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Declaração à imprensa da Presidenta da República, Dilma Rousseff, após reunião ampliada, seguida de entrevista coletiva - Estocolmo/Suécia

por Portal Planalto publicado 19/10/2015 16h01, última modificação 19/10/2015 17h06

Estocolmo-Suécia, 19 de outubro de 2015

  

É uma alegria estar nesta bela cidade, a convite do primeiro-ministro Stefan Löfven, que nos honrou com sua presença em Brasília, por ocasião de minha posse, em janeiro deste ano.

O relacionamento bilateral entre a Suécia e o Brasil passa por um momento especial. E esse momento se cristaliza na parceria para a  produção dos caças Gripen New Generation  - isso é o marco da fase que nós estamos no nosso relacionamento.

Adotamos hoje, também, o Novo Plano de Ação da Parceria Estratégica, com parâmetros para a cooperação em comércio, investimentos, defesa, educação, ciência, tecnologia e inovação, energias renováveis, meio ambiente, cultura e diálogo sobre temas globais.

Nossa reunião, essa manhã, serviu para que nós repassássemos e consolidássemos  nossa  agenda. Nós concordamos que uma das principais tarefas nossas é aumentar e diversificar o intercâmbio comercial.

A Suécia é tradicional e crescente fonte de Investimentos estrangeiros no Brasil, com estoque de mais de  US$ 4,5 bilhões. As primeiras empresas suecas chegaram ao Brasil no início do século XX. E hoje mais de 200 estão presentes no Brasil, gerando empregos e produzindo valor agregado.

No encontro com o primeiro-ministro, bem como no segmento empresarial dessa visita, nós examinamos novas oportunidades de negócios.

A intensificação da cooperação em defesa é momento propício para aprofundarmos nossas relações econômicas.

Temos hoje  46 engenheiros brasileiros – de um total de 350 – que aqui trabalharão e estudarão para viabilizar a fabricação dos caças Gripen NG.

Esse  projeto, ele deve  estender-se por pelo menos dez anos, com a participação da Saab e da Embraer Defesa e Segurança.

Prevê-se transferência de tecnologia e compartilhamento da propriedade intelectual.

No que se refere à cooperação educacional, eu agradeço a receptividade ao programa Ciência sem Fronteiras na Suécia, que já recebeu 500 estudantes brasileiros, além de oito pesquisadores. Consideramos importantes estas relações e espero que nós tenhamos possibilidade de expandi-las.

Transmiti ao primeiro-ministro a prioridade que meu governo confere à Ciência, Tecnologia e Inovação. E prova da nossa parceria é o Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro, localizado em São Bernardo do Campo, que tem desenvolvido várias ações, tanto na área de defesa e segurança; mas também em energia sustentável,  transporte e logística; desenvolvimento urbano; e aeronáutica.

Temos excelente exemplo de cooperação também na área espacial. Convidei a Suécia, que já utiliza os Veículos de Sondagem Brasileiros, a participar da produção do Veículo Lançador de Microssatélites.

Saúdo o trabalho da Comissão Mista sobre Cooperação Econômica, Industrial e Tecnológica, reativada em maio passado.

Transmiti ainda o interesse brasileiro em avançarmos nas negociações de acordo na área da Previdência Social.   

No que se refere aos temas globais, valorizamos a iniciativa lançada pela Suécia, no mês passado, na abertura da Assembléia-Geral da ONU, em Nova Iorque, para promover a Agenda 2030 e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Brasil e Suécia foram sedes das Conferências de Estocolmo, em 1972; da Rio-92 e da Rio+20. Temos a responsabilidade de preservar o legado desses eventos históricos sobre meio ambiente. Somos aliados na luta contra o aquecimento global, esse grande desafio que enfrenta a humanidade.

Anunciei, na Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que nossa Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada (INDC) será de 43% de redução das emissões de gases de efeito estufa até 2030, com base em 2005. O Brasil foi o primeiro grande país em desenvolvimento a anunciar sua meta.

