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Declaração à imprensa seguida de entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, após encontro bilateral com o Presidente de Governo espanhol, Mariano Rajoy

por Portal do Planalto publicado 19/11/2012 12h02, última modificação 04/07/2014 20h13

Madri-Espanha, 19 de novembro de 2012

 

PRIMEIRA PARTE

 

Presidente Mariano Rajoy: (em espanhol)

Presidenta Dilma: Senhoras e senhores, o presidente Mariano e eu mantivemos uma reunião de trabalho do mais alto nível, na qual desenvolvemos um diálogo franco e produtivo sobre a situação e o estado das nossas relações bilaterais. Eu reiterei ao Presidente meu agradecimento pela acolhida que o governo e o povo espanhol nos dispensaram aqui, em Madri e em Cádiz, onde participamos da 22ª Cúpula Ibero-Americana.

O presidente Rajoy e eu consideramos que a relação entre o Brasil e a Espanha vive, hoje, um momento promissor. Há interesse recíproco no aprofundamento do diálogo, do intercâmbio e da cooperação. Concordamos em avançar em iniciativas concretas, para dar novo dinamismo à parceria estratégica já estabelecida entre a Espanha e o Brasil.

Em 2011, o intercâmbio comercial bilateral de nossos países alcançou um resultado histórico de US$ 8 bilhões. A Espanha também é o segundo maior investidor externo no Brasil, com um estoque de capital em torno de US$ 85 bilhões, aplicados em setores estratégicos para o desenvolvimento do Brasil. O nosso país, por sua parte, é um dos principais investidores na Espanha, entre os países emergentes.

Nós, Espanha e Brasil, vamos trabalhar juntos para aumentar e diversificar ainda mais os fluxos recíprocos de comércio que, mesmo tendo atingido esse patamar, nós consideramos aquém do nosso potencial dos investimentos e estimular a crescente participação das pequenas e médias empresas neste processo.

Decidimos também aproveitar melhor o potencial de cooperação em ciência, tecnologia e inovação em domínios que abrangem a gestão de recursos hídricos, a cooperação industrial para a defesa, a indústria naval, a construção de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, a nanotecnologia e a área de petróleo e gás.

Expressei minha satisfação com a acolhida recebida pelos mais de 2.100 estudantes brasileiros na Espanha, o quarto principal destino de bolsistas de nosso Programa Ciência Sem Fronteiras. As universidades espanholas deverão receber, até 2014, oito mil estudantes de meu país nesse programa.

Temos avançado também na cooperação cultural. O Centro de Estudos Brasileiros, em Barcelona, e a Casa Brasil, em Madri, contribuem para a difusão da cultura brasileira na Espanha. E o Brasil é sede de Institutos Cervantes que difundem a língua e a cultura espanhola em meu país. O acordo de estabelecimento dos centros culturais agora vigentes abrirá novas oportunidades para o diálogo entre nossas ricas manifestações culturais. A Fundação Conselho Espanha-Brasil, aqui, assim como o trabalho que vem sendo realizado no Brasil pelo Instituto Velázquez, estreitam os laços entre nossas sociedades.

Registramos com satisfação os progressos alcançados no tratamento dispensados a viajantes brasileiros na Espanha. Os entendimentos mantidos ao longo dos últimos meses têm surtido efeitos positivos. Temos que consolidar e ampliar esses avanços para estimular cada vez mais os fluxos de pessoas entre a Espanha e o Brasil, de forma compatível com os vínculos históricos de amizade fraterna que nos une.

O presidente Rajoy e eu discutimos também a ampliação das nossas parcerias em todas as áreas estratégicas e que estão em permanente crescimento no Brasil, a saber: a presença de investidores espanhóis nas áreas de rodovias e ferrovias, trem de alta velocidade, portos, aeroportos, é para nós uma excelente contribuição no que se refere ao crescimento dos investimentos privados no Brasil. Também discutimos temas regionais e globais. Expus a ele o avanço do processo de integração da América do Sul, uma região de paz, de crescente prosperidade e justiça social. Falei-lhe da importância da adesão da Venezuela ao Mercosul e da consolidação da Unasul como uma instância regional de integração econômica, social e política.

