congratulo com a construção de uma nova sinagoga, que contará com o primeiro Centro de Cultura Judaica no estado, e permitirá ampliar e socializar o conhecimento judaico junto à sociedade baiana, fazendo jus à tradição de povo do estudo, povo do livro, povo do conhecimento.
E, mais uma vez, além do terror, eu quero saudar a coragem e a esperança daqueles que lutaram, que lutaram na Segunda Guerra Mundial, que lutaram nos guetos, que lutaram contra os pogroms, que lutaram contra toda a política de extermínio, da forma que seja, mas lutaram, porque neles nós temos uma indicação da necessidade dessas duas palavras: da esperança e da coragem.
Eu queria dizer, finalmente, que o Brasil desde sempre foi o primeiro país a apoiar a criação do Estado israelense. E é convicção do governo brasileiro que é imprescindível que depois de tanto tempo haja paz no Oriente Médio. E o governo brasileiro considera imprescindível, para essa paz, a criação também de um Estado palestino democrático e não segregador.
Nós temos a certeza de que nós não resolvemos – e a realidade mais recente no mundo mostra isso –, nós não conseguimos resolver os problemas através dos conflitos armados. Nós acreditamos, talvez pelo fato de que vivamos há 140 anos em paz com todos os nossos vizinhos, nós acreditamos que a melhor solução é a construção de um ambiente de negociação e discussão.
Temos também a convicção de que há, sim, de fato, a necessidade de proteger populações civis, mas que também o mundo tem de se conscientizar de que há também responsabilidade no proteger, não basta responsabilidade ao proteger, quando se protege também é necessário que se tenha responsabilidade, para que a proteção não se torne numa situação de convulsão, de guerra ou de conflito armado.
Nós consideramos que o povo judeu tem uma imensa experiência histórica, não só esta, do Holocausto, mas de toda a sua trajetória de diáspora que, aliás, até a esse ponto tem em comum com a população africana aqui, houve uma diáspora africana também. Mas eu queria lembrar que na diáspora do povo judeu, ele conseguiu manter a integridade da sua cultura, em que pese todas as adversidades. E essa experiência é sempre, e foi sempre, uma experiência de paz. Não se tem notícia, em qualquer lugar em que houve comunidade israelense, comunidade judia, em que a intolerância fosse a característica.
Por isso, eu queria saudar a todos vocês aqui afirmando que nações dignas desse nome só se constroem com humanismo, solidariedade e tolerância, com liberdade, democracia e igualdade.
Muito obrigada.

 

Ouça a íntegra do discurso (20min52s) da Presidenta Dilma