A convergência entre a Suécia e o Brasil reflete-se na busca de um mundo mais pacífico, próspero e justo. Coincidimos na necessidade de reforma dos principais órgãos da governança internacional.

Intervenções militares à margem do Direito Internacional, que causaram a crise dos refugiados e as desestabilizações de regiões inteiras, não  podem mais ser toleradas. Situações como as do Iraque, da Líbia, da Síria e do Iêmen demonstram a urgência de retomarmos as soluções negociadas como forma prioritária de resolução de conflitos.

Saúdo a Suécia por ter sido o primeiro país da União Europeia a reconhecer o Estado Palestino.

Senhor primeiro-ministro, caro amigo,

Demos hoje passos decisivos para reforçar os laços estratégicos em nossas nações, que juntas têm um grande futuro pela frente. Convido-o e a todos os suecos a participarem, a visitarem o Brasil no ano que vem, por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do Rio de Janeiro, onde os turistas suecos serão recebidos com carinho e entusiasmo pelo povo brasileiro.

A Suécia tem uma história que faz recordar os valores que animam o espírito olímpico, valores de que muito necessitamos em época de crescimento da desigualdade social no mundo e no interior de tantos países.

A maioria dos brasileiros espera um dia construir um modelo de bem-estar social como seu país construiu.

A tradição da Suécia como doador de ajuda oficial ao desenvolvimento é inspiração para todos aqueles que acreditam que sem prosperidade não haverá paz.

Muito obrigada! = Tack sa mycket!  

 

Jornalista: Presidente, a senhora mencionou há pouco, no seu discurso aos empresários, que o Mercosul e a União Europeia devem trocar as ofertas para o Acordo de Livre Comércio entre os dois blocos. A senhora já pode precisar, para nós todos, a data dessa troca de ofertas?

E, primeiro-ministro, uma questão ainda a respeito do Acordo de Livre Comércio, os senhores já sabem, ou melhor, o senhor tem informações a respeito de qual é o acordo prioritário para a União Europeia nesse momento? Fechar o acordo com os Estados Unidos ou com o Mercosul?

 Presidenta: Bom, eu gostaria de dizer que nós esperamos apresentar as ofertas comerciais do Mercosul com a União Europeia na data aprazada com a Comissária para Questões Comerciais da União Europeia. Isto é, até o final de novembro, na última semana de novembro. É o que está marcado. E acreditamos, somos muito otimistas em relação a esse acordo. Achamos que, do ponto de vista do Mercosul, ele está pronto para ser assinado. E acreditamos que do ponto de vista da União Europeia, também, os sinais são bem positivos.

 Fala do Primeiro-ministro: (...)

 Jornalista: Senhora presidente, qual é a sua preocupação com relação à situação econômica no Brasil e o risco da senhora ser sujeita de um rito de impeachment? A senhora vê algum perigo que a turbulência possa ter um impacto no acordo com os caças Gripen e os (incompreensível)?

 Presidenta: Olha eu não acredito que a questão da crise econômica no Brasil terá qualquer impacto sobre os contratos Gripen. Vamos lembrar que tanto a Europa como os Estados Unidos passaram por uma grave crise de proporções bastante fortes e profundas, talvez a maior crise desde 1929, nos anos 2008-2009. E houve um processo de recuperação e todos os contratos existentes foram mantidos. Não vejo nenhuma razão para que isso não ocorra com o Brasil, que tem uma economia estruturalmente sólida. Nós não temos bolhas de crédito. Nós não temos nenhum processo estrutural que leve o Brasil a uma crise profunda, não temos problemas monetários.

Então eu acredito que a crise do Brasil é uma crise conjuntural, que está sendo enfrentada, tem dificuldades. Quanto às questões políticas eu também te asseguro que o Brasil está em busca de uma estabilidade política e não acreditamos que haja qualquer processo de ruptura institucional. Nós somos uma democracia e temos tanto um Legislativo, como também um Judiciário e um Executivo, independentes e que funcionam com autonomia, mas também com harmonia. Não acreditamos que haja nenhum risco de crise política mais acentuada.