Estivemos de acordo quanto à importância estratégica das negociações entre o Mercosul e a União Europeia, com vistas a um acordo equilibrado, que permita ampliar as correntes de comércio entre as duas regiões, de forma benéfica para as duas.

Sobre os temas relacionados com a paz e a segurança no mundo, expressei minha preocupação com a situação de violência na Faixa de Gaza, que tanto sofrimento já causou ao povo daquela região. O processo de paz entre Israel e Palestina, cujo único caminho possível é a coexistência pacífica dos dois Estados, permanece condição fundamental para a paz na região e no mundo.

Confirmamos, nesta visita, que o Brasil e a Espanha são sócios estratégicos, com uma densa agenda de trabalho pela frente. O desenvolvimento de cada um dos nossos países terá muito a ganhar com o aprofundamento dessa parceria.

Ao mesmo tempo, considero fundamental essa cooperação entre o Brasil e a Espanha, tendo em vista a situação de crise econômico-financeira que afeta, com particular incidência, a Europa. O Brasil pode e será uma forma pela qual esses países desta região do mundo, que deram uma grande contribuição ao construir, das cinzas da 2ª Guerra Mundial, um dos maiores produtos humanos, que foi a União Europeia e o euro, o Brasil, portanto, pode e deve contribuir para que haja mais crescimento econômico, mais possibilidades de solução para a crise, porque ela necessariamente passa pelo crescimento.

Muito obrigada.

 

Jornalista: Buenos dias, senhoras e senhores. A minha pergunta, inicialmente, é para a senhora, mas queria perguntar também ao presidente Rajoy. A senhora tem insistido, em todas as suas viagens à Europa, na necessidade de crescimento e na crítica às políticas de austeridade que têm sido seguidas na Europa e da qual a Espanha é um dos alunos mais aplicados. Mais recentemente, ganhou o apoio do presidente da França, François Hollande, na mesma pregação e, mais recentemente ainda, do Fundo Monetário Internacional, que reconhece que o excesso de austeridade pode prejudicar a recuperação econômica.

Eu queria saber o que falta, na sua visão, para que essas críticas passem do estado de lamúria em que se encontram há dois anos, pelo menos, desde a senhora Presidente, para políticas concretas de apoio ao  crescimento e ao progresso do país.

E ao presidente Rajoy (em espanhol)

Presidenta Dilma: Querido jornalista Clóvis Rossi, eu considero que a combinação de austeridade e crescimento é a melhor maneira de superar os desafios colocados por uma crise. Até porque, como todos nós no Brasil sabemos, nós temos uma experiência em que o baixo crescimento, ao invés de diminuir a dívida e o déficit, faz apenas aumentá-lo. Assim sendo, nós consideramos que equilíbrio fiscal e crescimento, controle da inflação e políticas de distribuição de renda são absolutamente compatíveis, não são antagônicas. Ao contrário, eu acredito que são completamente interdependentes.

Eu acredito que a União Europeia tem – e principalmente a Zona do Euro – tem todas as condições, pela riqueza acumulada e por todo o potencial dos seus povos, de sair dessa solução. E considero que tem um componente muito forte, nesse momento de crise, que é uma especulação contra o euro. Uma vez que o euro é uma das grandes contribuições que a Europa deu ao mundo, mostrando que é possível criar uma zona de cooperação e que essa zona de cooperação, ela pode vir a ser, como é o caso da Europa, o primeiro mercado consumidor do mundo, eu acredito que a Europa tem todas as condições de sair da crise. E espero que não se adote políticas pouco pragmáticas. O pragmatismo é uma forma muito, eu diria assim, eficaz, quando se trata de encarar a crise da dimensão que se encara aqui na Europa.

Nós sabemos que essa crise vem lá de trás, de 2008, quando quebra o Lehman Brothers. Nós sabemos também que, de lá para cá, ela contagiou algumas partes do mundo. Eu tenho a firme convicção de que é fundamental esse caminho de crescimento para a Europa, para evitar a face mais negra da crise, que é o desemprego, que nós conhecemos no Brasil, que é o aumento da desigualdade. E, francamente, acredito que esforços estão sendo feitos nesse sentido, e espero que principalmente os países aqui, do mundo ibérico, tenham a oportunidade de ter, eu diria, uma flexibilização maior, no que se refere à forma de encaminhar a crise. Isso significa crescer e, ao mesmo tempo, construir as condições do ajuste no médio e no longo prazos.

Presidente Mariano Rajoy: (em espanhol)

Jornalista: (em espanhol)

Presidenta Dilma: Eu não tenho a menor pretensão, aqui, de dar uma receita para a Espanha, até porque não conheço a situação da Espanha. Estou falando a respeito do que eu considero que deve ser uma atitude diante da crise a partir da experiência do meu país, dos erros do meu país.

Nós tivemos, durante duas décadas, só a perspectiva do ajuste fiscal. E só conseguimos, de fato, sair de uma situação de crise e modificar a situação do Brasil quando fizemos e combinamos robustez fiscal, ou seja, controle dos gastos públicos com crescimento; quando combinamos controle da inflação com distribuição de renda; quando apostamos no nosso mercado interno e desenvolvemos também uma política de exportações.

Eu acredito firmemente que os recursos da União Europeia e até atitudes do Fundo Monetário Internacional para com a Europa, é bem... os recursos da União Europeia são maiores e a atitude do Fundo Monetário Internacional para com este momento, também reflete o aprendizado do Fundo Monetário Internacional, porque não receitava para nós, em nenhum momento, nada que não fosse cortar salários, desemprego e ajuste.

Se tivesse tido a consideração de nos tratar de uma forma mais, eu diria, compreensiva, toda a América Latina teria saído antes da crise. De outro lado, o que eu considero importante, são duas afirmações: uma, que o euro é, sem sombra de dúvida, uma grande obra de um conjunto de homens e mulheres que tiraram das cinzas da 2ª Guerra Mundial, juntamente com a União Europeia, com a cooperação regional, que construíram um dos maiores mercados do mundo, e que esse, esse produto, ele não pode desaparecer.

Portanto, eu considero que tem uma questão política central, que é a afirmação da importância do euro, não só para a Europa como para o resto do mundo. Portanto, a especulação contra o euro é algo que tem de ser combatida e não pode ser objeto de considerações só dos mercados.

A segunda questão que eu quero dizer é que do ponto de vista econômico stricto sensu, é muito difícil sair de uma crise sem um mínimo de crescimento. A nossa experiência é que a cada ajuste aprofundava-se o déficit e a dívida, e você não conseguia sair daquela situação, essa é a experiência do Brasil. E diante dos fatos atuais, eu considero muito importante também uma mobilização de todo o mundo, como foi feita em 2008/2009, para que houvesse uma cooperação efetiva para a saída da crise, para que todos os países contribuíssem para isso.

Nós não temos só essa ameaça da União Europeia, em termos de crise internacional, nós temos também o chamado “abismo fiscal” ou fiscal cliff, que pode afetar os Estados Unidos e que nós esperamos que não ocorra, esperamos que não ocorra porque, para todo o mundo, de uma forma ou de outra, ninguém é uma ilha, todo o mundo é afetado pelas consequências de processos como esse.

Então, considero que muito foi feito até agora, porque foi evitado aqui, na Europa, uma situação similar àquela do Lehman Brothers e isso é algo a ser registrado, foi evitado, houve medidas concretas que foram tomadas. Eu continuo esperando que isso ocorra, esperando que o caminho para a saída da crise na Europa evite, cada vez mais, o sofrimento das pessoas e o desemprego.

E o Brasil – vou reiterar – ele se coloca numa atitude de cooperação com a Espanha, Portugal e os países europeus, nessa questão de se tornar também uma oportunidade para se manter um grau de, enfim, de atividade econômica compatível com uma economia, um povo e um país com as características do espanhol.

Presidente Mariano Rajoy: (em espanhol)

 

Ouça a íntegra da declaração (30min52s) da Presidenta Dilma