 Jornalista: Presidente, é Sérgio Utsch do SBT, Sistema Brasileiro de Televisão. Eu queria perguntar para senhora sobre essa questão da Síria. A senhora foi criticada no passado por, segundo a oposição, de ter pedido diálogo com o Estado Islâmico. Eu queria que a senhora esclarecesse isso, se esse diálogo com o Estado Islâmico passaria, pelo que o governo brasileiro defende como estratégia ideal para solucionar esse conflito na Síria. E a posição da senhora sobre o envolvimento russo agora que começou a bombardear alvos sírios, inclusive alvos que não são o Estado Islâmico?

E ao primeiro-ministro da Suécia também gostaria de saber a posição sobre esse envolvimento da Rússia nos bombardeios da Síria, agora nesse momento. Obrigado.

 Presidenta: Olha eu acredito que há uma imensa falsidade. Você levantou um momento eleitoral do Brasil, então, num momento eleitoral, infelizmente, as coisas são distorcidas. O Brasil sempre teve sempre uma posição: o Brasil acredita que certos conflitos, como o da Síria, do Iraque e o da Líbia, eles têm que ser resolvidos de forma predominantemente diplomática. Nós não vemos soluções adequadas com invasão e destruição de Estados nacionais, pelo contrário. O que nós vemos é surgir, justamente, grupos terroristas que não só têm uma característica danosa em termos de mortes de mulheres, homens e crianças, mas também são capazes de destruição de patrimônio da humanidade. Ao contrário, nós somos radicalmente contra a grupos terroristas como o Isis [sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque e Levante] e não acreditamos que é uma simples questão, invadir e bombardear um país e aí tudo estará resolvido. Este também é um problema hoje que cerca a intervenção russa. A intervenção russa tem a sua explicação baseada no fato de que é uma proteção contra o grupo, entre outros, o grupo Isis. Tem outros grupos também que têm um componente similar como Al-Nusra, Al-Qaeda. Eu não acredito em uma solução militar no conflito sírio. Se é essa a pergunta, eu não tenho condição de acreditar nisso, acho que nós não conseguimos ver uma solução pacífica na Líbia e no Iraque. No Iraque, ainda temos problemas.

 Jornalista: É preciso conversar com o Estado Islâmico?

 Presidente: Óbvio que não. Não tem conversa com o Estado Islâmico, cortam... Não é com o Estado Islâmico que tem de conversar. Não há só o Estado Islâmico na Síria. Você tem de ter uma tentativa de solução via as grandes potências. Dentro da Síria se joga, não é só o Estado Islâmico, você tem grandes potências, é justamente essa a discussão. É que não necessariamente é através de bombas que você resolve o problema, mas é sentando para negociar todos os que estão presentes. O Estado Islâmico não participa de uma mesa de negociação. Sabe por que ele não participa? Porque ele tem outro tipo de política. Ele corta gargantas.

 Jornalista: E vai combater ele como?

 Presidente: Você vai ter que de combater com armas. Agora, isso não significa que só é essa a saída, porque não está sendo, como nós estamos todos vendo. Não basta só chegar e jogar bombas na Síria. Você vai fazer isso, mas tem de tomar outras medidas, porque senão é algo sem solução. Sem solução. O conflito, não há essa alternativa que é falsa, ou faz uma saída diplomática, e isso significa negociar com o Estado Islâmico. Não necessariamente uma saída diplomática pode envolver as grandes potências em um acordo e em uma intervenção comum e não necessariamente por pura e simplesmente se soltar bombas lá. O que nós estamos vendo é os refugiados saindo e a solução nunca chegando ao fim. Você não tem uma solução que não passe por todos os presentes - que não sejam o Estado Islâmico, Al-Nusra e a Al-Qaeda - participar de uma mesa de negociação.

Jornalista: Bom dia, senhora presidenta…

 Presidente: O primeiro-ministro é que tem de responder.

 Jornalista: Ele tinha que responder também...

 Fala do Primeiro-Ministro: (...)

 Jornalista: A economia brasileira está vivendo um momento difícil e a compra dos caças Gripen representa um custo grande e um empréstimo grande do Estado sueco. E a minha pergunta é se a transferência de tecnologia pode ser a salvação da economia brasileira e se isso recompensa o custo?

 Jornalista: A senhora acha que vai (incompreensível) mais emprego para o Brasil?

 Presidenta: Eu acredito que é muito importante esse acordo do Brasil com a Suécia, em termos da produção dos caças Gripen NG. É um projeto ambicioso, é um projeto volumoso. Mas, certamente, ele não é um projeto que compromete os recursos do Brasil. Ele é um projeto que monta em bilhões de dólares, US$ 4,5 bilhões, se eu não me engano, e é um projeto muito expressivo. O Brasil tem todas as condições econômicas de suportar um projeto desse tamanho e, certamente, ele não é o maior projeto existente no Brasil hoje, ele é um dos grandes projetos. Portanto, a resposta é não há uma implicação direta entre a crise econômica e o projeto. Ele é perfeitamente suportável pelo Brasil. Assim como eu disse há pouco, durante as crises de 2008-2009 no mundo, você teve um problema bastante grande para as economias. Isso, no entanto, não significou que elas paralisassem, não significou que elas não fizessem aqueles projetos considerados expressivos.  

            O Gripen é um dos projetos importantes para nós, prioritários, expressivos. Nós vamos dar continuidade a ele. O Brasil é uma economia bastante sólida, ela está passando por uma crise conjuntural. Nós somos um país que temos tanto, eu te diria, respaldo nas nossas próprias reservas, como também temos um sistema bancário sólido, temos uma indústria e uma agricultura também bastante expressivas. Então, acreditamos que vamos passar por esse período de dificuldades conjunturais. E ele não vai afetar o projeto Gripen, que é um projeto estrutural para nós, de médio prazo, e que tem prioridade nas nossas políticas.

 Jornalista: Inaudível

 Presidenta: Sempre a transferência de tecnologia ela é extremamente importante. Para o Brasil ela é muito bem-vinda. Nós consideramos que a Suécia tem uma característica fundamental para nós. A Suécia é um país que tem na ciência, na tecnologia e na inovação o seu diferencial. E isso faz com que um país como o Brasil, que precisa de inovação, precisa desse trabalho na ciência e na tecnologia, considere a relação com a Suécia uma relação estratégica, uma relação de parceria estratégica. É por isso, inclusive, que o projeto Gripen é um projeto também estratégico. Não é, eu te diria, o maior projeto no Brasil, mas é um dos mais importantes projetos que estão em desenvolvimento no Brasil.

 Jornalista: Qual a importância do estabelecimento do Centro Sisper no Brasil antes do contrato ser assinado?

Presidenta: Eu acredito que é uma demonstração  de que o  projeto Gripen ele é muito importante em si, mas ele funcionará como uma plataforma. Uma plataforma de lançamento, eu te diria. A partir dele, nós vamos desenvolver o nosso relacionamento em várias outras áreas. Eu acredito que nós temos um imenso potencial com as empresas suecas já existentes no Brasil, e as demais são muito bem-vidas, e queremos estabelecer várias parcerias. Nós... eu dei hoje eu exemplo na reunião empresarial, que o Brasil é um grande, tem um grande sistema de saúde pública. E nós somos um grande comprador de medicamentos e também de equipamentos. Talvez, um dos... Estamos entre os grandes do mundo. Acredito, muito importante, por exemplo, a presença de empresas de fármacos no Brasil  e de produção também de materiais médicos e de equipamentos. Então, esse centro tecnológico ele pode atuar em várias áreas e por isso ele começou antes. E mostra justamente isso, mostra que o projeto não é um projeto só para a área de defesa. Vai abranger energias renováveis, meio ambiente, transporte. Ele tem um escopo que eu acho muito ambicioso e para nós, no Brasil, que precisamos de transferência de tecnologia, muito bem-vindo.

 

Ouça a íntegra (25min14s) da declaração à imprensa da Presidenta Dilma Rousseff